terça-feira, 29 de dezembro de 2015

Balanço de ano com Drummond


Um ano termina, outro começa, vêm os balanços do tempo que foi, e as promessas para o que virá.
Vem, também, a vontade de relaxar e comprazer-se com pequenos e grandes lazeres, que nada têm a ver com sisudez e comprometimento. Para mim, é oportunidade para as delícias da leitura descompromissada. Nela reencontrei-me, desta vez, com a grande fonte inspiradora que é Carlos Drummond de Andrade.
Daí, a ideia de unir o útil ao agradável, e extrair do poeta algum momento de reflexão sobre passado, presente e futuro. Afinal, quem melhor que ele, para puxar o fio da vida, permitindo a despedida do vivido e a recepção do que se irá viver?
Quer vir comigo, leitor/a? Aceite meu convite e seja meu companheiro/a, num passeio poético por algumas joias do universo de Drummond. Que elas sirvam de impulso para voos, na imaginação e nas emoções, para trás e adiante no tempo, para dentro e fora de nós. 

Para rever o passado
Qual o resíduo de nós próprios que deixamos para a experiência universal do ano que finda? “Um pouco, não muito” – pode tornar-se o detalhe que marca toda uma vida... 
Resíduo

De tudo ficou um pouco
Do meu medo. Do teu asco.
Dos gritos gagos. Da rosa
ficou um pouco.

Ficou um pouco de luz
captada no chapéu.
Nos olhos do rufião
de ternura ficou um pouco
(muito pouco).

Pouco ficou deste pó
de que teu branco sapato
se cobriu. Ficaram poucas
roupas, poucos véus rotos
pouco, pouco, muito pouco.

Mas de tudo fica um pouco.
Da ponte bombardeada,
de duas folhas de grama,
do maço
– vazio – de cigarros, ficou um pouco.

Pois de tudo fica um pouco.
Fica um pouco de teu queixo
no queixo de tua filha.
De teu áspero silêncio
um pouco ficou, um pouco
nos muros zangados,
nas folhas, mudas, que sobem.

Ficou um pouco de tudo
no pires de porcelana,
dragão partido, flor branca,
ficou um pouco
de ruga na vossa testa,
retrato.

Se de tudo fica um pouco,
mas por que não ficaria
um pouco de mim? no trem
que leva ao norte, no barco,
nos anúncios de jornal,
um pouco de mim em Londres,
um pouco de mim algures?
na consoante?
no poço?

Um pouco fica oscilando
na embocadura dos rios
e os peixes não o evitam,
um pouco: não está nos livros.
De tudo fica um pouco.
Não muito: de uma torneira
pinga esta gota absurda,
meio sal e meio álcool,
salta esta perna de rã,
este vidro de relógio
partido em mil esperanças,
este pescoço de cisne,
este segredo infantil...
De tudo ficou um pouco:
de mim; de ti; de Abelardo.
Cabelo na minha manga,
de tudo ficou um pouco;
vento nas orelhas minhas,
simplório arroto, gemido
de víscera inconformada,
e minúsculos artefatos:
campânula, alvéolo, cápsula
de revólver... de aspirina.
De tudo ficou um pouco.

E de tudo fica um pouco.
Oh abre os vidros de loção
e abafa
o insuportável mau cheiro da memória.

Mas de tudo, terrível, fica um pouco,
e sob as ondas ritmadas
e sob as nuvens e os ventos
e sob as pontes e sob os túneis
e sob as labaredas e sob o sarcasmo
e sob a gosma e sob o vômito
e sob o soluço, o cárcere, o esquecido
e sob os espetáculos e sob a morte escarlate
e sob as bibliotecas, os asilos, as igrejas triunfantes
e sob tu mesmo e sob teus pés já duros
e sob os gonzos da família e da classe,
fica sempre um pouco de tudo.
Às vezes um botão. Às vezes um rato. 
[ANDRADE, Carlos Drummond de. Antologia Poética. Rio de Janeiro: Ed. do Autor, 1963.]

Para encarar o presente
A insegurança – nacional e universal – em que vivemos torna bastante atual o poema que Drummond publicou em 1945. O leitor é defrontado com a palavra medo, inúmeras vezes repetida, como uma sirene a alertar para o perigo da fixação do terror. No entanto, tal como o eu poético sugere, que sejamos conduzidos a caminhos mais abrangentes que aquele da angústia paralisante, pois: “O medo, com sua física, / tanto produz: carcereiros, / edifícios, escritores, / este poema; outras vidas.” 
O medo

Em verdade temos medo.
Nascemos escuro.
As existências são poucas:
Carteiro, ditador, soldado.
Nosso destino, incompleto.

E fomos educados para o medo.
Cheiramos flores de medo.
Vestimos panos de medo.
De medo, vermelhos rios
vadeamos.

Somos apenas uns homens
e a natureza traiu-nos.
Há as árvores, as fábricas,
Doenças galopantes, fomes.

Refugiamo-nos no amor,
este célebre sentimento,
e o amor faltou: chovia,
ventava, fazia frio em São Paulo.

Fazia frio em São Paulo...
Nevava.
O medo, com sua capa,
nos dissimula e nos berça.

Fiquei com medo de ti,
meu companheiro moreno,
De nós, de vós: e de tudo.
Estou com medo da honra.

Assim nos criam burgueses,
Nosso caminho: traçado.
Por que morrer em conjunto?
E se todos nós vivêssemos?

Vem, harmonia do medo,
vem, ó terror das estradas,
susto na noite, receio
de águas poluídas. Muletas

do homem só. Ajudai-nos,
lentos poderes do láudano.
Até a canção medrosa
se parte, se transe e cala-se.

Faremos casas de medo,
duros tijolos de medo,
medrosos caules, repuxos,
ruas só de medo e calma.

E com asas de prudência,
com resplendores covardes,
atingiremos o cimo
de nossa cauta subida.

O medo, com sua física,
tanto produz: carcereiros,
edifícios, escritores,
este poema; outras vidas.

Tenhamos o maior pavor,
Os mais velhos compreendem.
O medo cristalizou-os.
Estátuas sábias, adeus.

Adeus: vamos para a frente,
recuando de olhos acesos.
Nossos filhos tão felizes...
Fiéis herdeiros do medo,

eles povoam a cidade.
Depois da cidade, o mundo.
Depois do mundo, as estrelas,
dançando o baile do medo. 
[ANDRADE, Carlos Drummond de. In A Rosa do Povo.
Disponível em http://www.algumapoesia.com.br/drummond/drummond20.htm.]


Projetando o futuro
Diz o pensador Zygmunt Bauman: “Quer eu admita, quer não, sou o guardião do meu irmão, porque o bem-estar do meu irmão depende do que eu faço ou do que eu me abstenho de fazer.” Há muito o que fazer ainda, se estamos verdadeiramente vivos. Qual será nosso projeto transformador de consciências? Qual a canção de esperança que iremos preparar para nosso futuro comum? 
Canção amiga

Eu preparo uma canção
em que minha mãe se reconheça,
todas as mães se reconheçam,
e que fale como dois olhos.

Caminho por uma rua
que passa em muitos países.
Se não me veem, eu vejo
e saúdo velhos amigos.

Eu distribuo um segredo
como quem ama ou sorri.
No jeito mais natural
dois carinhos se procuram.

Minha vida, nossas vidas
formam um só diamante.
Aprendi novas palavras
e tornei outras mais belas.

Eu preparo uma canção
que faça acordar os homens
e adormecer as crianças. 
[ANDRADE, Carlos Drummond de. Antologia Poética. Rio de Janeiro: Ed. do Autor, 1963.]


Pretexto e pré-texto

Leitor, leitora, Drummond é um bom pretexto para pensamentos fundos... E pode servir, também, como pré-texto para nossas próprias escritas. Que tal escrever seu balanço poético pessoal? Esse é outro convite que faço, acrescentando: se escrever, quer dividi-lo comigo?
Termino com meu abraço e a Canção Amiga, na voz de Milton Nascimento.


sexta-feira, 18 de dezembro de 2015

Um conto para o Natal



Moacyr Scliar sempre soube dar um ar de modernidade a seus temas, sem, no entanto, abandonar o lirismo e o olhar sensível. Bem por isso, lembrei-me dele, ao aproximarem-se as festividades tradicionais de dezembro.
Trago a vocês, leitores e leitoras, um conto do escritor. O texto não deixa de apresentar uma sutil crítica ao espírito mercantilista do ser humano; é isso que me faz voltar a lê-lo, e sempre com uma pontinha de sorriso e de emoção.
Recebam-no como um presente e um agradecimento, por me distinguirem com seus preciosos tempo e leitura. Espero que apreciem minha escolha.
  
A noite em que os hotéis estavam cheios
O casal chegou à cidade tarde da noite. Estavam cansados da viagem; ela, grávida, não se sentia bem. Foram procurar um lugar onde passar a noite. Hotel, hospedaria, qualquer coisa serviria, desde que não fosse muito caro.
Não seria fácil, como eles logo descobriram. No primeiro hotel o gerente, homem de maus modos, foi logo dizendo que não havia lugar. No segundo, o encarregado da portaria olhou com desconfiança o casal e resolveu pedir documentos. O homem disse que não tinha, na pressa da viagem esquecera os documentos.
– E como pretende o senhor conseguir um lugar num hotel, se não tem documentos? – disse o encarregado. – Eu nem sei se o senhor vai pagar a conta ou não!
O viajante não disse nada. Tomou a esposa pelo braço e seguiu adiante. No terceiro hotel também não havia vaga. No quarto – que era mais uma modesta hospedaria – havia, mas o dono desconfiou do casal e resolveu dizer que o estabelecimento estava lotado. Contudo, para não ficar mal, resolveu dar uma desculpa:
– O senhor vê, se o governo nos desse incentivos, como dão para os grandes hotéis, eu já teria feito uma reforma aqui. Poderia até receber delegações estrangeiras. Mas até hoje não consegui nada. Se eu conhecesse alguém influente... O senhor não conhece ninguém nas altas esferas?
O viajante hesitou, depois disse que sim, que talvez conhecesse alguém nas altas esferas.
– Pois então – disse o dono da hospedaria – fale para esse seu conhecido da minha hospedaria. Assim, da próxima vez que o senhor vier, talvez já possa lhe dar um quarto de primeira classe, com banho e tudo.
O viajante agradeceu, lamentando apenas que seu problema fosse mais urgente: precisava de um quarto para aquela noite. Foi adiante.
No hotel seguinte, quase tiveram êxito. O gerente estava esperando um casal de conhecidos artistas, que viajavam incógnitos. Quando os viajantes apareceram, pensou que fossem os hóspedes que aguardava e disse que sim, que o quarto já estava pronto. Ainda fez um elogio.
– O disfarce está muito bom.
– Que disfarce? – perguntou o viajante.
– Essas roupas velhas que vocês estão usando, disse o gerente.
– Isso não é disfarce, disse o homem, são as roupas que nós temos.
O gerente aí percebeu o engano:
– Sinto muito – desculpou-se. – Eu pensei que tinha um quarto vago, mas parece que já foi ocupado.
O casal foi adiante. No hotel seguinte, também não havia vaga, e o gerente era metido a engraçado. Ali perto havia uma manjedoura, disse, por que não se hospedavam lá? Não seria muito confortável, mas em compensação não pagariam diária. Para surpresa dele, o viajante achou a ideia boa, e até agradeceu. Saíram.
Não demorou muito, apareceram os três Reis Magos, perguntando por um casal de forasteiros. E foi aí que o gerente começou a achar que talvez tivesse perdido os hóspedes mais importantes já chegados a Belém de Nazaré.
[SCLIAR, Moacyr. Em: Contos para um Natal brasileiro - antologia. Rio de Janeiro: Relume-Dumará: IBASE, 1996.]


Até breve...
Que as festas que aí vêm lhes tragam alegrias e paz.
Um abraço.

#EmBuscadaAutoria
#Crônica
#CecíliaMeireles

quinta-feira, 3 de dezembro de 2015

Ainda a Cecília de olhar viajante


Cecília Meireles - Aleatório


Em matéria anterior (21/11/2015), apontei, no percurso poético de Cecília Meireles, índices do modo de observação que a escritora atribui ao viajante. Este, em contraposição ao turista, “... pode estabelecer uma comunicação sentimental com os objetos e os lugares [...].”¹
Cecília acrescenta, falando de sua experiência viageira: Tudo quanto aprendi até hoje – se é que tenho aprendido – representa uma silenciosa conversa entre os meus olhos e os vários assuntos que se colocam diante deles, ou diante dos quais eles se colocam. Nessa atmosfera de confidência, tudo me parece penetrável e inteligível. Mais tarde, em silêncio maior, a conversa continua, e é simplesmente um profundo monólogo. O que resulta de tudo isso, é, para mim, a aprendizagem.”
Ao viajante, a aprendizagem é aprendizagem do outro: daquele desconhecido que ele observa com interesse (e não apenas de passagem), a ponto de ralentar o passo, trocar um olhar mais profundo, um sorriso, quem sabe algumas palavras, antes de se afastar.
É aprender sobre a pessoa / comunidade / povo, em seu cenário particular e necessário. É apreender o ambiente físico e humano em seu todo, nos meandros e pequenos detalhes, vislumbrados ou mesmo intuídos.
Essa modalidade de “olhar-aprendiz” é a que parece guiar Cecília, na crônica “Se eu fosse um pintor... Nela, a descrição do espaço não se resume ao mero “avistar, constatar e assinalar em mapa” do turista, mas é fruto de ações empreendidas por uma contemplação viajante: investigar e dialogar, comparar e relacionar, misturar experiências, indagar possibilidades.
Deixo-a registrada em seguida.
¹ Esta e as demais citações em vermelho: MIRELES, Cecília. Crônicas de Viagens. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 1999.


Fernanda Correia Dias - A Floresta da Tijuca
Se eu fosse um pintor...²

Se eu fosse pintor começaria a delinear este primeiro plano de trepadeiras entrelaçadas com pequenos jasmins e grandes campânulas roxas, por onde flutua uma borboleta cor de marfim, com um pouco de ouro nas pontas das asas.
Mas logo depois, entre o primeiro plano e a casa fechada, há pombos de cintilante alvura, e pássaros azuis tão rápidos e certeiros que seria impossível deixar de fixá-los, para dar alegria aos olhos dos que jamais viram ou verão.
Mas o quintal da casa abandonada ostenta uma delicada mangueira, ainda com moles folhas cor de bronze sobre a cerrada fronde sombria, uma delicada mangueira repleta de pequenos frutos, de um verde tenro, que se destacam do verde-escuro como se estivessem ali apenas para tornar a árvore um ornamento vivo, entre os muros brancos, os pisos vermelhos, o jogo das escadas e dos telhados em redor.
E que faria eu, pintor, dos inúmeros pardais que pousam nesses muros e nesses telhados, e aí conversam, namoram-se, amam-se, e dizem adeus, cada um com seu destino, entre a floresta e os jardins, o vento e a névoa?
Mas por detrás estão as velhas casas, pequenas e tortas, pintadas de cores vivas, como desenhos infantis, com seus varais carregados de toalhas de mesa, saias floridas, panos vermelhos e amarelos, combinados harmoniosamente pela lavadeira que ali os colocou. Se eu fosse pintor, como poderia perder esse arranjo, tão simples e natural, e ao mesmo tempo de tão admirável efeito?
Mas, depois disso, aparecem várias fachadas, que se vão sobrepondo umas às outras, dispostas entre palmeiras e arbustos vários, pela encosta de morro. Aparecem mesmo dois ou três castelos, azuis e brancos, e um deles tem até, na ponta da torre, um galo de metal verde. Eu, pintor, como deixaria de pintar tão graciosos motivos?
Sinto, porém, que tudo isso por onde vão meus olhos, ao subirem do vale à montanha, possui uma riqueza invisível, que a distância abafa e desfaz: por detrás dessas paredes, desses muros, dentro dessas casas pobres e desses castelinhos de brinquedo, há criaturas que falam, discutem, entendem-se e não se entendem, amam, odeiam, desejam, acordam todos os dias com mil perguntas e não sei se chegam à noite com alguma resposta.
Se eu fosse pintor, gostaria de pintar esse último plano, esse último recesso da paisagem. Mas houve jamais algum pintor que pudesse fixar esse móvel oceano, inquieto, incerto, constantemente variável que é o pensamento humano?
²MEIRELES, Cecília. Janela Mágica. Crônicas. São Paulo: Editora Moderna Ltda, 1985.
  
Pós-leitura
A crônica, eminentemente descritiva, caminha exibindo planos, os quais orientam o olhar do leitor. A deslocação do foco (de baixo para cima, do próximo ao distante, de fora para dentro) abarca todos os cantos: flores e trepadeiras, árvores e pássaros, muros e quintais, casas, castelinhos, morros... Nada escapa à visão atenta desse viajante aspirante a pintor, que sempre descobre mais um detalhe.

Interessante notar: é a conjunção “mas”, que, repetidamente, introduz o novo plano do olhar (parágrafos 2, 3, 5, 6), sem, no entanto, expressar o convencional sentido adversativo – e sim, aditivo. É como se o enunciador, contemplando determinado ponto de interesse, descobrisse outro e ainda outro e outro, e os indicasse a um companheiro de jornada: o leitor, que segue junto nessa apreciação.
As interrogações são, de igual modo, marcas de diálogo com o leitor, chamado a refletir junto sobre detalhes do cenário, que vem povoado das muitas cores de flores, borboletas, pássaros, casas, panos, e repleto de sugestões de sons, movimentos (das aves, do vento), perfumes (das flores) e sabores (das mangas).
A adjetivação intensa dá conta do olhar objetivo, que percebe a disposição espacial, as formas e cores, mas privilegia em grau elevado a avaliação subjetiva, o encantamento diante do que é visto. Tudo é suave e afetuoso, desde as pequenas flores, passando pelos pombos e pardais, até os desenhos das casas e a roupa nos varais.
A observação, que começa no espaço exterior, segue, depois, para o interior – “por detrás dessas paredes, desses muros, dentro dessas casas”. Notem-se os conectivos que marcam claramente a mudança: porém e mas – (este, agora, com real valor adversativo). 

É o momento do texto em que a descrição chega à alma / eixo do lugar, já indiciado desde o início (pelas plantas, construções, roupas), ou seja, ao ser (“pensamento”) humano, ao “móvel oceano” que dá vida ao conjunto todo. 


Compreende-se o rumo: a ideia norteadora do olhar viajante, que a crônica estende ao pintor, é o debruçar-se em direção ao outro. Repetindo, é a
silenciosa conversa entre os meus olhos e os vários assuntos que se colocam diante deles, ou diante dos quais eles se colocam.” O olhar viajante de Cecília é, assim, revelador de seu  enorme apreço pelo semelhante:
Tenho um vício terrível. Meu vício é gostar de gente. Você acha que isso tem cura? Tenho tal amor pela criatura humana, em profundidade, que deve ser doença.”³
Ah!, se nossos vícios fossem todos assim...
Um abraço.
³ Entrevista a Pedro Bloch, em maio de 1964. Disponível em:
http://www.revistabula.com/496-a-ultima-entrevista-de-cecilia-meireles/

sábado, 21 de novembro de 2015

O olhar viajante de Cecília Meireles

Fernando Correia Dias - Cecília em Lisboa             Fernando Correia Dias - Cecília em Portugal

Claro, não precisa haver um tempo marcado para falar de Cecília. Mas encontrar-se com seus escritos em novembro – mês de seu nascimento (07/11/1901) e morte (09/11/1964) – é quase obrigatório.
Largamente conhecida pela obra poética, Cecília Meireles, a exemplo de Mário de Andrade, viveu outras esferas de atuação, bem menos divulgadas. Na área da Educação, foi professora primária, publicou artigos sobre problemas e novos rumos da Educação, criou a primeira biblioteca infantil do Rio de Janeiro, lecionou Literatura, Técnica e Crítica Literária, no Brasil e no exterior.
Seu interesse pela infância, expresso em artigos, estudos e conferências, também se evidencia na beleza lírica dos muitos poemas que abordam o mundo infantil. Neles, a brincadeira sonora, a musicalidade refinada e o apuro linguístico são aqueles mesmos de todo seu trabalho literário, acrescidos, entretanto, de instigantes brincadeiras sonoras. Como em:
Canção de Dulce

Dulce, doce Dulce,
menina do campo,
de olhos verdes de água
de água e pirilampo.

Doce Dulce, doce
dócil, estendendo
pelo sol lençóis
entre anil e vento.

Dócil, doce Dulce
de face vermelha,
doce rosa airosa
a fugir da abelha

da abelha, de vespas
e besouros tontos,
pelo arroio de ouro
de seixos redondos...¹
.
Note-se a penetrante visão do eu lírico, a construir, mediante o jogo sonoro e o imagético, uma delicada cena em que vários planos sensoriais se entrelaçam. Este olhar arguto, a que nada escapa, é o que Cecília – habituada a viagens por diferentes países – chamava de olhar de viajante, em oposição ao olhar de turista. Porque para ela, o turista:
 “é uma criatura feliz, que parte por este mundo com a sua máquina fotográfica a tiracolo, o guia no bolso, um sucinto vocabulário entre os dentes: seu destino é caminhar pela superfície das coisas, como do mundo, com a curiosidade suficiente para passar de um ponto a outro, olhando o que lhe apontam, comprando o que lhe agrada, expedindo muitos postais [...].”²
Ao passo que:
“O viajante é criatura menos feliz, de movimentos mais vagarosos, todo enredado em afetos, querendo morar em cada coisa, descer à origem de tudo, amar loucamente cada aspecto do caminho, desde as pedras mais toscas às mais sublimadas almas do passado, do presente até o futuro – um futuro que ele nem conhecerá.
O olhar "turístico" é, então, um borboletear um tanto quanto ligeiro e descompromissado. A ele se contrapõe o pousar mais vagaroso, comprometido com a relação afetiva e significativa, do olhar viajante: é o querer-estar-com, o “enredar-se em afetos”, que faz a escritora avaliar amorosamente cada povo visitado  e que transborda para seus textos, sejam em verso ou em prosa, conforme percebe o leitor atento.

Avaliem, por exemplo,  como em Cantiga as imagens vão se organizando, parecendo querer envolver-se afetivamente com as circunstâncias focalizadas e prender, em sons e ritmos (é cantiga...), a própria fugacidade do tempo, da natureza, da rosa/vida.
Reparem, sobretudo, na correspondência sonora de palavras com som /v/: o sopro do vento contamina a vida e se espalha pelos versos (ver negritos, no poema).
Querem ir mais longe? Procurem o derramamento das nasais, que ajudam a dar fluidez ao poema e expandem a sensação de transitoriedade; sigam sua linha e notem como aprofundam e “colam” outros sentidos a vento, por meio das palavras pensamento e sofrimento:
Cantiga

Ai! A manhã primorosa
do pensamento...
Minha vida é uma pobre rosa
ao vento.

Passam arroios de cores
sobre a paisagem.
Mas tu eras a flor das flores,
imagem!

Vinde ver asas e ramos,
na luz sonora!
Ninguém sabe para onde vamos
agora.

Os jardins têm vida e morte,
noite e dia...
Quem conhecesse a sua sorte,
morria.

E é nisso que se resume
o sofrimento:
cai a flor, – e deixa o perfume
no vento! ³

Cecília, contempladora cuidadosa dos meandros dos sentidos e sentimentos, requisita, também do leitor, o “olhar viajante” para desvendar os segredos do poema. E que ele seja de tal forma cúmplice, que estabeleça com o texto uma relação de aprendizado e compreensão.
Na verdade, a percepção atenta que a escritora aplica à viagem é bem semelhante à que usa para a criação de poemas, e a mesma que os leitores devem aprender e usar, se quiserem adentrar compreensivamente seu universo lírico. Leiam este seu texto sobre a atividade viageira e notem o quanto se ajusta à arte poética: basta trocar “a arte de viajar” por “a arte de escrever e ler poemas”:
“A arte de viajar é uma arte de admirar, uma arte de amar. É ir em peregrinação, participando intensamente das coisas, de fatos, de vidas com as quais nos correspondemos desde sempre e para sempre. É estar constantemente emocionado, e nem sempre alegre, mas, ao contrário, muitas vezes triste, de um sofrimento sem fim, porque a solidariedade humana custa, a cada um de nós, algum profundo despedaçamento.”
Assim é, na peregrinação pelo poema: seguimos o caminho íntimo das palavras e, por elas, chegamos à partilha de emoções e percepções, com o autor e outros leitores.
Não será exatamente essa partilha o que nos ajuda no aprendizado de sermos mais humanos?
Um abraço.

¹ MEIRELES, Cecília. Ou isto ou aquilo. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 1987.
² Esta e as demais citações em vermelho: MEIRELES, Cecília. Crônicas de Viagens. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 1999.
³ MEIRELES, Cecília. Viagem. São Paulo: Global, 2012.

quarta-feira, 4 de novembro de 2015

De leituras e de histórias


Afinal, por que se insiste tanto na importância da leitura?
Há aqueles motivos práticos e utilitários: vivemos em sociedade letrada e, portanto, ler e escrever nos dá poder e competência para atuar nela.
Mas... será apenas isso? Pensemos: que atração é essa que leva inúmeras pessoas a se afeiçoarem à leitura, sem remissão? Há mistério envolvido? Feitiço, talvez?
Pode ser, sim, ao menos em termos metafóricos.
Quando se trata de entender a vida (a própria, a do semelhante), ou de encontrar um estar no mundo mais coerente e liberto das sombras do desconhecido, a magia da palavra se faz presente e mostra, ao ser humano, desafios, enigmas e descobertas de sua própria história.
Eis aí seu poder: ler a palavra é ler-se, enquanto humanidade. Eis aí, especialmente, sua necessidade: ler a palavra é compartilhar da existência e da permanência do outro; é existir com o outro e reinventar narrativas conjuntas. Nas palavras de Daniel Goldin:
Desde a suas origens mais remotas, a palavra escrita tentou vencer a inexorável fuga do tempo. A escrita é um testemunho de nossa rebeldia contra a fugacidade da vida, de nossa luta contra a morte e a falta de sentido. Entre outras razões, escrevemos para permanecer, para estar e exercer nosso poder onde, fisicamente, não podemos estar. [...]
Ao ler, submergimos em um rio antigo que se perde no esquecimento e que, contudo, é sempre fresco e atual. E esse rio se projeta ao mundo e faz com que você se sinta arraigado nele. [...]
Hoje me fascina o poder dos livros. Todos os dias fico surpreso de como uns objetos aparentemente tão simples têm a capacidade de instaurar outro(s) tempo(s), e que somente ao abri-los, propiciam outro espaço que faz com que o mundo seja mais habitável. ¹
Eu diria: mais habitável e mais humanizado – uma vez que partilhar ideias nos faz olhar para o outro e, com ele e por ele, redimensionar emoções e sentimentos, capazes de nos tornar mais autênticos e generosos.Exemplifica-o à perfeição, um conto do angolano Ondjaki, que pode ser descrito como a "narrativa da leitura de uma narrativa".
Falo de Nós choramos pelo Cão Tinhoso, em que a leitura, em sala de aula, de outro conto (Nós matamos o Cão Tinhoso, do moçambicano Luís Bernardo Honwana) faz aflorar o olhar solidário e sentimentos de dor e pena nas personagens que o leem, apesar da contenção exigida pela situação formal de sala de aula e pela interdição social: "quem chorar é maricas então!" Em seguida, o conto.
¹ Entrevista à Revista Emília, em 2012. Dispon. em http://www.revistaemilia.com.br/mostra.php?id=187. Daniel Goldin é pensador, teórico e editor mexicano.


Nós choramos pelo Cão Tinhoso
Foi no tempo da oitava classe, na aula de português.
Eu já tinha lido esse texto dois anos antes, mas daquela vez a estória me parecia mais bem contada com detalhes que atrapalhavam uma pessoa só de ler ainda em leitura silenciosa — como a camarada professora de português tinha mandado. Era um texto muito conhecido em Luanda: "Nós matamos o Cão Tinhoso".
Eu lembrava-me de tudo: do Ginho, da pressão de ar, da Isaura e das feridas penduradas do Cão Tinhoso. Nunca me esqueci disso: um cão com feridas penduradas. Os olhos do cão. Os olhos da Isaura. E agora de repente me aparecia tudo ali de novo. Fiquei atrapalhado.
A camarada professora selecionou uns tantos para a leitura integral do texto. Assim queria dizer que íamos ler o texto todo de rajada. Para não demorar muito, ela escolheu os que liam melhor. Nós, os da minha turma da oitava, éramos cinquenta e dois. Eu era o número cinquenta e um. Embora noutras turmas tentassem arranjar alcunhas para os colegas, aquela era a minha primeira turma onde ninguém tinha escapado de ser alcunhado. E alguns eram nomes de estiga violenta.
Muitos eram nomes de animais: havia o Serpente, o Cabrito, o Pacaça, a Barata-da-Sibéria, a Joana Voa-Voa, a Gazela, e o Jacó, que era eu. Deve ser porque eu mesmo falava muito nessa altura. Havia o É-tê, o Agostinho-Neto, a Scubidu e mesmo alguns professores também não escapavam da nossa lista. Por acaso a camarada professora de português era bem porreira e nunca chegamos a lhe alcunhar.
Os outros começaram a ler a parte deles. No início, o texto ainda está naquela parte que na prova perguntam qual é e uma pessoa diz que é só introdução. Os nomes dos personagens, a situação assim no geral, e a maka do cão. Mas depois o texto ficava duro: tinham dado ordem num grupo de miúdos para bondar o Cão Tinhoso.
Os miúdos tinham ficado contentes com essa ordem assim muito adulta, só uma menina chamada Isaura afinal queria dar proteção ao cão. O cão se chamava Cão Tinhoso e tinha feridas penduradas, eu sei que já falei isto, mas eu gosto muito do Cão Tinhoso.
Na sexta classe eu também tinha gostado bué dele e eu sabia que aquele texto era duro de ler. Mas nunca pensei que umas lágrimas pudessem ficar tão pesadas dentro duma pessoa. Se calhar é porque uma pessoa na oitava classe já cresceu um bocadinho mais, a voz já está mais grossa, já ficamos toda hora a olhar as cuecas das meninas "entaladas na gaveta", queremos beijos na boca mais demorados e na dança de slow ficamos todos agarrados até os pais e os primos das moças virem perguntar se estamos com frio mesmo assim em Luanda a fazer tanto calor. Se calhar é isso, eu estava mais crescido na maneira de ler o texto, porque comecei a pensar que aquele grupo que lhes mandaram matar o Cão Tinhoso com tiros de pressão de ar, era como o grupo que tinha sido escolhido para ler o texto.
Não quero dar essa responsabilidade na camarada professora de português, mas foi isso que eu pensei na minha cabeça cheia de pensamentos tristes: se essa professora nos manda ler este texto outra vez, a Isaura vai chorar bué, o Cão Tinhoso vai sofrer mais outra vez e vão rebolar no chão a rir do Ginho que tem medo de disparar por causa dos olhos do Cão Tinhoso.
O meu pensamento afinal não estava muito longe do que foi acontecendo na minha sala de aulas, no tempo da oitava classe, turma dois, na escola Mutu Ya Kevela, no ano de mil novecentos e noventa: quando a Scubidu leu a segunda parte do texto, os que tinham começado a rir só para estigar os outros, começaram a sentir o peso do texto. As palavras já não eram lidas com rapidez de dizer quem era o mais rápido da turma a despachar um parágrafo. Não. Uma pessoa afinal e de repente tinha medo do próximo parágrafo, escolhia bem a voz de falar a voz dos personagens, olhava para a porta da sala como se alguém fosse disparar uma pressão de ar a qualquer momento. Era assim na oitava classe: ninguém lia o texto do Cão Tinhoso sem ter medo de chegar ao fim. Ninguém admitia isso, eu sei, ninguém nunca disse, mas bastava estar atento à voz de quem lia e aos olhos de quem escutava.
O céu ficou carregado de nuvens escurecidas. Olhei lá para fora à espera de uma trovoada que trouxesse uma chuva de meia hora. Mas nada.
Na terceira parte até a camarada professora começou a engolir cuspe seco na garganta bonita que ela tinha, os rapazes mexeram os pés com nervoso miudinho, algumas meninas começaram a ficar de olhos molhados. O Olavo avisou: "quem chorar é maricas então!" e os rapazes todos ficaram com essa responsabilidade de fazer uma cara como se nada daquilo estivesse a ser lido.
Um silêncio muito estranho invadiu a sala quando o Cabrito se sentou. A camarada professora não disse nada. Ficou a olhar para mim. Respirei fundo.
Levantei-me e toda a turma estava também com os olhos pendurados em mim. Uns tinham-se virado para trás para ver bem a minha cara, outros fungavam do nariz tipo constipação de cacimbo. A Aina e a Rafaela que eram muito branquinhas estavam com as bochechas todas vermelhas e os olhos também, o Olavo ameaçou-me devagar com o dedo dele a apontar para mim. Engoli também um cuspe seco porque eu já tinha aprendido há muito tempo a ler um parágrafo depressa antes de o ler em voz alta: era aquela parte do texto em que os miúdos já não têm pena do Cão Tinhoso e querem lhe matar a qualquer momento. Mas o Ginho não queria. A Isaura não queria.
A camarada professora levantou-se, veio devagar para perto de mim, ficou quietinha. Como se quisesse me dizer alguma coisa com o corpo dela ali tão perto. Aliás, ela já tinha dito, ao me escolher para ser o último a fechar o texto, e eu estava vaidoso dessa escolha, o último normalmente era o que lia já mesmo bem. Mas naquele dia, com aquele texto, ela não sabia que em vez de me estar a premiar, estava a me castigar nessa responsabilidade de falar do Cão Tinhoso sem chorar.
– Camarada professora – interrompi numa dificuldade de falar. – Não tocou para a saída?
Ela mandou-me continuar. Voltei ao texto. Um peso me atrapalhava a voz e eu nem podia só fazer uma pausa de olhar as nuvens porque tinha que estar atento ao texto e às lágrimas. Só depois o sino tocou.
Os olhos do Ginho. Os olhos da Isaura. A mira da pressão de ar nos olhos do Cão Tinhoso com as feridas dele penduradas. Os olhos do Olavo. Os olhos da camarada professora nos meus olhos. Os meus olhos nos olhos da Isaura nos olhos do Cão Tinhoso.
Houve um silêncio como se tivessem disparado bué de tiros dentro da sala de aulas. Fechei o livro.
Olhei as nuvens.
Na oitava classe, era proibido chorar à frente dos outros rapazes.
Glossário
Estiga – provocação, ridicularização.
Maka – discussão, debate.
Bondar – matar.
Bué – gíria: muito, bastante.

ONDJAKI. Nós choramos pelo Cão Tinhoso. In: CHAVES, Rita (Org.). Contos africanos dos países de língua portuguesa. São Paulo: Ática, 2009.

Uma lembrança
Lendo o conto, ocorre-me um pensamento de Jorge Larrosa, doutor em Filosofia da Educação:
Que podemos cada um de nós fazer sem transformar nossa inquietude em uma história? E, para essa transformação, para esse alívio, acaso contamos com outra coisa a não ser com os restos desordenados das histórias recebidas? E isso a que chamamos autoconsciência ou identidade pessoal, isso que, ao que parece, tem uma forma essencialmente narrativa, não será talvez a forma sempre provisória e a ponto de desmoronar que damos ao trabalho infinito de distrair, consolar ou de acalmar com histórias pessoais aquilo que nos inquieta?²
Pois é: o livro é um meio possível de perpetuar nossas “histórias pessoais” mutáveis e transitórias e ligá-las a outras tantas, para o eterno aprendizado da compreensão mútua. A recompensa: arrancarmos, do caos das angústias, a possibilidade do viver coletivo e da construção de um mundo “mais habitável” e humano.
Oxalá consigamos um dia...
Um abraço.
²Larrosa, Jorge. Pedagogia Profana: danças, piruetas e mascaradas. Belo Horizonte: Autêntica, 2003.