domingo, 11 de outubro de 2015

O universo infantil em poesia

Cândido Portinari


Não, o Dia da Criança não se apagará nunca...
Quando o assunto é a infância, a seriedade do adulto e a maturidade das reflexões costumam focalizar a violência ou a ausência da família, o descaso do poder público, a inoperância da educação... Há tanto o que não comemorar em Dia / Semana da Criança!
No entanto, embora digamos que a data é comercial, lá estamos nós, adultos, de olho no calendário, pois nossos afetos impulsionam os mais honestos sentimentos de humanidade.
Por isso é que “não, o Dia da Criança não se apagará nunca”. Em outubro (como no Brasil), em novembro (como em muitos outros países), ou em dias quaisquer, sempre haverá ocasiões para se pensar e cuidar de nossas crianças. Acresce que também nós, crianças não totalmente perdidas em meio ao peso da “adultice”, temos motivos para recordar e renovar nossa imagem infantil.
Então, se o leitor concorda comigo, convido-o a seguir pela trilha de poetas que recriaram, em seu universo poético, um belo e feliz universo da infância.
Claro que há muito de negativo com que nos preocuparmos – o abandono, a agressividade, o descuido, a deseducação... Mas, por momentos, deixemo-nos levar pela ternura das palavras, para alcançarmos o estágio de “re-ser” crianças e, quem sabe, lançar no ar pesado de nossa época, uma brisa de alegria que inspire ações amorosas voltadas aos pequenos.
Além do mais, se houver crianças à nossa volta, que tal lermos em voz alta para elas, declamarmos com elas, brincar palavreando, numa troca afetuosa que transforme, ao menos por instantes, a fisionomia carrancuda do mundo?
Vamos, leitor, vamos ao “doce sabor da infância”... 


Charles Roka


Sempre seremos crianças...

A Criança...
Alberto Caeiro

A criança que pensa em fadas e acredita nas fadas
Age como um deus doente, mas como um deus.
Porque embora afirme que existe o que não existe
Sabe como é que as cousas existem, que é existindo,
Sabe que existir existe e não se explica,
Sabe que não há razão nenhuma para nada existir,
Sabe que ser é estar em algum ponto
Só não sabe que o pensamento não é um ponto qualquer.
[Em: PESSOA, Fernando. Ficções do Interlúdio: poemas completos de Alberto Caeiro. In Obra poética. Rio de Janeiro: Nova Aguilar, 1977.]


A Boneca
Olavo Bilac

Deixando a bola e a peteca,
Com que inda há pouco brincavam,
Por causa de uma boneca,
Duas meninas brigavam. 

Dizia a primeira: "É minha!"
— "É minha!" a outra gritava;
E nenhuma se continha,
Nem a boneca largava.

Quem mais sofria (coitada!)
Era a boneca. Já tinha
Toda a roupa estraçalhada,
E amarrotada a carinha.

Tanto puxaram por ela,
Que a pobre rasgou-se ao meio,
Perdendo a estopa amarela
Que lhe formava o recheio.

E, ao fim de tanta fadiga,
Voltando à bola e à peteca,
Ambas, por causa da briga,
Ficaram sem a boneca . . .
[Em: Antologia ilustrada da poesia brasileira: para crianças de qualquer idade; organ. e ilustr. Adriana Calcanhotto. Rio de Janeiro: Casa da Palavra, 2013.]


Infantil
Manoel de Barros

O menino ia no mato
E a onça comeu ele.
Depois o caminhão passou por dentro do corpo do menino
E ele foi contar para a mãe.
A mãe disse: Mas se a onça comeu você, como é que
o caminhão passou por dentro do seu corpo?
É que o caminhão só passou renteando meu corpo
E eu desviei depressa.
Olha, mãe, eu só queria inventar uma poesia.
Eu não preciso de fazer razão.
[Em: Tratado geral das grandezas do ínfimo. Rio de Janeiro: Record, 2001.]


 
Charles Roka


Dilemas e interrogações 

Sonhos da Menina
Cecília Meireles 

A flor com que a menina sonha
está no sonho?
ou na fronha?

Sonho
risonho:

O vento sozinho
no seu carrinho.

De que tamanho
seria o rebanho?

A vizinha
apanha
a sombrinha
de teia de aranha  . . .

Na lua há um ninho
de passarinho.

A lua com que a menina sonha
é o linho do sonho
ou a lua da fronha?
[Em: Ou isto ou aquilo. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 1977.]

  
O Doce
Carlos Drummond de Andrade

A boca aberta para o doce
já prelibando a gostosura
e o doce cai no chão de areia, droga!

Olhar em redor. Os outros viram
Logo aquele doce cobiçado
a semana inteira, e pago do seu bolso!
Irá deixá- lo ali, só porque os outros
estão presentes, vigilantes?

A mão se inclina, pega o doce, limpa-o
de toda areia e mácula do chão.
“Se fosse em casa eu não pegava não.
Mas aqui no colégio, que mal faz?”
[Em: Antologia ilustrada da poesia brasileira: para crianças de qualquer idade; organ. e ilustr. Adriana Calcanhotto. Rio de Janeiro: Casa da Palavra, 2013.]



Charles Roka


Jogando o jogo: palavras, sons e movimentos

Esquisitices
Sergio Capparelli.

Em Jataí
é proibido fazer xixi.

Em Catiporâ
é proibido casar com rã.

Em Jaboticabal
é proibido comida com sal.

Em Salvador
é proibido sentir dor.

Em São Expedito
é proibido comer mosquito.

Em Guarabobô
é proibido fazer cocô.

Em Guaxupé
é proibido cheirar chulé.

Em Aquidauir
é proibido proibir.
[Disponível em: http://poesiaparacrianca.blogspot.com.br/]


Criança Crionça
Augusto de Campos

A onça era sonsa
Sonsa de nascença
Chegava de manso
Para encher a pança
Sem pedir licença

Jabuti, Teiú
Tucano, Tatu
Macaco, sagüi
Preguiça, Preá
Cutia, Quati
Não tinha descanso

Mas uma criança
Chamou a responsa
Criou uma dança
A dança da onça

Criança, crionça,
Crionça, criança

Dançando esta dança
A onça, desonça
Despança
Dispença
Sua comilança
E hoje só pensa
Em dançar a dança

Criança, crionça,
Crionça, criança.
[Em: Antologia ilustrada da poesia brasileira: para crianças de qualquer idade; organ. e ilustr. Adriana Calcanhotto. Rio de Janeiro: Casa da Palavra, 2013.]


Trem de ferro
Manuel Bandeira

Café com pão
Café com pão
Café com pão

Virgem Maria que foi isto maquinista?

Agora sim
Café com pão
Agora sim
Café com pão

Voa, fumaça
Corre, cerca
Ai seu foguista
Bota fogo
Na fornalha
Que eu preciso
Muita força
Muita força
Muita força

Oô..
Foge, bicho
Foge, povo
Passa ponte
Passa poste
Passa pato
Passa boi
Passa boiada
Passa galho
De ingazeira
Debruçada
Que vontade
De cantar!

Oô...
Quando me prendero
No canaviá
Cada pé de cana
Era um oficia
Oô...
Menina bonita
Do vestido verde
Me dá tua boca
Pra matá minha sede
...
Vou mimbora vou mimbora
Não gosto daqui
Nasci no sertão
Sou de Ouricuri
...

Vou depressa
Vou correndo
Vou na toda
Que só levo
Pouca gente
Pouca gente
Pouca gente...
[In Estrela da vida inteira. Rio de Janeiro: José Olympio, 1974.]


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