sábado, 24 de janeiro de 2015

Uma cidade em tempos





Lembrando o início de um soneto de Camões:

Mudam-se os tempos, mudam-se as vontades,
Muda-se o ser, muda-se a confiança:
Todo o mundo é composto de mudança,
Tomando sempre novas qualidades.

...Neste janeiro, estendo uma ponte para esta cidade onde vivo. São Paulo é, sem dúvida, “composto de mudança” e vem “tomando sempre novas qualidades” (positivas e negativas, de certo).

Ainda com palavras do poeta, vou além para lembrar alguns seres – escritores –, que, em tempos diferentes, depositaram suas vontades literárias em representações de São Paulo. São muitos, é verdade. Por isso mesmo, faço um recorte e trago alguns artistas que têm em comum o fato de terem aqui nascido ou habitado.

A seguir, os autores e textos resultantes dessa garimpagem.


Alcântara Machado

O paulistano António de Alcântara Machado (1901 – 1935) apresentou seu livro Brás, Bexiga e Barra Funda como “o órgão dos ítalo-brasileiros de São Paulo”. Tendo como cenário os bairros operários que dão título ao livro, as personagens dos contos dão vida a imigrantes e filhos de imigrantes italianos pobres, flagrados em várias funções e situações.

Gaetaninho, um dos textos mais conhecidos, é quase uma crônica da São Paulo antiga, com o bonde, o carro fúnebre adornado, a carroça, o jogo do bicho, o futebol na rua com bola de meia, os nomes próprios italianos.

A notar, também: quanto à linguagem, o tom coloquial e as expressões populares (algumas com “sotaque”) da época; quanto à organização do texto, a estrutura em cenas e, por trás da aparente leveza, a triste ironia do desfecho (insinuado desde o princípio da narrativa).

Gaetaninho
– Xi, Gaetaninho, como é bom!
Gaetaninho ficou banzando bem no meio da rua. O Ford quase o derrubou e ele não viu o Ford. O carroceiro disse um palavrão e ele não ouviu o palavrão.
– Eh! Gaetaninho! Vem pra dentro.
Grito materno sim: até filho surdo escuta. Virou o rosto tão feio de sardento, viu a mãe e viu o chinelo.
Subito!
Foi-se chegando devagarinho, devagarinho. Fazendo beicinho. Estudando o terreno. Diante da mãe e do chinelo parou. Balançou o corpo. Recurso de campeão de futebol. Fingiu tomar a direita. Mas deu meia volta instantânea e varou pela esquerda porta adentro.
Eta salame de mestre!
............
Ali na Rua Oriente a ralé quando muito andava de bonde. De automóvel ou carro só mesmo em dia de enterro. De enterro ou de casamento. Por isso mesmo o sonho de Gaetaninho era de realização muito difícil. Um sonho.
O Beppino por exemplo. O Beppino naquela tarde atravessara de carro a cidade. Mas como? Atrás da Tia Peronetta que se mudava para o Araçá. Assim também não era vantagem.
Mas se era o único meio? Paciência.
............
Gaetaninho enfiou a cabeça embaixo do travesseiro.
Que beleza, rapaz! Na frente quatro cavalos pretos empenachados levavam a Tia Filomena para o cemitério. Depois o padre. Depois o Savério noivo dela de lenço nos olhos. Depois ele. Na boleia do carro. Ao lado do cocheiro. Com a roupa marinheira e o gorro branco onde se lia: ENCOURAÇADO SÃO PAULO. Não. Ficava mais bonito de roupa marinheira mas com a palhetinha nova que o irmão lhe trouxera da fábrica. E ligas pretas segurando as meias. Que beleza, rapaz! Dentro do carro o pai, os dois irmãos mais velhos (um de gravata vermelha, outro de gravata verde) e o padrinho Seu Salomone. Muita gente nas calçadas, nas portas e nas janelas dos palacetes, vendo o enterro. Sobretudo admirando o Gaetaninho.
Mas Gaetaninho ainda não estava satisfeito. Queira ir carregando o chicote. O desgraçado do cocheiro não queria deixar. Nem por um instantinho só.
Gaetaninho ia berrar, mas a Tia Filomena com mania de cantar o “Ahi, Mari!” todas as manhãs o acordou.
Primeiro ficou desapontado. Depois quase chorou de ódio.
............
Tia Filomena teve um ataque de nervos quando soube do sonho de Gaetaninho. Tão forte que ele sentiu remorsos. E para sossego da família alarmada com o agouro tratou logo de substituir a tia por outra pessoa numa nova versão de seu sonho. Matutou, matutou, e escolheu o acendedor da Companhia de Gás, seu Rubino, que uma vez lhe deu um cocre danado de doído.
Os irmãos (esses) quando souberam da história resolveram arriscar de sociedade quinhentão no elefante. Deu a vaca. E eles ficaram loucos de raiva por não haverem logo adivinhado que não podia deixar de dar a vaca mesmo.
............
O jogo na calçada parecia de vida ou morte. Muito embora Gaetaninho não estava ligando.
– Você conhecia o pai do Afonso, Beppino?
– Meu pai deu uma vez na cara dele.
– Então você não vai amanhã no enterro. Eu vou!
O Vicente protestou indignado:
– Assim não jogo mais ! O Gaetaninho está atrapalhando!
Gaetaninho voltou para o seu posto de guardião. Tão cheio de responsabilidades.
O Nino veio correndo com a bolinha de meia. Chegou bem perto. Com o tronco arqueado, as pernas dobradas, os braços estendidos, as mãos abertas, Gaetaninho ficou pronto para a defesa.
– Passa pro Beppino!
Beppino deu dois passos e meteu o pé na bola. Com todo o muque. Ela cobriu o guardião sardento e foi parar no meio da rua.
– Vá dar tiro no inferno!
– Cala a boca, palestrino!
– Traga a bola!
Gaetaninho saiu correndo. Antes de alcançar a bola um bonde o pegou. Pegou e matou.
No bonde vinha o pai de Gaetaninho.
A gurizada assustada espalhou a notícia na noite.
– Sabe o Gaetaninho?
– Que é que tem?
– Amassou o bonde!
A vizinhança limpou com benzina suas roupas domingueiras.
............
Às dezesseis horas do dia seguinte saiu um enterro da Rua do Oriente e Gaetaninho não ia na boleia de nenhum dos carros do acompanhamento. Ia no da frente dentro de um caixão fechado com flores pobres por cima. Vestia a roupa marinheira, tinha as ligas, mas não levava a palhetinha.
Quem na boleia de um dos carros do cortejo mirim exibia soberbo terno vermelho que feria a vista da gente era o Beppino.
[MACHADO, António de Alcântara. Novelas paulistanas. Rio de Janeiro: Ed. José Olympio, 1973.]


Lourenço Diaféria

O jornalista, contista e cronista Lourenço Diaféria (1933 – 2008) também retratou o Brás, bairro onde nasceu. Mas não só. Como jornalista (por muitos anos escreveu para a Folha de São Paulo), tinha o olhar aguçado para grandes e pequenos acontecimentos do dia a dia – e elegeu a cidade e o cidadão paulistano como principal matéria de suas belas crônicas. 

Em Minha cidade, em janeiro,  reconhecem-se espaços e personagens do centro comercial. No texto, o olhar de Diaféria é múltiplo: por um lado, abrange o presente em que escreve e o passado histórico dos espaços da cidade; por outro, faz uma radiografia do que é “legítimo” em São Paulo, com diversas nuances, negativas e positivas. (Para esse segundo aspecto, repare, leitor, na repetição intencional que abre cada parágrafo: “O que minha cidade tem de mais [...] e legítimo”.)

Por fim, o caos da cidade grande se expressa sinteticamente no penúltimo parágrafo, pela longa enumeração de vocábulos separados por vírgulas (a dar sensação de rapidez), pela confusão dos nomes de ruas que são (ou não) flores, pela mistura e sucessão de antíteses e de metáforas: eis a vitrine do “bazar de coisas” urbano.

Minha cidade, em janeiro
O que minha cidade tem de mais pulcro e legítimo é o rosto da moça atrás do vidro fumê do 18º andar do edifício da companhia de investimentos. O rosto aparece às 17h55min, de segunda a sexta, quando ela espia a calçada antes de bater o cartão de ponto no relógio. O namorado da moça tem uma moto de milhões de decibéis e faz tantas loucuras no cruzamento da avenida que, em certos momentos, parece que vai bater as asas de metal e se transfigurar num anjo barbudo e entrar no bairro do Paraíso, para tomar um sorvete de tutti-frutti com duas casquinhas.
O que minha cidade tem de mais operoso e legítimo é o crioulo de capacete ocre que enfia a ponta do martelo mecânico na viga de concreto e rompe o útero da Rua das Palmeiras, onde corre um braço subterrâneo do Metrô. O capacete do crioulo lembra um sol boiando no suor da cara e, quando a tarde cai, o capacete fica de riba como porongo decepado em cima do balcão, enquanto o garoto do bar serve um traçado ao som do liquidificador.
O que minha cidade tem de mais vetusto e legítimo é o fantasma do coronel Arouche que guardou suas emas, jaçanãs, pacas e bacamartes na arca do passado e transita incógnito e invisível por entre as mesinhas de pinguços e desesperados com olhos cor de quitinete. O coronel Arouche por hábito arrasta as botas sujas de lama do tempo em que o Anhangabaú dava curimbatá e a cidade tinha pontes de madeira, onde hoje ficam os Correios e Telégrafos. O coronel Arouche é transparente e se encontra com o brigadeiro Tobias na sacada solitária do prédio Martinelli nas noites de lua e garoa.
O que minha cidade tem de mais amargo e legítimo é o corpo em decúbito dorsal, ainda não identificado, coberto com a última página do vespertino, e um para-choque de jamanta com tinta fresca vermelha: cuidado, não encostar que é sangue.
O que minha cidade tem de mais imperceptível e legítimo é o violino que toca de manhã cedo na Rua Conselheiro Furtado tangido por um chinês de Formosa que vende penas de nanquim na Liberdade e escreve, em hieróglifos, poemas para um velhinho de barba fina que tem 98 anos, nasceu em Kioto, e adora doce de feijão, peixe cru e forró.
O que minha cidade tem de mais pardo e legítimo são os paquidermes dos edifícios que ressonam rente ao Minhocão e cujo pescoço alado se atira sobre Santa Cecília, Bexiga, Vila Buarque, até esmorecer diante da torre de São Geraldo das Perdizes.
O que minha cidade tem de mais acordado e legítimo é o Ponto Chic, onde a Polícia, a malandragem e a boemia confraternizam e meditam sobre a glória passageira das valentias, dos sanduíches e do chope gelado.
O que minha cidade tem de mais revolucionário e legítimo são as conversas fiadas dos bares de Vila Madalena, onde um garçom de vanguarda bolou uma perfeita bomba de efeito retardado com meia dose de dor-de-cotovelo, algumas gotas de amargo, dois dedos de esperança disfarçada, e alegria q.s.p.¹ encher o coração.
O que minha cidade tem de mais álacre e legítimo é o alarido dos mochileiros, flautistas, barraqueiros e fugitivos no Terminal Rodoviário do Jabaquara, ao dizerem adeus no sábado de manhã, em busca do mar do Sul, e voltando domingo à noite tostados de cerveja, sol, areia e mariscos, até empalidecerem outra vez no cotidiano das lojas, armarinhos, butiques, bancos e guichês.
O que minha cidade tem de mais fácil e legítimo é esta disponibilidade para aceitar as coisas como são – a vida e a morte – e concluir que tudo é possível: sardas, celulite, bronze, paralelepípedo, cartório de protesto, bala perdida, impropérios, maldições, arrependimentos, conversões, penitências, desuniões definitivas, casamentos eternos, bodas de ouro, tombos, porões, amizades, ervas medicinais, macumbas, crediários, a estátua de Anchieta, o Pátio do Colégio, os mascateiros da General Carneiro, o lausperene em Santa Ifigênia, os sinos de São Bento, e o sol no merídio iluminando colarinhos sociais.
Bazar de coisas, caos e golfo, cartão-postal da pressa, porto de ternuras, buquê de pamplonas, angélicas, azaleias, fuligens e augustas, moquifos e tugúrios, campeonato mundial entremeado de pernetas e fraturas, solidões cercadas de risos e de festas, macarronadas infinitas, pizzas, chaminés e a via láctea de fumaça corrigindo as estrelas verdadeiras.
Mas, por fim, eu revelo: o que esta cidade tem mesmo de mais fiel e legítimo é o amor e a raiva deste amante anônimo, quando a cidade finge não me ver no meio do povo que a habita.
¹ q.s.p., em química, é a abreviação de “quantidade suficiente para”. 
[DIAFÉRIA, Lourenço Carlos. Disponível em https://webwritersbrasil.wordpress.com/literatura-na-web/a-arte-da-cronica/cronicas-comentadas/uma-cronica-de-lourenco-diaferia/]


Augusto de Campos

Um dos fundadores do movimento concretista, Augusto de Campos nasceu em São Paulo, em 1931. Cidade, City, Cité, seu retrato da desordem e da cacofonia da grande cidade (São Paulo, mas também qualquer outra megalópole do mundo) é concreto e contundente, como não poderia deixar de ser.

Não basta ler seu poema, longa linha de uma só palavra (palavra-valise), composta por recorte de palavras existentes (que, recompostas pelo leitor em outras leituras, “dizem” outros aspectos da cidade). É preciso vê-lo e ouvi-lo – para a sensação de caos, ruído e aceleração incorporar-se ao sentido:

atrocaducapacaustiduplielastifeliferofugahistoriloqualubrimendimultipliorganiperiodiplastipublirapareciproustisagasimplitenaveloveravivaunivora
cidade
city
cité
[Disponível em http://revistamododeusar.blogspot.com.br/2009/01/augusto-de-campos.html]






Canções para São Paulo: Criolo

De passagem, quero fazer referência às tão importantes canções que mostram São Paulo e suas múltiplas feições. Deixo de lado os conhecidos e queridos Adoniran Barbosa, Tom Zé, Billy Blanco, Paulo Vanzolini, Itamar Assumpção, Caetano Veloso, entre outros.

Foco minha atenção em Criolo, paulistano nascido em 1975, como representante da geração contemporânea. Sem louvações, o rapper nos traz uma visão realista e crítica da São Paulo de agora – Não existe amor em São Paulo –, ajudando a compor sua face multifacetada.


Não Existe Amor Em SP

Não existe amor em SP
Um labirinto místico
Onde os grafites gritam
Não dá pra descrever
Numa linda frase
De um postal tão doce
Cuidado com doce
São Paulo é um buquê
Buquês são flores mortas
Num lindo arranjo
Arranjo lindo feito pra você
Não existe amor em SP
Os bares estão cheios de almas tão vazias
A ganância vibra, a vaidade excita
Devolva minha vida e morra afogada em seu próprio mar de fel
Aqui ninguém vai pro céu
Não precisa morrer pra ver Deus
Não precisa sofrer pra saber o que é melhor pra você
Encontro duas nuvens em cada escombro, em cada esquina
Me dê um gole de vida
Não precisa morrer pra ver Deu
s






Ao leitor

Leitor amigo, se você conhece ou tem notícias sobre São Paulo, deve ter percebido que os textos apontam significativas modificações pelas quais passou a metrópole.

Em contrapartida, há aspectos que, de uns tempos para cá, permanecem e se aguçam, tal qual indicam os textos de Diaféria, Augusto de Campos e Criolo. Como bem reflete Camões em seu soneto, parece que “afora este mudar-se cada dia [...] não se muda já como soía”.

Aliás, para completar a informação, deixo o poema integral do poeta português:

Mudam-se os tempos, mudam-se as vontades,
Muda-se o ser, muda-se a confiança:
Todo o mundo é composto de mudança,
Tomando sempre novas qualidades.

Continuamente vemos novidades,
Diferentes em tudo da esperança:
Do mal ficam as mágoas na lembrança,
E do bem (se algum houve) as saudades.

O tempo cobre o chão de verde manto,
Que já coberto foi de neve fria,
E em mim converte em choro o doce canto.

E afora este mudar-se cada dia,
Outra mudança faz de mor espanto,
Que não se muda já como soía.

[Disponível em http://www.citador.pt/poemas/mudamse-os-tempos-mudamse-as-vontades-luis-vaz-de-camoes]

quinta-feira, 15 de janeiro de 2015

Divagações linguísticas e gerações em conflito

Em matérias anteriores (10/12/2014 e 04/01/2015), pedi a você, leitor, que me acompanhasse numa visita a escritos que, de alguma maneira, enfocavam conflitos relativos ao conhecimento e uso do idioma.
Continuo no tema, estendendo-o agora ao relacionamento entre gerações, na ótica de dois escritores/jornalistas, afeitos e atentos à linguagem dos mais jovens. São eles: Rosana Hermann e Marcelo Duarte.


Quando a tentativa de aproximação não dá muito certo
Se antigamente já era difícil a comunicação entre pais e filhos, depois do computador e da internet, então... O dialeto e as abreviações usadas em salas de bate-papo virtuais estão bem longe da “simples” correspondência via carta ou telegrama de outrora.
A crônica de Rosana Hermann traz à luz a mãe que se esforça por acompanhar a evolução tecnológica e o mundo virtual da filha e, para isso, procura comunicar-se via internet.
O resultado... não é dos melhores:

A menina que falava internetês
A mãe gostava de acreditar-se moderna. Do figurino à linguagem, esforçava-se para estar sempre up-to-date com as últimas tendências da moda. Seus objetivos eram claros: criar uma imagem de mulher mais jovem e fazer bonito para os filhos, os reis da tecnologia doméstica, que dominavam tudo na casa, dos controles remotos dos aparelhos eletrônicos aos computadores e laptops. Foi o propósito de não perder o bonde da história que levou Wanda a comprar um computador pessoal, assinar um provedor de acesso e começar a navegar pela internet. Nada poderia detê-la rumo à modernidade!
Depois de alguns dias, navegando em seu trabalho, encontrou sua filha pré-adolescente on-line. Não resistiu à tentação e iniciou uma conversa através de um programa de mensagens instantâneas.
– Olá, filha, aqui é a sua mãe, navegando pela internet… Tudo bem com você, querida?
– blz.
– Como? Não entendi, filhinha. Seu teclado está com algum problema nas vogais?
– naum.
– Vejo que não é este o problema, já que você digitou duas vogais agora mesmo! Mas pode ser um defeito nas teclas de acentuação. Por favor, filha, teste o ‘til’.
– q tio?
– Não, não o tio, o til. O tio é o irmão do papai, o tio Bruno. O til é aquele acento do não, do anão, da mamãe… Lembra quando a mamãe ensinou a você que o til parecia uma minhoquinha?
– nem
– Nem? Como assim, ‘nem’? Nem no sentido de conjunção coordenativa aditiva como ‘não lembro nem quero lembrar’? Ou seria ‘nem’ como conjunção coordenativa alternativa, como em ‘não me lembro e nem parece uma minhoquinha’?
– ;-(
– Que foi isso, filhota?
– naum quero + tc com vc
– Você… não quer mais tecer comigo?
– teclar
– Assim mamãe fica triste, lindinha. Eu só queria conversar, puxar algum assunto. Mas está difícil. Eu não entendo o que você escreve e você não se interessa pelo que eu digito. Realmente, meu bem, parece que não é possível estabelecer um diálogo com você. Tudo bem, se eu tiver incomodando, eu paro agora mesmo.
– tá
– Antes de ir pra casa eu vou passar no supermercado. O que você quer que eu compre para… para… para vc? É assim que se diz em internetês?
– refri e bisc8
– Refrigerante e biscoito? Biscoito? Filha, francamente, que linguagem é essa? Você estuda no melhor colégio, seu pai paga uma mensalidade altíssima e você escreve assim na internet? Sem vogais, sem acentos, sem completar as palavras, sem usar maiúsculas no início de uma frase, com orações sem nexo e ainda por cima usando números no lugar das sílabas? Isso é inadmissível, Maria Eugênia!
– Xau, mãe, c ta xata.
– Maria Eugênia! Chata é com ch!
– Maria Eugênia?
– Desligou. Bem, pelo menos a tecla til está em ordem.
HERMANN, Rosana. In: CAMPOS, C. L. S.; SILVA, N. J. (orgs.). Lições de Gramática para quem gosta de Literatura. São Paulo: Panda Books.


Quando a incompreensão acaba em final feliz
São muitas as crônicas que se detêm a analisar a forma de comunicação – ou a não comunicação – dos craques do futebol. Parece que o filão melhor para o cronista é o jogador que faz uso de termos engraçados, fora de propósito, ou com tendência à exibição; ou o seu contrário: aquele de fala telegráfica, ou que responde sempre a mesma coisa, qualquer que seja a pergunta feita.
Marcelo Duarte faz diferente: traz ao leitor um jogador que, além de falante, é bom ouvinte. Quanto à compreensão do que ouve... Bem, ao final da história, veremos seu entendimento sobre “pleonasmo”, tão citado por seu contratante.  (Para facilitar a leitura, sublinho os pleonasmos do texto.)

Olha o pleonasmo!
O Dínamo, tradicional time de futebol do estado, estava há 17 anos sem conquistar um título. Pior: no último campeonato ficou ameaçado de cair para a Segunda Divisão. A oposição dentro do clube cresceu e escolheu o professor Ramalho para ser seu candidato à presidência. Ramalho era professor aposentado de Língua Portuguesa. Tinha tempo de sobra, portanto, para se dedicar a reerguer o time. Abertas as urnas, ganhou apertado, mas ganhou. Com ajuda de amigos empresários, o cartola anunciou uma contratação de impacto para a temporada: o centroavante Zuba. A imprensa toda foi para a sede do clube acompanhar a primeira coletiva do craque:
– Esse sorriso nos meus lábios é para mostrar que o Dínamo vai sair para fora dessa situação – declarou, vestindo a camisa amarela e preta número 9 pela primeira vez.
Ao final da entrevista, guardião austero do bom português, o professor Ramalho passou pelo jogador e cochichou:
– Olha o pleonasmo!
Zuba não entendeu o que o presidente quis dizer. Ficou com um enorme ponto de interrogação na cara.
Na partida de estreia de Zuba, o Dínamo conseguiu uma vitória sobre o Atlântico, um de seus maiores rivais. O centroavante marcou dois gols. Foi eleito o melhor em campo e acabou cercado de repórteres na saída do campo:
– De agora em diante vamos encarar de frente todos os nossos adversários!
O professor Ramalho, que havia entrado no gramado para abraçar seu goleador, esperou os repórteres se dispersarem e disse baixinho outra vez:
– Olha o pleonasmo!
O Dínamo começou a subir na tabela e logo Zuba se transformou no artilheiro do campeonato nacional. Passou a ser convidado a participar das mesas-redondas na TV. Em uma delas, teve a humildade de dividir os méritos da campanha com Tony seu companheiro de time.
– Ele é o elo de ligação entre o meio de campo e o ataque do nosso time.
Ao sair da emissora, recebeu um torpedo no celular enviado pelo presidente:
– Parabéns pela entrevista. Muito boa. Mas olha o pleonasmo!
Com uma vitória atrás da outra, a torcida passou a prestigiar os jogos do Dínamo. O estádio estava sempre lotado. Zuba era sempre o mais aplaudido. Em campo, correspondia com gols e mais gols. Na semifinal, contra o Liberdade, não marcou, mas deu um passe primoroso para o ponta-esquerda Pedrão mandar para as redes.
– O que nos interessa é vencer. Se sou eu quem faz a conclusão final ou não, pouco importa.
À sua frente no vestiário, só que um pouco distante, ele enxergou o presidente, feliz da vida, mexendo os lábios. Não era preciso ser especialista em leitura labial para entender o que ele estava dizendo:
“Olha o pleonasmo!”.
Chegou o dia da grande final. Estádio abarrotado, transmissão ao vivo pela TV. O Dínamo sofreu um sufoco no início, mas conseguiu equilibrar a partida no final do primeiro tempo. Os minutos iam passando e os dois times não paravam de perder chances. Até que, a oito minutos do final, Zuba entrou na área do Cometas. Era a oportunidade do Dínamo acabar com o jejum de títulos.
A torcida começou a gritar o nome de Zuba. Ele não fugiu da responsabilidade. Apanhou a bola e pediu para bater. E bateu com elegância. Bola num canto, goleiro no outro. Depois da volta olímpica, o artilheiro atendeu os inúmeros repórteres, que quase enfiavam os microfones em sua boca.
– Quero dedicar essa vitória em especial ao nosso presidente, professor Ramalho. Primeiro por ter acreditado no meu futebol e ter me contratado.
Procurou o dirigente com os olhos. Quando o encontrou, Zuba deu um sorrisinho e continuou:
– E quero, principalmente, agradecer a ele pela dica que me deu na hora de cobrar o pênalti.
O cartola ficou todo envaidecido. Mas... a qual dica o jogador estava se referindo? Zuba logo matou a charada:
– Quando corri para a bola, olhei bem nos olhos do goleiro adversário, apontei para um canto e disse: “Olha o pleonasmo!”. Ele virou para o lado direito e eu mandei a bola no esquerdo.
DUARTE, Marcelo. In CAMPOS, C. L. S.; SILVA, N. J. (orgs.) Lições de Gramática para quem gosta de Literatura. São Paulo: Panda Books, 2007.


Leitor/a que me acompanhou nessas divagações...
Seja de modo divertido ou sério, o importante é que tomemos consciência de todas as variantes e dialetos linguísticos presentes na sociedade. A Língua, ao contrário do que alguns pensam, é mutável como o ser humano, porque o acompanha e o traduz em suas várias vivências.
O momento e contexto histórico e geográfico, os aspectos da cultura, as contingências sociais e situacionais, os suportes e veículos usados para a comunicação – tudo isso provoca variações nos modos de expressão humanas. Acolher, sem preconceitos, a forma como cada um se expressa, é exercitar o respeito à diversidade do ser e afirmar o direito à identidade própria.
Ah!, sem esquecer: o respeito à palavra – enquanto forma e conteúdo – vem a par do respeito integral à pessoa; o que nos leva a considerar o peso e a consequência de nossas próprias palavras...
Que este seja um dos bons pensamentos para este momento inicial do ano e para avaliar fatos importantes deste nosso tempo.

domingo, 4 de janeiro de 2015

Divagações linguísticas de férias


A viagem das línguas
Leitor ou leitora, vai viajar? Está pensando nisso? Arrumando as malas, imaginando delícias, antevendo novas paisagens ou a revisita das conhecidas...
Bem, talvez sua viagem não deva ser física, e você esteja planejando voar nas asas das artes e diversões, em sua cidade, mesmo: bons filmes, museus, livros interessantes; momentos em parque, meditação num local tranquilo. Tudo isso faz parte da postura viajeira do espírito, concorda?
E que tal continuarmos com as divagações linguísticas, agora observando o modo como a língua viaja e chega até nós? As palavras estrangeiras, de fato, nos alcançam por aqui mesmo, no lugar em que vivemos, e incorporam-se à nossa fala cotidiana. Acontece de tal modo, que é como se nós próprios viajássemos, incorporando hábitos e falas de lugares nos quais, talvez, nunca tenhamos posto os pés.
Aliás, quando se trata de palavra já incorporada à língua, nem nos apercebemos de sua “estrangeirice”. Assim, futebol, bife, coquetel; batom, guichê, maiô; boteco, artesão, cantina; mutirão, pipoca, abacaxi – três a três e respectivamente, essas palavras têm como origem as línguas inglesa, francesa, italiana e tupi: alguém se lembra disso?
No entanto, o que dizer de palavras bem mais novas, que passeiam e se deslocam de forma absurdamente rápida via internet, que vêm e são adotadas em sua forma original? Nem todos as aceitam, como demonstram os textos abaixo, com visões e tons distintos entre si, porém, tendo em comum a crítica aos modismos vindos do estrangeiro.
Vamos às leituras.


Rachel: turismo e invasão linguística
A crônica de Rachel de Queiroz agudiza a crítica e confere estatuto de colonização à importação de termos da cultura americana. A escritora não deixa dúvidas quanto à aversão ao modismo, ao mesmo tempo em que revela certo saudosismo quanto a estrangeirismos mais... elitistas: o francês, ou mesmo o inglês mais tradicional e não tão “emergente”.
Note, leitor, a veemência das qualificações e a ironia que percorre o texto, e cresce no final.

O bilinguismo emergente
A gente já prevê que o nosso próximo passo será oficializar o inglês como língua do Brasil, com estatuto paralelo ao do português. E não é rabugice de velha escriba, é constatação fria e baseada nos fatos.
Pena que essa bilinguidade (perdoem o neologismo) não nos tenha chegado, já não digo por meio erudito, mas pelo menos por oralidade consequente; o que recebemos é a gíria do “show business” (é proibido falar ‘espetáculo’) da publicidade desenfreada (vide anúncios da televisão). E, pior que tudo, os nomes das lojas, de restaurantes, qualquer boteco de praia; até barraca de coco verde, arranjam nome com gosto ou cheiro de inglês.
Engraçado que essa voga frenética da língua dos americanos (porque o inglês, propriamente dito, não tem nada a ver com isso) não nos veio diretamente quando os americanos ganharam as guerras – a quente e a fria – e se fizeram donos do mundo. Não, a invasão tomou vulto posteriormente, de alguns anos para cá. Parece até uma epidemia: você abre o jornal, na página que outrora se chamava ‘diversões’ ou 'espetáculos’, hoje tudo é incluído na expressão "Show". Trate-se de espetáculo de música popular, de cantor lírico, de dançarinos, e até mesmo de teatro a sério – tudo é “show”. Os cantores populares, até os caipiras, arranjaram um jeitinho de se batizarem no que supõem que é o inglês. Não cito nomes porque não quero ofender ninguém, só quero mesmo reclamar.
[...] O pior é que a publicidade brasileira assumiu indiscriminadamente a moda, e você pode estar vendendo um brim tecido em São Paulo e ele será chamado "jeans", um sorvete é "ice-qualquer coisa". Quase todos os produtores do mercado, as loterias, os projetos imobiliários, tudo tem nome em suposto inglês. No menu dos restaurantes (aliás ninguém diz mais menu) os pratos são quase todos americanizados, do hot dog ao steak. Até o pratos de massas italianas são servidos na versão anglicizada.
E a coisa piorou muito depois que passamos a ser colonizados por Miami; e ou, antes, depois que Miami desandou a se infestar de brasileiro. (A expressão não é minha, li essa queixa no colunista de um jornaleco de lá.) [...]
E se o fenômeno não tem volta, se é irremediável, a gente poderia ao menos pedir ao céu que ele mudasse um pouco de direção. Em vez de termos a nossa capital cultural do exterior localizada em Miami e arredores, por que não em Nova York? Mas os nossos socialites (mais inglês) e os emergentes em geral detestam Nova York (ou Noviorque, como eles dizem). Lá, a vida é mais cara, a cidade é imensa, as pessoas se perdem na anonimidade, não saem em noticiário dos jornais brasileiros, e também lá não tem quem fale português, nem ao menos quem entenda o nosso tipo de ‘inglês’.
O mal é sem remédio, ai de nós. Ou ‘hélàs’, como se dizia no tempo em que o francês era chique. Em miamês não sei como é. 
QUEIROZ, Rachel de. In: CAMPOS, C. L. S.; SILVA, N. J. (orgs.) Lições de Gramática para quem gosta de Literatura. São Paulo: Panda Books.


Walcir e a sensação de se perder na selva
A alegada desorientação ante o emprego de termos estrangeiros (ou estrangeiramente empregados) – faz o cronista duvidar da própria esperteza... Pura estratégia ou charme, que desvela sua lucidez e fina ironia na análise de expressões da moda.

Será que sou bobo?
Ando perdido em uma selva de palavras. Existem termos destinados a dar a impressão de que algo não é exatamente o que é. Ou para botar verniz sobre uma atividade banal. Já estão, sim, incorporados no vocabulário. Servem para dar uma impressão enganosa. E também para ajudar as pessoas a parecer inteligentes e chiques porque parecem difíceis. Resolvi desvendar algumas dessas armadilhas verbais.
Seminovo – Já não se fala em carro usado, mas em seminovo. Vendedores adoram. O termo sugere que o carro não é tão velho assim, mesmo que se trate de uma Brasília sem motor. Ou que o câmbio saia na mão do comprador logo depois da primeira curva. É pura técnica de vendas. Vou guardá-lo para elogiar uma amiga que fez plástica. Talvez ela adore ouvir que está “seminova”. Mas talvez...
Sale – É a boa e velha liquidação. As lojas dos shoppings devem achar liquidação muito chula. Anunciam em inglês. Sale quer dizer que o estoque encalhou. A grife está liquidando, sim! Não se envergonhe de pedir mais descontos. Pode ser que não seja chique, mas aproveite.
Loft – Quando o loft surgiu, nos Estados Unidos, era uma moradia instalada em antigos galpões industriais. Sempre enorme e sem paredes divisórias. Vejo anúncios de lofts a torto e a direito. A maioria corresponde a um antigo conjugado. Só não tem paredes, para lembrar seu similar americano. É preciso ser compreensivo. Qualquer um prefere dizer que está morando em um loft a dizer em uma quitinete de luxo.
Cult – Não aguento mais ouvir falar que alguma porcaria é cult. O cult é o brega que ganhou status. O negócio é o seguinte: um bando de intelectuais adora assistir a filmes de terceira, programas de televisão populares e afins. Mas um intelectual não pode revelar que gosta de algo considerado brega. Então diz que é cult. Assim, se pode divertir com bobagens, como qualquer ser humano normal, sem deixar de parecer inteligente. Como conceito, próximo do cult está o trash. E o lixo elogiado. Trash é muito usado para filmes de terror. Um candidato a intelectual jamais confessa que não perde um episódio da série Sexta-Feira 13, por exemplo. Ergue o nariz e diz que é trash. Depois, agarra um saquinho de pipoca, senta na primeira fila e grita a cada vez que o Jason ergue o machado.
Workshop – É uma espécie de curso intensivo. Existem os bons. Mas o termo se presta a muita empulhação. Pois, ao contrário dos cursos, no workshop ninguém tem a obrigação de aprender alguma coisa específica. Basta participar. Muitas vezes botam um sujeito famoso para dar palestras durante dois dias seguidos. Há alunos que chegam a roncar na sala. Depois fazem bonito dizendo que participaram de um workshop com fulano ou beltrano. A palavra é imponente, não é?
Releitura – Ninguém, no meio artístico ou gastronômico, consegue sobreviver sem usar essa palavra. Está em moda. Fala-se em releitura de tudo: de músicas, de receitas, de livros. Em culinária, releitura serve para falar de alguém que achou uma receita antiga e lhe deu um toque pessoal. Críticos culinários e donos de restaurantes badalados adoram falar em cardápios com releitura disso e daquilo. Ora, um cozinheiro não bota seu tempero até na feijoada? Isso é releitura? Então minha avó fazia releitura e não sabia, coitada. O caso fica mais complicado em outras áreas. Fazer uma releitura de uma história não é disfarçar falta de ideia? Claro que existem casos e casos. Mas que releitura serve para disfarçar cópia e plágio, serve. Seria mais honesto dizer “adaptado de...” ou “inspirado em...”, como faziam antes.
Daria para escrever um livro inteiro a respeito. Fico arrepiado quando alguém vem com uma conversa abarrotada de termos como esses. Parece que vão me passar a perna. Ou a culpa é minha, e não sou capaz de entender a profundidade da conversa. Nessas horas, fico pensando: será que sou bobo? Ou tem gente esperta demais?
CARRASCO, Walcyr. In: CAMPOS, C. L. S.; SILVA, N. J. (orgs.) Lições de Gramática para quem gosta de Literatura. São Paulo: Panda Books, 2007.


Mário e a penetração na língua brasileira
O poema de Mário de Andrade também critica o falar estrangeiro, agora não em defesa de uma linguagem formal/da elite, mas da cultura popular e do falar coloquial/informal.
Sabemos que, como bom modernista, importava a Mário a afirmação da identidade nacional, principalmente nos aspectos de arte, cultura e língua brasileiras. Daí a incursão por territórios idiomáticos da África e dos índios brasileiros, em várias de suas obras. Nesta, temos:
lundu – dança e canção de origem africana;
gupiara – região de sedimentos de cascalhos, nas encostas dos morros (palavra de origem indígena);
caçanje – português mal falado; dialeto crioulo falado em Angola (palavra de origem africana);
guariba – macaco (“singe”, no francês”), como explica o próprio texto (palavra de origem indígena).

Lundu do escritor difícil
Eu sou um escritor difícil
Que a muita gente enquizila,
Porém essa culpa é fácil
De se acabar duma vez:
É só tirar a cortina
Que entra luz nesta escurez.

Cortina de brim caipora,
Com teia caranguejeira
E enfeite ruim de caipira,
Fale fala brasileira
Que você enxerga bonito
Tanta luz nesta capoeira
Tal-e-qual numa gupiara.

[...]

Não carece vestir tanga
Pra penetrar meu caçanje!
Você sabe o francês "singe"
Mas não sabe o que é guariba?
– Pois é macaco, seu mano,
Que só sabe o que é da estranja.
ANDRADE, Mário. Disponível em
http://mario-de-andrade.blogspot.com.br/2009/05/lundu-do-escritor-dificil.html


Bem...
Resta perguntar: quantos de nós compreendemos “de primeira” o poema do “escritor difícil” Mário de Andrade? Estaremos nós, em termos de compreensão linguística, mais para o francês que para o “brasileiro”, como reclama o eu poético? (Ou, quem sabe, para o  'miamês’ ? Ou o ‘americanês'? Ou...)
Até a próxima divagação.