domingo, 4 de janeiro de 2015

Divagações linguísticas de férias


A viagem das línguas
Leitor ou leitora, vai viajar? Está pensando nisso? Arrumando as malas, imaginando delícias, antevendo novas paisagens ou a revisita das conhecidas...
Bem, talvez sua viagem não deva ser física, e você planeje voar nas asas das artes e diversões, em sua cidade, mesmo: bons filmes, museus, livros interessantes; momentos em parque, meditação num local tranquilo. Tudo isso faz parte da postura viajeira do espírito, concorda?
E que tal continuarmos com as divagações linguísticas, agora observando o modo como a língua viaja e chega até nós? As palavras estrangeiras, de fato, nos alcançam por aqui mesmo, no lugar em que vivemos, e incorporam-se à nossa fala cotidiana. Acontece de tal modo, que é como se nós próprios viajássemos, incorporando hábitos e falas de lugares nos quais, talvez, nunca tenhamos posto os pés.
Aliás, quando se trata de palavra já incorporada à língua, nem nos apercebemos de sua “estrangeirice”. Assim, futebol, bife, coquetel; batom, guichê, maiô; boteco, artesão, cantina; mutirão, pipoca, abacaxi – três a três e respectivamente, essas palavras têm como origem as línguas inglesa, francesa, italiana e tupi: alguém se lembra disso?
No entanto, o que dizer de palavras bem mais novas, que passeiam e se deslocam de forma absurdamente rápida via internet, que vêm e são adotadas em sua forma original? Nem todos as aceitam, como demonstram os textos abaixo, com visões e tons distintos entre si, porém, tendo em comum a crítica aos modismos vindos do estrangeiro.
Vamos às leituras.


Rachel: turismo e invasão linguística
A crônica de Rachel de Queiroz agudiza a crítica e confere estatuto de colonização à importação de termos da cultura americana. A escritora não deixa dúvidas quanto à aversão ao modismo, ao mesmo tempo em que revela certo saudosismo quanto a estrangeirismos mais... elitistas: o francês, ou mesmo o inglês mais tradicional e não tão “emergente”.
Note, leitor, a veemência das qualificações e a ironia que percorre o texto, e cresce no final.

O bilinguismo emergente
A gente já prevê que o nosso próximo passo será oficializar o inglês como língua do Brasil, com estatuto paralelo ao do português. E não é rabugice de velha escriba, é constatação fria e baseada nos fatos.
Pena que essa bilinguidade (perdoem o neologismo) não nos tenha chegado, já não digo por meio erudito, mas pelo menos por oralidade consequente; o que recebemos é a gíria do “show business” (é proibido falar ‘espetáculo’) da publicidade desenfreada (vide anúncios da televisão). E, pior que tudo, os nomes das lojas, de restaurantes, qualquer boteco de praia; até barraca de coco verde, arranjam nome com gosto ou cheiro de inglês.
Engraçado que essa voga frenética da língua dos americanos (porque o inglês, propriamente dito, não tem nada a ver com isso) não nos veio diretamente quando os americanos ganharam as guerras – a quente e a fria – e se fizeram donos do mundo. Não, a invasão tomou vulto posteriormente, de alguns anos para cá. Parece até uma epidemia: você abre o jornal, na página que outrora se chamava ‘diversões’ ou 'espetáculos’, hoje tudo é incluído na expressão "Show". Trate-se de espetáculo de música popular, de cantor lírico, de dançarinos, e até mesmo de teatro a sério – tudo é “show”. Os cantores populares, até os caipiras, arranjaram um jeitinho de se batizarem no que supõem que é o inglês. Não cito nomes porque não quero ofender ninguém, só quero mesmo reclamar.
[...] O pior é que a publicidade brasileira assumiu indiscriminadamente a moda, e você pode estar vendendo um brim tecido em São Paulo e ele será chamado "jeans", um sorvete é "ice-qualquer coisa". Quase todos os produtores do mercado, as loterias, os projetos imobiliários, tudo tem nome em suposto inglês. No menu dos restaurantes (aliás ninguém diz mais menu) os pratos são quase todos americanizados, do hot dog ao steak. Até o pratos de massas italianas são servidos na versão anglicizada.
E a coisa piorou muito depois que passamos a ser colonizados por Miami; e ou, antes, depois que Miami desandou a se infestar de brasileiro. (A expressão não é minha, li essa queixa no colunista de um jornaleco de lá.) [...]
E se o fenômeno não tem volta, se é irremediável, a gente poderia ao menos pedir ao céu que ele mudasse um pouco de direção. Em vez de termos a nossa capital cultural do exterior localizada em Miami e arredores, por que não em Nova York? Mas os nossos socialites (mais inglês) e os emergentes em geral detestam Nova York (ou Noviorque, como eles dizem). Lá, a vida é mais cara, a cidade é imensa, as pessoas se perdem na anonimidade, não saem em noticiário dos jornais brasileiros, e também lá não tem quem fale português, nem ao menos quem entenda o nosso tipo de ‘inglês’.
O mal é sem remédio, ai de nós. Ou ‘hélàs’, como se dizia no tempo em que o francês era chique. Em miamês não sei como é. 
QUEIROZ, Rachel de. In: CAMPOS, C. L. S.; SILVA, N. J. (orgs.) Lições de Gramática para quem gosta de Literatura. São Paulo: Panda Books.


Walcir e a sensação de se perder na selva
A alegada desorientação ante o emprego de termos estrangeiros (ou estrangeiramente empregados) – faz o cronista duvidar da própria esperteza... Pura estratégia ou charme, que desvela sua lucidez e fina ironia na análise de expressões da moda.

Será que sou bobo?
Ando perdido em uma selva de palavras. Existem termos destinados a dar a impressão de que algo não é exatamente o que é. Ou para botar verniz sobre uma atividade banal. Já estão, sim, incorporados no vocabulário. Servem para dar uma impressão enganosa. E também para ajudar as pessoas a parecer inteligentes e chiques porque parecem difíceis. Resolvi desvendar algumas dessas armadilhas verbais.
Seminovo – Já não se fala em carro usado, mas em seminovo. Vendedores adoram. O termo sugere que o carro não é tão velho assim, mesmo que se trate de uma Brasília sem motor. Ou que o câmbio saia na mão do comprador logo depois da primeira curva. É pura técnica de vendas. Vou guardá-lo para elogiar uma amiga que fez plástica. Talvez ela adore ouvir que está “seminova”. Mas talvez...
Sale – É a boa e velha liquidação. As lojas dos shoppings devem achar liquidação muito chula. Anunciam em inglês. Sale quer dizer que o estoque encalhou. A grife está liquidando, sim! Não se envergonhe de pedir mais descontos. Pode ser que não seja chique, mas aproveite.
Loft – Quando o loft surgiu, nos Estados Unidos, era uma moradia instalada em antigos galpões industriais. Sempre enorme e sem paredes divisórias. Vejo anúncios de lofts a torto e a direito. A maioria corresponde a um antigo conjugado. Só não tem paredes, para lembrar seu similar americano. É preciso ser compreensivo. Qualquer um prefere dizer que está morando em um loft a dizer em uma quitinete de luxo.
Cult – Não aguento mais ouvir falar que alguma porcaria é cult. O cult é o brega que ganhou status. O negócio é o seguinte: um bando de intelectuais adora assistir a filmes de terceira, programas de televisão populares e afins. Mas um intelectual não pode revelar que gosta de algo considerado brega. Então diz que é cult. Assim, se pode divertir com bobagens, como qualquer ser humano normal, sem deixar de parecer inteligente. Como conceito, próximo do cult está o trash. E o lixo elogiado. Trash é muito usado para filmes de terror. Um candidato a intelectual jamais confessa que não perde um episódio da série Sexta-Feira 13, por exemplo. Ergue o nariz e diz que é trash. Depois, agarra um saquinho de pipoca, senta na primeira fila e grita a cada vez que o Jason ergue o machado.
Workshop – É uma espécie de curso intensivo. Existem os bons. Mas o termo se presta a muita empulhação. Pois, ao contrário dos cursos, no workshop ninguém tem a obrigação de aprender alguma coisa específica. Basta participar. Muitas vezes botam um sujeito famoso para dar palestras durante dois dias seguidos. Há alunos que chegam a roncar na sala. Depois fazem bonito dizendo que participaram de um workshop com fulano ou beltrano. A palavra é imponente, não é?
Releitura – Ninguém, no meio artístico ou gastronômico, consegue sobreviver sem usar essa palavra. Está em moda. Fala-se em releitura de tudo: de músicas, de receitas, de livros. Em culinária, releitura serve para falar de alguém que achou uma receita antiga e lhe deu um toque pessoal. Críticos culinários e donos de restaurantes badalados adoram falar em cardápios com releitura disso e daquilo. Ora, um cozinheiro não bota seu tempero até na feijoada? Isso é releitura? Então minha avó fazia releitura e não sabia, coitada. O caso fica mais complicado em outras áreas. Fazer uma releitura de uma história não é disfarçar falta de ideia? Claro que existem casos e casos. Mas que releitura serve para disfarçar cópia e plágio, serve. Seria mais honesto dizer “adaptado de...” ou “inspirado em...”, como faziam antes.
Daria para escrever um livro inteiro a respeito. Fico arrepiado quando alguém vem com uma conversa abarrotada de termos como esses. Parece que vão me passar a perna. Ou a culpa é minha, e não sou capaz de entender a profundidade da conversa. Nessas horas, fico pensando: será que sou bobo? Ou tem gente esperta demais?
CARRASCO, Walcyr. In: CAMPOS, C. L. S.; SILVA, N. J. (orgs.) Lições de Gramática para quem gosta de Literatura. São Paulo: Panda Books, 2007.


Mário e a penetração na língua brasileira
O poema de Mário de Andrade também critica o falar estrangeiro, agora não em defesa de uma linguagem formal/da elite, mas da cultura popular e do falar coloquial/informal.
Sabemos que, como bom modernista, importava a Mário a afirmação da identidade nacional, principalmente nos aspectos de arte, cultura e língua brasileiras. Daí a incursão por territórios idiomáticos da África e dos índios brasileiros, em várias de suas obras. Nesta, temos:
lundu – dança e canção de origem africana;
gupiara – região de sedimentos de cascalhos, nas encostas dos morros (palavra de origem indígena);
caçanje – português mal falado; dialeto crioulo falado em Angola (palavra de origem africana);
guariba – macaco (“singe”, no francês”), como explica o próprio texto (palavra de origem indígena).

Lundu do escritor difícil
Eu sou um escritor difícil
Que a muita gente enquizila,
Porém essa culpa é fácil
De se acabar duma vez:
É só tirar a cortina
Que entra luz nesta escurez.

Cortina de brim caipora,
Com teia caranguejeira
E enfeite ruim de caipira,
Fale fala brasileira
Que você enxerga bonito
Tanta luz nesta capoeira
Tal-e-qual numa gupiara.

[...]

Não carece vestir tanga
Pra penetrar meu caçanje!
Você sabe o francês "singe"
Mas não sabe o que é guariba?
– Pois é macaco, seu mano,
Que só sabe o que é da estranja.
ANDRADE, Mário. Disponível em
http://mario-de-andrade.blogspot.com.br/2009/05/lundu-do-escritor-dificil.html


Bem...
Resta perguntar: quantos de nós compreendemos “de primeira” o poema do “escritor difícil” Mário de Andrade? Estaremos nós, em termos de compreensão linguística, mais para o francês que para o “brasileiro”, como reclama o eu poético? (Ou, quem sabe, para o  'miamês’ ? Ou o ‘americanês'? Ou...)
Até a próxima divagação.

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