quinta-feira, 3 de dezembro de 2015

Ainda a Cecília de olhar viajante


Cecília Meireles - Aleatório


Em matéria anterior (21/11/2015), apontei, no percurso poético de Cecília Meireles, índices do modo de observação que a escritora atribui ao viajante. Este, em contraposição ao turista, “... pode estabelecer uma comunicação sentimental com os objetos e os lugares [...].”¹
Cecília acrescenta, falando de sua experiência viageira: Tudo quanto aprendi até hoje – se é que tenho aprendido – representa uma silenciosa conversa entre os meus olhos e os vários assuntos que se colocam diante deles, ou diante dos quais eles se colocam. Nessa atmosfera de confidência, tudo me parece penetrável e inteligível. Mais tarde, em silêncio maior, a conversa continua, e é simplesmente um profundo monólogo. O que resulta de tudo isso, é, para mim, a aprendizagem.”
Ao viajante, a aprendizagem é aprendizagem do outro: daquele desconhecido que ele observa com interesse (e não apenas de passagem), a ponto de ralentar o passo, trocar um olhar mais profundo, um sorriso, quem sabe algumas palavras, antes de se afastar.
É aprender sobre a pessoa / comunidade / povo, em seu cenário particular e necessário. É apreender o ambiente físico e humano em seu todo, nos meandros e pequenos detalhes, vislumbrados ou mesmo intuídos.
Essa modalidade de “olhar-aprendiz” é a que parece guiar Cecília, na crônica “Se eu fosse um pintor... Nela, a descrição do espaço não se resume ao mero “avistar, constatar e assinalar em mapa” do turista, mas é fruto de ações empreendidas por uma contemplação viajante: investigar e dialogar, comparar e relacionar, misturar experiências, indagar possibilidades.
Deixo-a registrada em seguida.
¹ Esta e as demais citações em vermelho: MIRELES, Cecília. Crônicas de Viagens. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 1999.


Fernanda Correia Dias - A Floresta da Tijuca
Se eu fosse um pintor...²

Se eu fosse pintor começaria a delinear este primeiro plano de trepadeiras entrelaçadas com pequenos jasmins e grandes campânulas roxas, por onde flutua uma borboleta cor de marfim, com um pouco de ouro nas pontas das asas.
Mas logo depois, entre o primeiro plano e a casa fechada, há pombos de cintilante alvura, e pássaros azuis tão rápidos e certeiros que seria impossível deixar de fixá-los, para dar alegria aos olhos dos que jamais viram ou verão.
Mas o quintal da casa abandonada ostenta uma delicada mangueira, ainda com moles folhas cor de bronze sobre a cerrada fronde sombria, uma delicada mangueira repleta de pequenos frutos, de um verde tenro, que se destacam do verde-escuro como se estivessem ali apenas para tornar a árvore um ornamento vivo, entre os muros brancos, os pisos vermelhos, o jogo das escadas e dos telhados em redor.
E que faria eu, pintor, dos inúmeros pardais que pousam nesses muros e nesses telhados, e aí conversam, namoram-se, amam-se, e dizem adeus, cada um com seu destino, entre a floresta e os jardins, o vento e a névoa?
Mas por detrás estão as velhas casas, pequenas e tortas, pintadas de cores vivas, como desenhos infantis, com seus varais carregados de toalhas de mesa, saias floridas, panos vermelhos e amarelos, combinados harmoniosamente pela lavadeira que ali os colocou. Se eu fosse pintor, como poderia perder esse arranjo, tão simples e natural, e ao mesmo tempo de tão admirável efeito?
Mas, depois disso, aparecem várias fachadas, que se vão sobrepondo umas às outras, dispostas entre palmeiras e arbustos vários, pela encosta de morro. Aparecem mesmo dois ou três castelos, azuis e brancos, e um deles tem até, na ponta da torre, um galo de metal verde. Eu, pintor, como deixaria de pintar tão graciosos motivos?
Sinto, porém, que tudo isso por onde vão meus olhos, ao subirem do vale à montanha, possui uma riqueza invisível, que a distância abafa e desfaz: por detrás dessas paredes, desses muros, dentro dessas casas pobres e desses castelinhos de brinquedo, há criaturas que falam, discutem, entendem-se e não se entendem, amam, odeiam, desejam, acordam todos os dias com mil perguntas e não sei se chegam à noite com alguma resposta.
Se eu fosse pintor, gostaria de pintar esse último plano, esse último recesso da paisagem. Mas houve jamais algum pintor que pudesse fixar esse móvel oceano, inquieto, incerto, constantemente variável que é o pensamento humano?
²MEIRELES, Cecília. Janela Mágica. Crônicas. São Paulo: Editora Moderna Ltda, 1985.
  
Pós-leitura
A crônica, eminentemente descritiva, caminha exibindo planos, os quais orientam o olhar do leitor. A deslocação do foco (de baixo para cima, do próximo ao distante, de fora para dentro) abarca todos os cantos: flores e trepadeiras, árvores e pássaros, muros e quintais, casas, castelinhos, morros... Nada escapa à visão atenta desse viajante aspirante a pintor, que sempre descobre mais um detalhe.

Interessante notar: é a conjunção “mas”, que, repetidamente, introduz o novo plano do olhar (parágrafos 2, 3, 5, 6), sem, no entanto, expressar o convencional sentido adversativo – e sim, aditivo. É como se o enunciador, contemplando determinado ponto de interesse, descobrisse outro e ainda outro e outro, e os indicasse a um companheiro de jornada: o leitor, que segue junto nessa apreciação.
As interrogações são, de igual modo, marcas de diálogo com o leitor, chamado a refletir junto sobre detalhes do cenário, que vem povoado das muitas cores de flores, borboletas, pássaros, casas, panos, e repleto de sugestões de sons, movimentos (das aves, do vento), perfumes (das flores) e sabores (das mangas).
A adjetivação intensa dá conta do olhar objetivo, que percebe a disposição espacial, as formas e cores, mas privilegia em grau elevado a avaliação subjetiva, o encantamento diante do que é visto. Tudo é suave e afetuoso, desde as pequenas flores, passando pelos pombos e pardais, até os desenhos das casas e a roupa nos varais.
A observação, que começa no espaço exterior, segue, depois, para o interior – “por detrás dessas paredes, desses muros, dentro dessas casas”. Notem-se os conectivos que marcam claramente a mudança: porém e mas – (este, agora, com real valor adversativo). 

É o momento do texto em que a descrição chega à alma / eixo do lugar, já indiciado desde o início (pelas plantas, construções, roupas), ou seja, ao ser (“pensamento”) humano, ao “móvel oceano” que dá vida ao conjunto todo. 


Compreende-se o rumo: a ideia norteadora do olhar viajante, que a crônica estende ao pintor, é o debruçar-se em direção ao outro. Repetindo, é a
silenciosa conversa entre os meus olhos e os vários assuntos que se colocam diante deles, ou diante dos quais eles se colocam.” O olhar viajante de Cecília é, assim, revelador de seu  enorme apreço pelo semelhante:
Tenho um vício terrível. Meu vício é gostar de gente. Você acha que isso tem cura? Tenho tal amor pela criatura humana, em profundidade, que deve ser doença.”³
Ah!, se nossos vícios fossem todos assim...
Um abraço.
³ Entrevista a Pedro Bloch, em maio de 1964. Disponível em:
http://www.revistabula.com/496-a-ultima-entrevista-de-cecilia-meireles/

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