terça-feira, 29 de setembro de 2015

Crônicas de Primavera

Van Gogh - Pesca na Primavera

Leitor, o que é “primavera” para você? O tempo primeiro? O primeiro verão, antes do verão? Uma ilusão colorida, bela e passageira?
Todas essas concepções, e outras mais, existem. E todas elas, e muitas mais, fazem-se presentes nas palavras e imagens dos artistas – esses reveladores, quando não denunciadores – do existente e do imaginado. Expressões artísticas dizem e desvelam o claro e o oculto; e, se assim é, não podem deixar de flagrar os aspectos naturais e humanos da primavera, sempre tão plena de significados. Como os textos que hoje trago: verbais (de Cecília Meireles e Rubem Braga) e visuais (de Monet, Van Gogh e Militão dos Santos). 

Claude Monet - Primavera

A primavera de Cecília Meireles

Na bela crônica Primavera, a palavra poética de Cecília nos traz a imagem da inevitabilidade do ciclo sazonal – movimento e vida perpétuos: “Mas é certo que a primavera chega. É certo que a vida não se esquece, e a terra maternalmente se enfeita para as festas da sua perpetuação. No entanto, seu olhar premonitório alerta para a possibilidade de interferência humana: “Algum dia, talvez, nada mais vai ser assim. Algum dia, talvez, os homens terão a primavera que desejarem [...] independentes deste ritmo.... 

Primavera
A primavera chegará, mesmo que ninguém mais saiba seu nome, nem acredite no calendário, nem possua jardim para recebê-la. A inclinação do sol vai marcando outras sombras; e os habitantes da mata, essas criaturas naturais que ainda circulam pelo ar e pelo chão, começam a preparar sua vida para a primavera que chega.

Finos clarins que não ouvimos devem soar por dentro da terra, nesse mundo confidencial das raízes, – e arautos sutis acordarão as cores e os perfumes e a alegria de nascer, no espírito das flores.

Há bosques de rododendros que eram verdes e já estão todos cor-de-rosa, como os palácios de Jeipur. Vozes novas de passarinhos começam a ensaiar as árias tradicionais de sua nação. Pequenas borboletas brancas e amarelas apressam-se pelos ares, – e certamente conversam: mas tão baixinho que não se entende.

Oh! Primaveras distantes, depois do branco e deserto inverno, quando as amendoeiras inauguram suas flores, alegremente, e todos os olhos procuram pelo céu o primeiro raio de sol.

Esta é uma primavera diferente, com as matas intactas, as árvores cobertas de folhas, – e só os poetas, entre os humanos, sabem que uma Deusa chega, coroada de flores, com vestidos bordados de flores, com os braços carregados de flores, e vem dançar neste mundo cálido, de incessante luz.

Mas é certo que a primavera chega. É certo que a vida não se esquece, e a terra maternalmente se enfeita para as festas da sua perpetuação.

Algum dia, talvez, nada mais vai ser assim. Algum dia, talvez, os homens terão a primavera que desejarem, no momento que quiserem, independentes deste ritmo, desta ordem, deste movimento do céu. E os pássaros serão outros, com outros cantos e outros hábitos, — e os ouvidos que por acaso os ouvirem não terão nada mais com tudo aquilo que, outrora se entendeu e amou.

Enquanto há primavera, esta primavera natural, prestemos atenção ao sussurro dos passarinhos novos, que dão beijinhos para o ar azul. Escutemos estas vozes que andam nas árvores, caminhemos por estas estradas que ainda conservam seus sentimentos antigos: lentamente estão sendo tecidos os manacás roxos e brancos; e a eufórbia se vai tornando pulquérrima, em cada coroa vermelha que desdobra. Os casulos brancos das gardênias ainda estão sendo enrolados em redor do perfume. E flores agrestes acordam com suas roupas de chita multicor.

Tudo isto para brilhar um instante, apenas, para ser lançado ao vento, — por fidelidade à obscura semente, ao que vem, na rotação da eternidade. Saudemos a primavera, dona da vida — e efêmera.

MEIRELES, Cecília. Obra em Prosa - vol. Rio de Janeiro: Editora Nova Fronteira,1998. Disponível em:
http://www.releituras.com/cmeireles_primavera.asp


Militão dos Santos - Cores da Primavera


A primavera de Rubem Braga

À constatação da volta cíclica da estação, Rubem Braga junta o sentimento de perda pela morte de Vinícius de Moraes, ocorrida poucos meses antes da escrita desta crônica,
Recado de Primavera, dedicada ao poeta.
A avaliação carregada de afeto do cronista enlaça o amigo ausente e os acontecimentos primaveris. Estes ora impregnam-se da melancolia da perda – “Escrevo-lhe aqui de Ipanema para lhe dar uma notícia grave: A Primavera chegou. Você partiu antes. [...] O mar anda virado [...]. São violências primaveris.” – ora marcam, por contraste, a alma saudosa: “Chega a Primavera nesta Ipanema, toda cheia de sua música e de seus versos.” 

Recado de Primavera
Meu caro Vinicius de Moraes:
Escrevo-lhe aqui de Ipanema para lhe dar uma notícia grave: A Primavera chegou. Você partiu antes. É a primeira Primavera, de 1913 para cá, sem a sua participação. Seu nome virou placa de rua; e nessa rua, que tem seu nome na placa, vi ontem três garotas de Ipanema que usavam minissaias. Parece que a moda voltou nesta Primavera – acho que você aprovaria. O mar anda virado; houve uma Lestada muito forte, depois veio um Sudoeste com chuva e frio. E daqui de minha casa vejo uma vaga de espuma galgar o costão sul da Ilha das Palmas. São violências primaveris.
O sinal mais humilde da chegada da Primavera vi aqui junto de minha varanda. Um tico-tico com uma folhinha seca de capim no bico. Ele está fazendo ninho numa touceira de samambaia, debaixo da pitangueira. Pouco depois vi que se aproximava, muito matreiro, um pássaro-preto, desses que chamam de chopim. Não trazia nada no bico; vinha apenas fiscalizar, saber se o outro já havia arrumado o ninho para ele pôr seus ovos.
Isto é uma história tão antiga que parece que só podia acontecer lá no fundo da roça, talvez no tempo do Império. Pois está acontecendo aqui em Ipanema, em minha casa, poeta. Acontecendo como a Primavera. Estive em Blumenau, onde há moitas de azaleias e manacás em flor; e em cada mocinha loira, uma esperança de Vera Fischer. Agora vou ao Maranhão, reino de Ferreira Gullar, cuja poesia você tanto amava, e que fez 50 anos. O tempo vai passando, poeta. Chega a Primavera nesta Ipanema, toda cheia de sua música e de seus versos. Eu ainda vou ficando um pouco por aqui — a vigiar, em seu nome, as ondas, os tico-ticos e as moças em flor. Adeus.
Setembro, 1980

BRAGA, Rubem. Recado de Primavera. Rio de Janeiro: Editora Record, 1984.
Disponível em: http://sopadepoesia.blogspot.com.br/2012/09/recado-de-primavera.html


Mais um recado
Rubem Braga faleceu em 1990 e, sei anos depois, Zuenir Ventura publicou uma paráfrase de seu Recado, no Jornal do Brasil. Por ela, o leitor percebe que a estação primaveril já ficara bem menos amena... como parece ser, infelizmente, a dos tempos de agora.
Com meu abraço de despedida, deixo o início e o fim de mais esta crônica:

Recado de Primavera
Jornal do Brasil, 28/9/96
Meu caro Rubem Braga:
Escrevo-lhe aqui de Ipanema para lhe dar uma notícia grave: a primavera chegou. Na véspera da chegada, não sei se lhe contaram, você virou placa de bronze, que pregaram na entrada do seu prédio. O próximo a ser homenageado é seu amigo Vinicius de Moraes, e é essa lembrança que me faz parodiar o “Recado de Primavera”, que você mandou ao poeta quando ele se tornou nome de rua.
[...]
Mas muita coisa mudou, cronista, nesses 16 anos. As “violências primaveris” de que você falava na sua carta a Vinicius não são mais o “mar virado”, a “lestada muito forte” ou o “sudoeste com chuva e frio”. Não são mais licenças poéticas, são violências mesmo.
Para você ter uma ideia, a primavera desse ano foi como que anunciada por um cerrado tiroteio bem por cima de sua cobertura: os traficantes do Cantagalo e do Pavão-Pavãozinho voltaram a guerrear. Você deve ter visto aí de cima os tiros riscando a noite, luminosos, como na guerra do Golfo. Estamos vivendo sob fogo cruzado. Ainda bem que nenhuma bala perdida atingiu seu apartamento. Por milagre, aquela parede de trás ainda está incólume.
O tempo vai passando, cronista. Chega a primavera nesta Ipanema, toda cheia O tempo vai passando, cronista. Chega a primavera nesta Ipanema, toda cheia de lembranças dos versos de Vinicius, da música de Tom e de sua doce e poética melancolia. Eu ainda vou ficando um pouco por aqui - a vigiar, em seu nome, as ondas, os tico-ticos e as moças em flor. E temendo, como todo mundo, as balas perdidas. Adeus.
Disponível em: http://cronicasdofrank.blogspot.com.br/2010/09/recado-de-primavera.html#sthash.DR0qB1U8.dpuf.


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