quarta-feira, 15 de julho de 2015

Sobre asas feridas

Desenho  de Manoel de Barros
Férias. As atividades escolares se aquietam, e nos espaços educacionais reina relativo silêncio. Hora de tomar distância, com pelo menos dois objetivos: um deles, avaliar projetos passados e organizar os futuros; o outro, despregar-se concretamente da realidade-escola, tomar novos ares... viajar, quem sabe?

Para mim, no instante presente, os dois objetivos se mesclam, e empreendo um movimento particular. Viajo “fora da asa”, como na poesia de Manoel de Barros, mas, paradoxalmente, bem abrigada dentro dela; com tempo de tatear/sentir cada traço, ondulação, textura da realidade “asa-escola” do contexto brasileiro, em que atuo.

Minha viagem se dá no tempo: revisito o espaço enevoado de uma experiência educacional antiga, e dela trago reflexões capazes de lançar alguma luz sobre o presente momento da educação.


No passado: asas feridas e vida apagada

Numa associação de amparo a famílias carentes, um grupo de crianças (de 7 a 14 anos) passava as manhãs em várias atividades. Todas se distribuíam, à vontade, em mesinhas para quatro pessoas; mas três delas, com mais de dez anos, ficavam em mesa separada e afastada, pois eram consideradas delinquentes e agressivas – especialmente M, a mais velha.

É nela que foco meu olhar: muito calada, sem fitar os outros de frente, M parecia não se importar com absolutamente nada. Em contrapartida, nas oficinas de expressão artística (e somente nelas), desenhava formas delicadas e paisagens amenas, sempre em cores suaves. Nesses momentos, seu corpo todo falava: o tronco e a cabeça se curvavam, para entregar-se ao papel, e os braços se arredondavam, como que o abraçando.

Nas audições de música, seu rosto era puro enlevo. Já nas danças, era mais difícil entregar-se, e delas quase não participava, mesmo perante o entusiasmo das duas companheiras “segregadas”. Não obstante, algumas vezes, chegava a ensaiar discretos e delicados movimentos. (Aliás, que fique bem claro: nas oficinas, o “espaço separado” tinha sido abolido desde o primeiríssimo momento.)

O certo é que, pouco a pouco, a partir de um único olhar compreensivo e amoroso, M logrou granjear a aceitação, compreensão e até apoio do grupo – que antes a ignorava, quando não a rejeitava e até temia. Por esse meio, logrou encontrar um pequeno, mas adequado refúgio para curar as feridas que a impediam de voar fora da própria casca.


No presente: asas danificadas de um ser complexo

Desenho  de Manoel de Barros
A pequena história, se fala de impedimentos, também dá conta de conquistas. Certamente, o espaço de atuação social dessa personagem era diminuto. Contudo, o que encanta é perceber que alguma determinação interior, conjugada à alma sensível, levou a jovem M a superar obstáculos e encontrar saídas – ali, no ambiente mesmo da interdição.

É tarefa do educador ver a Escola com olhos críticos e clínicos, a fim de analisar seus problemas e assegurar-lhe vida plena e dinâmica. Por isso, talvez, essa imagem de limitação e voz silenciada, bem como de superação e desempenho, apesar e além dos limites, toca-me como a imagem da própria instituição escolar.

Diz a psicóloga portuguesa Vera Mendes: A Escola está doente e urge por cuidados que lhe devolvam o sentido, a orientação e a dignidade própria”¹
Uma escola doente... como se fosse um ser vivo. Leitor, essa formulação parece-lhe estranha?

Talvez não seja. Afinal, suas peças estruturais são / representam legítimas células vitais – os seres humanos a ela ligados –, que por sua vez compõem órgãos funcionais e dinâmicos entrelaçados: o conjunto de profissionais, alunos, família, comunidade. Não é à toa que profissionais e demais interessados em educação, comumente, discutem as “doenças” desse organismo que, embora vivo, tem apresentado sinais de debilidade e disfunções preocupantes.

É desanimador constatar: nossas escolas, de algum modo deficientes, têm seu campo de ação diminuído, não encontram o caminho objetivo da produtividade e utilidade, estão, em sua maioria, segregadas das comunidades em que se estabelecem – e, por tudo isso, exibem arranhões e feridas, algumas sangrantes. De fato, elas pouco acrescentam às comunidades mais desassistidas, aos jovens (de todos os espaços) seduzidos pela droga e pelo crime, ao cidadão que não conhece seus direitos e deveres.

Em contraposição, o que a sociedade requer é a constituição de uma escola viva e saudável. Uma escola com corpo e alma, à semelhança dos seres humanos (pois constituído pelo conjunto deles), que se movimente com harmonia e objetividade, e alce voo em sincronia com o universo em que atua.

Como chegar a isso?


Transformando o presente: asas para uma escola viva

Sabemos: assim como há alunos segregados ou invisíveis, também existem escolas semiapagadas, afastadas de pessoas e grupos transformadores, sem dinâmica que lhes permita cumprir sua função social de formar cidadãos  integrados, atuantes e capazes de construir sua história e de sua comunidade.

Uma pessoa sábia disse um dia: – “ser humano é ser junto”; e julgo que posso aplicar a afirmação ao ideal de escola verdadeira e compromissada, que se humaniza por saber que humanizar-se é “ser junto” com cada um e todos, em todas as dimensões do organismo social. O desempenho afirmativo, especialmente quando as condições são adversas, é conquista coletiva, ancorada na vontade, determinação e paciência, porque não acontece de imediato.

Os poucos e parcos registros da menina M revelavam importantes lições, (embora de sabedoria mais intuitiva que lógica): reconhecer e aceitar a limitação e, a partir daí, agir com ela e apesar dela. Do mesmo modo, a nós, que nos preocupamos com os rumos educacionais, não resta, senão, ter paciência e compreensão com o corpo adoentado; e agir, cada um em seu limite, mas em ações agregadoras, capazes de multiplicar forças e alargar horizontes.

Muito além de meramente apontar o que não funciona, é essencial debruçarmo-nos sobre o organismo enfraquecido, abraçá-lo e aninhá-lo com nosso afeto e entendimento, procurando soluções curadoras que assegurem, ainda que a passos inseguros, o espaço de desenvolvimento para o ser vivente Escola.


Desenho  de Manoel de Barros


Reinventar-se

Escola viva pressupõe enlaçar tempos, espaços e pessoas. Supõe educação em contínuo refazer-se, sem desaprender o passado; renovar-se, sem perder de vista a razão e a emoção. Escola viva é ciência e arte...

Por isso mesmo, dou a palavra final aos poetas, mestres da invenção e da mudança. Que Manoel de Barros e Cecília Meireles nos façam voar na asa e fora da asa, de forma que o afeto tempere a razão e ensine a nós, educadores (da escola e de fora dela), os segredos de bons e compartilhados voos. 


Reinvenção

A vida só é possível
reinventada.

Anda o sol pelas campinas
e passeia a mão dourada
pelas águas, pelas folhas…
Ah! tudo bolhas
que vêm de fundas piscinas
de ilusionismo… – mais nada.

Mas a vida, a vida, a vida,
a vida só é possível
reinventada.
[...]

MEIRELES, Cecília, de Vaga Música. Disponível em: http://www.antoniomiranda.com.br/Brasilsempre/cecilia_meireles.html



As lições de R. Q.

Aprendi com Rômulo Quiroga (um pintor boliviano):
A expressão reta não sonha.
Não use o traço acostumado.
A força de um artista vem das suas derrotas.
Só a alma atormentada pode trazer para a voz um
formato de pássaro.
Arte não tem pensa:
O olho vê, a lembrança revê, e a imaginação transvê.
É preciso transver o mundo.
Isto seja:
Deus deu a forma. Os artistas desformam.
É preciso desformar o mundo:
Tirar da natureza as naturalidades.
Fazer cavalo verde, por exemplo.
Fazer noiva camponesa voar - como em Chagall.
[...]

BARROS, Manoel. Livro sobre Nada. Rio de janeiro:Record, 2001.
(Os desenhos desta matéria são, também, de autoria do poeta.)

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