quarta-feira, 19 de novembro de 2014

Partilhando conhecimento



São mais de 10.000 acessos a este blog, que acredita na expressão livre e no saber compartilhado. Aos que lhe deram e dão o crédito de sua leitura generosa, obrigada.
Que possamos continuar juntos, nas trilhas das linguagens e das artes, rumo à contínua construção do conhecimento; e que este se expanda e voe, pelos ares democráticos do diálogo e da partilha.
A todos, ofereço meu abraço e o texto de um educador-poeta.
Lilian Arradi Facury




Aula de voo
O conhecimento
caminha feito lagarta.
Primeiro não sabe que sabe
e voraz contenta-se com o cotidiano orvalho
deixado nas folhas vividas das manhãs.

Depois pensa que sabe
e se fecha em si mesmo:
faz muralhas,
cava trincheiras,
ergue barricadas.
Defendendo o que pensa saber
levanta certezas na forma de muro,
orgulhando-se de seu casulo.

Até que maduro
explode em voos
rindo do tempo que imaginava saber
ou guardava preso o que sabia.
Voa alto sua ousadia
reconhecendo o suor dos séculos
no orvalho de cada dia.

Mesmo o voo mais belo
descobre um dia não ser eterno.
É tempo de acasalar:
voltar à terra com seus ovos
à espera de novas e prosaicas lagartas.

O conhecimento é assim:
ri de si mesmo
e de suas certezas.
É meta da forma
metamorfose
movimento
fluir do tempo
que tanto cria como arrasa

a nos mostrar que para o voo
é preciso tanto o casulo
como a asa.
IASI, Mauro Luis. Meta Amor Fases. São Paulo: Ed. Expressão Popular, 2008.

sexta-feira, 14 de novembro de 2014

A palavra inaugural do poeta

Vik Muniz
Todo artista desconstrói e reconstrói o mundo real e seu universo de expressão. Assim o Poeta que, em seu labor, desmonta e remonta a linguagem. 

Acontece de tal modo, que significados comuns se transformam, e novos se instauram, na inter-relação da palavra com com outras, com as quais compõe diferente constelação de sentido.
Reinventada, a Palavra promove o deslocamento de posições afirmativas por parte do leitor: para este, surge um novo universo, a um só tempo distinto de sua realidade vivida e diverso de outros universos artísticos anteriormente experimentados. Esse é o movimento de revivificação das linguagens e das perspectivas existentes, missão e destino da Arte e do Artista.
Em Palinódia, poema de Manuel Bandeira, tal processo pode ser apreendido e fruído.

Histórias
Antes, um pouco de história: do poema e do título.
O relato da construção do poema, feito pelo próprio Bandeira, é conhecido e indicia o quanto o poeta vivia – noite e dia – seu universo inventivo.  Serve, também, de lição para escritores e artistas iniciantes: debruçar-se, estar atento e acolher o menor fragmento de experiência, para recuperá-la enquanto fazer artístico.
Sua Palinódia foi texto criado em sonho. Ao acordar, apenas o final lhe veio à memória, e o poeta partiu daí, para construir a íntegra do poema e dar sentido aos versos lembrados. O resultado, veremos daqui a pouco.
Agora, o título. O termo “palinódia” é grego; forma-se de palin (de novo) e oîde (canto), significando canto novo, diferente ou em outro tom.
A lenda diz que Estesícoro, poeta, escreveu um poema sobre Helena de Troia, com insinuações que a desagradaram. A bela Helena, usando de seus poderes, cegou-o.  Ao reconhecer a cegueira como castigo por suas palavras inconvenientes, o poeta escreveu sua Palinódia, ou seja, uma retratação poética, desdizendo-se. Foi assim que recuperou a visão.
A palinódia é, portanto, um texto poético em que o poeta nega o que ele mesmo dissera em outro. O que Bandeira queria desdizer ou negar?

Vik Muniz

A palinódia de Bandeira
Eis o poema:

Palinódia
Quem te chamara prima
Arruinaria em mim o conceito
De teogonias velhíssimas
Todavia viscerais

Naquele inverno
Tomaste banhos de mar
Visitaste as igrejas
(Como se temesses morrer sem conhecê-las todas)
Tiraste retratos enormes
Telefonavas telefonavas...

Hoje em verdade te digo
Que não és prima só
Senão prima de prima
Prima-dona de prima
– Primeva.
[BANDEIRA, Manuel. Estrela da vida inteira. Rio de Janeiro: José Olympio, 1974.]


O poema de Bandeira, em vez de ser retratação de algo dito em outro (como a palinódia convencional), reúne, em si, a afirmação e a negação – não de fatos ou comentários, mas de uma imagem de mulher, a quem o eu poético se dirige.
A mudança de concepção acontece na passagem da primeira para a terceira estrofe. À primeira leitura, pode parecer que, meramente, nega-se um elo de parentesco – “prima” (primeira estrofe) –, para estabelecer a figura feminina como objeto de culto e respeito – “primeva” (terceira estrofe).
No entanto, é imperativo perceber que, para lá da simples metamorfose dos sentimentos, o que importa é a transformação configurada pela experimentação em termos da palavra. De fato, “prima” se desdobra e se abre em leque, dando origem a expressões multifacetadas e ambiguizadas, que se entrelaçam: prima de prima / prima-dona de prima / primeva. (Estão aí interligados os conceitos de parente, primeira, a mais antiga, Eva, protagonista,... quantos mais?)
Avançando um pouco mais: a segunda estrofe, onde se encaixa, como interpretá-la? (Ah!, a genialidade do artista...)
Observe, leitor, que essa estrofe tem caráter narrativo, e uma das características da narrativa é justamente a sucessão de fatos no tempo. Daí, então, o marcador temporal e os verbos de ação, no trecho intermediário: “naquele inverno... tomaste... visitaste... tiraste... telefonavas”.
Repare, ainda, nos verbos “chamara”, “arruinaria” (pretérito mais que perfeito e futuro do pretérito) que, na primeira estrofe, indicam um tempo anterior à narrativa da segunda. E, com relação à terceira, o marcador temporal “hoje” e o verbo no presente (“és”), que assinalam a contraposição do que era no passado, ao que é no presente.
Pois bem, na palinódia original, entre o dizer e o desdizer, há claramente a decorrência de um tempo: o do primeiro para o segundo poema. Contudo, em Bandeira, como já referido, tal passagem se condensa e se dá do início ao fim de um mesmo texto. E a necessária / esperada progressão temporal é marcada, exatamente, pela segunda estrofe.
Em conclusão: o texto não se configura apenas como modificações no plano do que se diz, mas chama a atenção para o modo como diz; faz-se de palavras e transforma-se por elas, inaugurando novos sentidos.

quarta-feira, 5 de novembro de 2014

Rui, em seu dia


Hoje, 5 de novembro, é o dia de Rui Barbosa, duas vezes.
Explico: é o Dia Nacional da Língua Portuguesa no Brasil. A data foi escolhida como homenagem a ele – o Rui orador, ensaísta, advogado, jornalista, jurista, político, diplomata –, que nasceu nesse dia, em 1849.
Membro fundador da Academia Brasileira de Letras, sua erudição, oratória, defesa de ideais e postura de estadista marcaram-no como figura ilustre da história brasileira, embora suas ideias e atitudes fossem, por vezes, consideradas contraditórias, recebessem críticas e lhe rendessem desafetos.
Em 1920, já com sérios problemas de saúde e tendo sido convidado a paraninfar os formandos da Faculdade de Direito de São Paulo, Rui escreveu a Oração aos Moços, lida pelo professor e diretor Reinaldo Porchat, na festa de formatura da turma. Essa carta-discurso tornar-se-ia um de seus escritos mais famosos, seu “testamento político”, segundo alguns. Por outro lado, diversas ideias ali expressas parecem servir,  ainda hoje, como conselho e advertência aos jovens (e aos nem tanto).
Dela, registro alguns trechos, em que se nota a preocupação de levar aos acadêmicos alguns dos conceitos que lhe eram caros: a ética; a responsabilidade civil e profissional para assegurar direitos; a construção/ampliação da cidadania e da igualdade social, por meio da educação e do trabalho.
Não faltam, é claro, o estilo clássico e o apuro de linguagem, que o creditaram a ser um dos principais modelos da Língua Portuguesa, em termos de elaboração discursiva e de norma culta; e que o fizeram lembrado, quando se pensou em mais um Dia da Língua Portuguesa.


Oração aos Moços
(Os subtítulos não existem no original e servem, apenas, como indicadores de leitura.)

A tarefa de cada um
Ninguém, senhores meus, que empreenda uma jornada extraordinária, primeiro que meta o pé na estrada se esquecerá de entrar em conta com as suas forças, por saber se a levarão ao cabo. Mas, na grande viagem, na viagem de trânsito deste a outro mundo, não há “possa, ou não possa”, não há querer, ou não querer. A vida não tem mais que duas portas: uma de entrar, pelo nascimento; outra de sair, pela morte. Ninguém, cabendo−lhe a vez, se poderá furtar à entrada. Ninguém, desde que entrou, em lhe chegando o turno, se conseguirá evadir à saída. E, de um ao outro extremo, vai o caminho, longo, ou breve, ninguém o sabe, entre cujos termos fatais se debate o homem, pesaroso de que entrasse, receoso da hora em que saia, cativo de um e outro mistério, que lhe confinam a passagem terrestre.
Não há nada mais trágico do que a fatalidade inexorável deste destino, cuja rapidez ainda lhe agrava a severidade.
Em tão breve trajeto cada um há de acabar a sua tarefa. Com que elementos? Com os que herdou, e os que cria. Aqueles são a parte da natureza. Estes, a do trabalho.

Igualdade e desigualdade
A parte da natureza varia ao infinito. Não há, no universo, duas coisas iguais. Muitas se parecem umas às outras. Mas todas entre si diversificam. Os ramos de uma só árvore, as folhas da mesma planta, os traços da polpa de um dedo humano, as gotas do mesmo fluido, os argueiros do mesmo pó, as raias do espectro de um só raio solar ou estelar. Tudo assim, desde os astros no céu, até os micróbios no sangue, desde as nebulosas no espaço, até aos aljôfares do rocio na relva dos prados.
A regra da igualdade não consiste senão em quinhoar desigualmente aos desiguais, na medida em que se desigualam. Nesta desigualdade social, proporcionada à desigualdade natural, é que se acha a verdadeira lei da igualdade. O mais são desvarios da inveja, do orgulho, ou da loucura. Tratar com desigualdade a iguais, ou a desiguais com igualdade, seria desigualdade flagrante, e não igualdade real. Os apetites humanos conceberam inverter a norma universal da criação, pretendendo, não dar a cada um, na razão do que vale, mas atribuir o mesmo a todos, como se todos se equivalessem.
Esta blasfêmia contra a razão e a fé, contra a civilização e a humanidade, é a filosofia da miséria, proclamada em nome dos direitos do trabalho; e, executada, não faria senão inaugurar, em vez da supremacia do trabalho, a organização da miséria.
Mas, se a sociedade não pode igualar os que a natureza criou desiguais, cada um, nos limites da sua energia moral, pode reagir sobre as desigualdades nativas, pela educação, atividade e perseverança. Tal a missão do trabalho.
[...]

Trabalho e estudo
O trabalho, pois, vos há de bater à porta dia e noite; e nunca vos negueis às suas visitas, se quereis honrar vossa vocação, e estais dispostos a cavar nos veios de vossa natureza, até dardes com os tesouros, que aí vos haja reservado, com ânimo benigno, a dadivosa Providência. Ouvistes o aldrabar da mão oculta, que vos chama ao estudo? Abri, abri, sem detença. Nem, por vir muito cedo, lho leveis a mal, lho tenhais à conta de importuna. Quanto mais matutinas essas interrupções do vosso dormir, mais lhas deveis agradecer.
O amanhecer do trabalho há de antecipar-se ao amanhecer do dia. Não vos fieis muito de quem esperta já sol nascente, ou sol nado. Curtos se fizeram os dias, para que nós os dobrássemos, madrugando. Experimentai, e vereis quanto vai do deitar tarde ao acordar cedo. Sobre a noite o cérebro pende ao sono. Antemanhã, tende a despertar.
Não invertais a economia do nosso organismo: não troqueis a noite pelo dia, dedicando este à cama, e aquela às distrações. O que se esperdiça para o trabalho com as noitadas inúteis, não se lhe recobra com as manhãs de extemporâneo dormir, ou as tardes de cansado labutar. A ciência, zelosa do escasso tempo que nos deixa a vida, não dá lugar aos tresnoites libertinos. Nem a cabeça já exausta, ou estafada nos prazeres, tem onde caiba o inquirir, o revolver, o meditar do estudo.
[...]

A importância do saber autônomo
Mas, senhores, os que madrugam no ler, convém madrugarem também no pensar. Vulgar é o ler, raro o refletir. O saber não está na ciência alheia, que se absorve, mas, principalmente, nas ideias próprias, que se geram dos conhecimentos absorvidos, mediante a transmutação, por que passam, no espírito que os assimila. Um sabedor não é armário de sabedoria armazenada, mas transformador reflexivo de aquisições digeridas.
Já se vê quanto vai do saber aparente ao saber real. O saber de aparência crê e ostenta saber tudo. O saber de realidade, quanto mais real, mais desconfia, assim do que vai aprendendo, como do que elabora.
Haveis de conhecer, como eu conheço, países, onde quanto menos ciência se apurar, mais sábios florescem. Há, sim, dessas regiões por este mundo além. Um homem (nessas terras de promissão) que nunca se mostrou lido ou sabido em coisa nenhuma, tido e havido é por corrente e moente no que quer que seja; porque assim o aclamam as trombetas da política, do elogio mútuo, ou dos corrilhos pessoais, e o povo subscreve a néscia atoarda. 
[...]
A esses homens-panaceias, a esses empreiteiros de todas as empreitadas, a esses aviadores de todas as encomendas, se escancelam os portões da fama, do poderio, da grandeza, e, não contentes de lhes aplaudir entre os da terra a nulidade, ainda, quando Deus quer, a mandam expor à admiração do estrangeiro.
Pelo contrário, os que se tem por notório e incontestável excederem o nível da instrução ordinária, esses para nada servem. Por quê?
Porque “sabem demais”. Sustenta-se aí que a competência reside, justamente, na incompetência. Vai-se, até, ao incrível de se inculcar “o medo aos preparados”, de havê-los como cidadãos perigosos, e ter-se por dogma que um homem, cujos estudos passarem da craveira vulgar, não poderia ocupar qualquer posto mais grado no governo, em país de analfabetos. Se o povo é analfabeto, só ignorantes estarão em termos de o governar. Nação de analfabetos, governo de analfabetos. É o que eles, muita vez às escâncaras, e em letra redonda, por aí dizem.
[...]

Dignidade, ética e deveres do profissional do direito
Ora, senhores bacharelandos, pesai bem que vos ides consagrar à lei, num país onde a lei absolutamente não exprime o consentimento da maioria, onde são as minorias, as oligarquias mais acanhadas, mais impopulares e menos respeitáveis, as que põem, e dispõem, as que mandam, e desmandam em tudo; a saber: num país, onde, verdadeiramente, não há lei, não o há, moral, política ou juridicamente falando.
Considerai, pois, nas dificuldades, em que se vão enlear os que professam a missão de sustentáculos e auxiliares da lei, seus mestres e executores.
 [...]
 Não negueis jamais ao Erário, à Administração, à União os seus direitos. São tão invioláveis, como quaisquer outros. Mas o direito dos mais miseráveis dos homens, o direito do mendigo, do escravo, do criminoso, não é menos sagrado, perante a justiça, que o do mais alto dos poderes. Antes, com os mais miseráveis é que a justiça deve ser mais atenta, e redobrar de escrúpulo; porque são os mais mal defendidos, os que suscitam menos interesse, e os contra cujo direito conspiram a inferioridade na condição com a míngua nos recursos.
Preservai, juízes de amanhã, preservai vossas almas juvenis desses baixos e abomináveis sofismas. A ninguém importa mais do que à magistratura fugir do medo, esquivar humilhações, e não conhecer cobardia. Todo o bom magistrado tem muito de heroico em si mesmo, na pureza imaculada e na plácida rigidez, que a nada se dobre, e de nada se tema, senão da outra justiça, assente, cá embaixo, na consciência das nações, e culminante, lá em cima, no juízo divino.
Não tergiverseis com as vossas responsabilidades, por mais atribulações que vos imponham, e mais perigos a que vos exponham. Nem receeis soberanias da terra: nem a do povo, nem a do poder.
[...]
Legalidade e liberdade são as tábuas da vocação do advogado. Nelas se encerra, para ele, a síntese de todos os mandamentos. Não desertar a justiça, nem cortejá-la. Não lhe faltar com a fidelidade, nem lhe recusar o conselho. Não transfugir da legalidade para a violência, nem trocar a ordem pela anarquia. Não antepor os poderosos aos desvalidos, nem recusar patrocínio a estes contra aqueles. Não servir sem independência à justiça, nem quebrar da verdade ante o poder. Não colaborar em perseguições ou atentados, nem pleitear pela iniquidade ou imoralidade. Não se subtrair à defesa das causas impopulares, nem à das perigosas, quando justas. Onde for apurável um grão, que seja, de verdadeiro direito, não regatear ao atribulado o consolo do amparo judicial. Não proceder, nas consultas, senão com imparcialidade real do juiz nas sentenças. Não fazer da banca balcão, ou da ciência mercatura. Não ser baixo com os grandes, nem arrogante com os miseráveis. Servir aos opulentos com altivez e aos indigentes com caridade. Amar a pátria, estremecer o próximo, guardar fé em Deus, na verdade e no bem.
[...]
Eia, senhores! Mocidade viril! Inteligência brasileira! Nobre nação explorada! Brasil de ontem e amanhã! Dai-nos o de hoje, que nos falta.
Mãos à obra da reivindicação de nossa perdida autonomia; mãos à obra da nossa reconstituição interior; mãos à obra de reconciliarmos a vida nacional com as instituições nacionais; mãos à obra de substituir pela verdade o simulacro político da nossa existência entre as nações. Trabalhai por essa que há de ser a salvação nossa. Mas não buscando salvadores. Ainda vos podereis salvar a vós mesmos. Não é sonho, meus amigos: bem sinto eu, nas pulsações do sangue, essa ressurreição ansiada. Oxalá não se me fechem os olhos, antes de lhe ver os primeiros indícios no horizonte. Assim o queira Deus.
BARBOSA, Rui. Oração aos moços. Disponível em
http://www.casaruibarbosa.gov.br/dados/DOC/artigos/rui_barbosa/FCRB_RuiBarbosa_Oracao_aos_mocos. pdf

Leitor, leitora...
Quer você concorde ou não com o pensamento de Rui Barbosa, e apesar do estilo ser bem pouco contemporâneo, creio que soube apreciar a veemência do orador e a competente expressão de ideias do ilustre escritor. Acertei?

segunda-feira, 3 de novembro de 2014

Quem se incomunica...


Acabamos de passar (e, de certa forma, ainda estamos passando) por um período eleitoral marcado por expressões virulentas e profunda “incomunicação”.
No que dizia respeito aos políticos, frequentemente, a cada pergunta de uma entrevista, não se seguia uma resposta adequada; a cada resposta de debate, não se ouvia uma réplica esclarecedora, mas outra, que fugia do eixo da questão.
Em paralelo, nas redes sociais, poucas vezes apareceu a “fala” argumentativa e, menos ainda, a “escuta” do interlocutor, para verdadeiro debate de ideias.
Sossegue, leitor, meu foco não são tais condutas em si, mas, aproveitando a capacidade da literatura de desnudar nossos comportamentos e consequências, mapear nossas dificuldades comunicativas por meio dela.
Como registrei em matéria antiga (A Literatura diz a Vida, de 17/01/2014), textos literários “cativam a nós, leitores, não tanto por deflagrar o ‘Belo’, como muitos podem pensar, mas principalmente por revelar-nos a nós próprios, destrinchando uma teia de emoções que nem sempre conseguimos compreender em sua complexidade, quanto mais expressar.”
Para ilustrar, hoje me atenho a um gênero específico, a crônica: porquanto, retrato crítico do homem e suas mazelas, ela tem o poder de tocar em feridas com “delicada contundência”, pelas pitadas de humor que inocula no texto.
Não são poucas as crônicas que flagram o resultado de interlocuções mal resolvidas, e selecionei algumas delas – todas de Drummond. As lições a se tirar para nosso contexto sociopolítico e até para as relações pessoais ficam a cargo de cada leitor. De qualquer modo, a prosa bem-humorada do escritor certamente proporcionará bons e divertidos momentos de leitura.


Modos de xingar
(A incompreensão vocabular pode separar gerações  como no texto  ou quaisquer indivíduos com repertórios linguísticos diferentes. Na crônica, a personagem de mais idade se vale disso para descarregar com mais liberdade sua ira.)

– Biltre!
– O quê?
– Biltre! Sacripanta!
– Traduz isso para português.
– Traduzo coisa nenhuma. Além do mais, charro! Onagro!
Parei para escutar. As palavras estranhas jorravam do interior de um Ford de bigode. Quem as proferia era um senhor idoso, terno escuro, fisionomia respeitável, alterada pela indignação. Quem as recebia era um garotão de camisa esporte, dentes clarinhos emergindo da floresta capilar, no interior de um fusca. Desses casos de toda hora: o fusca bateu no Ford. Discussão. Bate-boca. O velho usava o repertório de xingamentos de seu tempo de sua condição: professor, quem sabe? Leitor de Camilo Castelo Branco.
[...]
ANDRADE, Carlos Drummond de. Os velhos xingamentos. De notícias & não notícias faz-se a crônica. Rio de Janeiro: José Olympio, 1975.


O índio
(Lugar social, interesses e expectativas diferentes causam divergências – potencialmente agravadas pela teimosia, arrogância e má vontade dos interlocutores. Apenas um olhar aberto e desarmado, como o do menino, pode enxergar mais longe.)

– Um cafezinho.
– Essa não.
– Não o quê?
– Essa do índio.
– Quê que tem o índio?
– Essa eu não aceito.
– O senhor tem alguma coisa contra o índio? Contra a jangada? Contra a vitória régia?
– Moço, tem gente esperando para comprar ficha. Não posso ficar conversando à toa.
– À toa como? Então o senhor recusa uma cédula emitida pela Casa da Moeda, eu lhe pergunto a razão por que recusa, e o senhor me diz que não pode conversar? Tem que conversar, essa é boa. Me diga por que não aceita uma nota do Brasil – não estamos no Brasil?
– Estamos.
– Então?
– Então o quê?
– Então dinheiro brasileiro vale ou não vale?
– Claro que vale. Mas as notas de cinco cruzeiros, com cara de índio, estão sendo falsificadas, eu não sou dono desta joça e não quero receber dinheiro falso, tá bom?
– O quê que o senhor está me dizendo? Repita.
– Não repito.
– Repita, se é capaz.
– Sou capaz, mas não sou relógio de repetição.
– Repita que sou moedeiro falso.
– Eu não disse isso, mas se o senhor diz que é...
– Eu disse que sou? Repita que eu disse que sou.
– Ai ai ai. Assim não vale. O senhor está me baralhando a cabeça. O que eu disse foi que tem notas falsificadas, então não tem?
– E esta é falsa?
– Eu é que sei?
– Se não sabe, como recusa minha nota? É porque desconfiou de mim. O senhor me conhece? De onde? Tenho pinta de vigarista?
– Não conheço nem quero ter o prazer de conhecer. Não sei se tem pinta disso ou daquilo. Sei que não aceito sua nota, e pronto.
– Tem que aceitar.
(Vozes na fila: Chega! Chega! Para com isso!)
– Viu? O senhor está empatando o movimento do café.
– Empatando está o senhor, mas é a circulação do papel-moeda no Brasil. Anda, me dá a fichinha.
– Então me dá uma nota de outra qualidade.
– Dou, mas vamos fazer o seguinte: a outra fica em depósito. (Voltando-se para trás.) Os senhores são testemunhas. Vou pagar dez cruzeiros por um cafezinho. É o preço da eterna vigilância. Pago até cem cruzeiros, se for preciso. Até mil. Mas esta nota de índio ele tem de receber, levar à Casa da Moeda, perguntar se ela é falsa – falsa coisa nenhuma, estão vendo? – trazer um certificado e me pedir desculpa. O dinheiro fica em depósito. Depois dou para a ABBR.
(Sensação na fila. Chega um menino.)
– Moço, deixa eu espiar a nota.
– Olhe bem, garoto. Para você aprender a lutar pelas instituições.
– O senhor viu o que está escrito aqui?
– Não. O quê?
–Está escrito: fac-símile. É nota de propaganda comercial, o senhor não vê que está na cara?
– Ô diabo, como é que eu não reparei!
ANDRADE, Carlos Drummond de. Seleta em prosa e verso. Rio de Janeiro: José Olympio, 1974.


Diálogo de Todo Dia
(Esta conversa perfeitamente coesa e absolutamente incoerente leva ao exagero a incapacidade de comunicação. O título da crônica corresponde a uma síntese valorativa e insinua ao leitor que a falha comunicativa é rotina, e não exceção, em nossas vidas.)

– Alô, quem fala?
– Ninguém. Quem fala é você que está perguntando quem fala.
– Mas eu preciso saber com quem estou falando.
– E eu preciso saber antes a quem estou respondendo.
– Assim não dá. Me faz o obséquio de dizer quem fala?
– Todo mundo fala, meu amigo, desde que não seja mudo.
– Isso eu sei, não precisava me dizer como novidade. Eu queria saber é quem está no aparelho.
– Ah, sim. No aparelho não está ninguém.
– Como não está, se você está me respondendo?
– Eu estou fora do aparelho. Dentro do aparelho não cabe ninguém.
– Engraçadinho. Então, quem está fora do aparelho?
– Agora melhorou. Estou eu, para servi-lo.
– Não parece. Se fosse para me servir já teria dito quem está falando.
– Bem, nós dois estamos falando. Eu de cá, você de lá. E um não conhece o outro.
– Se eu conhecesse não estava perguntando.
– Você é muito perguntador. Note que eu não lhe perguntei nada.
– Nem tinha que perguntar. Pois se fui eu que telefonei.
– Não perguntei nem vou perguntar. Não estou interessado em conhecer outras pessoas.
– Mas podia estar interessado pelo menos em responder a quem telefonou.
– Estou respondendo.
– Pela última vez, cavalheiro, e em nome de Deus: quem fala?
–Pela última vez, e em nome da segurança, por que eu sou obrigado a dar esta informação a um desconhecido?
– Bolas!
– Bolas digo eu. Bolas e carambolas. Por acaso você não pode dizer com quem deseja falar, para eu lhe responder se essa pessoa está ou não aqui, mora ou não mora neste endereço? Vamos, diga de uma vez por todas: com quem deseja falar?
Silêncio.
– Vamos, diga: com quem deseja falar?
– Desculpe, a confusão é tanta que eu nem sei mais. Esqueci. Tchau.
ANDRADE, Carlos Drummond de. Contos plausíveisRio de Janeiro: J. Olympio, 1985. 


Estranha (e eficiente) linguagem dos namorados
(Para finalizar, o reverso. Uma conversa nonsense, que aparentemente foge à racionalidade e à coerência, mostra-se perfeita para o entendimento entre os namorados.)

– Oi, meu berilo!
– Oi, meu anjo barroco!
– Minha tanajura! Minha orquestra de câmara!
– Que bom você me chamar assim, meu pessegueiro-da-flórida!
– Você gosta, minha calhandra?
– Adoro, meu teleférico iluminado!
– Eu também gosto muito de ser tudo isso que você me chama!
– De verdade, meu jaguaretê de paina?
– Juro, meu cavalinho de asas!
– Então diz mais, diz mais!
– Meu oitavo, décimo, décimo quinto pecado capital, minha janela sobre a Acrópole, meu verso de Rilke, minha malvasia, meu minueto de Versailles.
– Mais, agapanto meu, tempestade minha!
– Minha follia con variazoni, de Corelli, meu isto-e-aquilo enguirlandado, meu eu anterior a mim, meus diálogos com Platão e Plotino ao entardecer, minha úlcera maravilhosa!
– Ai que lindo, liiiiiindo, meu colar de cavalheiro inglês num retrato de Ticiano! Meu fundo do mar, você me põe louca, louca de amar as pedras, de patinar nas nuvens!
– E eu então, minha górgone, minha gárgula de Notre Dame, e eu, minha sintaxe de Deus?
– Você fala como falam os balões de junho de Portinari, as joias da coroa do reino de Samarcanda, você, meu imperativo categórico, você, minha espada maçônica, você me mata!
– E você também me trucida, me degola, me devolve ao estado de música, meu tambor de mina!
– Todos os incentivos oficiais reunidos e multiplicados não valem a tua alquimia, meu ministro do fogo!
– Tuas paisagens, teu subsolo infernal, teus labirintos são superiores em felicidade a qualquer declaração dos direitos do homem!
– A primeira vez que eu vi você naquele bar do crepúsculo eu senti que as pirâmides e as cataratas não valiam a tua unha do dedo mindinho! Porque você é o Banco das estrelas, e pode comprar todas as coisas do mundo, inclusive as águas e os animais, para restituí-los à vida em liberdade! Como posso ouvir outras palavras senão as tuas, meu almanaque do céu? Minha ciência do insabível? Meu terremoto, meu objeto voador identificado?
– E nascemos um para o outro, nascemos um no outro, e estamos nessa desde antes do começo dos séculos, meu nenúfar!
– E estaremos mesmo depois que os séculos se evaporarem, ó meu desenho rupestre, meu formigão atômico!
– Mandala, raio laser, sextina! Tudo meu, é claro!
– Pomba-gira!
– Clepsidra!
– Sequoia minha minha minha!
Diálogo aparentemente louco, mas que dois namorados de imaginação mantêm todos os dias, com estas ou outras palavras igualmente mágicas. Não inventei nada. Apenas colecionei expressões ouvidas aqui e ali, e que me pareceram espontâneas, isto é, ninguém deve ter preparado antes o que iria dizer, de tal modo as palavras saíam entrecortadas de risos, interrompidas por afagos, brotando da situação. O amor é inventivo e anula os postulados da lógica. Ele tem sua lógica própria, tão válida quanto a outra. E os amantes se entendem sob o signo do absurdo – não tão absurdo assim, como parece aos não amorosos. Já ouvi no interior de Minas alguém chamar seu amor de “meu bicho-de-pé” e receber em troca o mais cálido beijo de agradecimento.
[..]
Todo namorado que se preze deve inventar as besteiras líricas e deliciosas que a gente não diz para qualquer pessoa, só para uma, e só em momentos de pura delícia. Funcionam? E como!
ANDRADE, Carlos Drummond de. Boca de luar. Rio de Janeiro: Record, 1984. 



Quem se...
Conclusão: quando a boa vontade e o afeto predominam, não há incoerência, assim como não há diferença de padrão linguístico, de geração, classe social ou interesse que possa destruir a boa comunicação, não é mesmo?
Afinal, Chacrinha, o Velho Guerreiro, ensinava em tempos idos: “quem não se comunica, se trumbica.”
Modernizo o bordão, deixando a complementação para o leitor: Quem se incomunica...