sexta-feira, 8 de maio de 2015

Qual é a dessa língua?



Peço que leiam estes dois textos, de tempos e linguajares diferentes: o primeiro, provavelmente dos Racionais Mc's; o segundo, de Adoniran Barbosa.

Dicionário dos manos
Mano não vai embora, vaza.
Mano não briga, arranja treta.
Mano não bebe, chapa o coco.
Mano não cai, toma um capote.
Mano não entende, se liga.
Mano não passeia, dá um rolé.
Mano não come, ranga.
Mano não entra, cai pra dentro.
Mano não fala, troca ideia.
[..]
Mano não faz algo legal, faz umas parada firmeza.
Mano não é gente , é mano.
E para finalizar: “Sangue na veia de mano não corre... tira racha”.
CERTO, MANO?!
Disponível em: http://blogdaprofveral4.blogspot.com.br/2011/02/dialetos-sociais.html. (Há certa dúvida quanto à autoria da letra, que não consegui esclarecer.)

Iracema
Iracema, eu nunca mais eu te vi
Iracema meu grande amor foi embora
Chorei, eu chorei de dor porque
Iracema, meu grande amor foi você.
[...]
– Iracema, fartava vinte dias pra o nosso casamento
Que nóis ia se casar
Você atravessou a São João
Veio um carro, te pega e te pincha no chão
Você foi para Assistência, Iracema
O chofer não teve curpa, Iracema
Paciência, Iracema, paciência
[...]
Disponível em: http://www.vagalume.com.br/adoniran-barbosa/iracema.html. (Esta é a letra disponível em muitos sites. Adoniran canta um pouco diferente.)

Sendo – ou supondo ser – professor, você vê razão para tais textos, em aula de Língua Portuguesa? Julga-os aceitáveis? Sim, não, em que circunstâncias?
Uma coisa é certa: eles estão em desacordo com várias normas da gramática convencional. Há palavras que fogem aos padrões da escrita, há falta de concordância nominal e verbal... Em sua opinião, uma proposta que leve o aluno a escrever “como se fala”, ou no dialeto de alguma região ou grupo social, prejudica a aprendizagem da língua portuguesa?
Muito se debate, hoje, sobre o certo e errado em questão da Língua (que deveria ser) ensinada nas escolas; é discussão frequente nos meios educacionais, e muitas vezes encampada pela mídia e por pais (zelosos, normalmente, pelo que aprenderem em seus tempos). Por isso, o meu convite para uma reflexão conjunta sobre a questão.
Para começar, de que realmente se trata, quando se argumenta contra ou a favor de que se ensine certo tipo de linguagem não “ortodoxa”? É, mesmo, só a questão da língua que está em jogo?
E a escola, de que trata? De que deveria tratar? Qual deveria ser seu objetivo, em termos de ensino-aprendizagem da língua materna?
Os que se voltam contra a linguagem informal em instituições de ensino, reclamam: se o papel da escola é ensinar a língua padrão, por que acolher outras linguagens? Para fortalecer tal ponto de vista, basta examinar a maioria dos livros didáticos, bem como as gramáticas de maior prestígio, que priorizam as normas estabelecidas da assim chamada língua culta (a dos literatos e da elite cultural do país) como guias do saber linguístico.
Tal posição pode ser contraditada com outras perguntas, que provocam e ampliam a discussão reflexiva: será a língua padrão, registrada nos compêndios gramaticais adotados por inúmeras escolas, o único objetivo, quando se pensa no ensino-aprendizagem da língua? Mais que isso, o que está nas gramáticas é a língua real, deste século XXI?
O linguista Marcos Bagno, com significativas metáforas, afirma que a língua em uso é maior do que aquela das gramáticas:
A língua é um enorme iceberg flutuando no mar do tempo, e a gramática normativa é a tentativa de descrever apenas uma parcela mais visível dele, a chamada norma culta.”
“Uma receita de bolo não é um bolo, o molde de um vestido não é um vestido, um mapa-múndi não é o mundo... Também a gramática não é a língua.”
“Enquanto a língua é um rio caudaloso, longo e largo, que nunca se detém em seu curso, a gramática normativa é apenas um igapó, uma grande poça de água parada, um charco, um brejo, um terreno alagadiço, à margem da língua. Enquanto a água do rio/língua, por estar em movimento, se renova incessantemente, a água do igapó/gramática normativa envelhece e só se renovará quando vier a próxima cheia.”¹ 
Pois é... Parece que, ao recusarmos outros dizeres, distantes da linguagem preconizada pelas gramáticas mais conhecidas, nós é que nos distanciamos... da vida. Porque, se pensarmos com cuidado, detectaremos que há uma gramática da vida: seres e coisas, com suas qualificações / feições, ações, estados e inter-relações. E que essa não é uma gramática estática, pois, no universo, tudo é dinâmico e se articula, e nessa articulação adquire significado; tudo tem a possibilidade de nascer e desaparecer, mudar no tempo e espaço, transformar-se.
Pois bem, o ser humano exprime o que sente, pensa, vive, por meio de várias linguagens – principalmente pela mais complexa e universal dentre elas: a verbal. Daí a gramática das palavras, que nada mais é que o modo como se articulam as letras em palavras, as palavras em frases, as frases em parágrafos, os parágrafos em textos – que expressam aquela gramática da vida: a profusa e mutante visão de mundo dos seres e lhes permitem trocas significativas com seus muitos e diferentes interlocutores, em muitas e diferentes situações.
Se assim é, como desprezar o “rio caudaloso, longo e largo, que nunca se detém em seu curso”, e se deter em “poça de água parada”, em matéria de linguagem? Seria o mesmo que aceitar apenas alguns poucos grupos sociais fechados e rejeitar toda a rica diversidade que compõe uma sociedade.
Por outro lado, para assumir sua missão de integrar-se e integrar a comunidade escolar ao tempo e espaço em que vive, compartilhando e ampliando experiências, a escola precisa dar a conhecer o maior número possível de modos de pensar, dizer, viver. Fazendo isso, estará protagonizando o combate ao preconceito (de toda espécie), tantas vezes gerador de incompreensões, dissensões e até violência.
De mais a mais, aí estão os prosadores e poetas, simultaneamente guardadores do patrimônio linguístico e renovadores das riquezas de uma língua, a nos instigar  rumo ao novo e ao diverso.
Por exemplo, Drummond:
No meio do caminho tinha uma pedra
tinha uma pedra no meio do caminho
tinha uma pedra
no meio do caminho tinha uma pedra.

Nunca me esquecerei desse acontecimento
na vida de minhas retinas tão fatigadas.
Nunca me esquecerei que no meio do caminho
tinha uma pedra
tinha uma pedra no meio do caminho
no meio do caminho tinha uma pedra.
ANDRADE, Carlos Drummond de. Antologia Poética. Rio de Janeiro: Ed. do Autor, 1963.

E Manoel de Barros:
As coisas tinham para nós uma desutilidade poética.
Nos fundos do quintal era muito riquíssimo o nosso dessaber.
A gente inventou um truque pra fabricar brinquedos com palavras.
O truque era só virar bocó.
Como dizer: Eu pendurei um bentevi no sol...
[...]
BARROS, Manoel de. Livro sobre nada. Rio de Janeiro: Record, 2000.

Ah!, se fosse “redação” de aluno... No entanto, como já ensinava a Dona Etimologia, nos idos tempos de Lobato:
Uma língua não para nunca. Evolui sempre, isto é, muda sempre. Há certos gramáticos que querem fazer a língua parar num certo ponto, e acham que é erro dizermos de modo diferente do que diziam os clássicos. [...] Mas isso é curteza de vistas. Esses homens foram bons escritores “no seu tempo”. Se aparecessem agora, seriam os primeiros a mudar, ou a adotar a língua de hoje, para “serem entendidos”.²
É o caso dos autores que registrei acima, bem como o de Luis Fernando Verissimo, na crônica divertida e sutilmente crítica que registro em seguida.
Mas não quero terminar sem perguntar a você, que me acompanhou nestes comentários: o que pensa de tudo isso? O que tem a dizer sobre o assunto? Gostaria muito de saber sua opinião!
¹BAGNO, Marcos. Preconceito linguístico. Disponível em http://files.comunidades.net/ramalde/marcosbagnopreconceitolinguistico100619193317phpapp01.pdf 
²LOBATO, Monteiro. Emília no país da gramática.São Paulo: Ed. Brasiliense, 1977.



PAPOS, de Verissimo
– Me disseram...
– Disseram-me
– Hein?
– O correto é ‘disseram-me’. Não ‘me disseram’.
– Eu falo como quero. E ti digo mais... Ou ‘digo-te’?
– O quê?
– Digo-te que você...
– O ‘te’ e o ‘você’ não combinam.
– Lhe digo?
–Também não. O que você ia me dizer?
– Que você está sendo grosseiro, pedante e chato. E que vou te partir a cara. Lhe partir a cara. Partir a sua cara. Como é que se diz?
– Partir-te a cara.
– Pois é. Partir-la- hei de, se você não parar de me corrigir. Ou corrigir-me.
– É para o seu bem.
– Dispenso as suas correções. Vê se esquece-me. Falo como bem entender. Mas uma correção e eu...
– O quê?
– O mato.
– Que mato?
– Mato-o. Mato-lhe. Mato você. Matar- lhe- ei- te. Ouviu bem?
– Eu só estava querendo...
– Pois esqueça- o e para- te. Pronome no lugar certo é elitismo!
– Se você prefere falar errado...
– Falo como todo mundo fala. O importante é me entenderem. Ou entenderem-me?
– No caso... Não sei.
– Ah, não sabes? Não o sabes? Sabes-lo não?
– Esquece.
– Não. Como ‘esquece’? Você prefere falar errado? E o certo é “esquece” ou “esqueça”? Ilumine-me. Me diga. Ensines-lo-me, vamos.
– Depende.
– Depende. Perfeito. Não o sabes. Ensinar-me-lo-ias se o soubesses, mas não sabes-o.
– Está bem, está bem. Desculpe. Fale como quiser.
– Agradeço-lhe a permissão para falar errado que me dás. Mas não posso mais dizer-lo-te o que dizer-te-ia.
– Por quê?
– Porque, com todo esse papo, esqueci-lo.
VERÍSSIMO, Luis Fernando. Comédias para se ler na escola. Porto Alegre: Objetiva, 2001.

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