sexta-feira, 14 de novembro de 2014

A palavra inaugural do poeta

Vik Muniz
Todo artista desconstrói e reconstrói o mundo real e seu universo de expressão. Assim o Poeta que, em seu labor, desmonta e remonta a linguagem. 

Acontece de tal modo, que significados comuns se transformam, e novos se instauram, na inter-relação da palavra com com outras, com as quais compõe diferente constelação de sentido.
Reinventada, a Palavra promove o deslocamento de posições afirmativas por parte do leitor: para este, surge um novo universo, a um só tempo distinto de sua realidade vivida e diverso de outros universos artísticos anteriormente experimentados. Esse é o movimento de revivificação das linguagens e das perspectivas existentes, missão e destino da Arte e do Artista.
Em Palinódia, poema de Manuel Bandeira, tal processo pode ser apreendido e fruído.

Histórias
Antes, um pouco de história: do poema e do título.
O relato da construção do poema, feito pelo próprio Bandeira, é conhecido e indicia o quanto o poeta vivia – noite e dia – seu universo inventivo.  Serve, também, de lição para escritores e artistas iniciantes: debruçar-se, estar atento e acolher o menor fragmento de experiência, para recuperá-la enquanto fazer artístico.
Sua Palinódia foi texto criado em sonho. Ao acordar, apenas o final lhe veio à memória, e o poeta partiu daí, para construir a íntegra do poema e dar sentido aos versos lembrados. O resultado, veremos daqui a pouco.
Agora, o título. O termo “palinódia” é grego; forma-se de palin (de novo) e oîde (canto), significando canto novo, diferente ou em outro tom.
A lenda diz que Estesícoro, poeta, escreveu um poema sobre Helena de Troia, com insinuações que a desagradaram. A bela Helena, usando de seus poderes, cegou-o.  Ao reconhecer a cegueira como castigo por suas palavras inconvenientes, o poeta escreveu sua Palinódia, ou seja, uma retratação poética, desdizendo-se. Foi assim que recuperou a visão.
A palinódia é, portanto, um texto poético em que o poeta nega o que ele mesmo dissera em outro. O que Bandeira queria desdizer ou negar?

Vik Muniz

A palinódia de Bandeira
Eis o poema:

Palinódia
Quem te chamara prima
Arruinaria em mim o conceito
De teogonias velhíssimas
Todavia viscerais

Naquele inverno
Tomaste banhos de mar
Visitaste as igrejas
(Como se temesses morrer sem conhecê-las todas)
Tiraste retratos enormes
Telefonavas telefonavas...

Hoje em verdade te digo
Que não és prima só
Senão prima de prima
Prima-dona de prima
– Primeva.
[BANDEIRA, Manuel. Estrela da vida inteira. Rio de Janeiro: José Olympio, 1974.]


O poema de Bandeira, em vez de ser retratação de algo dito em outro (como a palinódia convencional), reúne, em si, a afirmação e a negação – não de fatos ou comentários, mas de uma imagem de mulher, a quem o eu poético se dirige.
A mudança de concepção acontece na passagem da primeira para a terceira estrofe. À primeira leitura, pode parecer que, meramente, nega-se um elo de parentesco – “prima” (primeira estrofe) –, para estabelecer a figura feminina como objeto de culto e respeito – “primeva” (terceira estrofe).
No entanto, é imperativo perceber que, para lá da simples metamorfose dos sentimentos, o que importa é a transformação configurada pela experimentação em termos da palavra. De fato, “prima” se desdobra e se abre em leque, dando origem a expressões multifacetadas e ambiguizadas, que se entrelaçam: prima de prima / prima-dona de prima / primeva. (Estão aí interligados os conceitos de parente, primeira, a mais antiga, Eva, protagonista,... quantos mais?)
Avançando um pouco mais: a segunda estrofe, onde se encaixa, como interpretá-la? (Ah!, a genialidade do artista...)
Observe, leitor, que essa estrofe tem caráter narrativo, e uma das características da narrativa é justamente a sucessão de fatos no tempo. Daí, então, o marcador temporal e os verbos de ação, no trecho intermediário: “naquele inverno... tomaste... visitaste... tiraste... telefonavas”.
Repare, ainda, nos verbos “chamara”, “arruinaria” (pretérito mais que perfeito e futuro do pretérito) que, na primeira estrofe, indicam um tempo anterior à narrativa da segunda. E, com relação à terceira, o marcador temporal “hoje” e o verbo no presente (“és”), que assinalam a contraposição do que era no passado, ao que é no presente.
Pois bem, na palinódia original, entre o dizer e o desdizer, há claramente a decorrência de um tempo: o do primeiro para o segundo poema. Contudo, em Bandeira, como já referido, tal passagem se condensa e se dá do início ao fim de um mesmo texto. E a necessária / esperada progressão temporal é marcada, exatamente, pela segunda estrofe.
Em conclusão: o texto não se configura apenas como modificações no plano do que se diz, mas chama a atenção para o modo como diz; faz-se de palavras e transforma-se por elas, inaugurando novos sentidos.

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