quinta-feira, 18 de dezembro de 2014

Natal para todos os gostos

Geroges de La Tour

Queiramos ou não, gostemos ou não, há um halo mágico em torno do Natal.

Já ouço discordâncias... Sim, concedo: é tempo de consumismo frenético, gastança além da conta, trânsito acima da média, tumulto em algumas lojas, comilança que gera arrependimentos posteriores. No entanto, também é verdade que as pessoas continuam a enfeitar árvores, a apreciar decoração natalina, a suspirar com esperanças de dias melhores (até as novas gerações) e a lembrar os bons tempos de outrora (o pessoal de mais idade, claro).

Minha afirmação tem o aval de poetas consagrados, cujos textos provam e refletem o que estou dizendo. Se quiserem comprovar, acompanhem-me num passeio por poemas de Bandeira e Machado, que trazem sentimentos maduros, é certo, mas ainda impregnados de doce fantasia. Depois, digam-me se no fundo, bem no fundo, o eco desses sentimentos mais ingênuos, desses desejos de poesia não permanece no espírito deste nosso tempo.

... Ora, ainda ouço cochichos: como dar atenção apenas ao encanto e às lembranças que vêm do passado? Onde ficam as marcas do Natal de hoje? Está bem, concedo uma vez mais: é verdade, a magia anda um tanto... alterada. E, por isso, trago também as impressões menos românticas e ainda mais atuais de Drummond e Pessoa.

Convido-os a ler e comparar essas visões.


Quando o lirismo ornamenta o Natal
Em Manuel Bandeira, apreciem o sabor da infância que perdura, apesar dos anos vividos e das tristezas acumuladas.

Versos de Natal
Espelho, amigo verdadeiro,
Tu refletes as minhas rugas,
Os meus cabelos brancos,
Os meus olhos míopes e cansados.
Espelho, amigo verdadeiro,
Mestre do realismo exato e minucioso,
Obrigado, obrigado!

Mas se fosses mágico,
Penetrarias até o fundo desse homem triste,
Descobririas o menino que sustenta esse homem,
O menino que não quer morrer,
Que não morrerá senão comigo,
O menino que todos os anos na véspera do Natal
Pensa ainda em pôr os seus chinelinhos atrás da porta.
[BANDEIRA, Manuel. Estrela da vida inteira. Rio de Janeiro: J. Olympio, 1974.]


Em Machado de Assis, observem o saudosismo de quem sente falta das antigas emoções – e já desconfia de possíveis mudanças, em si ou no tempo presente.

Soneto de Natal
Um homem, – era aquela noite amiga,
Noite cristã, berço do Nazareno, –
Ao relembrar os dias de pequeno,
E a viva dança, e a lépida cantiga,

Quis transportar ao verso doce e ameno
As sensações da sua idade antiga,
Naquela mesma velha noite amiga,
Noite cristã, berço do Nazareno.

Escolheu o soneto… A folha branca
Pede-lhe a inspiração; mas, frouxa e manca,
 A pena não acode ao gesto seu.

E, em vão lutando contra o metro adverso,
Só lhe saiu este pequeno verso:
“Mudaria o Natal ou mudei eu?
[ASSIS, Machado de. Disponível em http://www.releituras.com/machadodeassis_soneto.asp]

Quando o olhar cético invade o Natal
No poema de Fernando Pessoa, não se encontram nem o vestígio da infância, do Natal de Bandeira, nem o desejo do sentimento passado, como em Machado.

Agora, o eu poético declara explicitamente a convenção, a máscara por trás do sentimento. Em lugar deste, surge, como única verdade associada à data, a sensação física causada pelo frio, neve ou chuva. Notem que o tom mal-humorado e irônico aumenta na última estrofe, rechaçando de vez o sentimentalismo.

[Chove. É Dia de Natal]
Chove. É dia de Natal.
Lá para o Norte é melhor:
Há a neve que faz mal,
E o frio que ainda é pior.

E toda a gente é contente
Porque é dia de o ficar.
Chove no Natal presente.
Antes isso que nevar.

Pois apesar de ser esse
O Natal da convenção,
Quando o corpo me arrefece
Tenho o frio e Natal não.

Deixo sentir a quem quadra
E o Natal a quem o fez,
Pois se escrevo ainda outra quadra
Fico gelado dos pés.
[PESSOA, Fernando. Cancioneiro. In Obra poética. Rio de Janeiro: Nova Aguilar, 1977.]


No poema de Drummond, o olhar crítico é quase cirúrgico, deixando ver entranhas nem sempre bonitas: percebam como se entrelaçam as frases mais líricas e convencionais (“o sino longe toca fino... já nasceu o deus menino... a estrela alumiando”, principalmente) com modos de dizer que destroem o romantismo: o uso de diminutivos piegas (coitadinho, burrinho, estrelinha, nuzinho) e a repetição de certas palavras e frases, que “acordam” o leitor de um possível devaneio natalino (“Natal, mas as filhas das beatas”).
Por fim, na segunda estrofe, a intercalação e contraposição de duas informações – sobre as beatas e sobre as filhas – acaba de vez com o clima místico/espiritual e confere desimportância à data.

O Que Fizeram do Natal
Natal.
O sino longe toca fino,
Não tem neves, não tem gelos.
Natal.
Já nasceu o deus menino.
As beatas foram ver,
encontraram o coitadinho
(Natal)
mais o boi mais o burrinho
e lá em cima
a estrelinha alumiando.
Natal.

As beatas ajoelharam
e adoraram o deus nuzinho
mas as filhas das beatas
e os namorados das filhas,
mas as filhas das beatas
foram dançar black-bottom*
nos clubes sem presépio.
*Dança americana da moda, que veio depois do charleston.
[ANDRADE, Carlos Drummond de. In Alguma Poesia. Reunião – 10 livros de poesia. Rio de Janeiro: José Olympio, 1974.]


Quando o Natal tem a nossa marca
Em meio à correria de fim de ano, paro um pouco e me pergunto: será o Natal de hoje, para cada um de nós, o mesmo do ano passado, da década passada? Algum dia ele teve encanto? Tem agora? Terá, nos anos vindouros?

Qual a marca de nosso Natal, neste tempo em que tantas questões – sociais, ambientais, morais e éticas – se colocam e avultam à nossa frente? Talvez possa (ou deva) ser a da reflexão e da tomada de atitude em prol de um objetivo comum. De minha parte, é isso o que espero e desejo a todos nós.

Abraços natalinos, aos amigos que me honram com sua leitura e seu olhar benevolente.

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