sexta-feira, 8 de janeiro de 2016

Entre um ano e outro

Candido Portinari

Leitor, leitora, em matéria do fim de 2015 (29/12), sugeri-lhes dedicarem-se à expressão poética, construindo um balanço pessoal que refletisse o ano findo e as expectativas vindouras: ainda é tempo...
Para incentivar a invenção de cada um/a, acresço um vídeo que une a criação de dois Mestres: Drummond, voz e poema; e Portinari, ação e painel.  Do vídeo, tomei conhecimento por intermédio do site www.moinhoamarelo.com.
Trata-se do poema A Mão, escrito pelo poeta para homenagear o pintor: “declamado por ele mesmo [Drummond], com imagens de Portinari pintando os painéis Guerra e Paz (1952-1956) para a sede da ONU, em Nova York (filme histórico cedido por Sílvio Tendler e publicado no canal do Portinari.org).”¹
Guerra e Paz – os dilemas eternos, tão nossos conhecidos –, somados à possibilidade de ação e transformação da mão criadora: temas inspiradores, não acham?
Então, que nestes tempos, “entre o cafezal e o sonho”, “entre guerra e paz ”, “entre o amor e o ofício”, nossa mão também contribua, como a do artista, para que “todos os meninos, ainda os mais desgraçados, sejam vertiginosamente felizes.”
Que, humilde e serenamente, possamos fazer, com nossas mãos, “do mundo-como-se-repete, o mundo que telequeremos”.

Um abraço-ponte entre o ano que se foi e este outro, que apenas principia.
¹Em www.moinhoamarelo.com/2011/05/poema-mao-candido-portinari.html. 

A mão
Entre o cafezal e o sonho
o garoto pinta uma estrela dourada
na parede da capela,
E nada mais resiste à mão pintora.
A mão cresce e pinta
o que não é para ser pintado mas sofrido.
A mão está sempre compondo
módul-murmurando
o que escapou à fadiga da Criação
e revê ensaios de formas
e corrige o oblíquo pelo aéreo
e semeia margaridinhas de bem-querer no baú dos vencidos.
A mão cresce mais e faz
do mundo-como-se-repete o mundo que telequeremos.
A mão sabe a cor da cor
e com ela veste o nu e o invisível.
Tudo tem explicação por que tudo tem (nova) cor.
Tudo existe por que foi pintado à feição de laranja mágica,
não para aplacar a sede dos companheiros,
principalmente para aguçá-la
até o limite do sentimento da Terra domicílio do homem.

Entre o sonho e o cafezal
entre guerra e paz
entre mártires, ofendidos,
músicos, jangadas, pandorgas,
entre os roceiros mecanizados de Israel,
a memória de Giotto e o aroma primeiro do Brasil
entre o amor e o ofício
eis que a mão decide:
Todos os meninos, ainda os mais desgraçados,
sejam vertiginosamente felizes
como feliz é o retrato
múltiplo verde-róseo em duas gerações
da criança que balança como flor no cosmo
e torna humilde, serviçal e doméstica a mão excedente
em seu poder de encantação.

Agora há uma verdade sem angústia
mesmo no estar-angustiado.
O que era dor é flor, conhecimento
plástico do mundo.
E por assim haver disposto o essencial,
deixando o resto aos doutores de Bizâncio,
bruscamente se cala
e voa para nunca-mais
a mão infinita
a mão-de-olhos-azuis de Cândido Portinari."
[ANDRADE, Carlos Drummond de. Antologia Poética. Rio de Janeiro: Ed. do Autor, 1963.]


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