sábado, 21 de março de 2015

“Minhas Férias”: o aguçado olhar do cronista

Certas situações das aulas de Língua Portuguesa, comentadas frequentemente por professores – aceitação ou não do linguajar “incorreto” do aluno, temas de "redação" desligados da realidade da classe –, fizeram-me relembrar uma crônica de Luis Fernando Verissimo que, a propósito, simula uma redação escolar.
Quero dividi-la e comentá-la com você, leitor.


Minhas Férias
Eu, minha mãe, meu pai, minha irmã (Su) e meu cachorro (Dogman) fomos fazer camping. Meu pai decidiu fazer camping este ano porque disse que estava na hora de a gente conhecer a natureza de perto, já que eu, a minha irmã (Su) e o meu cachorro (Dogman) nascemos em apartamento, e, até os 5 anos de idade, sempre que via um passarinho numa árvore, eu gritava “aquele fugiu!” e corria para avisar um guarda; mas eu acho que meu pai decidiu fazer camping depois que viu o preço dos hotéis, apesar de a minha mãe avisar que, na primeira vez que aparecesse uma cobra, ela voltaria para casa correndo, e a minha irmã (Su) insistir em levar o toca-discos e toda a coleção de discos dela, mesmo o meu pai dizendo que aonde nós íamos não teria corrente elétrica, o que deixou minha irmã (Su) muito irritada, porque, se não tinha corrente elétrica, como ela ia usar o secador de cabelo? Mas eu e o meu cachorro (Dogman) gostamos porque o meu pai disse que nós íamos pescar, e cozinhar nós mesmos o peixe pescado no fogo, e comer o peixe com as mãos, e se há uma coisa que eu gosto é confusão. Foi muito engraçado o dia em que minha mãe abriu a porta do carro bem devagar, espiando embaixo do banco com cuidado e perguntando “será que não tem cobra?”, e o meu pai perdeu a paciência e disse “entra no carro e vamos embora”, porque nós ainda nem tínhamos saído da garagem do edifício. Na estrada tinha tanto buraco que o carro quase quebrou, e nós atrasamos, e quando chegamos ao local do camping já era noite, e o meu pai disse “este parece ser um bom lugar, com bastante grama e perto da água”, e decidimos deixar para armar a barraca no dia seguinte e dormir dentro do carro mesmo; só que não conseguimos dormir porque o meu cachorro (Dogman) passou a noite inteira querendo sair do carro, mas a minha mãe não deixava abrirem a porta, com medo de cobra; e no dia seguinte tinha a cara feia de um homem nos espiando pela janela, porque nós tínhamos estacionado o carro no quintal da casa dele, e a água que o meu pai viu era a piscina dele e tivemos que sair correndo. No fim conseguimos um bom lugar para armar a barraca, perto de um rio. Levamos dois dias para armar a barraca, porque a minha mãe tinha usado o manual de instruções para limpar umas porcarias que o meu cachorro (Dogman) fez dentro do carro, mas ficou bem legal, mesmo que o zíper da porta não funcionasse e para entrar ou sair da barraca a gente tivesse que desmanchar tudo e depois armar de novo. O rio tinha um cheiro ruim, e o primeiro peixe que nós pescamos já saiu da água cozinhado, mas não deu para comer, e o melhor de tudo é que choveu muito, e a água do rio subiu, e nós voltamos pra casa flutuando, o que foi muito melhor que voltar pela estrada esburacada; quer dizer que no fim tudo deu certo.
VERISSIMO, Luis Fernando. Disponível em: http://keylapinheiro.blogspot.com.br/2011/04/cronicas-de-humor_10.html

As intenções do cronista
Quem lê crônicas, em especial, as de Verissimo (porque os cronistas não são todos iguais...), sabe o que vai encontrar e percebe a intenção do autor: fatos do dia a dia, tratados de maneira geralmente leve, por vezes poética, quase sempre com toques de humor, servindo de caminho para a reflexão e a crítica sutil de hábitos, costumes e situações.
Nesta de agora, por intermédio da visão aparentemente ingênua e descompromissada do narrador infantil, o leitor é convidado a lançar seu olhar avaliativo sobre o acúmulo de situações bizarras e de tentativas fracassadas de lazer de uma família de classe média.
Ao mesmo tempo, outras intenções são sinalizadas, no modo como o narrador-mirim relata os acontecimentos, ou seja, por meio de uma redação escolar com “vícios” que a norma culta e o “bem escrever” condenam. Destaco alguns bastante evidentes, sem esgotar a análise:
  • Ausência da habitual divisão do texto em parágrafos, que é recurso usado na escrita para indicar a estruturação e subdivisão das ideias e, desse modo, auxiliar a compreensão.
  • Pontuação deficiente, com frases muito longas, reiteração de vírgulas e das conjunções e, mas, como tantas vezes acontece na fala.
  • Repetição de nomes e pronomes, com redundância de informações: eu; minha irmã (Su); meu cachorro (Dogman); meu pai; minha mãe.
  • Inserção das falas de personagens numa continuidade em relação à fala do narrador (“eu”), recurso próprio da contação oral (embora com utilização de aspas, como é admitido na escrita).
  • Expressões e construções consideradas inadequadas à norma culta da língua (comumente pedida em produções escolares):
    - peixe [...] cozinhado (por “cozido”);
    - voltamos pra (por “para”) casa flutuando;
    - quando chegamos no (por “ao”) local;
    - se há uma coisa que (por "de que") gosto;
    - legal (gíria).

Note, leitor: as ocorrências apontadas acima configuram o uso de termos e modos de dizer mais apropriados à fala. Com elas, em primeiro lugar, o escritor reforça a linguagem informal, característica da crônica, de modo a estreitar a aproximação com seu público.
Em segundo lugar: o acúmulo de “erros” gramaticais e linguísticos, com referência ao padrão formal da língua, bem como a escolha de tema muito conhecido (e batido) compõem um texto caricatural que desvela, pelo exagero, a proposta de escrita repetitiva, burocrática e sem fundamento de alguns cursos, ainda hoje.
Aí está, portanto, outra intenção – subjacente, mas de relevância: lançar um olhar agudamente crítico para a rotina e práticas escolares, usando como veículo a crônica, esse gênero perfeitamente adequado para que escritor e leitor reflitam, com leveza, sobre temas que merecem cuidadosa atenção – neste caso, o ensino/aprendizagem da língua materna.

domingo, 8 de março de 2015

Poemas da mulher, por Cecília Meireles

Por Cecília Meireles
Atuante em múltiplos papéis, corajosa e perseverante, Cecília Meireles é um bom exemplo da mulher que trilha seu caminho com bravura.
Como escreve Maria Valdenia da Silva,
“vivendo uma época em que a mulher ainda não havia conquistado os espaços que hoje usufrui, Cecília conseguiu adentrar no restrito mundo da intelectualidade brasileira dos anos 20 e 30 do século XX, publicando seus livros, exercendo o magistério, inclusive em Universidades, e atuando como jornalista em diversos jornais do Rio de Janeiro e de São Paulo. Nas décadas seguintes, a escritora consolida seu nome no cenário das letras e da cultura brasileira, sendo convidada para conferências em diversos países [...]”. ¹

Cecília foi professora, jornalista, pintora. Pesquisou e incentivou o folclore, tendo feito uma série de desenhos retratando a cultura negra. Enquanto escritora, dedicou-se não apenas à poesia, mas também ao teatro, à crônica, aos ensaios, às conferências, aos livros didáticos e às traduções. Seu constante interesse pela educação levou-a a organizar a primeira biblioteca infantil do Rio de Janeiro (e do país), além de batalhar pela renovação da educação brasileira.
Sua vida, desde cedo marcada por acontecimentos dolorosos, forneceu-lhe experiências marcantes, que se refletiram em seu olhar poético. É ela quem diz:
“Nasci aqui mesmo no Rio de Janeiro, três meses depois da morte de meu pai, e perdi minha mãe antes dos três anos. Essas e outras mortes ocorridas na família acarretaram muitos contratempos materiais, mas, ao mesmo tempo, me deram, desde pequenina, uma tal intimidade com a Morte que docemente aprendi essas relações entre o Efêmero e o Eterno.
[...] Minha infância de menina sozinha deu-me duas coisas que parecem negativas, e foram sempre positivas para mim: silêncio e solidão. Essa foi sempre a área de minha vida. Área mágica, onde os caleidoscópios inventaram fabulosos mundos geométricos, onde os relógios revelaram o segredo do seu mecanismo, e as bonecas o jogo do seu olhar. Mais tarde foi nessa área que os livros se abriram, e deixaram sair suas realidades e seus sonhos, em combinação tão harmoniosa que até hoje não compreendo como se possa estabelecer uma separação entre esses dois tempos de vida, unidos como os fios de um pano. "²
Sua poesia é vária: dela se pode dizer, usando seu próprio verso: “Tenho fases como a lua”... Fases, tons, matizes, alguns dos quais podem ser observados nos textos que selecionei.
Para delimitar o campo, procurei pelos que apontam para aspectos da condição feminina. Sobre eles, teço breves comentários, sem a pretensão de esgotar a análise de obras impregnadas de poesia e de plurissignificados.

Mulher ao espelho
Perfeitamente aplicável ao nosso tempo, o poema faz denúncia do estereótipo e da beleza física – perseguida a qualquer custo, a ponto de comprometer a própria essência do indivíduo: “seja qual for, estou morta”.
Observem como, na terceira estrofe, o eu lírico submete-se às convenções, rende-se às aparências e à moda inconstante (assinalada na 2ª estrofe), pois que estas, afinal, abarcam tudo: “tudo é tinta”.
A ideia de deterioração continua até o fim. Na estrofe derradeira, marcada por sutil ironia, a beleza deslumbrante é claramente manifestada como sacrifício, equiparando-se ao da cruz.

Hoje que seja esta ou aquela,
pouco me importa.
Quero apenas parecer bela,
pois, seja qual for, estou morta.

Já fui loura, já fui morena,
já fui Margarida e Beatriz.
Já fui Maria e Madalena.
Só não pude ser como quis.

Que mal faz, esta cor fingida
do meu cabelo, e do meu rosto,
se tudo é tinta: o mundo, a vida,
o contentamento, o desgosto?

Por fora, serei como queira
a moda, que me vai matando.
Que me levem pele e caveira
ao nada, não me importa quando.

Mas quem viu, tão dilacerados,
olhos, braços e sonhos seus
e morreu pelos seus pecados,
falará com Deus.

Falará, coberta de luzes,
do alto penteado ao rubro artelho.
Porque uns expiram sobre cruzes,
outros, buscando-se no espelho.

[http://www.scielo.br/scielo.php?pid=S0104-83332006000200013&script=sci_arttext]

Inscrição
Neste poema, ao contrário do anterior, o elemento feminino se afirma, proclama sua força e independência, apesar das adversidades.
A notar as duas interrogações: a inicial, indiciando o inominável inimigo oculto; e a final, de tipo diverso, pois vale por uma afirmação: o eu poético descarta a submissão às agruras, que são finitas – enquanto ele se diz infinito.

Quem se deleita em tornar minha vida impossível
por todos os lados?
Certamente estás rindo de longe,
ó encoberto adversário!

Mas a minha paciência é mais firme
que todas as sanhas da sorte:
mais longa que a vida, mais clara
que a luz no horizonte.

Passeio no gume de estradas tão graves
que afligem o próprio inimigo.
A mim, que me importam espécies de instantes,
se existo infinita?

[http://midia.unit.br/enfope/2013/GT7/CECILIA_MEIRELES_INQUIETACOES_DECEPCOES_E_CONTRIBUICOES_PARA_UMA_ESCOLA_NOVA.pdf]

Prisão
O terceiro poema é verdadeiro libelo contra a opressão feminina. A constatação da falta de liberdade universal da mulher (em outras palavras, sua pouca ou nenhuma emancipação histórica / social) concretiza-se pela multiplicação de prisões – quatro, quarenta, quatrocentos, quatro mil – e pela diversidade de cárceres e de motivos para o encarceramento.
Na última (e mais longa) estrofe, a sensação de isolamento absoluto chega ao auge. Reparem no angustiante acúmulo de expressões negativas e na impossibilidade total de socorro, uma vez que as mulheres são “presas por outros e por si mesmas,/ tão presas que ninguém as solta”.
Ao final, como diz Maria Lúcia Dal Farra,
o poema desemboca [...] numa zona de aridez e de infertilidade absolutas no que diz respeito ao feminino, pois que essas mulheres foram levadas à incomunicabilidade total, visto que ‘nem o rubro galo do sol’ e ‘nem a andorinha azul da lua’ são capazes de transportar qualquer recado a elas. Não há escapatória alguma, pelo menos não há nada de que o nosso vasto mundo disponha e que possa lhes oferecer a fim de evitar que penetrem definitivamente na mudez e na solidão. Não há dia, não há noite, não há mensageiros – não há voz que as alcance.”³

Nesta cidade
quatro mulheres estão no cárcere.
Apenas quatro.
Uma na cela que dá para o rio,
outra na cela que dá para o monte,
outra na cela que dá para a igreja
e a última na do cemitério
ali embaixo.

Apenas quatro.

Quarenta mulheres noutra cidade,
quarenta, ao menos,
estão no cárcere.

Dez voltadas para as espumas,
dez para a lua movediça,
dez para pedras sem resposta,
dez para espelhos enganosos.

Em celas de ar, de água, de vidro
estão presas quarenta mulheres,
quarenta ao menos, naquela cidade.

Quatrocentas mulheres
quatrocentas, digo, estão presas:
cem por ódio, cem por amor,
cem por orgulho, cem por desprezo
em celas de ferro, em celas de fogo,
em celas sem ferro nem fogo, somente
de dor e silêncio,
quatrocentas mulheres, numa outra cidade,
quatrocentas, digo, estão presas.

Quatro mil mulheres, no cárcere,
e quatro milhões – e já nem sei a conta,
em cidades que não se dizem,
em lugares que ninguém sabe,
estão presas, estão para sempre
– sem janela e sem esperança,
umas voltadas para o presente,
outras para o passado, e as outras
para o futuro, e o resto – o resto,
sem futuro, passado ou presente,
presas em prisão giratória,
presas em delírio, na sombra,
presas por outros e por si mesmas,
tão presas que ninguém as solta,
e nem o rubro galo do sol
nem a andorinha azul da lua
podem levar qualquer recado
à prisão por onde as mulheres
se convertem em sal e muro.

[http://www.scielo.br/scielo.php?pid=S0104-83332006000200013&script=sci_arttext]

________________________________________________________________________

¹ SILVA, Maria Valdenia da. As crônicas de Cecília Meireles: um projeto estético e pedagógico. Dispon. em http://www.cchla.ufpb.br/ppgl/wp-content/uploads/2012/11/images_MariaValdenia.pdf

² Entrevista concedida a Fagundes de Meneses, para a revista Manchete, 1953. Disponível em: http://www.releituras.com/cmeireles_bio.asp

³ DAL FARRA, Maria Lúcia. Cecília Meireles: imagens femininas. Dispon. em:
http://www.scielo.br/scielo.php?pid=S0104-83332006000200013&script=sci_arttext


Um pouco mais de Cecília
Para amenizar imagens verbais tão fortes, encerro com este vídeo, que traz um figura de mulher bem diversa: a mulher-menina, a pequena bailarina.