sábado, 21 de novembro de 2015

O olhar viajante de Cecília Meireles

Fernando Correia Dias - Cecília em Lisboa             Fernando Correia Dias - Cecília em Portugal

Claro, não precisa haver um tempo marcado para falar de Cecília. Mas encontrar-se com seus escritos em novembro – mês de seu nascimento (07/11/1901) e morte (09/11/1964) – é quase obrigatório.
Largamente conhecida pela obra poética, Cecília Meireles, a exemplo de Mário de Andrade, viveu outras esferas de atuação, bem menos divulgadas. Na área da Educação, foi professora primária, publicou artigos sobre problemas e novos rumos da Educação, criou a primeira biblioteca infantil do Rio de Janeiro, lecionou Literatura, Técnica e Crítica Literária e no Brasil e no exterior.
Seu interesse pela infância, expresso em artigos, estudos e conferências, também se evidencia na beleza lírica dos muitos poemas que abordam o mundo infantil. Neles, a brincadeira sonora, a musicalidade refinada e o apuro linguístico são aqueles mesmos de todo seu trabalho literário, acrescidos, entretanto, de instigantes brincadeiras sonoras. Como em:
Canção de Dulce

Dulce, doce Dulce,
menina do campo,
de olhos verdes de água
de água e pirilampo.

Doce Dulce, doce
dócil, estendendo
pelo sol lençóis
entre anil e vento.

Dócil, doce Dulce
de face vermelha,
doce rosa airosa
a fugir da abelha

da abelha, de vespas
e besouros tontos,
pelo arroio de ouro
de seixos redondos...¹
.
Note-se a penetrante visão do eu lírico, a construir, mediante o jogo sonoro e o imagético, uma delicada cena em que vários planos sensoriais se entrelaçam. Este olhar arguto, a que nada escapa, é o que Cecília – habituada a viagens por diferentes países – chamava de olhar de viajante, em oposição ao olhar de turista. Porque para ela, o turista:
 “é uma criatura feliz, que parte por este mundo com a sua máquina fotográfica a tiracolo, o guia no bolso, um sucinto vocabulário entre os dentes: seu destino é caminhar pela superfície das coisas, como do mundo, com a curiosidade suficiente para passar de um ponto a outro, olhando o que lhe apontam, comprando o que lhe agrada, expedindo muitos postais [...].”²
Ao passo que:
“O viajante é criatura menos feliz, de movimentos mais vagarosos, todo enredado em afetos, querendo morar em cada coisa, descer à origem de tudo, amar loucamente cada aspecto do caminho, desde as pedras mais toscas às mais sublimadas almas do passado, do presente até o futuro – um futuro que ele nem conhecerá.
O olhar "turístico" é, então, um borboletear um tanto quanto ligeiro e descompromissado. A ele se contrapõe o pousar mais vagaroso, comprometido com a relação afetiva e significativa, do olhar viajante: é o querer-estar-com, o “enredar-se em afetos”, que faz a escritora avaliar amorosamente cada povo visitado  e que transborda para seus textos, sejam em verso ou em prosa, conforme percebe o leitor atento.

Avaliem, por exemplo,  como em Cantiga as imagens vão se organizando, parecendo querer envolver-se afetivamente com as circunstâncias focalizadas e prender, em sons e ritmos (é cantiga...), a própria fugacidade do tempo, da natureza, da rosa/vida.
Reparem, sobretudo, na correspondência sonora de palavras com som /v/: o sopro do vento contamina a vida e se espalha pelos versos (ver negritos, no poema).
Querem ir mais longe? Procurem o derramamento das nasais, que ajudam a dar fluidez ao poema e expandem a sensação de transitoriedade; sigam sua linha e notem como aprofundam e “colam” outros sentidos a vento, por meio das palavras pensamento e sofrimento:
Cantiga

Ai! A manhã primorosa
do pensamento...
Minha vida é uma pobre rosa
ao vento.

Passam arroios de cores
sobre a paisagem.
Mas tu eras a flor das flores,
imagem!

Vinde ver asas e ramos,
na luz sonora!
Ninguém sabe para onde vamos
agora.

Os jardins têm vida e morte,
noite e dia...
Quem conhecesse a sua sorte,
morria.

E é nisso que se resume
o sofrimento:
cai a flor, – e deixa o perfume
no vento! ²

Cecília, contempladora cuidadosa dos meandros dos sentidos e sentimentos, requisita, também do leitor, o “olhar viajante” para desvendar os segredos do poema. E que ele seja de tal forma cúmplice, que estabeleça com o texto uma relação de aprendizado e compreensão.
Na verdade, a percepção atenta que a escritora aplica à viagem é bem semelhante à que usa para a criação de poemas, e a mesma que os leitores devem aprender e usar, se quiserem adentrar compreensivamente seu universo lírico. Leiam este seu texto sobre a atividade viageira e notem o quanto se ajusta à arte poética: basta trocar “a arte de viajar” por “a arte de escrever e ler poemas”:
“A arte de viajar é uma arte de admirar, uma arte de amar. É ir em peregrinação, participando intensamente das coisas, de fatos, de vidas com as quais nos correspondemos desde sempre e para sempre. É estar constantemente emocionado, e nem sempre alegre, mas, ao contrário, muitas vezes triste, de um sofrimento sem fim, porque a solidariedade humana custa, a cada um de nós, algum profundo despedaçamento.”
Assim é, na peregrinação pelo poema: seguimos o caminho íntimo das palavras e, por elas, chegamos à partilha de emoções e percepções, com o autor e outros leitores.
Não será exatamente essa partilha o que nos ajuda no aprendizado de sermos mais humanos?
Um abraço.

¹ MEIRELES, Cecília. Ou isto ou aquilo. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 1987.
² Esta e as demais citações em vermelho: MEIRELES, Cecília. Crônicas de Viagens. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 1999.
³ MEIRELES, Cecília. Viagem. São Paulo: Global, 2012.

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