quinta-feira, 12 de fevereiro de 2015

De rios e carnavais


Notícias desses dias dão conta dos problemas da Vila Madalena (bairro tradicionalmente artístico e boêmio de São Paulo), durante e após a passagem de blocos carnavalescos.
Não sou frequentadora nem tenho procuração para defender este ou aquele espaço. Meu foco, aliás, é um pouco mais amplo: o grande espaço Brasil, que eu gosto de entender como “nossa casa” e teimo em desejá-lo mais aconchegante e feliz. Por ele, hoje, aproveito os eventos da Vila e os relaciono a outros que se tornaram corriqueiros, para uma breve reflexão.
Venho pensando no “descuidado” com que, muitas vezes, olhamos e usamos nossas reservas – físicas, culturais, éticas. Agora, parece que os assuntos “normais”, porque cotidianos, são depredações e vandalismo; desperdício de fontes de energia e de alimentos; uso irresponsável da terra e do patrimônio público; falta de solidariedade e calor humano nas relações profissionais e comerciais. E, na esfera pública, além dos citados, também a ausência de critério, planejamento e humanidade, no trato de serviços essenciais (saúde, educação e tantos outros).
Receio que os blocos carnavalescos, assim como outras formas de diversão atuais, estejam mais próximos dessas formas de ver e viver egoístas e desagregadoras do que daquelas dos carnavais antigos. Quem presenciou o carnaval interiorano (como eu) deve lembrar: as mulheres punham cadeiras na calçada, os homens faziam rodinhas de conversa, as crianças ficavam no meio-fio, à espera dos carros do corso, para jogar confete e serpentina.
O medo da exposição fora de casa não existia. As ruas ficavam sujas, sim, de confete, serpentina e até farinha – que as donas de casa mais atentas e as próprias crianças ajudavam a recolher, no dia seguinte. E a agressão – bem mais suave, se comparada à violência de agora –, geralmente ficava limitada aos banhos de água suja. Mesmo na capital, em que ranchos, blocos e cordões levavam disputas e rixas do futebol (e outras) para as ruas, parecia haver certa... ingenuidade, hoje perdida.
Assim como acontece nos entretenimentos caracteristicamente urbanos, essa feição alegre e inocente parece ter-se evaporado dos entretenimentos ligados à natureza – aliás, antes bem mais presentes nas cidades. Dentro de São Paulo, é sabido, havia rios que possibilitavam passeios de barco e competições de natação. Diz Mathias Brotero, sobre o Tietê¹:
Já no século XX, o rio ficou conhecido como local para a prática do ócio. Paulistanos iam nadar, pescar e fazer piqueniques às margens do Rio Tietê. Foi nessa época que muitos clubes de esportes foram criados naquelas redondezas. [...]Também havia campeonatos de saltos ornamentais e natação – foi no Rio Tietê que Maria Lenk, principal nadadora do Brasil por muito tempo , começou a nadar. [...] Já na década de 30, por volta de 150 empresas despejavam lixo no Rio. Devido à poluição das águas, a maioria dos clubes faliu, já que ninguém mais queria praticar esportes, pois perceberam que o rio estava se tornando um esgoto a céu aberto.
Não é questão de ser saudosista, mas de compreender que, na verdade, o tão badalado (e necessário) progresso tem seus inconvenientes, principalmente se não soubermos lidar com ele. É a ação do homem que o impulsiona e desenha seus vãos e desvãos. A sua face é a face do próprio homem, seu criador. Ele nos determina, tanto quanto nós o determinamos.
Em suma, nosso mundo é o que fazemos dele; é nosso espelho, como bem mostra Lourenço Diaféria em crônica sobre o Rio Piracicaba. É este o texto que trago hoje, como convite à leitura. Nele, o rio se mostra tal qual é: um organismo vivo.

Leitor, espero que estenda a concepção do rio do cronista a tantos outros organismos vivos do nosso mundo. E que a tome como metáfora sensível do espaço-tempo em que vivemos.
¹ Memórias póstumas do Tietê. http://www.hiperativos.com.br/memorias-postumas-tiete/

A meu amigo, o Piracicaba
Xará, a gente não deve nunca cuspir num rio, por menor que seja esse rio, porque ninguém pode dizer dessa água não beberei. Um rio tem curvas e voltas. O rio é como a vida: mistérios, sombras, grotas, reflexos de prata, remansos e correntezas. O rio, por menor que seja, é uma lição de descobertas. Na escola as professoras mandam decorar que um rio é um curso de água que corre para o mar. Mas um rio é muito mais que isso. Um rio está acima das noções de Geografia; é mais que um traço trêmulo no mapa, é mais mistério que um artefato hidráulico. Um rio são os pedregulhos, a barranca, os chorões, os galhos debruçados sobre o espelho, anteriores às pontes de concreto. Um rio são os olhos insones dos peixes irrequietos, o lodo frio, a loca dos cascudos, o remoinho, a corredeira, o réquiem dos defuntos afogados, a urina dos moleques, o olor da pele das mulheres, o agachar das lavadeiras, o itinerário dos barcos e o silêncio dos pescadores.
O rio é o patrimônio das pessoas simples, das cabritas e dos pássaros.
O rio é o grande monumento da cidade.
Xará, dize-me que rio tens, te direi quem és.
Teu rio é o horóscopo do teu futuro: claro, pardo ou escuro.
Teu rio mostra o que pensas das pessoas, o que fazes com as pessoas e às pessoas; se és um homem livre, bom, sensato, feliz ou se és apenas um homem que não tem sequer a alegria de um rio.
O cheiro do rio é teu atestado de antecedentes.
Xará, um rio pode ser o riso líquido das crianças ou as lágrimas secas dos velhos.
O rio é a fração ideal de teus sonhos; o brinquedo que restou à humanidade salva do incêndio, que a espada de fogo ateou no paraíso perdido entre o Tigre e o Eufrates.
Xará, o rio é tua carteira de identidade, teu certificado de sanidade, teu comprovante de civilidade, teu erregê; registro de gente. Um rio é feito para ser amado, para correr e saltitar, para beijar as margens com volúpia. Um rio é feito para ser prestigiado, namorado, para ser mostrado aos turistas e aos de casa, com orgulho, assim:
– Olhe, veja como cuidamos deste tesouro, deste símbolo, destas raízes, desta cortina de névoa que à noite se levanta, deste véu de noiva que escorre da colina, desta fonte de luz e graça, desta bênção.
Veja como somos amigos do rio, como abrimos uma avenida na cidade para recebê-lo com alegria. E veja como o rio percorre, tranquilo e terno, as doces horas das núpcias com a cidade.
Há grandes rios.
Há rios tão grandes que as pessoas devaneiam o outro lado do horizonte líquido.
Nesses rios grandes as crianças nascem botos e as mulheres engravidam em canoas de remos.
Esses rios disputam com o oceano; são restos do dilúvio.
Navegando nesses rios, o rei da terra não passa de traíra.
Mas os rios modestos, mesmo os riozinhos, também são importantes, e também nesses não se deve cuspir, xará.
Um ribeiro, um regato, um riacho, um ribeirão, um córrego, todos eles fazem o mar, onde ninguém distingue o grande do pequeno.
E essa igualdade é, talvez, a maior lição que os rios dão.
Não foi à toa, xará, e sim por sabedoria das coisas, que a Independência foi proclamada às margens de um rio (tão pequeno e raso que quase morre, por cuspirem nele).
DIAFÉRIA, Lourenço. A morte sem colete. São Paulo: Moderna, 1986. Disponível em http://ler-crescer.blogspot.com.br/2011_10_01_archive.html

Adendo
A quem estranhar tal tema no blog, esclareço minha posição: a cidadania, a ação humanizadora, o olhar para e pelo outro e pelo bem comum é uma das mais belas e consistentes formas de Autoria.
Xará, dize-me que rio tens, te direi quem és”, diz Diaféria.
Dize-me que rua tens, que bairro tens, que parque tens, que escola tens, que cidade, que país tens... e saberás quem tu és – e saberemos quem nós somos.

quinta-feira, 5 de fevereiro de 2015

Uma relação delicada


Volta às aulas: bom momento para se pensar na sempre delicada relação aluno / professor, que o convívio rotineiro aprofunda, para o bem ou para o mal.
Se for perguntado a um estudante o que espera do mestre, a reposta provavelmente incidirá mais sobre sua postura em aula – reveladora da escala de apreço ao aluno e ao ambiente escolar, do modo de encarar a profissão e a sociedade e, até, da própria visão de mundo. É a inteireza do “ser” e do “ser professor” que se desnuda, na recorrência das grandes e pequenas ações, no tom de voz, nos gestos e olhares do dia a dia.
Mas, afinal, qual o professor ideal? Aquele que impõe ordem e respeito? O que deixa a marca de sua autoridade? O que ensina amorosamente? O amigo fiel do aluno? Ou nada disso? Ou tudo isso, mas em doses específicas?
A maioria de nós, creio, tenderá a advogar um equilíbrio entre essas características. No entanto, haverá componentes variáveis em alguma medida, pois a figura ideal vem associada a experiências pessoais, a conhecimentos e leituras sobre o assunto e a padrões culturais.
O escritor e educador Bartolomeu Campos de Queirós, por exemplo, frequentemente realçava a afetividade, enquanto traço essencial do professor. Como aqui, discorrendo sobre o olhar amoroso:
“Acho que a criança quando entra na escola, não aprende porque vai prestar concurso, vestibular, nada disso. Ela aprende para ser amada por aquele que sabe. E o professor é aquele que sabe e ela quer ser amada por aquele que sabe. Acho que a aprendizagem no início da infância está na ordem puramente do afetivo. Sem isso não dá. Aprendi com Merleau Ponty que a primeira leitura que a criança faz na sala de aula é a do olhar do professor. Há pessoas que quando nos olham, nos afastam. Outras, quando nos olham, nos acariciam. Há crianças que não aprendem porque o olhar do professor não deixa. Há criança que não usa a liberdade porque tem medo do olhar do professor. O olhar do professor imobiliza. Muitas vezes, jogamos nas costas dos métodos a não aprendizagem da criança, quando, às vezes, a aprendizagem da criança é interditada pelo olhar do professor, que é a primeira leitura que ela faz.”¹
O educador José Pacheco, por sua vez, chama a atenção para distorções, assinala a diferença entre afeto e pieguice, e não abre mão da autoridade (diversa do autoritarismo e da permissividade) do professor:
“... creio ter havido uma interpretação distorcida de determinadas propostas teóricas e parece já não ser possível educar com carinho e firmeza, porque deixou de haver limites. O pieguismo usurpou o espaço do amor maduro, mas sei que é possível inverter a situação. Também fui pai e sou avô. A autoridade (palavra que, etimologicamente, significa “ajudar a crescer”) está ausente em muitos lares e escolas. O seu espaço é ocupado pelo autoritarismo e pela permissividade. [...] Mas é com pais e professores que a criança encontra os limites do controle que lhe permite progredir em autonomia, na liberdade de experiência e de expressão, dentro de um sistema de relações e de trocas sociais.”²
Autoridade e afeto: com o misto dos dois atributos, Alphonse Daudet constrói uma bela figura de professor, em seu conto A última aula. O cenário é uma aldeia alsaciana e sua escola; o tempo, o da invasão da França por tropas da Prússia, em 1870.

A figura do mestre, delineada pelo aluno-narrador, completa-se pelas falas do docente e pela derradeira escrita na lousa. Para síntese das reflexões de hoje, sugiro sua leitura.
¹Projeto Paiol literário de 7 de junho 2011. Disponível em http://rascunho.gazetadopovo.com.br/bartolomeu-campos-de-queiros/
²Entrevista a Daniele Hostalácio, Revista Encontro. Não existe escola ideal. Disponível em: https://professorfabio.wordpress.com/2010/07/26/no-existe-escola-ideal-jos-pacheco/



A última aula
Narrativa de um pequeno alsaciano
Nessa manhã eu me atrasara muito para ir à escola, e receava uma reprimenda do Sr. Hamel, porquanto nos mandara estudar os particípios, e eu não sabia literalmente nada. Estive quase para faltar à aula e dar um passeio através dos campos.
Como o dia estava luminoso e cálido! Os melros gorjeavam à beira do bosque, e no prado Ripert, por trás da serraria, ouviam-se as manobras militares dos prussianos. Tudo isso me seduzia muito mais que estudar os particípios; mas resisti à tentação, e parti correndo em direção à escola.
Ao passar em frente da prefeitura, notei que havia gente parada perto do pequeno quadro onde costumavam afixar os comunicados. Havia dois anos que dali nos vinham todas as más notícias: as batalhas perdidas, as requisições, as ordens do comando, e sem me deter, pensei: “Que mais teremos ainda?”
Nesse momento, como atravessasse a praça correndo, o ferreiro Wachter, que lá estava com o aprendiz, para ler o comunicado, gritou-me:
– Não te afobes tanto, pequeno; vais ter tempo de sobra para chegar à escola!
Pensei que estava a caçoar de mim, e entrei esbaforido no pequeno pátio do Sr. Hamel.
Geralmente, ao começar a aula, a algazarra era tão grande que chegava até à rua: carteiras que se abriam e fechavam, lições que todos repetiam em voz alta e ao mesmo tempo, tapando os ouvidos para aprender melhor, e a pesada régua do professor batendo no tampo das carteiras:
– Pouco barulho!
Eu contava com toda essa confusão para chegar ao meu lugar sem ser visto; mas precisamente nesse dia tudo estava silencioso como numa manhã de domingo. Pela janela aberta eu via os colegas, já sentados em seus lugares, e o Sr. Hamel, caminhando para cá e para lá, com a enorme régua de ferro debaixo do braço. Não tive outro remédio senão abrir a porta e afrontar aquele pesado silêncio. Imaginem qual não seria o meu medo e a minha vergonha!
Mas qual! O Sr. Hamel olhou-me sem irritação, e, em tom brando, me disse:
– Senta-te depressa, meu pequeno Franz; íamos começar sem ti.
Caminhei para o meu lugar e sentei-me. Só então, já um pouco refeito do susto, notei que o mestre envergava sua bonita casaca verde, sua fina camisa pregueada e o gorro de seda preta bordada, que só costumava usar nos dias de exame ou de distribuição de prêmios. Além disso, toda a sala tinha um não sei quê de extraordinário e de solene. Mas o que mais me admirou foi ver, ao fundo da sala, nos bancos habitualmente vazios, gente da aldeia, sentada e silenciosa como nós — o velho Hauser com o seu tricórnio, o antigo prefeito, o antigo carteiro e outras pessoas mais. Todos pareciam tristes; e Hauser trouxera um velho abecedário comido nas margens, que segurava bem aberto em cima dos joelhos, os grossos óculos pousados de esguelha sobre as páginas.
Enquanto eu olhava espantado para tudo aquilo, o Sr. Hamel subiu à cátedra, e com a mesma voz doce e grave com que me recebera, nos disse:
– Meus filhos, é esta a última vez que lhes dou aula. Chegou uma ordem de Berlim para só se ensinar alemão nas escolas da Alsácia e da Lorena... O novo professor chega amanhã. Hoje é a nossa última lição de Francês. Peço-lhes manter toda a atenção.
Estas poucas palavras deixaram-me aturdido. Ah! os miseráveis! Sabia agora o que eles tinham afixado na prefeitura!
A minha última lição de Francês!...
E eu que mal sabia escrever! Era claro que não mais aprenderia... Ia ficar onde estava!... Como lamentava agora o tempo perdido, as aulas gazeteadas para correr atrás dos ninhos ou escorregar pelo Saar! Os livros, que sempre achara tão maçudos, tão difíceis de carregar, a minha Gramática, a minha História Sagrada, pareciam-me agora velhos amigos que teria muita pena de deixar. Tal como o Sr. Hamel. A ideia de que ele ia partir, de que não voltaria a vê-lo, fazia-me esquecer todos os castigos, todas as reguadas.
Pobre homem!
Fora em honra dessa última aula que ele vestira a melhor roupa, e eu compreendia agora por que essa velha gente tinha vindo sentar-se ao fundo da sala. Isso parecia dizer que lamentavam não ter vindo com mais frequência à escola. Dir-se-ia uma maneira de agradecer ao velho mestre os quarenta anos de bons serviços e o cumprimento dos deveres para com a pátria que se ia...
Estava neste ponto de minhas reflexões, quando ouvi chamar por mim. Era a minha vez de dar a lição. O que não teria eu dado para saber dizer tudo a respeito dessa famosa regra dos particípios, bem alto, bem claro, sem um erro! Mas atrapalhei-me logo às primeiras palavras, e fiquei de pé, a balançar o corpo de um lado para o outro, angustiado, de cabeça baixa. Ouvia o Sr. Hamel dizer-me:
– Não vou ralhar contigo, meu pequeno Franz: já está bem castigado... É isso mesmo! Dizemos todos os dias: “Ora! Tenho muito tempo. Estudarei amanhã”. E depois já vês o que acontece... Ah! essa tem sido a grande desgraça de nossa Alsácia: adiar sempre a instrução para o dia de amanhã. Agora, essa gente está no direito de nos vir dizer: “Mas como! Vocês queriam ser franceses, e nem ao menos sabem ler e escrever a sua língua!” No meio de tudo isto, meu pobre Franz, não és tu ainda o mais culpado. Todos nós temos alguma coisa a censurar-nos.
Seus pais não se preocuparam como deviam com a educação dos filhos. Preferiam mandá-los trabalhar na terra ou na fábrica, para poderem ter uns soldos a mais. E eu mesmo, será que nada tenho a censurar-me? Não os mandei muitas vezes regar o jardim, em vez de estudar? E quando queria ir pescar trutas, importei-me alguma vez de lhes dar feriado?...
Então, variando de um assunto a outro, o Sr. Hamel pôs-se a falar-nos da língua francesa, dizendo que era a mais bela do mundo, a mais clara e expressiva; que era preciso conservá-la entre nós e não esquecê-la nunca, porque, quando um povo se torna escravo, enquanto conservar a sua língua, é como se tivesse a chave da prisão... Pegou depois numa Gramática e leu-nos a lição. Admirava-me de ver como eu entendia bem. Tudo o que ele dizia me parecia fácil, fácil... Também creio que nunca escutara com tanto interesse, e que ele, por sua vez, jamais explicara com tanta paciência. Dir-se-ia que, antes de deixar-nos, o pobre homem nos queria dar todo o seu saber, fazê-lo entrar em nossa cabeça de uma vez para sempre.
Terminada a lição, passou-se à escrita. Para esse dia o Sr. Hamel preparara exemplos completamente novos, e sobre todos eles estava escrito em grande letra caprichada: França, Alsácia, França, Alsácia. Eram como pequenas bandeiras que flutuassem em torno da classe, suspensas da armação de ferro das carteiras. Dava gosto ver como cada um se aplicava. E que silêncio! Só se ouvia o ringir das penas no papel. A certa altura entraram besouros na sala; mas ninguém reparou neles, nem mesmo os menores, aplicados como estavam a traçar seus gatafunhos, com tal vontade e convicção, como se isso também fosse Francês... No forro da escola, pombos arrulhavam baixinho, e eu me dizia, ouvindo-os:
– Irão obrigá-los, também a eles, a cantar em alemão?
De vez em quando, ao erguer os olhos do papel, via o Sr. Hamel imóvel na cadeira e olhando fixamente os objetos em torno, como se quisesse guardar para sempre na retina toda a sua pequena escola... Imaginem! Há quarenta anos aquele homem estava ali, naquele mesmo lugar, com o pátio à sua frente e aquela sala que não mudara. Apenas os bancos e as carteiras se tinham polido com o tempo, lustrados pelo uso; as nogueiras do recreio haviam crescido, e a trepadeira, que ele mesmo plantara, engrinaldava agora as janelas até o teto. Que desgosto não devia ser, para o pobre homem, ter que deixar todas aquelas coisas e ouvir a irmã que ia e vinha, no aposento de cima, atarefada a preparar as malas! Porque deviam partir no dia seguinte, deixar aquela terra para sempre.
Assim mesmo, teve coragem de dar a aula até ao fim. Depois da escrita, veio a lição de História; em seguida os mais novos cantaram o ba-be-bi-bo-bu. Lá no fundo da sala, o velho Hauser pusera os óculos e, segurando o abecedário com as duas mãos, soletrava com eles. Via-se que também ele estava atento. A voz tremia-lhe de emoção, e era tão engraçado ouvi-lo, que tínhamos todos vontade de rir e de chorar. Ah! Lembrar-me-ei para sempre desta última aula...
De repente, o relógio da torre bateu meio-dia, depois o Angelus. No mesmo instante as trombetas dos prussianos que voltavam das manobras ressoaram sob as janelas... O Sr. Hamel ergueu-se da cadeira, muito pálido. Nunca ele me parecera tão alto.
— Meus amigos — disse ele — meus amigos, eu... eu...
Mas algo lhe embargara a voz. Não podia terminar a frase.
Virou-se então para o quadro, pegou um bocado de giz, e firmando-o com toda a força, escreveu na maior letra que pôde: VIVA A FRANÇA!
Depois ali ficou, a cabeça apoiada na parede, e, sem falar, acenava-nos com a mão: “Acabou... Podem sair”.
DAUDET, Alphonse. Contos – São Paulo: Cultrix, 1993. Disponível em:
http://contosbemcontados.blogspot.com.br/2008/06/ltima-aula-alphonse-daudet.html

Para terminar
Deixo, para reflexão e inspiração, a ótica de uma estudante sobre a relação professor/aluno/produção do conhecimento. O vídeo é um fragmento do documentário “Quando sinto que já sei”, que põe em discussão práticas educativas tradicionais e mostra outras, inovadoras, da educação brasileira.