domingo, 17 de maio de 2015

Vale tudo em matéria de língua?


Diz o linguista Marcos Bagno (grifo meu):
...o dilema relativo à norma culta se prende ao fato de que esse termo é usado pela tradição gramatical conservadora para designar uma modalidade de língua que [...] não corresponde à língua efetivamente usada pelas pessoas cultas do Brasil nos dias de hoje, mas sim a um ideal linguístico inspirado no português de Portugal, nas opções estilísticas dos grandes escritores do passado, nas regras sintáticas que mais se aproximem dos modelos da gramática latina, ou simplesmente no gosto pessoal do gramático.
Bagno tem toda a razão: não é apenas em família ou com amigos que usamos uma linguagem diferente da preconizada pela assim chamada “norma culta da língua”. Em reuniões de executivos, em assembleias de professores ou deputados, em círculos formados em clubes – por mais sofisticados que sejam – a linguagem toma, com maior ou menor frequência, um atalho mais livre e descontraído que o caminho linguístico oficial / formal dos tribunais, dos compêndios científicos e das academias universitárias. E nem ao menos somos poetas...
O que isso significa? Que somente em raras ou esparsas ocasiões nós nos servimos da língua “de fraque e cartola”. Ao contrário, a linguagem “de roupa esportiva” é a que nos serve na maioria das situações da vida pessoal e profissional, variando desde o mais ou menos formal “esporte fino” até o absolutamente livre “esporte praia”.
A verdade é uma só: a linguagem é expressão do ser humano, com todas as suas intenções, feições, predileções, variedades e culturas. Sendo assim, do mesmo modo como o cidadão precisa acolher a diversidade social e cultural, aceitar e abraçar todos os nichos, guetos e preferências, conviver com igualdades e diferenças – deve conhecer e se aproximar das variedades linguísticas que os traduzem.
E a escola, que tem como missão desenvolver a cidadania e o conviver competente em sociedade, não pode fechar os olhos à variedade e riqueza das muitas línguas dentro da língua. Compreender a língua é compreender o povo, grupo ou comunidade que dela faz uso.
Então vale tudo, em matéria de língua? A resposta é de Bagno:
Não é bem assim. Na verdade, em termos de língua, tudo vale alguma coisa, mas esse valor vai depender de uma série de fatores. Falar gíria vale? Claro que vale: no lugar certo, no contexto adequado, com as pessoas certas. E usar palavrão? A mesma coisa.
Uma das principais tarefas do professor de língua é conscientizar seu aluno de que a língua é como um grande guarda-roupa, onde é possível encontrar todo tipo de vestimenta. Ninguém vai só de maiô fazer compras num shopping center, nem vai entrar na praia, num dia de sol quente, usando terno de lã, chapéu de feltro e luvas...
Usar a língua, tanto na modalidade oral como na escrita, é encontrar o ponto  de  equilíbrio  entre  dois  eixos: o da adequabilidade e o da aceitabilidade
Ou seja, vale, aqui e sempre, o bom senso. As aulas de Língua Portuguesa têm como objetivo fundamental ampliar a capacidade comunicativa do aluno – sua competência para “falar, ouvir, ler e escrever textos fluentes, adequados e socialmente relevantes”, como ensina a doutora em Linguística, Irandé Antunes.
Esse objetivo inclui o ensino da norma culta, mas não se restringe a ela, uma vez que deve abranger a diversidade de usos em função das necessidades comunicativas nas múltiplas situações de interação social – desde escrever um bilhete para o filho, até elaborar um currículo, redigir uma monografia, ou proferir um discurso em uma instituição pública.
Para terminar, amenizando (e complementando) reflexão tão séria, trago um saboroso poema de Zé da Luz, falando de amor em “português incorreto”, que faz pensar na sábia advertência de Bagno:
Respeitar a variedade linguística de toda e qualquer pessoa [...] equivale a respeitar a integridade física e espiritual dessa pessoa como ser humano, porque a língua permeia tudo, ela nos constitui enquanto seres humanos. Nós somos a língua que falamos. A língua que falamos molda nosso modo de ver o mundo e nosso modo de ver o mundo molda a língua que falamos.¹
¹BAGNO, Marcos. Preconceito linguístico. Disponível em http://files.comunidades.net/ramalde/marcosbagnopreconceitolinguistico100619193317phpapp01.pdf


Ai Se Sesse
Apreciem, no vídeo, a sensibilidade e beleza de duas linguagens: a do poeta Zé da Luz e a do xilogravurista e cordelista J. Borges.

Se um dia nois se gostasse
Se um dia nois se queresse
Se nois dois se empareasse
Se juntim nois dois vivesse
Se juntim nois dois morasse
Se juntim nois dois drumisse
Se juntim nois dois morresse
Se pro céu nois assubisse
Mas porém acontecesse
de São Pedro não abrisse
a porta do céu e fosse te dizer qualquer tulice
E se eu me arriminasse
E tu cum eu insistisse
pra que eu me arresolvesse
E a minha faca puxasse
E o bucho do céu furasse
Tarvês que nois dois ficasse
Tarvês que nois dois caísse
E o céu furado arriasse
e as virgi todas fugisse
[Disponível em: http://letras.mus.br/cordel-do-fogo-encantado/78514/]

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