sábado, 2 de janeiro de 2016

Para agradecer

Mãos Entrelaçadas - Portinari

A quem estiver aí, do outro lado desta página
São tantos os caminhos, tantas as convergências e divergências, tantos os encontros e desencontros... Mas o bonito e infinitamente valioso é o respeito mútuo, a aceitação da palavra do outro, a audição atenta para a voz de quem concorda ou discorda – que, sei e sinto, sempre existiu por aqui, no ambiente de Em Busca da Autoria.
Por isso, agradeço a todos, pelo carinho e leitura no ano que passou.
Além disso, trago e ofereço minha esperança, para este novo ano: a de que possamos pensar, entender e expressar nossa sociedade, com o intuito de juntar o diverso e o disperso, resgatar aspirações e construir realidades mais humanas.
Para meu agradecimento busquei, em textos inspiradores, o alento e a coragem para fincar os pés no chão e, ao mesmo tempo, fixar o olhar sonhador além das nuvens. Fica meu convite  para que revisitemos, com o pensamento em nossas intenções de 2016, os poemas que registro a seguir.

Por que sou forte
Narcisa Amália
Exatamente ali, no momento em que o ser humano mais sofre e se cobre de angústia (ah!, os nossos tempos...), o eu lírico aponta a força dinamizadora da paixão – pelo outro, pela vida, não importa).
Dirás que é falso. Não. É certo. Desço
Ao fundo d’alma toda vez que hesito...
Cada vez que uma lágrima ou que um grito
Trai-me a angústia – ao sentir que desfaleço...
E toda assombro, toda amor, confesso,
O limiar desse país bendito
Cruzo: -– aguardam-me as festas do infinito!
O horror da vida, deslumbrada, esqueço!
É que há dentro vales, céus, alturas,
Que o olhar do mundo não macula, a terna
Lua, flores, queridas criaturas,
E soa em cada moita, em cada gruta,
A sinfonia da paixão eterna!...
– E eis-me de novo forte para a luta.
Disponível em: http://www.antoniomiranda.com.br/poesia_brasis/rio_de_janeiro/narcisa_amalia.html

Tecendo a manhã
João Cabral de Melo Neto
A elaborada construção poética de João Cabral é um belo convite à ação coletiva. Concordam comigo?
Um galo sozinho não tece uma manhã:
ele precisará sempre de outros galos.
De um que apanhe esse grito que ele
e o lance a outro: de um outro galo
que apanhe o grito que um galo antes
e o lance a outro; e de outros galos
que com muitos outros galos se cruzem
os fios de sol de seus gritos de galo,
para que a manhã, desde uma teia tênue,
se vá tecendo, entre todos os galos.
Disponível em: http://www.revistabula.com/449-os-10-melhores-poemas-de-joao-cabral-de-melo-neto/

Para repartir com todos
Thiago de Mello
Encerro com a voz poética de Thiago de Mello. Nele, nota-se não apenas o reforço do convite (agora convocação...) de João Cabral, mas a reiteração da essência do poema de Narcisa Amália, ou seja, o poder dos sentimentos para impulsionar ações.
Com este canto te chamo,
porque dependo de ti.
Quero encontrar um diamante.
Sei que ele existe e onde está.
Não me acanho de pedir ajuda;
Sei que sozinho nunca vou poder achar.
Mas desde logo advirto:
É para repartir com todos.

Traz a ternura que escondes
machucada no teu peito.
Eu levo um resto de infância
que meu coração guardou.
Vamos precisar de fachos
para as veredas da noite
Que oculta e, às vezes, defende
o diamante.
[...]
...o diamante se constrói
Quando o procuramos juntos
no meio da nossa vida.
E cresce, límpido cresce,
na intenção de repartir
o que chamamos de amor.
MELLO, Thiago de. Mormaço na floresta. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 1981.


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