quinta-feira, 16 de abril de 2015

Entre veias e abraços


Eduardo Galeano, falecido no dia 13 deste mês de abril, é, sem dúvida, mais conhecido por seu livro As Veias Abertas da América Latina, em que denuncia a opressão do mundo latino-americano e “o sistema internacional de poder [que] faz com que a riqueza continue se alimentando da pobreza alheia” (palavras suas).
No entanto, visto que o próprio escritor, em autocrítica bem-humorada, chegou a dizer que “cairia dormindo” se o relesse, ouso afirmar que ele ficaria feliz ao ser lembrado por algo mais leve, como seu Livro dos Abraços, de 1991. Mas que não se julgue a obra apenas pelo título afetuoso e pelas histórias e cenas curtas, frutos da combinação entre observação da realidade e recriação pela fantasia.
As historietas, embora acolhedoras pelo tom poético e personagens singelos, cutucam e levam o leitor a aguçar os olhos e a consciência, para enxergar em profundidade temas aparentemente fáceis e amenos. Pelas linhas escorrem, como que aleatoriamente e sem compromisso, ideias relevantes sobre política e sociedade, arte e leitura, percepções e sentimentos.
Trago, a seguir, uma pequena amostra da obra.¹
¹ GALEANO, Eduardo. O Livro dos abraços. Trad. Eric Nepomuceno. Porto Alegre: L&PM, 2002. Disponível em
http://www.anarquista.net/wp-content/uploads/2013/03/O-Livro-dos-Abra%C3%A7os-Eduardo-Galeano.pdf

A função da arte/1
[Os olhos do menino são os do artista, a revelar a beleza (por vezes ignorada) da realidade. Reparem na intensidade: da repetição (tanto, tanta), de sentidos (mudo de beleza) e da fala final, síntese do texto.]
Diego não conhecia o mar. O pai, Santiago Kovadloff, levou-o para que descobrisse o mar. Viajaram para o Sul. Ele, o mar, estava do outro lado das dunas altas, esperando.
Quando o menino e o pai enfim alcançaram aquelas alturas de areia, depois de muito caminhar, o mar estava na frente de seus olhos. E foi tanta a imensidão do mar, e tanto seu fulgor, que o menino ficou mudo de beleza.
E quando finalmente conseguiu falar, tremendo, gaguejando, pediu ao pai: – Me ajuda a olhar!

A função do leitor/1
[Em Lúcia, cada leitor poderá se ver representado; pois, muitas vezes, é assim quando um livro nos marca: ele se torna nosso segredo e segue conosco por várias trilhas, transformando nossa vida e transformando-se dentro de nós. Negritei algumas pistas, que a sensibilidade do leitor certamente traduzirá em sentidos.]
Quando Lúcia Peláez era pequena, leu um romance escondida. Leu aos pedaços, noite após noite, ocultando o livro debaixo do travesseiro. Lúcia tinha roubado o romance da biblioteca de cedro onde seu tio guardava os livros preferidos.
Muito caminhou Lúcia, enquanto passavam-se os anos. Na busca de fantasmas caminhou pelos rochedos sobre o rio Antioquia, e na busca de gente caminhou pelas ruas das cidades violentas.
Muito caminhou Lúcia, e ao longo de seu caminhar ia sempre acompanhada pelos ecos daquelas vozes distantes que ela tinha escutado, com seus olhos, na infância.
Lúcia não tornou a ler aquele livro. Não o reconheceria mais. O livro cresceu tanto dentro dela que agora é outro, agora é dela.

Celebração da fantasia
[Deste relato, destaco o final (desde “E então, no meio daquele alvoroço”), que é responsável pela elevação da temperatura lírica e emotiva do texto e  ajuda o leitor a inferir com maior clareza seu sentido, desde o título. A não deixar de perceber o sensível componente social da pequena história.]
Foi na entrada da aldeia de Ollantaytambo, perto de Cuzco. Eu tinha me soltado de um grupo de turistas e estava sozinho, olhando de longe as ruínas de pedra, quando um menino do lugar, esquelético, esfarrapado, chegou perto para me pedir que desse a ele de presente uma caneta. Eu não podia dar a caneta que tinha, porque estava usando-a para fazer sei lá que anotações, mas me ofereci para desenhar um porquinho em sua mão. Subitamente, correu a notícia. E de repente me vi cercado por um enxame de meninos que exigiam, aos berros, que eu desenhasse em suas mãozinhas rachadas de sujeira e frio, pele de couro queimado: havia os que queriam um condor e uma serpente, outros preferiam periquitos ou corujas, e não faltava quem pedisse um fantasma ou um dragão.
E então, no meio daquele alvoroço, um desamparadozinho que não chegava a mais de um metro do chão, mostrou-me um relógio desenhado com tinta negra em seu pulso:
– Quem mandou o relógio foi um tio meu, que mora em Lima – disse.
– E funciona direito? – perguntei.
– Atrasa um pouco – reconheceu.

A dignidade da arte
[Embora sem abandonar a sensibilidade artística, o Galeano-ativista assoma com mais clareza neste depoimento. O texto vale, mesmo, por uma profissão de fé, em que o escritor reafirma sua arte enquanto valor estético, ético, social e político – profundamente humano, enfim.]
Eu escrevo para os que não podem me ler. Os de baixo, os que esperam há séculos na fila da história, não sabem ler ou não tem com o quê. Quando chega o desânimo, me faz bem recordar uma lição de dignidade da arte que recebi há anos, num teatro de Assis, na Itália. Helena e eu tínhamos ido ver um espetáculo de pantomima, e não havia ninguém. Ela e eu éramos os únicos espectadores. Quando a luz se apagou, juntaram-se a nós o lanterninha e a mulher da bilheteria. E, no entanto, os atores, mais numerosos que o público, trabalharam naquela noite como se estivessem vivendo a glória de uma estreia com lotação esgotada. Fizeram sua tarefa entregando-se inteiros, com tudo, com alma e vida; e foi uma maravilha.
Nossos aplausos ressoaram na solidão da sala. Nós aplaudimos até esfolar as mãos.

O adeus dos sonhos
[Quase ao final, sinto-me tentada a transcrever um minitexto sobre a personagem Helena,  recorrente no livro e nome de sua mulher: não será coincidência... Ora, se trocarmos “Helena” por “Galeano”, poderemos imaginar o recente adeus desse escritor idealista, perseguidor de sonhos e utopias, acenando (não “com um lencinho”, mas) com as mãos de veias latino-americanas. Ou, quem sabe, fazendo o gesto de um abraço.]
Os sonhos iam viajar. Helena ia até a estação do trem. Da plataforma, dizia adeus aos sonhos com um lencinho.

Os Ninguéns
Finalizo com um dos textos mais conhecidos e, em minha opinião, um dos mais fortes do Livro dos Abraços.
Será que você, leitor, concordará comigo?




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