segunda-feira, 17 de agosto de 2015

Drummond em despedida


Quem ama a palavra, sobretudo a poética, não se desgarra nunca de Carlos Drummond de Andrade.
Ele jamais nos deixou por completo... Ficou-nos o brilho das ironias, a profundidade das ideias, a lucidez da crítica e, especialmente, a reinvenção poética, cujas nuances e múltiplas faces revelam-se renovadas a cada leitura dos textos.
Em 17/08/1987, o poeta, jornalista, cronista e contista despediu-se fisicamente de nós. Mas trago hoje outra despedida, aquela de quando o escritor decidiu se afastar dos leitores que acompanhavam suas crônicas, publicadas no Jornal do Brasil (e, antes, no Correio da Manhã).
Foram 15 anos em cada jornal, arrematados por um texto brilhante e sensível, que vale por um documento. Nele, estão mencionados os fatos históricos e sociais de seu tempo (matéria de suas crônicas); entremeadas, vêm pitadas de sua própria história como escritor; e, de quebra, há comentários que se constituem em boa aula do que seja o gênero e o trabalho do cronista.
O título é bem Drummond: breve e preciso, antecipa o conteúdo, mas não revela muito, pois é na progressiva leitura que aparecerá todo o significado do seu “Ciao”. 
Aos leitores de então, acostumados com sua companhia “no café da manhã ou à espera do coletivo”, esse adeus deve ter suscitado uma sensação de perda e de “quero mais”. Porque não é fácil largar a sempre envolvente linguagem de Drummond... 
Vamos conferir? 

Ciao
Há 64 anos, um adolescente fascinado por papel impresso notou que, no andar térreo do prédio onde morava, um placar exibia a cada manhã a primeira página de um jornal modestíssimo, porém jornal. Não teve dúvida. Entrou e ofereceu os seus serviços ao diretor, que era, sozinho, todo o pessoal da redação. O homem olhou-o, cético, e perguntou:
– Sobre o que pretende escrever?
– Sobre tudo. Cinema, literatura, vida urbana, moral, coisas deste mundo e de qualquer outro possível.
O diretor, ao perceber que alguém, mesmo inepto, se dispunha a fazer o jornal para ele, praticamente de graça, topou. Nasceu aí, na velha Belo Horizonte dos anos 20, um cronista que ainda hoje, com a graça de Deus e com ou sem assunto, comete as suas croniquices.
Comete é tempo errado de verbo. Melhor dizer: cometia. Pois chegou o momento deste contumaz rabiscador de letras pendurar as chuteiras (que na prática jamais calçou) e dizer aos leitores um ciao-adeus sem melancolia, mas oportuno.
Creio que ele pode gabar-se de possuir um título não disputado por ninguém: o de mais velho cronista brasileiro. Assistiu, sentado e escrevendo, ao desfile de 11 presidentes da República, mais ou menos eleitos (sendo um bisado), sem contar as altas patentes militares que se atribuíram esse título. Viu de longe, mas de coração arfante, a Segunda Guerra Mundial, acompanhou a industrialização do Brasil, os movimentos populares frustrados mas renascidos, os ismos de vanguarda que ambicionavam reformular para sempre o conceito universal de poesia; anotou as catástrofes, a Lua visitada, as mulheres lutando a braço para serem entendidas pelos homens; as pequenas alegrias do cotidiano, abertas a qualquer um, que são certamente as melhores.
Viu tudo isso, ora sorrindo ora zangado, pois a zanga tem seu lugar mesmo nos temperamentos mais aguados. Procurou extrair de cada coisa não uma lição, mas um traço que comovesse ou distraísse o leitor, fazendo-o sorrir, se não do acontecimento, pelo menos do próprio cronista, que às vezes se torna cronista do seu umbigo, ironizando-se a si mesmo antes que outros o façam.
Crônica tem essa vantagem: não obriga ao paletó-e-gravata do editorialista, forçado a definir uma posição correta diante dos grandes problemas; não exige de quem a faz o nervosismo saltitante do repórter, responsável pela apuração do fato na hora mesma em que ele acontece; dispensa a especialização suada em economia, finanças, política nacional e internacional, esporte, religião e o mais que imaginar se possa. Sei bem que existem o cronista político, o esportivo, o religioso, o econômico etc., mas a crônica de que estou falando é aquela que não precisa entender de nada ao falar de tudo. Não se exige do cronista geral a informação ou comentários precisos que cobramos dos outros. O que lhe pedimos é uma espécie de loucura mansa, que desenvolva determinado ponto de vista não ortodoxo e não trivial e desperte em nós a inclinação para o jogo da fantasia, o absurdo e a vadiação de espírito. Claro que ele deve ser um cara confiável, ainda na divagação. Não se compreende, ou não compreendo, cronista faccioso, que sirva a interesse pessoal ou de grupo, porque a crônica é território livre da imaginação, empenhada em circular entre os acontecimentos do dia, sem procurar influir neles. Fazer mais do que isso seria pretensão descabida de sua parte. Ele sabe que seu prazo de atuação é limitado: minutos no café da manhã ou à espera do coletivo.
Com esse espírito, a tarefa do croniqueiro estreado no tempo de Epitácio Pessoa (algum de vocês já teria nascido nos anos A.C. de 1920? duvido) não foi penosa e valeu-lhe algumas doçuras. Uma delas, ter aliviado a amargura de mãe que perdera a filha jovem. Em compensação alguns anônimos e inominados o desancaram, como a lhe dizerem: “É para você não ficar metido a besta, julgando que seus comentários passarão à História”. Ele sabe que não passarão. E daí? Melhor aceitar as louvações e esquecer as descalçadeiras.
Foi o que esse outrora-rapaz fez ou tentou fazer em mais de seis décadas. Em certo período, consagrou mais tempo a tarefas burocráticas do que ao jornalismo, porém jamais deixou de ser homem de jornal, leitor implacável de jornais, interessado em seguir não apenas o desdobrar das notícias como as diferentes maneiras de apresentá-las ao público. Uma página bem diagramada causava-lhe prazer estético; a charge, a foto, a reportagem, a legenda bem feitas, o estilo particular de cada diário ou revista eram para ele (e são) motivos de alegria profissional. A duas grandes casas do jornalismo brasileiro ele se orgulha de ter pertencido ― o extinto Correio da Manhã, de valente memória, e o Jornal do Brasil, por seu conceito humanístico da função da Imprensa no mundo. Quinze anos de atividade no primeiro e mais 15, atuais, no segundo, alimentarão as melhores lembranças do velho jornalista.
E é por admitir esta noção de velho, consciente e alegremente, que ele hoje se despede da crônica, sem se despedir do gosto de manejar a palavra escrita, sob outras modalidades, pois escrever é sua doença vital, já agora sem periodicidade e com suave preguiça. Ceda espaço aos mais novos e vá cultivar o seu jardim, pelo menos imaginário.
Aos leitores, gratidão, essa palavra-tudo.
Carlos Drummond de Andrade
Jornal do Brasil, 29/09/1984. Disponível em: http://www.brasilescola.com/literatura/ciao-ultima-cronica-carlos-drummond-andrade.htm

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sexta-feira, 7 de agosto de 2015

Outro modo de ler espaços

Escher






Depois de refletir sobre a leitura do espaço escolar (29/07/2015), veio-me à lembrança um texto simples, mas de proposta instigante, que trago hoje.
Antes, porém, quero comentar certos aspectos ligados ao ato leitor (do mundo, do texto verbal, visual, não importa), que serão ali aplicados: a intenção e o ponto de vista.
Naquela matéria (29/07/2015), afirmei ser possível (e importante) “ler” a escola e conhecer muitos de seus aspectos, a partir de seu espaço físico:o estado de muros, paredes, chão, materiais, consegue pôr à mostra histórias passadas e presentes e indiciar aspectos da ‘personalidade’ do espaço educacional [...]; murais e cartazes – o que neles é dito, como é dito e quem diz – revelam níveis de competência de educadores e alunos.”
Retomo e amplio, sob o ponto de vista dos diferentes indivíduos envolvidos nas práticas escolares.

Um professor que olhe a escola como possível local de trabalho procurará detectar índices de organização das atividades de alunos e mestres, lendo / interpretando as paredes nuas ou recheadas de cartazes, o silêncio, movimentação ou balbúrdia de corredores e classes e, até, a disposição e estado do mobiliário.
Diferentemente, um futuro aluno dirigirá seu foco para as acomodações de estudo e esporte, a presença ou ausência de recursos tecnológicos, a formação de parcerias e grupos – buscando marcas em que se reconheça.
Ainda, pais com inclinações educacionais democráticas lerão e avaliarão de modo distinto de outros, adeptos de viés educacional mais rígido e autoritário, certas práticas de ensino e convívio entrevistas na instituição.
Esses objetivos que direcionam a interpretação de ambientes são semelhantes àqueles de nossas leituras de textos. Basta, para comprovar, observar-se a maneira própria como cada membro da família lê o mesmo jornal: crianças e jovens leem, preferencialmente, sessões de entretenimento ou matérias para uma pesquisa pedida pelo professor; o pai, a mãe ou um filho mais velho, provavelmente, percorrem artigos sobre esportes, economia, saúde, serviços domésticos, e assim por diante.

Em resumo: as leituras variam, de acordo com as intenções e interesses de quem lê. Como disse um estudioso, “a realidade nunca é percebida na sua totalidade. Não há possibilidade de se avaliar um dado, por menor que seja, em todos os seus ângulos. O dado é observado a partir de uma determinada perspectiva e é a partir dela que ele é compreendido e evocado."¹ (Grifo meu.)
Acrescento um pequeno caso verídico, como ilustração dos diferentes intentos (e resultados) com que se vai a um texto. Uma dona de casa, amante da culinária, consultava frequentemente suas revistas e cadernos de receitas, zelosamente guardados, para criar novos pratos para a família. Em determinado dia, essa consulta reservou-lhe uma surpresa: algumas palavras e até frases haviam sido recortadas, em vários exemplares! O mistério foi logo esclarecido: seu filho, em processo de alfabetização, também lia as receitas, mas com objetivo bastante diverso: o de levar a bom termo lições escolares...
Bem, apesar das receitas truncadas, não se pode dizer que ele não tenha resolvido brilhantemente a enfadonha tarefa de procurar palavras oxítonas, dissílabas, frases imperativas e coisas do gênero!
Posto isto, proponho a leitura de "Percorrendo a casa". Mas que ela tenha, num primeiro momento, a finalidade única de um primeiro contato – sem preocupação, sem foco preciso, sem maiores orientações.
¹ LEFFA, Vilson J. Aspectos da leitura/ Leffa, em  Aspectos da leitura. Porto Alegre: Sagra DC Luzzatto, 1996. Disponível em: http://www.ufrgs.br/textecc/traducao/teorias/files/aspectos_leitura.pdf


Percorrendo a casa²
Os dois rapazes correram até a entrada da casa.
– Eu bem disse que hoje era um bom dia para faltar à escola – disse Marco. – Minha mãe nunca está em casa na quinta-feira – acrescentou.
Uma sebe muito alta não deixava ver a casa da rua, o que permitiu aos dois amigos explorarem à vontade o enorme terreno.
– Não pensava que sua casa fosse tão grande – disse Pedro.
– É, e está bem mais bonita desde que meu pai acabou o terraço e a lareira de granito.
A casa tinha três portas: uma na frente, outra atrás e uma porta lateral, que dava para a garagem. Esta estava quase vazia; apenas se viam três bicicletas de 10 velocidades, bem arrumadas. Os dois amigos entraram pela porta do lado. Marco explicou a Pedro que esta porta estava quase sempre aberta, para as irmãs entrarem quando chegavam antes da mãe.
Pedro quis visitar a casa. O dono da casa começou por lhe mostrar a sala que, como o resto do térreo, estava pintado de fresco. Marco pôs a aparelhagem estereofônica no máximo. O amigo pareceu ficar aborrecido com esse gesto.
– Não se preocupe, os vizinhos mais próximos estão a 500 metros daqui! – gritou-lhe Marco. Pedro sentiu-se melhor quando verificou que não se via nenhuma casa perto do enorme quintal.
A sala de jantar, onde havia porcelanas chinesas, pratas e cristais, não era lugar para brincadeiras. Os garotos foram então para a cozinha fazer sanduíches.
Marco disse a Pedro:
– Não vou lhe mostrar a adega. Apesar de a canalização ter sido substituída, é muito úmida e cheira a mofo!
– É aqui que meu pai guarda os seus famosos quadros e sua coleção de moedas – disse Marco, entrando no imponente escritório do pai. E acrescentou, brincando: – Eu podia gastar o dinheiro que quisesse, porque meu pai o guarda na gaveta da secretária.
Havia três quartos no andar de cima. Marco mostrou a Pedro o closet de sua mãe, que estava cheio de casacos de pele, e era onde ela guardava o cofre de joias, sempre fechado a chave. No quarto das irmãs não havia nada de interessante, a não ser uma enorme televisão de LED, que Marco também costumava usar, de vez em quando.
Marco gabou-se de que o banheiro do corredor era só dele, porque havia sido feito outro, para as irmãs. Uma claraboia dava um belo efeito em seu quarto, mas via-se que o teto estava um pouco manchado, por causa da infiltração da água da chuva.
² De Pichert e Anderson, 1977. In: GIASSON, Jocelyne. A compreensão na leitura. Lisboa: ASA, 2002. Texto adaptado.


Ajustando o foco
Essa pequena narrativa faz parte de uma experiência que dois autores – Pichert e Anderson – propuseram a várias pessoas, para demonstrar a mudança de percepção e interpretação do leitor, de acordo com a intenção leitora.
Proponho agora que você, leitor/a, reproduza a experiência e, assim, comprove de modo particular, as várias leituras possíveis, segundo quem lê, e para que (com que objetivo/finalidade) lê.
Releia o texto, se achar necessário, e faça um exercício (de preferência, escrito) de imaginação:
  • Primeiro, descreva a casa em que estão os garotos, imaginando ser o vendedor do imóvel.
  •  Depois, faça o mesmo, mas do ponto de vista de um possível comprador da casa.
  •  Agora, imagine-se um ladrão, que ronda a casa com intenção de roubá-la. Quais os pontos que chamam mais sua atenção? Anote-os.


Comparando as anotações
Os três hipotéticos observadores – o corretor de imóveis, o comprador e o ladrão – certamente privilegiaram elementos diversos, em suas descrições. Como se vê, a luz que dirige a percepção para este ou aquele ponto nada mais é que a motivação particular do leitor...
Pensando nisso, não seria muito bom se coordenadores e professores levassem sempre em conta os interesses e necessidades verdadeiramente sentidas pelos alunos, ao lhes determinarem a leitura de textos ou livros? Fica a pergunta para nossa reflexão.
Um abraço.