quarta-feira, 29 de julho de 2015

Uma leitura da escola




Começo com uma pergunta: você, como leitor – e até, quem sabe, como escritor – já reparou que, para um texto cumprir sua função comunicativa, precisa haver um pacto inicial do escritor com seu escrever e com quem o lê? Trata-se, para o produtor do texto (escrito ou falado), de exprimir uma verdade interna, direcionada a um interlocutor determinado, e com palavras adequadas a esse interlocutor, de modo a promover o acordo ou compreensão desejada. Porque, se o acordo não existir ou for inconsistente, a função comunicativa tornar-se-á fraca ou inexistente.
Ainda que apenas intuitivamente, o produtor de uma fala ou escrita procura firmar/respeitar esse pacto, ou seja, busca a adesão do ouvinte ou leitor, escolhendo a melhor forma de fazer-se entender.
Não estou me referindo apenas a grandes obras ou textos superelaborados, não. Pense, por exemplo, nas palavras e no tom cuidadosamente pensado pelo filho, ao explicar aos pais que a mesada acabou antes do fim do mês; ou nas frases bem organizadas de um bilhete em que a mãe detalha uma receita culinária complicada à filha recém-casada; ou no cuidado com que um professor escolhe textos e modos de explicar à classe um novo conteúdo.
Tente, agora, aplicar o que ficou dito acima a outras formas de expressão humana: pintura, dança, música, escultura, obra arquitetônica. Verá que muito do que nos “toca” ou, ao contrário, deixa-nos indiferentes, tem origem nesse “ajuste” natural de toda comunicação. Assim, Picasso e o cubismo entusiasmam os amantes da arte inventiva e transformadora, mas podem desgostar aqueles que apreciam e/ou praticam a pintura clássica.
Peço, agora, que vá mais longe, e procure aplicar a mesma atitude leitora a qualquer instituição escolar que conheça. Sim, porque não lemos apenas livros e outras obras artísticas: lemos, também e primariamente, a realidade que nos cerca, como Paulo Freire ensinou tão bem¹; na verdade, lemos o mundo desde o nascimento, ou seja, muito antes da aprendizagem da leitura da palavra.
Pois bem, entremos no ambiente escola. Um bom observador faz sua leitura antes mesmo de andar pelos recintos, e desde a primeira olhadela. Explico, com uma comparação.
Numa livraria, ao escolher um livro, o pretenso leitor examina desde a capa (imagem, autor, editora), a orelha (sinopse), o índice (assuntos). Essa leitura prévia já lhe dá uma ideia do conteúdo. Se for a uma biblioteca ou sebo, então, “lerá” até na condição física do livro – capa, anotações extras –, sua história passada: se foi muito ou pouco manuseado, lido, cuidado.
Do mesmo modo, em uma primeiríssima leitura, o estado de muros, paredes, chão, materiais, consegue pôr à mostra histórias passadas e presentes e indiciar aspectos da “personalidade” do espaço educacional. Vou além: murais e cartazes – o que neles é dito, como é dito e quem diz – revelam níveis de competência de educadores e alunos, e, mesmo, denunciam autorias espúrias (a mão do professor fazendo pelo aluno, por exemplo).
Por outro lado, se quem visita a escola encontra espaços bem organizados, pátios silenciosos, cartazes imaculados... certamente chegará à compreensão de que está diante da escola ideal: correto?
Nem sempre!! O “leitor” de tal lugar, se ultrapassar a leitura de superfície e procurar ler “entre linhas”, poderá se perguntar: “Tanta perfeição, assim higienicamente exposta, é fruto de um grupo autônomo e amadurecido, ou resultado de medo e autoritarismo?”
A esta altura, creio não ser preciso falar muito da importância dessa leitura, uma vez que estamos falando de ambientes de desenvolvimento integral de crianças e jovens. Nem o quanto o comprometimento com a educação de qualidade pode se beneficiar desse olhar atento.
Se você é pai/mãe de aluno, ou se é estudante, alguma vez já se dispôs a “ler” o espaço físico de alguma escola? E saber se o que ele diz do cotidiano e de seus frequentadores é coerente com o que você efetivamente percebe e conhece?
O que estou querendo dizer: a escola X ou Y é o que aparenta ser? Enquanto produtor de educação e cultura, suas marcas visíveis correspondem às ações? Em que medida cumpre o que projeta, e como deixa o processo e os resultados chegarem ao seu público e à comunidade? São indagações que, pensadas coletiva e integradamente, levam à melhoria do processo educacional.
Portanto, ao entrar pela primeira vez (ou da próxima vez) em uma escola, procure interpretar mais amplamente o que seus sentidos captam. Porque, do mesmo modo que nosso mundo é nosso espelho – é o que fazemos dele –, a escola é o reflexo de seus integrantes, de suas ideias e ações.
¹ “...A leitura do mundo precede sempre a leitura da palavra e a leitura desta implica a continuidade da leitura daquele”. FREIRE, Paulo. A importância do ato de ler. Cortez, 1983.
 



Rubem Alves lê a Escola da Ponte
Deixo, ao terminar, trecho da leitura² que Rubem Alves fez da Escola da Ponte, em Portugal: sua percepção aguçada detectou aspectos preciosos, que o levaram a declarar seu amor pela instituição.
Vou contar um caso de amor. Amor à primeira vista. Eu me apaixonei pela Escola da Ponte. Bastou vê-la para que um passado reverberasse dentro de mim.
[,,,]
Dentro da escola
Andamos um pouco e a menina abriu a porta da escola. Era uma grande sala, com muitas mesinhas, crianças pequenas, crianças grandes, algumas com Síndrome de Down, todas juntas no mesmo espaço. Cada uma fazendo a sua coisa. Estantes com livros. Vários computadores. Algumas crianças lendo ou escrevendo. Outras consultando livros e a internet. Algumas professoras assentadas às mesinhas junto das crianças. Ninguém falava alto. Só sussurros. E ouvia-se, baixinho, música clássica.
[...]
Leis e direitos
Numa parede da escola se encontravam as “leis”. Mais importante que as leis era o fato de que elas tinham sido sugeridas e aprovadas pela assembleia de alunos. Aquele documento representava a vontade coletiva de crianças, professores e funcionários. Era o seu “pacto social” de convivência. Lembro-me de alguns itens. “Todas as pessoas têm o direito de dizer o que pensam sem medo.” “Ninguém pode ser interrompido quando está falando.” “Não se deve arrastar as cadeiras fazendobarulho.” O item que mais me comoveu e que é revelador da alma daquelas crianças foi esse: “Temos o direito de ouvir música enquanto trabalhamos, para pensar em silêncio”. Entendi, então, a razão da música clássica que se ouvia baixinho.
² ALVES, Rubem. O Desejo de Ensinar e a Arte de Aprender/Rubem Alves. - Campinas:
Fundação EDUCAR DPaschoal, 2004.


A você que me lê
Sugiro que considere essa pitada de Rubem Alves como a leitura de entrada (como se adentrasse uma escola...), o aperitivo para o texto integral do educador (Experiência: a Escola da Ponte, in O desejo de ensinar e a arte de aprender) que reputo precioso, em dois sentidos: enquanto informação sobre um projeto educacional inovador e corajoso, e enquanto escrita encantadora e sensível de um mestre.
Um abraço.

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