domingo, 8 de março de 2015

Poemas da mulher, por Cecília Meireles

Por Cecília Meireles
Atuante em múltiplos papéis, corajosa e perseverante, Cecília Meireles é um bom exemplo da mulher que trilha seu caminho com coragem.
Como escreve Maria Valdenia da Silva,
“vivendo uma época em que a mulher ainda não havia conquistado os espaços que hoje usufrui, Cecília conseguiu adentrar no restrito mundo da intelectualidade brasileira dos anos 20 e 30 do século XX, publicando seus livros, exercendo o magistério, inclusive em Universidades, e atuando como jornalista em diversos jornais do Rio de Janeiro e de São Paulo. Nas décadas seguintes, a escritora consolida seu nome no cenário das letras e da cultura brasileira, sendo convidada para conferências em diversos países [...]”. ¹

Cecília foi professora, jornalista, pintora. Pesquisou e incentivou o folclore, tendo feito uma série de desenhos retratando a cultura negra. Enquanto escritora, dedicou-se não apenas à poesia, mas também ao teatro, à crônica, aos ensaios, às conferências, aos livros didáticos e às traduções. Seu constante interesse pela educação levou-a a organizar a primeira biblioteca infantil do Rio de Janeiro (e do país), além de batalhar pela renovação da educação brasileira.
Sua vida, desde cedo marcada por acontecimentos dolorosos, forneceu-lhe experiências marcantes, que se refletiram em seu olhar poético. É ela quem diz:
“Nasci aqui mesmo no Rio de Janeiro, três meses depois da morte de meu pai, e perdi minha mãe antes dos três anos. Essas e outras mortes ocorridas na família acarretaram muitos contratempos materiais, mas, ao mesmo tempo, me deram, desde pequenina, uma tal intimidade com a Morte que docemente aprendi essas relações entre o Efêmero e o Eterno.
[...] Minha infância de menina sozinha deu-me duas coisas que parecem negativas, e foram sempre positivas para mim: silêncio e solidão. Essa foi sempre a área de minha vida. Área mágica, onde os caleidoscópios inventaram fabulosos mundos geométricos, onde os relógios revelaram o segredo do seu mecanismo, e as bonecas o jogo do seu olhar. Mais tarde foi nessa área que os livros se abriram, e deixaram sair suas realidades e seus sonhos, em combinação tão harmoniosa que até hoje não compreendo como se possa estabelecer uma separação entre esses dois tempos de vida, unidos como os fios de um pano. "²
Sua poesia é vária: dela se pode dizer, usando seu próprio verso: “Tenho fases como a lua”... Fases, tons, matizes, alguns dos quais podem ser observados nos textos que selecionei.
Para delimitar o campo, procurei pelos que apontam para aspectos da condição feminina. Sobre eles, teço breves comentários, sem a pretensão de esgotar a análise de obras impregnadas de poesia e de plurissignificados.

Mulher ao espelho
Perfeitamente aplicável ao nosso tempo, o poema faz denúncia do estereótipo e da beleza física – perseguida a qualquer custo, a ponto de comprometer a própria essência do indivíduo: “seja qual for, estou morta”.
Observem como, na terceira estrofe, o eu lírico submete-se às convenções, rende-se às aparências e à moda inconstante (assinalada na 2ª estrofe), pois que estas, afinal, abarcam tudo: “tudo é tinta”.
A ideia de deterioração continua até o fim. Na estrofe derradeira, marcada por sutil ironia, a beleza deslumbrante é claramente manifestada como sacrifício, equiparando-se ao da cruz.

Hoje que seja esta ou aquela,
pouco me importa.
Quero apenas parecer bela,
pois, seja qual for, estou morta.

Já fui loura, já fui morena,
já fui Margarida e Beatriz.
Já fui Maria e Madalena.
Só não pude ser como quis.

Que mal faz, esta cor fingida
do meu cabelo, e do meu rosto,
se tudo é tinta: o mundo, a vida,
o contentamento, o desgosto?

Por fora, serei como queira
a moda, que me vai matando.
Que me levem pele e caveira
ao nada, não me importa quando.

Mas quem viu, tão dilacerados,
olhos, braços e sonhos seus
e morreu pelos seus pecados,
falará com Deus.

Falará, coberta de luzes,
do alto penteado ao rubro artelho.
Porque uns expiram sobre cruzes,
outros, buscando-se no espelho.

[http://www.scielo.br/scielo.php?pid=S0104-83332006000200013&script=sci_arttext]

Inscrição
Neste poema, ao contrário do anterior, o elemento feminino se afirma, proclama sua força e independência, apesar das adversidades.
A notar as duas interrogações: a inicial, indiciando o inominável inimigo oculto; e a final, de tipo diverso, pois vale por uma afirmação: o eu poético descarta a submissão às agruras, que são finitas – enquanto ele se diz infinito.

Quem se deleita em tornar minha vida impossível
por todos os lados?
Certamente estás rindo de longe,
ó encoberto adversário!

Mas a minha paciência é mais firme
que todas as sanhas da sorte:
mais longa que a vida, mais clara
que a luz no horizonte.

Passeio no gume de estradas tão graves
que afligem o próprio inimigo.
A mim, que me importam espécies de instantes,
se existo infinita?

[http://midia.unit.br/enfope/2013/GT7/CECILIA_MEIRELES_INQUIETACOES_DECEPCOES_E_CONTRIBUICOES_PARA_UMA_ESCOLA_NOVA.pdf]

Prisão
O terceiro poema é verdadeiro libelo contra a opressão feminina. A constatação da falta de liberdade universal da mulher (em outras palavras, sua pouca ou nenhuma emancipação histórica / social) concretiza-se pela multiplicação de prisões – quatro, quarenta, quatrocentos, quatro mil – e pela diversidade de cárceres e de motivos para o encarceramento.
Na última (e mais longa) estrofe, a sensação de isolamento absoluto chega ao auge. Reparem no angustiante acúmulo de expressões negativas e na impossibilidade total de socorro, uma vez que as mulheres são “presas por outros e por si mesmas,/ tão presas que ninguém as solta”.
Ao final, como diz Maria Lúcia Dal Farra,
o poema desemboca [...] numa zona de aridez e de infertilidade absolutas no que diz respeito ao feminino, pois que essas mulheres foram levadas à incomunicabilidade total, visto que ‘nem o rubro galo do sol’ e ‘nem a andorinha azul da lua’ são capazes de transportar qualquer recado a elas. Não há escapatória alguma, pelo menos não há nada de que o nosso vasto mundo disponha e que possa lhes oferecer a fim de evitar que penetrem definitivamente na mudez e na solidão. Não há dia, não há noite, não há mensageiros – não há voz que as alcance.”³

Nesta cidade
quatro mulheres estão no cárcere.
Apenas quatro.
Uma na cela que dá para o rio,
outra na cela que dá para o monte,
outra na cela que dá para a igreja
e a última na do cemitério
ali embaixo.

Apenas quatro.

Quarenta mulheres noutra cidade,
quarenta, ao menos,
estão no cárcere.

Dez voltadas para as espumas,
dez para a lua movediça,
dez para pedras sem resposta,
dez para espelhos enganosos.

Em celas de ar, de água, de vidro
estão presas quarenta mulheres,
quarenta ao menos, naquela cidade.

Quatrocentas mulheres
quatrocentas, digo, estão presas:
cem por ódio, cem por amor,
cem por orgulho, cem por desprezo
em celas de ferro, em celas de fogo,
em celas sem ferro nem fogo, somente
de dor e silêncio,
quatrocentas mulheres, numa outra cidade,
quatrocentas, digo, estão presas.

Quatro mil mulheres, no cárcere,
e quatro milhões – e já nem sei a conta,
em cidades que não se dizem,
em lugares que ninguém sabe,
estão presas, estão para sempre
– sem janela e sem esperança,
umas voltadas para o presente,
outras para o passado, e as outras
para o futuro, e o resto – o resto,
sem futuro, passado ou presente,
presas em prisão giratória,
presas em delírio, na sombra,
presas por outros e por si mesmas,
tão presas que ninguém as solta,
e nem o rubro galo do sol
nem a andorinha azul da lua
podem levar qualquer recado
à prisão por onde as mulheres
se convertem em sal e muro.

[http://www.scielo.br/scielo.php?pid=S0104-83332006000200013&script=sci_arttext]

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¹ SILVA, Maria Valdenia da. As crônicas de Cecília Meireles: um projeto estético e pedagógico. Dispon. em http://www.cchla.ufpb.br/ppgl/wp-content/uploads/2012/11/images_MariaValdenia.pdf

² Entrevista concedida a Fagundes de Meneses, para a revista Manchete, 1953. Disponível em: http://www.releituras.com/cmeireles_bio.asp

³ DAL FARRA, Maria Lúcia. Cecília Meireles: imagens femininas. Dispon. em:
http://www.scielo.br/scielo.php?pid=S0104-83332006000200013&script=sci_arttext


Um pouco mais de Cecília
Para amenizar imagens verbais tão fortes, encerro com este vídeo, que traz um figura de mulher bem diversa: a mulher-menina, a pequena bailarina.


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