sábado, 24 de janeiro de 2015

Uma cidade em tempos





Lembrando o início de um soneto de Camões:

Mudam-se os tempos, mudam-se as vontades,
Muda-se o ser, muda-se a confiança:
Todo o Mundo é composto de mudança,
Tomando sempre novas qualidades.

...Neste janeiro, estendo uma ponte para esta cidade onde vivo. São Paulo é, sem dúvida, “composto de mudança” e vem “tomando sempre novas qualidades” (positivas e negativas, de certo).

Ainda com palavras do poeta, vou além para lembrar alguns seres – escritores –, que, em tempos diferentes, depositaram suas vontades literárias em representações de São Paulo. São muitos, é verdade. Por isso mesmo, faço um recorte e trago alguns artistas que têm em comum o fato de terem aqui nascido ou habitado.

A seguir, os autores e textos resultantes dessa garimpagem.


Alcântara Machado

O paulistano António de Alcântara Machado (1901 – 1935) apresentou seu livro Brás, Bexiga e Barra Funda como “o órgão dos ítalo-brasileiros de São Paulo”. Tendo como cenário os bairros operários que dão título ao livro, as personagens dos contos dão vida a imigrantes e filhos de imigrantes italianos pobres, flagrados em várias funções e situações.

Gaetaninho, um dos textos mais conhecidos, é quase uma crônica da São Paulo antiga, com o bonde, o carro fúnebre adornado, a carroça, o jogo do bicho, o futebol na rua com bola de meia, os nomes próprios italianos.

A notar, também: quanto à linguagem, o tom coloquial e as expressões populares (algumas com “sotaque”) da época; quanto à organização do texto, a estrutura em cenas e, por trás da aparente leveza, a triste ironia do desfecho (insinuado desde o princípio da narrativa).

Gaetaninho
– Xi, Gaetaninho, como é bom!
Gaetaninho ficou banzando bem no meio da rua. O Ford quase o derrubou e ele não viu o Ford. O carroceiro disse um palavrão e ele não ouviu o palavrão.
– Eh! Gaetaninho! Vem pra dentro.
Grito materno sim: até filho surdo escuta. Virou o rosto tão feio de sardento, viu a mãe e viu o chinelo.
Subito!
Foi-se chegando devagarinho, devagarinho. Fazendo beicinho. Estudando o terreno. Diante da mãe e do chinelo parou. Balançou o corpo. Recurso de campeão de futebol. Fingiu tomar a direita. Mas deu meia volta instantânea e varou pela esquerda porta adentro.
Eta salame de mestre!
............
Ali na Rua Oriente a ralé quando muito andava de bonde. De automóvel ou carro só mesmo em dia de enterro. De enterro ou de casamento. Por isso mesmo o sonho de Gaetaninho era de realização muito difícil. Um sonho.
O Beppino por exemplo. O Beppino naquela tarde atravessara de carro a cidade. Mas como? Atrás da Tia Peronetta que se mudava para o Araçá. Assim também não era vantagem.
Mas se era o único meio? Paciência.
............
Gaetaninho enfiou a cabeça embaixo do travesseiro.
Que beleza, rapaz! Na frente quatro cavalos pretos empenachados levavam a Tia Filomena para o cemitério. Depois o padre. Depois o Savério noivo dela de lenço nos olhos. Depois ele. Na boleia do carro. Ao lado do cocheiro. Com a roupa marinheira e o gorro branco onde se lia: ENCOURAÇADO SÃO PAULO. Não. Ficava mais bonito de roupa marinheira mas com a palhetinha nova que o irmão lhe trouxera da fábrica. E ligas pretas segurando as meias. Que beleza, rapaz! Dentro do carro o pai, os dois irmãos mais velhos (um de gravata vermelha, outro de gravata verde) e o padrinho Seu Salomone. Muita gente nas calçadas, nas portas e nas janelas dos palacetes, vendo o enterro. Sobretudo admirando o Gaetaninho.
Mas Gaetaninho ainda não estava satisfeito. Queira ir carregando o chicote. O desgraçado do cocheiro não queria deixar. Nem por um instantinho só.
Gaetaninho ia berrar, mas a Tia Filomena com mania de cantar o “Ahi, Mari!” todas as manhãs o acordou.
Primeiro ficou desapontado. Depois quase chorou de ódio.
............
Tia Filomena teve um ataque de nervos quando soube do sonho de Gaetaninho. Tão forte que ele sentiu remorsos. E para sossego da família alarmada com o agouro tratou logo de substituir a tia por outra pessoa numa nova versão de seu sonho. Matutou, matutou, e escolheu o acendedor da Companhia de Gás, seu Rubino, que uma vez lhe deu um cocre danado de doído.
Os irmãos (esses) quando souberam da história resolveram arriscar de sociedade quinhentão no elefante. Deu a vaca. E eles ficaram loucos de raiva por não haverem logo adivinhado que não podia deixar de dar a vaca mesmo.
............
O jogo na calçada parecia de vida ou morte. Muito embora Gaetaninho não estava ligando.
– Você conhecia o pai do Afonso, Beppino?
– Meu pai deu uma vez na cara dele.
– Então você não vai amanhã no enterro. Eu vou!
O Vicente protestou indignado:
– Assim não jogo mais ! O Gaetaninho está atrapalhando!
Gaetaninho voltou para o seu posto de guardião. Tão cheio de responsabilidades.
O Nino veio correndo com a bolinha de meia. Chegou bem perto. Com o tronco arqueado, as pernas dobradas, os braços estendidos, as mãos abertas, Gaetaninho ficou pronto para a defesa.
– Passa pro Beppino!
Beppino deu dois passos e meteu o pé na bola. Com todo o muque. Ela cobriu o guardião sardento e foi parar no meio da rua.
– Vá dar tiro no inferno!
– Cala a boca, palestrino!
– Traga a bola!
Gaetaninho saiu correndo. Antes de alcançar a bola um bonde o pegou. Pegou e matou.
No bonde vinha o pai de Gaetaninho.
A gurizada assustada espalhou a notícia na noite.
– Sabe o Gaetaninho?
– Que é que tem?
– Amassou o bonde!
A vizinhança limpou com benzina suas roupas domingueiras.
............
Às dezesseis horas do dia seguinte saiu um enterro da Rua do Oriente e Gaetaninho não ia na boleia de nenhum dos carros do acompanhamento. Ia no da frente dentro de um caixão fechado com flores pobres por cima. Vestia a roupa marinheira, tinha as ligas, mas não levava a palhetinha.
Quem na boleia de um dos carros do cortejo mirim exibia soberbo terno vermelho que feria a vista da gente era o Beppino.”
[MACHADO, António de Alcântara. Novelas paulistanas. Rio de Janeiro: Ed. José Olympio, 1973.]


Lourenço Diaféria

O jornalista, contista e cronista Lourenço Diaféria (1933 – 2008) também retratou o Brás, bairro onde nasceu. Mas não só. Como jornalista (por muitos anos escreveu para a Folha de São Paulo), tinha o olhar aguçado para grandes e pequenos acontecimentos do dia a dia – e elegeu a cidade e o cidadão paulistano como principal matéria de suas belas crônicas. 

Em Minha cidade em janeiro,  reconhecem-se espaços e personagens do centro comercial. No texto, o olhar de Diaféria é múltiplo: por um lado, abrange o presente em que escreve e o passado histórico dos espaços da cidade; por outro, faz uma radiografia do que é “legítimo” em São Paulo, com diversas nuances, negativas e positivas. (Para esse segundo aspecto, repare, leitor, na repetição intencional que abre cada parágrafo: “O que minha cidade tem de mais [...] e legítimo”.)

Por fim, o caos da cidade grande se expressa sinteticamente no penúltimo parágrafo, pela longa enumeração de vocábulos separados por vírgulas (a dar sensação de rapidez), pela confusão dos nomes de ruas que são (ou não) flores, pela mistura e sucessão de antíteses e de metáforas: eis a vitrine do “bazar de coisas” urbano.

Minha cidade, em janeiro
O que minha cidade tem de mais pulcro e legítimo é o rosto da moça atrás do vidro fumê do 18º andar do edifício da companhia de investimentos. O rosto aparece às 17h55min, de segunda a sexta, quando ela espia a calçada antes de bater o cartão de ponto no relógio. O namorado da moça tem uma moto de milhões de decibéis e faz tantas loucuras no cruzamento da avenida que, em certos momentos, parece que vai bater as asas de metal e se transfigurar num anjo barbudo e entrar no bairro do Paraíso, para tomar um sorvete de tutti-frutti com duas casquinhas.
O que minha cidade tem de mais operoso e legítimo é o crioulo de capacete ocre que enfia a ponta do martelo mecânico na viga de concreto e rompe o útero da Rua das Palmeiras, onde corre um braço subterrâneo do Metrô. O capacete do crioulo lembra um sol boiando no suor da cara e, quando a tarde cai, o capacete fica de riba como porongo decepado em cima do balcão, enquanto o garoto do bar serve um traçado ao som do liquidificador.
O que minha cidade tem de mais vetusto e legítimo é o fantasma do coronel Arouche que guardou suas emas, jaçanãs, pacas e bacamartes na arca do passado e transita incógnito e invisível por entre as mesinhas de pinguços e desesperados com olhos cor de quitinete. O coronel Arouche por hábito arrasta as botas sujas de lama do tempo em que o Anhangabaú dava curimbatá e a cidade tinha pontes de madeira, onde hoje ficam os Correios e Telégrafos. O coronel Arouche é transparente e se encontra com o brigadeiro Tobias na sacada solitária do prédio Martinelli nas noites de lua e garoa.
O que minha cidade tem de mais amargo e legítimo é o corpo em decúbito dorsal, ainda não identificado, coberto com a última página do vespertino, e um para-choque de jamanta com tinta fresca vermelha: cuidado, não encostar que é sangue.
O que minha cidade tem de mais imperceptível e legítimo é o violino que toca de manhã cedo na Rua Conselheiro Furtado tangido por um chinês de Formosa que vende penas de nanquim na Liberdade e escreve, em hieróglifos, poemas para um velhinho de barba fina que tem 98 anos, nasceu em Kioto, e adora doce de feijão, peixe cru e forró.
O que minha cidade tem de mais pardo e legítimo são os paquidermes dos edifícios que ressonam rente ao Minhocão e cujo pescoço alado se atira sobre Santa Cecília, Bexiga, Vila Buarque, até esmorecer diante da torre de São Geraldo das Perdizes.
O que minha cidade tem de mais acordado e legítimo é o Ponto Chic, onde a Polícia, a malandragem e a boemia confraternizam e meditam sobre a glória passageira das valentias, dos sanduíches e do chope gelado.
O que minha cidade tem de mais revolucionário e legítimo são as conversas fiadas dos bares de Vila Madalena, onde um garçom de vanguarda bolou uma perfeita bomba de efeito retardado com meia dose de dor-de-cotovelo, algumas gotas de amargo, dois dedos de esperança disfarçada, e alegria q.s.p.¹ encher o coração.
O que minha cidade tem de mais álacre e legítimo é o alarido dos mochileiros, flautistas, barraqueiros e fugitivos no Terminal Rodoviário do Jabaquara, ao dizerem adeus no sábado de manhã, em busca do mar do Sul, e voltando domingo à noite tostados de cerveja, sol, areia e mariscos, até empalidecerem outra vez no cotidiano das lojas, armarinhos, butiques, bancos e guichês.
O que minha cidade tem de mais fácil e legítimo é esta disponibilidade para aceitar as coisas como são – a vida e a morte – e concluir que tudo é possível: sardas, celulite, bronze, paralelepípedo, cartório de protesto, bala perdida, impropérios, maldições, arrependimentos, conversões, penitências, desuniões definitivas, casamentos eternos, bodas de ouro, tombos, porões, amizades, ervas medicinais, macumbas, crediários, a estátua de Anchieta, o Pátio do Colégio, os mascateiros da General Carneiro, o lausperene em Santa Ifigênia, os sinos de São Bento, e o sol no merídio iluminando colarinhos sociais.
Bazar de coisas, caos e golfo, cartão-postal da pressa, porto de ternuras, buquê de pamplonas, angélicas, azaleias, fuligens e augustas, moquifos e tugúrios, campeonato mundial entremeado de pernetas e fraturas, solidões cercadas de risos e de festas, macarronadas infinitas, pizzas, chaminés e a via láctea de fumaça corrigindo as estrelas verdadeiras.
Mas, por fim, eu revelo: o que esta cidade tem mesmo de mais fiel e legítimo é o amor e a raiva deste amante anônimo, quando a cidade finge não me ver no meio do povo que a habita.
¹ q.s.p., em química, é a abreviação de “quantidade suficiente para”. 
[DIAFÉRIA, Lourenço Carlos. Disponível em https://webwritersbrasil.wordpress.com/literatura-na-web/a-arte-da-cronica/cronicas-comentadas/uma-cronica-de-lourenco-diaferia/]


Augusto de Campos

Um dos fundadores do movimento concretista, Augusto de Campos nasceu em São Paulo, em 1931. Cidade, City, Cité, seu retrato da desordem e da cacofonia da grande cidade (São Paulo, mas também qualquer outra megalópole do mundo) é concreto e contundente, como não poderia deixar de ser.

Não basta ler seu poema, longa linha de uma só palavra (palavra-valise), composta por recorte de palavras existentes (que, recompostas pelo leitor em outras leituras, “dizem” outros aspectos da cidade). É preciso vê-lo e ouvi-lo – para a sensação de caos, ruído e aceleração incorporar-se ao sentido:

atrocaducapacaustiduplielastifeliferofugahistoriloqualubrimendimultipliorganiperiodiplastipublirapareciproustisagasimplitenaveloveravivaunivora
cidade
city
cité
[Disponível em http://revistamododeusar.blogspot.com.br/2009/01/augusto-de-campos.html]






Canções para São Paulo: Criolo

De passagem, quero fazer referência às tão importantes canções que mostram São Paulo e suas múltiplas feições. Deixo de lado os conhecidos e queridos Adoniran Barbosa, Tom Zé, Billy Blanco, Paulo Vanzolini, Itamar Assumpção, Caetano Veloso, entre outros.

Foco minha atenção em Criolo, paulistano nascido em 1975, como representante da geração contemporânea. Sem louvações, o rapper nos traz uma visão realista e crítica da São Paulo de agora – Não existe amor em São Paulo –, ajudando a compor sua face multifacetada.


Não Existe Amor Em SP

Não existe amor em SP
Um labirinto místico
Onde os grafites gritam
Não dá pra descrever
Numa linda frase
De um postal tão doce
Cuidado com doce
São Paulo é um buquê
Buquês são flores mortas
Num lindo arranjo
Arranjo lindo feito pra você
Não existe amor em SP
Os bares estão cheios de almas tão vazias
A ganância vibra, a vaidade excita
Devolva minha vida e morra afogada em seu próprio mar de fel
Aqui ninguém vai pro céu
Não precisa morrer pra ver Deus
Não precisa sofrer pra saber o que é melhor pra você
Encontro duas nuvens em cada escombro, em cada esquina
Me dê um gole de vida
Não precisa morrer pra ver Deu
s






Ao leitor

Leitor amigo, se você conhece ou tem notícias sobre São Paulo, deve ter percebido que os textos apontam significativas modificações pelas quais passou a metrópole.

Em contrapartida, há aspectos que, de uns tempos para cá, permanecem e se aguçam, tal qual indicam os textos de Diaféria, Augusto de Campos e Criolo. Como bem reflete Camões em seu soneto, parece que “afora este mudar-se cada dia [...] não se muda já como soía”.

Aliás, para completar a informação, deixo o poema integral do poeta português:

Mudam-se os tempos, mudam-se as vontades,
Muda-se o ser, muda-se a confiança:
Todo o mundo é composto de mudança,
Tomando sempre novas qualidades.

Continuamente vemos novidades,
Diferentes em tudo da esperança:
Do mal ficam as mágoas na lembrança,
E do bem (se algum houve) as saudades.

O tempo cobre o chão de verde manto,
Que já coberto foi de neve fria,
E em mim converte em choro o doce canto.

E afora este mudar-se cada dia,
Outra mudança faz de mor espanto,
Que não se muda já como soía.

[Disponível em http://www.citador.pt/poemas/mudamse-os-tempos-mudamse-as-vontades-luis-vaz-de-camoes]

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