domingo, 18 de outubro de 2015

Mário de Andrade em três dimensões

Mário de Andrade nasceu em 9 de outubro de 1893 e faleceu em 25 de fevereiro de 1945. Falar dele é abordar o homem múltiplo: escritor, musicólogo, pesquisador do folclore, jornalista, crítico de arte, professor de Música e História da Arte...
No mês de seu aniversário de nascimento, quero lembrá-lo, aqui, em três dessas tantas dimensões.

Anita Malfatti                    Tarsila do Amaral                     Lasar Segall

O incentivador da cultura e da educação
Entre 1935 e 1938, Mário dirigiu o Departamento de Cultura de Municipalidade de São Paulo; em seus projetos, entrelaçou os campos da educação, cultura e arte, que tanto o entusiasmavam. Impulsionou atividades ligadas a teatro, cinema, concertos, exposições. Criou uma biblioteca municipal, bibliotecas móveis e exposições no Viaduto do Chá, visando aproximar a arte de todas as camadas da população.
Mais ainda (e muitos não sabem): foi o criador dos Parques Infantis, que estão na origem da educação infantil pública, em São Paulo e no Brasil. Como assinala Ana Lúcia Goulart de Faria, foi “a primeira experiência brasileira pública municipal de educação (embora não escolar) para crianças de famílias operárias que tiveram a oportunidade de brincar, de ser educadas e cuidadas, de conviver com a natureza, de movimentarem-se em grandes espaços.”¹
Nos parques, as crianças tinham oportunidade de conviver com diversas formas de expressão. Ana Lúcia transcreve o depoimento de quem viveu a experiência: “Nós, crianças, brincávamos na rua. Agora, com o parque, meus pais podiam trabalhar mais tranquilos, ele na SP Railway e ela na fábrica de tecidos. O parque para nós foi a liberdade. [...] No parque eu tinha tudo o que precisava: as professoras que tomavam conta, aulas de música, crochê, bordado; era tanta coisa boa que eu ficava por aqui mesmo, não voltava para casa.”
A intenção era a de recrear e educar, dando largo espaço às atividades expressivas. Afirma o escritor:
A criança é essencialmente um ser sensível à procura de expressão. Não possui ainda a inteligência abstraideira completamente formada. [...] Diante duma dor: chora – o que é muito mais expressivo do que abstrair: ‘estou sofrendo’. A criança utiliza-se indiferentemente de todos os meios de expressão artística. Emprega a palavra, as batidas do ritmo, cantarola, desenha. Dirão que as tendências dela inda não se afirmaram. Sei. Mas é essa mesma vagueza de tendências que permite pra ela ser mais total. E aliás as tais “tendências” muitas vezes provêm da nossa inteligência exclusivamente.”

O professor pesquisador do folclore
Mário de Andrade não se contentou em ser apenas professor de piano e de História da Música. Aos poucos, seu contato com políticas públicas e seu amadurecimento levaram-no a pleitear mais seriedade, menos comercialização e maior abrangência do ensino musical, como demonstram trechos de seu discurso de paraninfo no Conservatório Dramático e Musical de São Paulo:
Não se ensina música no Brasil, vende-se virtuosidade.  A maioria dos conservatórios se comercializa então, engolidos pela torrente niveladora. Se tornam produtores de pianistas e violinistas, confundindo a elevação cultural da sua finalidade com as acomodações despoliciadas do ensino particular. Não são conservatórios, são cooperativas de professores particulares. [...]
Faz-se absolutamente necessário que se oficialize o ensino musical, porque só a defesa e verbas garantidas permitirá a sobrevivência de escolas ensinadoras de música, exigências severas nos exames, estudos completos de humanidades, multiplicação de disciplinas complementares, disseminação dos processos de música de conjunto e o combate ao conceito fogueteiro da virtuosidade.²

Mário não restringia o ensino à música erudita. Ao contrário  e embora dissesse não ser folclorista – foi grande pesquisador do folclore, quer por conta própria, quer à frente do Departamento de Cultura de São Paulo. Nesse campo, voltou sua atenção para inúmeras manifestações da identidade brasileira, como superstições e crendices ligadas à alimentação e às doenças, além de mitos de várias regiões.
Entretanto, seu interesse maior parece ter-se relacionado à produção musical. Sua natural inclinação pode ter-se ampliado pelo contato com Villa-Lobos, na Semana de Arte Moderna. Villa compôs muitas obras baseadas em pesquisas do folclore musical brasileiro; Mário, sozinho ou à frente do Departamento de Cultura de São Paulo, catalogou ritmos, cantigas e danças populares.  
A canção “Murucututu” serve de amostra da recolha do professor pesquisador:




O escritor modernista
Ativista da Semana de Arte Moderna de 1922, o Mário-escritor advogou, em várias obras, a criação e utilização de uma “língua brasileira”, capaz de representar mais apropriadamente a identidade do povo e de sua cultura:
Pouco me incomoda agora que eu esteja escrevendo igualzinho ou não com Portugal: o que eu escrevo é língua brasileira pelo simples fato de ser a língua minha, a língua de meu país, a língua que hoje representa no mundo muito mais o Brasil que Portugal: enfim: a língua do Brasil.” ³
Em “Macunaíma”, por exemplo, o herói-anti-herói incorpora mitos, costumes e linguajares brasileiros, como nestes fragmentos do capítulo “Uraricoera”, a seguir. Reparem especialmente na enumeração exaustiva (sem pontuação), nas expressões, pronúncias, usos pronominais e construções sintáticas que remetem à linguagem coloquial.
Uraricoera
... Mais pra diante fez que nem tinha reparado e veio muito peixe, veio pirandira veio pacu veio cascudo veio bagre e jundiá tucunaré, todos esses peixes e Jiguê voltou carregado pra tapera depois de esconder a cabaça na raiz do cipó. Todos ficaram sarapantados com aquele mundo de peixe e comeram bem. [...]
– Então o que você fez hoje?
– Cacei viado.
– Quê-dele ele!
– Comi, uai! Fui andando por um caminho, vai, topei rasto dum... catingueiro não era não mas era mateiro. Me agachei e fui no rasto. Olhando olhando, sabe, dei uma cabeçada numa coisa mole, que engraçado! sabem o que era! pois a bunda do viado, gente! (Macunaíma deu uma grande gargalhada). Viado perguntou pra mim: – Que está fazendo aí, parente!, – Te campeando! secundei. E vai, matei o catingueiro que comi com tripa e tudo. Vinha trazendo um naco pra vocês, vai, escorreguei atravessando o ipu, dei um tombo, naco foi parar longe e tanajura sujou nele.
[ANDRADE, Mário de. Macunaíma – o herói sem nenhum caráter. São Paulo: Martins Editora, 1972.]
No poema “Descobrimento”, a par da preocupação com a condição social do brasileiro (que nos faz pensar na sensibilidade do artista educador e voltado á cidadania), Mário de Andrade reafirma, na construção linguística, sua disposição de privilegiar uma linguagem menos formal e mais próxima da fala popular – uma de suas marcas de escritor modernista.
Descobrimento
Abancado à escrivaninha em São Paulo
Na minha casa da rua Lopes Chaves
De supetão senti um friúme por dentro.
Fiquei trêmulo, muito comovido
Com o livro palerma olhando pra mim.

Não vê que me lembrei que lá no Norte, meu Deus!
muito longe de mim
Na escuridão ativa da noite que caiu
Um homem pálido magro de cabelo escorrendo nos olhos,
Depois de fazer uma pele com a borracha do dia,
Faz pouco se deitou, está dormindo.

Esse homem é brasileiro que nem eu.
[ANDRADE, Mário. Poesias completas. São Paulo: Martins, 1974.]

Além das dimensões: as angústias do homem
Cândido Portinari
O homem Mário de Andrade, de larga e crítica visão, de palavras contundentes e análises profundas  que avaliou seu tempo, os eventos políticos, as condições sociais da educação, da cultura popular, da literatura e das artes em geral – nem a si próprio poupou. 

Numa espécie de confissão, o leitor perceberá o sentido de incompletude e de insatisfação com sua obra e, mais que tudo, a marca lucidamente humana de se saber contraditório, passível de transformações e aprendizados:
Não tenho a mínima reserva em afirmar que toda a minha obra representa uma dedicação feliz a problemas do meu tempo e da minha terra. Ajudei coisas, maquinei coisas, fiz coisas, muita coisa! E no entanto me sobra agora a sentença de que fiz muito pouco, porque todos os meus feitos derivam duma ilusão vasta. E eu que sempre me pensei, me senti mesmo, sadiamente banhado de amor humano, chego no declínio da vida à convicção de que faltou humanidade em mim. Meu aristocracismo me puniu. Minhas intenções me enganaram.”

[In: MONTEIRO, Luciano. O movimento modernista e a construção de uma identidade nacional sob a égide do Estado Novo. Disponível em: https://bibliobelas.files.wordpress.com/2012/02/1345085694_arquivo_artigo-lucianomonteirosbhc.pdf]
_________________
¹ Esta citação e as duas seguintes foram extraídas de: FARIA, Ana Lúcia Goulart de. A contribuição dos parques infantis de Mário de Andrade para a construção de uma pedagogia da educação infantil. Disponível em: www.scielo.br/pdf/es/v20n69/a04v2069.pdf.
² ANDRADE, Mário. Oração de Paraninfo - 1935
Disponível em: www.proposicoes.fe.unicamp.br/.../46-diversoeprosa-andradem.pdf.
³  RODRIGUES, Leandro Garcia. A língua brasileira de Mário de Andrade: nacionalismo, literatura e epistolografia. Disponível em: http://www.todasasmusas.org/08Leandro_Garcia.pdf.

#EmBuscadaAutoria
#MariodeAndrade

sábado, 17 de outubro de 2015

Permanece a homenagem, mas não a autoria


Penitencio-me: a carta ao professor do filho, que registrei como sendo de Abraham Lincoln, não é ou pode não ser dele. Se, como foi dito, Lincoln não tinha filhos em 1830 – ou o texto não é dele, ou a data está errada. Os sites consultados reafirmam a primeira hipótese.
No entanto, o conteúdo da carta vale para se refletir sobre a relação educação X sociedade, nos dias de hoje. Por isso, deixo-a como homenagem aos professores / educadores.
Abaixo a carta, com a correção necessária.
A autoria da carta é atribuída a Abraham Lincoln na Internet. Entretanto, no site do prof. Roger Norton, um dos melhores sobre Lincoln, [...] o prof. Roger afirma: "Eu tenho mais de 280 livros de Abraham Lincoln, incluindo "As Obras Completas de Abraham Lincoln", e a carta não é mencionada em nenhum deles. Não há fonte segura para dizer-se que seja de sua autoria. É uma belíssima carta, mas não foi Lincoln quem a escreveu. É uma falsa afirmação."


Agradeço aos leitores que me alertaram e abraço a todos.

domingo, 11 de outubro de 2015

O universo infantil em poesia

Cândido Portinari


Não, o Dia da Criança não se apagará nunca...
Quando o assunto é a infância, a seriedade do adulto e a maturidade das reflexões costumam focalizar a violência ou a ausência da família, o descaso do poder público, a inoperância da educação... Há tanto o que não comemorar em Dia / Semana da Criança!
No entanto, embora digamos que a data é comercial, lá estamos nós, adultos, de olho no calendário, pois nossos afetos impulsionam os mais honestos sentimentos de humanidade.
Por isso é que “não, o Dia da Criança não se apagará nunca”. Em outubro (como no Brasil), em novembro (como em muitos outros países), ou em dias quaisquer, sempre haverá ocasiões para se pensar e cuidar de nossas crianças. Acresce que também nós, crianças não totalmente perdidas em meio ao peso da “adultice”, temos motivos para recordar e renovar nossa imagem infantil.
Então, se o leitor concorda comigo, convido-o a seguir pela trilha de poetas que recriaram, em seu universo poético, um belo e feliz universo da infância.
Claro que há muito de negativo com que nos preocuparmos – o abandono, a agressividade, o descuido, a deseducação... Mas, por momentos, deixemo-nos levar pela ternura das palavras, para alcançarmos o estágio de “re-ser” crianças e, quem sabe, lançar no ar pesado de nossa época, uma brisa de alegria que inspire ações amorosas voltadas aos pequenos.
Além do mais, se houver crianças à nossa volta, que tal lermos em voz alta para elas, declamarmos com elas, brincar palavreando, numa troca afetuosa que transforme, ao menos por instantes, a fisionomia carrancuda do mundo?
Vamos, leitor, vamos ao “doce sabor da infância”... 


Charles Roka


Sempre seremos crianças...

A Criança...
Alberto Caeiro

A criança que pensa em fadas e acredita nas fadas
Age como um deus doente, mas como um deus.
Porque embora afirme que existe o que não existe
Sabe como é que as cousas existem, que é existindo,
Sabe que existir existe e não se explica,
Sabe que não há razão nenhuma para nada existir,
Sabe que ser é estar em algum ponto
Só não sabe que o pensamento não é um ponto qualquer.
[Em: PESSOA, Fernando. Ficções do Interlúdio: poemas completos de Alberto Caeiro. In Obra poética. Rio de Janeiro: Nova Aguilar, 1977.]


A Boneca
Olavo Bilac

Deixando a bola e a peteca,
Com que inda há pouco brincavam,
Por causa de uma boneca,
Duas meninas brigavam. 

Dizia a primeira: "É minha!"
— "É minha!" a outra gritava;
E nenhuma se continha,
Nem a boneca largava.

Quem mais sofria (coitada!)
Era a boneca. Já tinha
Toda a roupa estraçalhada,
E amarrotada a carinha.

Tanto puxaram por ela,
Que a pobre rasgou-se ao meio,
Perdendo a estopa amarela
Que lhe formava o recheio.

E, ao fim de tanta fadiga,
Voltando à bola e à peteca,
Ambas, por causa da briga,
Ficaram sem a boneca . . .
[Em: Antologia ilustrada da poesia brasileira: para crianças de qualquer idade; organ. e ilustr. Adriana Calcanhotto. Rio de Janeiro: Casa da Palavra, 2013.]


Infantil
Manoel de Barros

O menino ia no mato
E a onça comeu ele.
Depois o caminhão passou por dentro do corpo do menino
E ele foi contar para a mãe.
A mãe disse: Mas se a onça comeu você, como é que
o caminhão passou por dentro do seu corpo?
É que o caminhão só passou renteando meu corpo
E eu desviei depressa.
Olha, mãe, eu só queria inventar uma poesia.
Eu não preciso de fazer razão.
[Em: Tratado geral das grandezas do ínfimo. Rio de Janeiro: Record, 2001.]


 
Charles Roka


Dilemas e interrogações 

Sonhos da Menina
Cecília Meireles 

A flor com que a menina sonha
está no sonho?
ou na fronha?

Sonho
risonho:

O vento sozinho
no seu carrinho.

De que tamanho
seria o rebanho?

A vizinha
apanha
a sombrinha
de teia de aranha  . . .

Na lua há um ninho
de passarinho.

A lua com que a menina sonha
é o linho do sonho
ou a lua da fronha?
[Em: Ou isto ou aquilo. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 1977.]

  
O Doce
Carlos Drummond de Andrade

A boca aberta para o doce
já prelibando a gostosura
e o doce cai no chão de areia, droga!

Olhar em redor. Os outros viram
Logo aquele doce cobiçado
a semana inteira, e pago do seu bolso!
Irá deixá- lo ali, só porque os outros
estão presentes, vigilantes?

A mão se inclina, pega o doce, limpa-o
de toda areia e mácula do chão.
“Se fosse em casa eu não pegava não.
Mas aqui no colégio, que mal faz?”
[Em: Antologia ilustrada da poesia brasileira: para crianças de qualquer idade; organ. e ilustr. Adriana Calcanhotto. Rio de Janeiro: Casa da Palavra, 2013.]



Charles Roka


Jogando o jogo: palavras, sons e movimentos

Esquisitices
Sergio Capparelli.

Em Jataí
é proibido fazer xixi.

Em Catiporâ
é proibido casar com rã.

Em Jaboticabal
é proibido comida com sal.

Em Salvador
é proibido sentir dor.

Em São Expedito
é proibido comer mosquito.

Em Guarabobô
é proibido fazer cocô.

Em Guaxupé
é proibido cheirar chulé.

Em Aquidauir
é proibido proibir.
[Disponível em: http://poesiaparacrianca.blogspot.com.br/]


Criança Crionça
Augusto de Campos

A onça era sonsa
Sonsa de nascença
Chegava de manso
Para encher a pança
Sem pedir licença

Jabuti, Teiú
Tucano, Tatu
Macaco, sagüi
Preguiça, Preá
Cutia, Quati
Não tinha descanso

Mas uma criança
Chamou a responsa
Criou uma dança
A dança da onça

Criança, crionça,
Crionça, criança

Dançando esta dança
A onça, desonça
Despança
Dispença
Sua comilança
E hoje só pensa
Em dançar a dança

Criança, crionça,
Crionça, criança.
[Em: Antologia ilustrada da poesia brasileira: para crianças de qualquer idade; organ. e ilustr. Adriana Calcanhotto. Rio de Janeiro: Casa da Palavra, 2013.]


Trem de ferro
Manuel Bandeira

Café com pão
Café com pão
Café com pão

Virgem Maria que foi isto maquinista?

Agora sim
Café com pão
Agora sim
Café com pão

Voa, fumaça
Corre, cerca
Ai seu foguista
Bota fogo
Na fornalha
Que eu preciso
Muita força
Muita força
Muita força

Oô..
Foge, bicho
Foge, povo
Passa ponte
Passa poste
Passa pato
Passa boi
Passa boiada
Passa galho
De ingazeira
Debruçada
Que vontade
De cantar!

Oô...
Quando me prendero
No canaviá
Cada pé de cana
Era um oficia
Oô...
Menina bonita
Do vestido verde
Me dá tua boca
Pra matá minha sede
...
Vou mimbora vou mimbora
Não gosto daqui
Nasci no sertão
Sou de Ouricuri
...

Vou depressa
Vou correndo
Vou na toda
Que só levo
Pouca gente
Pouca gente
Pouca gente...
[In Estrela da vida inteira. Rio de Janeiro: José Olympio, 1974.]