quarta-feira, 14 de dezembro de 2016

Quando o conhecimento prévio precisa de (mais) apoio

Picasso - "Meninas Lendo"
Texto, tecer, tecido – palavras de mesma raiz – têm em comum a ideia do entrelaçar, tramar, enredar...
É bem assim: um texto verbal (principalmente o escrito) “redondinho”, amarradinho – com todas as palavras, pontuações e ligações realmente significantes – parece algo como a tessitura de um belo tapete persa... Nada pode estar fora do lugar, nada pode quebrar a harmonia do conjunto, para que o leitor não se perca.
Nem seu título – e, por isso mesmo, venho me detendo sobre ele.


Já comentei, em artigos anteriores, que o título pode comprometer ou auxiliar a compreensão leitora. Pode fornecer pistas e, até mesmo, antecipar aspectos do conteúdo, principalmente quando aciona os conhecimentos prévios de quem lê.
Por outro lado, pontuei que, por vezes, sua ausência faz com que o texto fuja de tal maneira à compreensão do leitor, que este não consegue associá-lo a nada antes lido e/ou vivido. A narrativa baseada em “O Leão Apaixonado”, que propus na matéria de 30/08/2016, é exemplo disso: a linguagem era clara, direta, simples; mas o conteúdo se escondia... por falta de título.
Com igual perspectiva de estudo, registro mais um texto. Aqui, a ausência de título só poderá ser compensada pelo eventual conhecimento do assunto, por parte do leitor. Mais: a linguagem metafórica torna a compreensão difícil, senão impossível, sem seu título. 

Contudo, será que apenas saber o título do que lemos basta, sempre? Será que bastará, no texto que agora proponho? Vamos à sua leitura. 
_____?_______
Com gemas para financiá-lo, nosso herói desafiou valentemente todos os risos desdenhosos que tentaram dissuadi-lo de seu plano. ‘Os olhos enganam’, disse ele, ‘um ovo e não uma mesa tipifica corretamente esse planeta inexplorado’.
Então as três irmãs fortes e resolutas saíram à procura de provas, abrindo caminho, às vezes através de imensidões tranquilas, mas amiúde através de picos e vales turbulentos. Os dias se tornaram semanas, enquanto os indecisos espalhavam rumores apavorantes a respeito da beira.
Finalmente, sem saber de onde, criaturas aladas e bem-vindas apareceram, anunciando um sucesso prodigioso.
[Dooling e Landman. In KLEIMAN, Angela. Texto & Leitor: aspectos cognitivos da leitura. Campinas, SP. Pontes, 2004.]


Teste de compreensão

Proponho algumas questões de compreensão de texto, semelhantes àquelas frequentemente apresentadas a jovens estudantes com certa prática de leitura (digamos, do Ensino Médio ou, ao menos, dos últimos anos do Fundamental).

I. Reconte o que leu.

II. Responda às questões seguintes (via Angela Kleiman):
1- Quem é o herói?
2- Qual é seu plano?
3- De que planeta se trata?
4- Quem são as irmãs e onde elas estão abrindo caminho?
5- Quem eram as criaturas aladas e de onde elas vieram?


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Leitor/a, agora que respondeu, diga: como se saiu no teste? Não muito bem, talvez... Não desanime, volte a ele, agora sabendo seu título: A descoberta da América por Colombo”.


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E então, melhorou?

A você, que estuda ou estudou um pouquinho de História das Américas, o texto, embora metafórico, deve ter-se tornado mais acessível, não? 

De todo modo, se não é professor/a (ou aficionado/a) da matéria, pode ainda ter pairado alguma dúvida, em relação às duas questões finais. O título, apenas, talvez não tenha sido suficiente. Isso aconteceu porque a linguagem figurada costuma encobrir o sentido e impedir uma fácil relação com os saberes que temos.

Por isso mesmo, qualquer pessoa com razoável experiência leitora, jovem ou adulto, pode derrapar na compreensão de textos mais complexos, ainda que haja título e embora ela tenha os conhecimentos prévios (de mundo, de recursos linguísticos e de textos) necessários ao seu entendimento.

Nesse caso (sabe disso o professor, o pesquisador, o estudante, o leitor experiente), até os conhecimentos que temos precisam de apoios extras, dados por novas explicações ou por textos mais acessíveis. 

Proponho comprovar o fato com outra leitura  esta de texto didático, com linguagem simples e direta, para relacionar àquele primeiro. O leitor verá como, a partir dele, o reconto e as questões anteriores tornam-se luminosamente cristalinas.

(Indispensável orientação, pré-segunda-leitura: ambos os escritos referem-se ao mesmo fato histórico.)
Na década de 1480, Colombo esteve envolvido tanto com construtores de naus quanto com navegadores portugueses, em Lisboa e nas ilhas do Atlântico já sob o poder lusitano. Foi nessa época que começou a conceber a ideia de que era possível chegar até o Oceano Índico (desconhecia-se o Pacífico nessa época) e, por consequência, até as Índias, fazendo uma viagem ultramarina que circundasse não a costa africana, mas o próprio globo terrestre, a esfera planetária. Colombo acreditava plenamente na possibilidade de a Terra ser esférica – o que já era uma hipótese mais ou menos sólida para alguns estudiosos da época.
Colombo apresentou seu projeto para chefes políticos genoveses e portugueses, mas nenhum teve interesse em bancar sua aventura. Os únicos que levaram a sério o projeto de Colombo foram os reis da Coroa Espanhola, Fernando e Isabel. Os reis espanhóis forneceram a Colombo e a seus tripulantes três naus, chamadas de Nina, Pina e Santa Maria.
Ele saiu do Porto de Palos, na Espanha, no dia 3 de agosto de 1492. Com ele, viajavam cerca de 190 homens em busca de novos horizontes. Em determinado momento da viagem, os tripulantes se revoltaram contra Colombo, mas ainda assim ele não desanimou e manteve a certeza de que iria encontrar novas terras.
Finalmente, no dia 12 de outubro de 1492, a caravela Pinta deu sinal de descoberta de terra, disparando um tiro de canhão. Colombo atracou numa ilha, chamada pelos nativos de Guanahani, a qual batizou com o nome de São Salvador.
[Texto editado com o auxílio de duas fontes: escolakids.uol.com.br/descobrimento-america.htm ; www.grupoescolar.com/pesquisa/12-de-outubro--dia-do-descobrimento-da-america.html]

É exatamente a observação de que ambos os textos relatam o mesmo fato (a viagem de Colombo ao continente americano) que "acorda" nossos conhecimentos prévios e faz acender a luz da compreensão sobre o texto metafórico que, pelo modo de dizer –  ainda mais sem seu título, como foi minha proposição inicial – encobre o conteúdo.
Bem entendido: o texto didático, para ser compreendido por leitor razoavelmente hábil, não requer auxílio nem do texto auxiliar nem do título. Em compensação, o texto metafórico tornar-se um pouco mais acessível, se quem lê conhece seu título. E plenamente acessível, quando o leitor pode se valer do apoio do texto didático  –  especialmente com os trechos sublinhados a conduzirem a leitura...
Essas pontes para o entendimento dão, ao leitor, todas as condições de responder às questões formuladas, não é verdade?

Na esperança de que assim seja, deixo meu abraço.

segunda-feira, 28 de novembro de 2016

Títulos que lemos e conhecimentos que temos


A compreensão do que lemos depende de várias e diferentes condições. Por exemplo, de qualidades intrínsecas ao texto – como clareza, conexões bem feitas, coesão entre ideias, adequação do título. 


Entretanto, tal compreensão depende, também, de particulares do leitor – como ter conhecimento da língua e do assunto a ser tratado, além de conseguir relacionar o que lê àquilo que já conhece, por experiência de vida e de outras leituras.
É essa experiência de leitor que focalizo hoje, para comentar a relação que tem com uma parte específica do texto: seu título.
Não nos damos conta, geralmente, mas o título é a primeira “cutucada” em nossos prévios conhecimentos, enquanto leitores. Chama-nos a acionar o que já sabemos, até a respeito do gênero a que pertence o que lemos.
Assim, “A abelha e o urso”, ou “A princesinha dos cabelos cacheados” remetem-nos preferencialmente à literatura de ficção. São nossos saberes, adquiridos em leituras anteriores, que aqui nos ajudam: o título com animais faz lembrar vários semelhantes, como “A cigarra e a formiga”, “A rã e o boi”, “A raposa e as uvas”, que reconhecemos serem introdutórios de pequenas historietas do gênero fábula“A princesinha dos cabelos cacheados” poderá fazer-nos pensar em títulos de contos de fada, que tantas vezes ouvimos e lemos na infância, como “A princesa do grão de ervilha”, “A menina dos cachinhos dourados”.
Não seria o mesmo, se o título fosse “A vida das abelhas e dos ursos”, ou “Como manter por mais tempo seus cabelos cacheados”, concordam?  Porque o primeiro apontaria, quem sabe, para um texto de explicação / divulgação científica; o segundo, para um texto instrucional, uma orientação estética.

O outro lado
Ah!, quantos meandros comporta o estudo do texto...
Meu assunto continua a ser a relação título X conhecimentos prévios. Entretanto, meu ponto de vista, agora, será outro.
Em matéria anterior (30/08/2016), comentei as brechas na compreensão que podem ser causadas pela falta de título. Quero mostrar, agora, o inverso: como a mesma falta de título pode ser (ao menos parcialmente) suavizada pelos conhecimentos prévios do leitor.
Para isso, peço, antes, a leitura do fragmento de narrativa sem título, que transcrevo a seguir .
_____?_______
Acordou. Levantou-se. Aprontou-se. Lavou-se. Barbeou-se. Enxugou-se. Perfumou-se. Lanchou. Escovou. Abraçou. Beijou. Saiu. Entrou. Cumprimentou. Orientou. Controlou. Advertiu. Chegou. Desceu. Subiu. Entrou. Cumprimentou. Assentou-se. Preparou-se. Examinou. Leu. Convocou. Leu. Comentou. Interrompeu. Leu. Despachou. Conferiu. Vendeu. Vendeu. Ganhou. Ganhou. Ganhou. Lucrou. Lucrou. Lucrou. Lesou. Explorou. Escondeu. Burlou. Safou-se. Comprou. Vendeu. Assinou. Sacou. Depositou. Depositou. Depositou. Associou-se. Vendeu-se. Entregou. Sacou. Depositou. Despachou. Repreendeu. Suspendeu. Demitiu. Negou. Explorou. Desconfiou. Vigiou. Ordenou. Telefonou. Despachou. Esperou. Chegou. Vendeu. Lucrou. Lesou. Demitiu. Convocou. Elogiou. [...]
O que acharam, soou compreensível? Sentiram necessidade de ler uma vez mais, ou de voltar atrás na leitura?
Creio que, por ser diferente do usual, esse conjunto de palavras cause estranhamento. À primeira vista, assemelha-se, até, a mera listagem para estudo do pretérito perfeito de verbos – decoreba para a escola...
Quem lê, provavelmente, reluta em perceber que são “palavras tecidas em texto” – ligadas, conectadas para apresentar uma ideia organizada. Contudo, aos poucos, formam-se imagens na cabeça do leitor experiente – e elas têm a ver com o mundo que ele já conhece.
Observem: os verbos expressam ações da vida diária e, em sua sucessão, compõem cenas de antes e depois, que, em sua articulação, delineiam uma pequena narrativa, referente a uma só personagem – sem nome próprio, é verdade; porém, com atuação profissional definida.
E qual seria, então, sua ocupação/profissão? Certamente, ninguém deve ter pensado em padeiro, professor, faxineiro, ator...
Ah, e por que só citei personagens masculinas? Por que não: atriz, faxineira etc.? Simples: porque o gênero masculino está determinado em uma ação específica: uma só, mas esclarecedora.  Notaram? (Trata-se de “Barbeou-se”. )
Vamos em frente, em nossa pesquisa leitora / detetivesca.
Ao ler “Ganhou. Ganhou. Lucrou. Lucrou. Lucrou. Lesou. Explorou. Escondeu. Burlou. Safou-se.” – o leitor de hoje (infelizmente!!) poderia até pensar em algum político...
Mas não. A sequência de ações encaminha o pensamento para outro alguém. Talvez um comerciante, porque, além de lucrar e ganhar, pratica outras ações que lhe são próprias: “Despachou. Conferiu.  [...]. Comprou. Vendeu. Assinou. Sacou. Depositou. [...]  Repreendeu. Suspendeu. Demitiu .
Contudo, não um modesto comerciante (que pouco vende e pouco lucra), pois as repetições dão conta da grandeza das transações: “Ganhou. Ganhou. Ganhou. Lucrou. Lucrou. Lucrou. [...] Depositou. Depositou. Depositou.
Concluindo, pode-se pensar em um executivo e/ou dono de empresa de porte considerável, com autoridade para examinar, ler, convocar, comentar, interromper, despachar, vender, ganhar, lucrar, repreender, suspender, demitir etc. Concordam comigo?
Por esse fragmento de narrativa, podemos, ainda, conferir algumas características a tal executivo. Possui algum laço afetivo (“Abraçou. Beijou.”); é profissional de sucesso (volto às repetições: “Ganhou. Ganhou. Ganhou. Lucrou. Lucrou. Lucrou.” etc.) e de poder (“Ordenou. Telefonou. Despachou. [...] Demitiu. Convocou.”); finalmente, sua moral deixa a desejar (“Lesou. Explorou. Escondeu. Burlou. Safou-se. [...] Sacou. Depositou. Depositou. Depositou. Associou-se. Vendeu-se. [...] Negou. Explorou.”).
É possível, também, perceber alguns dos espaços onde acontecem as ações (não todos, uma vez que o texto não está registrado por inteiro). De início, uma casa onde mora ou onde dorme: “Acordou. Levantou-se. Aprontou-se. Lavou-se. Barbeou-se. Enxugou-se. Perfumou-se. Lanchou. Escovou. Abraçou. Beijou. Saiu.
Em seguida, algum prédio com escada ou elevador, onde tem escritório: Entrou. Cumprimentou. Orientou. Controlou. Advertiu. Chegou. Desceu. Subiu. Entrou. Cumprimentou. Assentou-se.
Acrescento um dado, que a leitura integral do texto (ver abaixo) deixará ainda mais claro: a posição crítica (e desfavorável) do narrador em relação à personagem, evidenciada  pelo exagero das repetições e pela enumeração de ações condenáveis.
Desse modo, nosso conhecimento de mundo – mais precisamente, da rotina diária pessoal e profissional de pessoas – permite a nós, leitores,mesmo na ausência do títuloinferir que o texto narra, criticamente, a rotina de um executivo ou empresário.
Para finalizar, deixo o texto integral, que ajudará a confirmar certos aspectos da leitura e a descobrir novas pistas e sentidos. Percebam que o título está bem adequado à narrativa (construída por verbos conjugados, que montam o perfil de uma personagem).
Boa leitura!

Como se conjuga um empresário
Acordou. Levantou-se. Aprontou-se. Lavou-se. Barbeou-se. Enxugou-se. Perfumou-se. Lanchou. Escovou. Abraçou. Beijou. Saiu. Entrou. Cumprimentou. Orientou. Controlou. Advertiu. Chegou. Desceu. Subiu. Entrou. Cumprimentou. Assentou-se. Preparou-se. Examinou. Leu. Convocou. Leu. Comentou. Interrompeu. Leu. Despachou. Conferiu. Vendeu. Vendeu. Ganhou. Ganhou. Ganhou. Lucrou. Lucrou. Lucrou. Lesou. Explorou. Escondeu. Burlou. Safou-se. Comprou. Vendeu. Assinou. Sacou. Depositou. Depositou. Depositou. Associou-se. Vendeu-se. Entregou. Sacou. Depositou. Despachou. Repreendeu. Suspendeu. Demitiu. Negou. Explorou. Desconfiou. Vigiou. Ordenou. Telefonou. Despachou. Esperou. Chegou. Vendeu. Lucrou. Lesou. Demitiu. Convocou. Elogiou. Bolinou. Estimulou. Beijou. Convidou. Saiu. Chegou. Despiu-se. Abraçou. Deitou-se. Mexeu. Gemeu. Fungou. Babou. Antecipou. Frustrou. Virou-se. Relaxou-se. Envergonhou-se. Presenteou. Saiu. Despiu-se. Dirigiu-se. Chegou. Beijou. Negou. Lamentou. Justificou-se. Dormiu. Roncou. Sonhou. Sobressaltou-se. Acordou. Preocupou-se. Temeu. Suou. Ansiou. Tentou. Despertou. Insistiu. Irritou-se. Temeu. Levantou. Apanhou. Rasgou. Engoliu. Bebeu. Rasgou. Engoliu. Bebeu. Dormiu. Dormiu. Dormiu. Acordou. Levantou-se. Aprontou-se.

[MINO.
Como se conjuga um empresário. In: PINILIA, Aparecida; RIGONI, Cristina;INDIANI,Maria Thereza. Coesão e coerência como mecanismo para a construção do texto. Disponível em: rede.novaescolaclube.org.br/grupo/por-uma-leitura-proficiente/como-se-conjuga-um.]

terça-feira, 30 de agosto de 2016

Título, para quê?


Na matéria “A ambiguidade e seus estragos”, de 02/08/2016, registrei o seguinte título de notícia: “Relatora vota contra autorização para publicar biografias” – que, por sua imprecisão, distorcia o verdadeiro teor da informação que se queria divulgar, ou seja: que a relatora de determinado processo era contra a obrigatoriedade de autorização prévia para a publicação de biografia; e não estava, como o título fazia supor, desautorizando a publicação em si.
A verdade é que o mau título pode comprometer, contrariar ou distorcer o verdadeiro sentido da informação veiculada. Em contrapartida, o bom título pode antecipar o assunto e, ainda, espicaçar a curiosidade do leitor, levando-o a proceder à leitura integral do texto.
Imaginemos, por exemplo, que o leitor ou a leitora encontre, em seu jornal diário, o título:
Foram trens que passaram em minha vida
A frase, com um quê “romântico”, poderia ser até o título de uma crônica, não acham? No entanto, nesse exercício de imaginação que fazemos, a matéria está publicada na seção “Questões urbanas” de um hipotético jornal, em que vocês, leitores assíduos, invariavelmente encontram debates que muito interessam ao morador de médias e grandes cidades. Essa pista faz com que esperem, então... algo relacionado a trens: quem sabe, a necessidade de se revalorizar o transporte ferroviário? Ou, então, a moderna (e eterna) carência de trens metropolitanos?
Mas, vamos adiante. 

Esqueçam aquele título. Agora, a mesma matéria, no mesmo espaço do jornal, intitula-se:
A gestão da mobilidade nas grandes cidades
Neste segundo caso, em comparação com o anterior, vocês devem estar notando que as palavras permitem prever mais: justificando estar na seção “Questões Urbanas”, o artigo, certamente, irá tratar de mobilidade, problema recorrente em metrópoles. Em compensação, a frase não delimita um foco, uma vez que não fala especificamente em “trens”. Dizendo de outro modo: é título mais objetivo no que se refere ao assunto a ser tratado e, ao mesmo tempo, mais vago (ou amplo) quanto ao ponto, ou pontos específicos que abordará.
Seria diferente se fechasse mais:
A gestão da mobilidade sobre trilhos nas grandes cidades
Ah! Agora, sim: já sabemos que o artigo não tratará da mobilidade do ciclista, ou do pedestre, ou de quem se locomove sobre quatro rodas, mas...

Para efeito de comparação
Pronto. O último título – A gestão da mobilidade sobre trilhos nas grandes cidades –, com pequena modificação, ficou claro e direto. E é ele que vamos comparar àquele primeiro, lembram-se dele? (Foram trens que passaram em minha vida.)
Nas condições de suporte (jornal) e seção (“Questões Urbanas”) dadas acima, ambos são possíveis para introduzir a matéria sobre mobilidade urbana; porém, sugerem diferenças significativas – na intenção do autor e no direcionamento do público leitor. Assim:
A gestão da mobilidade sobre trilhos nas grandes cidades – além de antecipar com precisão o assunto, indicia a intenção de alcançar, prioritariamente, leitores interessados em dados mais técnicos quanto à mobilidade urbana.
Por outro lado, em Foram trens que passaram em minha vida, o eventual autor do artigo opta por uma abertura menos técnica, talvez em favor de atrair um universo mais amplo de leitores, ou seja: não apenas aquele conhecedor e interessado na gestão da cidade, mas também o cidadão leigo e usuário do transporte coletivo. Para isso, usa o componente afetivo e a vivência do leitor, isto é: faz alusão à realidade do usuário – que está acostumado a esperar uma, duas, três conduções – e parafraseia, simultaneamente, um título de canção popular brasileira famosa – “Foi um rio que passou em minha vida”, de Paulinho da Viola.

Nos títulos, pistas variadas
Além de dar mostras do que se vai dizer e de indicar o público leitor, o título pode revelar a opinião/posição do autor a respeito do tema abordado. Comparem os títulos que se seguem e infiram, por eles, a direção argumentativa do texto:

Velhos casarões: valerá a pena conservar?
Velhos casarões: é imprescindível conservar
A opinião incisiva a favor da preservação só se manifesta em um deles. No outro, o tempo verbal (“valerá”) e a interrogação insinuam um posição dúbia, ou até contrária à preservação. Em contrapartida, o segundo pode espicaçar mais a curiosidade do que o primeiro, tão afirmativo.

Nada como a prática...
Ainda que breves, essas pinceladas permitem depreender que a presença e a escolha do título não é mera formalidade. Contudo, nada como a prática: para que vocês, leitores e leitoras, experimentem sua importância para a compreensão do texto, convido-os à leitura de uma narrativa – editada sem título e com pequenas alterações.
Proponho que, ao fim, descubram a identidade da personagem principal.
Convite (ou desafio...) aceito?

Narrativa
Um dia, ele resolveu fazer uma aliança com os homens.
E por que não? – perguntava. – Tenho coragem, inteligência e, ainda por cima, sou bonito.
Acontece que, além dessas qualidades, era também muito arrogante e achava-se o maior e o mais importante de todos os seres vivos. Ora, quem é assim costuma afastar os outros, em vez de atraí-los.
– Aliar-me a ele? Deus me livre! – horrorizavam-se as pessoas. – Seria como aliar-me ao próprio Diabo.
– Se não for por bem, vai por mal – ameaçava o arrogante, como se fosse possível fazer alianças por mal.
Mas até os tiranos têm o seu momento de fraqueza e esse momento chegou também para ele. Passando por certa campina, avistou uma linda pastora e, no mesmo instante, apaixonou-se perdidamente por ela.
Não teve dúvidas:
– Já sei como fazer minha aliança com os homens: casando-me com essa pastora.
Habituado a ver suas vontades atendidas, procurou o pai da moça e pediu-a em casamento.
Diante daquele pretendente, que pedia em casamento exigindo, que fazer? O pai ficou de dar uma resposta dentro de dois dias, e o pretendente retirou-se, não muito satisfeito. Só mesmo por estar tão apaixonado é que aceitava aquela demora. Era a primeira vez na vida que admitia esperar.
– Prefiro um genro um pouco menos feroz – disse a mãe da moça, depois que o candidato se foi.
– Eu também – respondeu o pai. – Mas se recusarmos o pedido, isso pode ser perigoso para a nossa família.
– Pode – concordou a mãe. – E, além do mais, se a resposta for negativa, tenho medo de que eles se casem às escondidas.
– Imagina se a minha filha vai querer casar-se com ele! – indignou-se o pai.
 – A tua filha não é diferente das outras moças – respondeu a mãe. – E as moças encantam-se facilmente por ninharias, como, por exemplo, uma bela cabeleira. Já reparaste que bonita cabeça ele tem?
O pai foi dormir muito preocupado.
Dois dias depois, o apaixonado veio saber a resposta. E veio certo de receber um sim. Já não via a hora de ter sua amada só para si.
Ficou muito espantado quando o pai disse:
Eu teria muito gosto nesse casamento, se não fosse uma coisa.
– Ora, mas que coisa? O senhor está me fazendo perder a paciência! Quero casar-me com a sua filha e está acabado.
– Não há dúvida, não há dúvida! – respondeu o pai. – Mas a minha filha é uma jovem muito delicada. Unhas longas poderão feri-la, quando o senhor quiser abraçá-la. Se permitir que sejam aparadas, estará tudo resolvido.
– Bom, bom. Se é só isso, então está bem. Mas que seja logo. Quero casar-me o quanto antes.
O pai não esperou segunda ordem e mandou aparar-lhe as unhas.
– Está satisfeito agora? – esbravejou o pretendente. – Para quando marcamos a data?
– Para breve – disse o pai. – Vou consultar minha mulher e amanhã mesmo dou-lhe uma resposta.
– Eu já estou ficando farto! Se até amanhã não tiver essa tal resposta, levo a sua filha à força e caso-me com ela, mesmo sem o seu consentimento.
– Imagine! Não será preciso chegar a tais extremos – disse o homem. – Sempre foi nosso desejo tê-lo na família. Mas sabe como são as mulheres: gostam de ser consultadas para tudo.
Resmungando ameaças, o pretendente retirou-se. E só fez isso porque não queria desagradar à sua eleita.
No dia seguinte, pontualmente, veio saber a resposta.
– Desculpe a insistência – disse o pai, cheio de mesuras –, mas ainda há um problema: são os seus dentes. Minha mulher acha que é indispensável limá-los porque, senão, está convencida de que nossa filha não quererá beijá-lo nunca.
– Mas por quê? – impacientou-se. – São dentes absolutamente normais.
– Sim, sim. Normais para você. Mas compreenda: ela não está habituada.
Então, o pobre apaixonado acabou por permitir que lhe serrassem os dentes.
[...]

Quais são as hipóteses?
Imagino que, a cada trecho, possa ter-lhes ocorrido um perfil de personagem: um gigante, um monstro, um vampiro, um...
Claro, não é sempre que a ausência de título causa tamanha confusão no entendimento de textos. Essa narrativa, como já disse, foi adaptada para fins didáticos, de modo a ter (exemplarmente) nublada sua clareza. Mas, garanto, há muitos outros textos com essas características: redações escolares e... de jornais, revistas, artigos etc.
Entretanto, sosseguem: o original (uma fábula) vem logo aí, na íntegra. Comparem!
Abraços.

O Leão apaixonado (texto original)
Um dia, o Leão resolveu fazer uma aliança com os homens.
E por que não? – perguntava. – Tenho coragem, inteligência e, ainda por cima, sou bonito.
Acontece que, além dessas qualidades, era também muito arrogante e achava-se o maior e o mais importante de todos os seres vivos. Ora, quem é assim costuma afastar os outros, em vez de atraí-los.
– Aliar-me ao Leão? Deus me livre! – horrorizavam-se as pessoas. – Seria como aliar-me ao próprio Diabo.
– Se não for por bem, vai por mal – ameaçava o Leão, como se fosse possível fazer alianças por mal.
Mas até os tiranos têm o seu momento de fraqueza e esse momento chegou também para ele. Passando por certa campina, avistou uma linda pastora e, no mesmo instante, apaixonou-se perdidamente por ela.
Não teve dúvidas:
– Já sei como fazer minha aliança com os homens: casando-me com essa pastora.
Habituado a ver suas vontades atendidas, procurou o pai da moça e pediu-a em casamento.
Diante daquele pretendente, que pedia em casamento rugindo, que fazer? O pai ficou de dar uma resposta dentro de dois dias, e o Leão retirou-se, não muito satisfeito. Só mesmo por estar tão apaixonado é que aceitava aquela demora. Era a primeira vez na vida que admitia esperar.
– Prefiro um genro um pouco menos feroz – disse a mãe da moça, depois que o candidato se foi.
– Eu também – respondeu o pai. – Mas se recusarmos o pedido, isso pode ser perigoso para a nossa família.
– Pode – concordou a mãe. – E, além do mais, se a resposta for negativa, tenho medo de que eles se casem às escondidas.
– Imagina se a minha filha vai querer casar-se com um leão! – indignou-se o pai.
 – A tua filha não é diferente das outras moças – respondeu a mãe. – E as moças encantam-se facilmente por ninharias como, por exemplo, uma bela cabeleira. Já reparaste que bonita juba ele tem?
O pai foi dormir muito preocupado.
Dois dias depois, o Leão veio saber a resposta. E veio certo de receber um sim. Já não via a hora de ter sua amada só para si.
Ficou muito espantado quando o pai disse:
Eu teria muito gosto nesse casamento, se não fosse uma coisa.
– Ora, mas que coisa? O senhor está me fazendo perder a paciência! Sou o Leão, quero casar-me com a sua filha e está acabado.
– Não há dúvida, não há dúvida! – respondeu o pai. – Mas a minha filha é uma jovem muito delicada. Suas garras poderão feri-la, quando o senhor quiser abraçá-la. Se permitir que sejam aparadas, estará tudo resolvido.
– Bom, bom. Se é só isso, então está bem. Mas que seja logo. Quero casar-me o quanto antes.
O pai não esperou segunda ordem e mandou aparar as unhas do Leão.
– Está satisfeito agora? – rugiu o pretendente. – Para quando marcamos a data?
– Para breve – disse o pai. – Vou consultar minha mulher e amanhã mesmo dou-lhe uma resposta.
– Eu já estou ficando farto! – urrou o Leão. – Se até amanhã não tiver essa tal resposta, levo a sua filha à força e caso-me com ela, mesmo sem o seu consentimento.
– Imagine! Não será preciso chegar a tais extremos – disse o homem. – Sempre foi nosso desejo ter um leão na família. Mas sabe como são as mulheres: gostam de ser consultadas para tudo.
Resmungando ameaças, o Leão retirou-se. E só fez isso porque não queria desagradar à sua eleita.
No dia seguinte, pontualmente, veio saber a resposta.
– Desculpe a insistência – disse o pai, cheio de mesuras –, mas ainda há um problema: são os seus dentes. Minha mulher acha que é indispensável limá-los porque, senão, está convencida de que nossa filha não quererá beijá-lo nunca.
– Mas por quê? – impacientou-se o Leão. – São dentes absolutamente normais.
– Sim, sim. Normais para um leão. Mas compreenda: ela não está habituada.
O Leão acabou por permitir que lhe serrassem os dentes.
– Bem, espero que agora esteja tudo resolvido – disse, quando o serviço terminou.
– Sim, está – respondeu o pai. – Passe daqui para fora!
O Leão ficou pasmo:
– Como assim? Não estou entendendo!
– Pensou que eu ia dar a minha filha em casamento a uma fera como o senhor? Tem muita graça! – zombou o pai.
E gritou para dentro:
– Soltem os cães!
Só então o Leão deu-se conta de que, sem garras e sem dentes, não tinha como reagir.
Antes que os cães aparecessem, fugiu com quantas pernas tinha e nunca mais foi visto pelos arredores.
[ALMEIDA, Fernanda Lopes de. A lei do mais forte e outros males que assolam o mundo. São Paulo: Ática, 2007.]

sexta-feira, 19 de agosto de 2016

As delícias da ambiguidade

Não são apenas os poetas que se servem de ambiguidades e plurissignificações. Vários cronistas elegem as duplicidades de sentido como linha condutora para textos leves e bem-humorados.
Drummond, o artífice de maravilhosos textos de prosa e poesia, é um deles. E é sua, a deliciosa criação que venho oferecer aos leitores e leitoras, como complemento ao tema ambiguidade, da matéria anterior (de 02/08/2016).



Notem a escolha feliz: com apenas uma (1) expressão de sentido dúbio, o autor compõe uma linha ininterrupta de desentendimentos familiares e aponta aspectos da personalidade (especialmente, a paterna) e do relacionamento de personagens.

Vó caiu na piscina











Noite na casa da serra, a luz apagou. Entra o garoto:
– Pai, vó caiu na piscina.
– Tudo bem, filho.
O garoto insiste:
– Escutou o que eu falei, pai?
– Escutei, e daí? Tudo bem.
– Cê não vai lá?
– Não estou com vontade de cair na piscina.
– Mas ela tá lá...
– Eu sei, você já me contou. Agora deixe seu pai fumar um cigarrinho descansado.
– Tá escuro, pai.
– Assim até é melhor. Eu gosto de fumar no escuro. Daqui a pouco a luz volta. Se não voltar, dá no mesmo. Pede à sua mãe pra acender a vela na sala. Eu fico aqui mesmo, sossegado.
– Pai...
– Meu filho, vá dormir. É melhor você deitar logo. Amanhã cedinho a gente volta pro Rio, e você custa a acordar. Não quero atrasar a descida por sua causa.
– Vó tá com uma vela.
– Pois então? Tudo bem. Depois ela acende.
– Já tá acesa.
– Se está acesa, não tem problema. Quando ela sair da piscina, pega a vela e volta direitinho pra casa. Não vai errar o caminho, a distância é pequena, você sabe muito bem que sua avó não precisa de guia.
– Por que cê não acredita no que eu digo?
– Como não acredito? Acredito sim.
– Cê não tá acreditando.
– Você falou que a sua avó caiu na piscina, eu acreditei e disse: tudo bem. Que é que você queria que eu dissesse?
– Não, pai, cê não acreditou ni mim.
– Ah, você está me enchendo. Vamos acabar com isso. Eu acreditei. Quantas vezes você quer que eu diga isso? Ou você acha que estou dizendo que acreditei mas estou mentindo? Fique sabendo que seu pai não gosta de mentir.
– Não te chamei de mentiroso.
– Não chamou, mas está duvidando de mim. Bem, não vamos discutir por causa de uma bobagem. Sua avó caiu na piscina, e daí? É um direito dela. Não tem nada de extraordinário cair na piscina. Eu só não caio porque estou meio resfriado.
– Ô, pai, cê é de morte!
O garoto sai, desolado. Aquele velho não compreende mesmo nada. Daí a pouco chega a mãe:
– Eduardo, você sabe que dona Marieta caiu na piscina?
– Até você, Fátima? Não chega o Nelsinho vir com essa ladainha?
– Eduardo, está escuro que nem breu, sua mãe tropeçou, escorregou e foi parar dentro da piscina, ouviu? Está com a vela acesa na mão, pedindo para que tirem ela de lá, Eduardo! Não pode sair sozinha, está com a roupa encharcada, pesando muito, e se você não for depressa, ela vai ter uma coisa! Ela morre, Eduardo!
– Como? Por que aquele diabo não me disse isto? Ele falou apenas que ela tinha caído na piscina, não explicou que ela tinha tropeçado, escorregado e caído!
Saiu correndo, nem esperou a vela, tropeçou, quase que ia parar também dentro d’água.
– Mamãe, me desculpe! O menino não me disse nada direito. Falou que a senhora caiu na piscina. Eu pensei que a senhora estava se banhando.
– Está bem, Eduardo – disse dona Marieta, safando-se da água pela mão do filho, e sempre empunhando a vela que conseguira manter acesa. – Mas de outra vez você vai prestar mais atenção no sentido dos verbos, ouviu? Nelsinho falou direito, você é que teve um acesso de burrice, meu filho!
[ANDRADE, Carlos Drummond. Vó caiu na Piscina. São Paulo: Editora Record. Disponível em portaldoprofessor.mec.gov.br/fichaTecnicaAula.]


...E não apenas crônicas
Propagandas, anedotas e tiras também se valem da confusão de sentidos para efeitos de humor.
Trago um exemplo de anedota colhido no artigo Análise de Texto Humorístico¹:
A velhota, superantiquada, recomenda à neta:
– Benzinho, há duas palavras que eu quero que você prometa nunca mais dizer. Uma é bacana e a outra é nojenta. Você promete?
– Claro, vovó. E quais são as palavras?
No pequeno texto, a oralidade favorece a interpretação diversa dada por avó e neta. Observem que, na escrita, a ambiguidade seria resolvida com o recurso da pontuação... e a piada não existiria, a menos que a neta fosse má leitora. Mais ou menos como segue:
A velhota, superantiquada, recomenda à neta: – Benzinho, há duas palavras que eu quero que você prometa nunca mais dizer. Uma é: “bacana”; e a outra é: “nojenta”. Você promete? [...]
¹BORGES, Eliana M; FREITAS, Sonia M. P. Análise de texto humorístico - As piadas. Disponível em: www.filologia.org.br/viiicnlf/anais/caderno05-05.html.

Para terminar
Fecho o tema, com dois textos (uma propaganda e um outdoor) que jogam com a duplicidade de sentido, aliada aos conhecimentos prévios do leitor brasileiro e, no segundo caso, ciente da história recente de nosso futebol. (Ambos facilmente encontrados em sites da internet.)





Abraços.

terça-feira, 2 de agosto de 2016

A ambiguidade e seus estragos

Ah!, bendita multiplicidade de significados das palavras! A nós, ouvintes ou leitores, faz pensar mais, voltar ao dito que se “indefine”, para saber o que o falante ou escritor quis, mesmo, dizer.
Se se tratar de poesia, então, quanto nos confunde de maneira intrigante e deliciosa! Manoel de Barros é mestre na arte de torcer significados e criar ambiguidades, para fazer o leitor “enxergar” mais longe, jogando fora os olhos e a cabeça, a fim de flagrar sentidos inaugurais, onde antes via apenas o corriqueiro:


Uso um deformante para a voz.
Em mim funciona um forte encanto a tontos.
Sou capaz de inventar uma tarde a partir de uma garça.
Sou capaz de inventar um lagarto a partir de uma pedra.
Tenho um senso apurado de irresponsabilidades.
Não sei de tudo quase sempre quanto nunca.
[...]
[BARROS, Manoel de.  Retrato do Artista Quando Coisa. Rio de Janeiro: Record, 2007.]

Ou:
Caracol é uma casa que se anda 
E a lesma é um ser que se reside.

[BARROS, Manoel de. Biografa do orvalho. In Retrato do artista quando coisa. Rio de Janeiro: Record,  2007.]

Mário Quintana, por sua vez, ensina que nem todos têm sabedoria para alcançar o êxtase caleidoscópico de sentidos que o mundo oferece ao poeta:
Cada vez que o poeta cria uma borboleta, o leitor exclama: “Olha uma borboleta!”.  O crítico ajusta os nasóculos e, ante aquele pedaço esvoaçante de vida, murmura: – Ah! sim, um lepidóptero...
[QUINTANA, Mário. A borboleta. In Sapo amarelo. Porto Alegre: Mercado Aberto, 1984.]

No entanto...
A pluralidade de sentidos concebida pelos artistas da palavra remove a cristalização da língua, torna-a movente e até imprevisível. No entanto, em inúmeras situações, o que os usuários necessitam é da segurança de uma linguagem precisa, pouco sujeita a ambiguidades.
Quando alguém pergunta ao jornaleiro quando chegará a próxima edição de sua revista preferida, não espera que a resposta seja à Manoel de Barros: “Não sei de tudo quase sempre quanto nunca”. De igual modo, o professor de Ciências, na avaliação, não aceitará do aluno a resposta: “Caracol é uma casa que se anda”.
Por mais que a ambiguidade seja desejável em poemas, narrativas, crônicas, anedotas e tiras humorísticas, espera-se de um artigo científico, de um texto didático, de uma notícia ou reportagem, um grau de objetividade bem distante da linguagem literária.
Do contrário, a compreensão fica prejudicada, e não são poucos os possíveis causadores. Por vezes, a dubiedade provém da frase mal elaborada; outras vezes, de uma palavra mal colocada ou mal escolhida; outras, ainda, da pontuação deficiente. E há casos em que o texto todo se apresenta desorganizado e, em decorrência, pouco inteligível.
Ilustro com alguns exemplos, colhidos aqui e ali, em livros didáticos, internet e no cotidiano.
Frases
- O ator reclamou das palmas só no fim do espetáculo.
(O que incomodou o ator foram as palmas ocorridas apenas no fim, e não antes? Ou as palmas o incomodaram, mas ele só as criticou quando acabou o espetáculo?)

- Pedro disse a Paulo que ele está doente.
(Quem está doente, Pedro ou Paulo?)

- Maria prendeu o dedo de João na porta do seu carro.
(No carro de Maria ou de João?)

Cartas de leitor
Estas duas cartas de reclamação foram colhidas em sites. Conservam sua essência, mas foram devidamente editadas, para conservar o anonimato. Reparem na significação confusa dos trechos sublinhados.
Carta 1 - O leitor reclama da poda de árvores em praça:
Havia árvores de grande porte, em sua sabedoria a prefeitura "podou" ou simplesmente exterminou-as deixando a praça sem as mesmas, retirando dos moradores e demais usuários sem sua sombra e frescor.
Pode-se imaginar que o remetente da carta vislumbrasse duas formas alternativas de expressar a consequência da retirada das árvores, a saber:
1. “deixando os moradores e demais usuários sem sua sombra e frescor.”
2. “retirando dos moradores e demais usuários sua sombra e frescor.”
Entretanto, ao fazer a seleção das palavras para organizar sua ideia (e optar por uma forma ou outra), os modos de dizer entrelaçaram-se indevidamente, causando confusão de sentido.
Carta 2 - Este leitor clama contra a ação predatória de moradores:
Moradores impunemente resolvem exterminar as poucas árvores ainda restantes, que no mínimo costumam oferecer, no dia a dia, algumas indispensáveis sombras durante o verão, mas também servindo de abrigo temporário no período chuvoso quando passar a incomodar os transeuntes.
Nesta segunda carta, a imprecisão poderia ser contornada explicitando-se o sujeito (“período chuvoso” ou “chuva”) da ação de incomodar: “quando a chuva passar a incomodar os transeuntes”.
Ressalte-se, porém, que outros problemas organizacionais também contribuem para dificultar o entendimento do texto (a partir de “mas também”). Com algumas modificações, e preservando o original do autor, o parágrafo ficaria mais claro, por exemplo, assim:
Moradores impunemente resolvem exterminar as poucas árvores ainda restantes, que no mínimo costumam oferecer, no dia a dia, não só algumas indispensáveis sombras durante o verão, mas também abrigo temporário no período chuvoso, quando a chuva vier a incomodar os transeuntes.”

Ambiguidade em título de matéria jornalística
No texto a seguir, se o leitor se limitar ao título, deixando de ler o corpo da matéria, entenderá que a ministra não dá autorização para a publicação de biografia. Entretanto, o caso é bem diferente.
Vamos à leitura, com atenção ao trecho grifado, que esclarece o verdadeiro sentido.

Relatora vota contra autorização para publicar biografias
A ministra Cármen Lúcia, do STF, entendeu que pedir consentimento do biografado seria "censura prévia"
10 JUN 2015- 17h15
A ministra Cármen Lúcia, do Supremo Tribunal Federal (STF), votou nesta quarta-feira (10) contra autorização prévia para publicação de biografias não autorizadas. A ministra é relatora da Ação Direta de Inconstitucionalidade (ADI) da Associação Nacional dos Editores de Livros (Anel) contra liminares que proíbem o lançamento das biografias. Após o voto de Cármen Lúcia, nove ministros ainda irão proferir seus votos.
Para a ministra, é inconstitucional o entendimento de que é preciso autorização prévia dos biografados para publicação de obras bibliográficas ou audiovisuais. Segundo ela, o entendimento contrário significa censura prévia. Apesar de garantir a liberdade aos biógrafos, Cármen Lúcia garantiu que reparação material poderá ser concedida em casos de abusos.
[Disponível em: noticias.terra.com.br › Notícias › Brasil]

Continho e Notícia
Eu reforço: a interlocução diária pede clareza e precisão. Se “o que se diz” é expresso de maneira desorganizada (com pontuação deficiente, palavras mal escolhidas ou frases mal elaboradas, por exemplo), o ouvinte/leitor pode não interpretar do modo como o emissor esperava, e a incomunicação se fará presente.
Que o digam o vigário, do conhecido Continho, de Paulo Mendes Campos; ou o gerente da loja de Guarabira, em episódio noticiado há algum tempo (2015).
No primeiro caso, as respostas são baseadas numa interpretação ao pé da letra – correta, mas não usual – das perguntas feitas, prejudicando o diálogo. No segundo caso, o anúncio com informação (intencionalmente ou não) pouco clara tem o condão de atrair o consumidor, mas... o resultado não é o esperado.
Vamos aos textos.

Continho
Era uma vez um menino triste, magro e barrigudinho, do sertão de Pernambuco. Na soalheira danada de meio-dia, ele estava sentado na poeira do caminho imaginando bobagem, quando passou um gordo vigário a cavalo:
– Você aí, menino, para onde vai essa estrada?
– Ela não vai não: nós é que vamos nela.
– Engraçadinho duma figa! Como você se chama?
– Eu não me chamo não: os outros é que me chamam de Zé.
[CAMPOS, Paulo Mendes. Disponível em: mgme1.blogspot.com.br/p/texto-e-interpretacao.]

O erro de português que virou caso de polícia
Erro de português em anúncio de loja virou caso de polícia na Paraíba. No cartaz afixado na entrada da loja constava o anúncio “Oferta imperdível Chip Vivo R$ 1 com aparelho”
Um erro de quem escreveu um cartaz para anunciar uma promoção numa loja de eletrodomésticos criou uma grande confusão na cidade de Guarabira, no interior da Paraíba.
No cartaz estava escrito “Oferta imperdível. Chip Vivo. R$ 1 com aparelho”. Ao ler, o professor Aurélio Damião, 38, considerou a proposta irrecusável.
Com R$ 4 no bolso, ele entrou na loja e pediu chips – com os quatro aparelhos celulares correspondentes. Ele havia registrado a oferta com uma foto antes de ir ao trabalho e decidiu fazer a compra no final do expediente.
“Passei na loja e pedi: me veja quatro aparelhos de R$ 1 da promoção”, contou Damião. O atendente da loja “explicou” o anúncio. Na verdade, o redator queria dizer que os chips da operadora em questão sairiam por R$ 1 no caso da compra de qualquer celular adquirido pelo preço normal de tabela.
O caso só foi resolvido na delegacia
“Eu quis mesmo era dar mais uma lição na loja do que qualquer outra coisa. Estava escrito errado, foi um erro de português. Cheguei e falei que queria comprar quatro celulares e o gerente começou a me destratar, me chamar de maluco. Disse que eu não era louco de pegar um celular de lá. Eu falei que não queria pegar, não ia roubar. Eu estava lá para comprar. Ele se recusou a vender e eu chamei a polícia”, explica Aurélio.
Uma viatura da polícia militar chegou ao local e convidou os dois – o professor e o gerente da loja – até a delegacia. Aurélio alegou que a loja estava fazendo propaganda enganosa e que tinha por direito, como consumidor, receber o que estava escrito no cartaz.
Na delegacia, as partes chegaram a um acordo. Damião recebeu a doação de um vale de R$ 100 para aquisição de um aparelho. Com chip. “Caso não chegassem a um acordo, teria de se usar a Justiça, e as partes resolveram se entender logo”, disse um agente do 4º DP.
[Disponível em: www.pragmatismopolitico.com.br/2015/01/o-erro-de-portugues-que-virou-caso-de-policia.]
Meu abraço, amigo e nada ambíguo, a todos.