quarta-feira, 15 de outubro de 2014

Uma reflexão para o Dia do Professor


Antes de mais nada, permitam-me dizer melhor: uma reflexão para o Dia do Professor-Educador – pois, sabemos: sua (nossa) missão não se limita a transmitir de conhecimentos.
Rubem Alves opõe a dimensão do educador ao cargo de professor, da seguinte forma: “... os educadores são como velhas árvores. Possuem uma face, um nome, uma ‘estória’ a ser contada. Habitam um mundo em que o que vale é a relação que os liga aos alunos, sendo que cada aluno é uma ‘entidade’ sui generis, portador de um nome, também uma ‘estória’, sofrendo tristezas e alimentando esperanças.” Enquanto “professores são habitantes de um mundo diferente, onde (...) o que interessa é um ‘crédito’ cultural que o aluno adquire numa disciplina identificada por uma sigla”.¹
Ele me faz pensar no Educador que cuida e, por isso mesmo, não pode ser absolutista nem inerte, pois observa o desenvolvimento de cada ser, em seu momento próprio, e age de acordo. No Educador que se equilibra: acata dúvidas, suscita inquietudes, mas também oferece modelos e referências; permite, sem ser permissivo. Dessa maneira, sua tarefa educativa passa a ser uma experiência desafiante, mas segura, além de fundadora – uma vez que, por ela, mestre e aprendiz decolam da realidade conhecida, exploram novos caminhos de reflexão e atuação, recriam expectativas, constroem saberes e instauram o novo, fundindo experiências enriquecedoras e transformadoras à sua própria realidade pessoal e social.
Penso (idealmente, quem sabe) naquele Educador, de todos os níveis, que transita quase com devoção pela esfera pública inerente ao seu trabalho, sem ignorar o espaço particular – seu e do aluno. Não penso em qualquer professor, mas naquele que infunde entusiasmo, porque põe a alma no que faz. Naquele Mestre que se sabe “maior que o aluno”, não por arrogância e presunção, mas por trazer experiências a mais e sede de novos saberes; por aceitar expor-se a riscos; por acreditar no crescimento mútuo e contínuo. Ponho o meu foco na necessidade (inevitabilidade) do seu comprometimento
Enfim, meu olhar está naquele que, em sua legítima autoridade, aceita, nos difíceis tempos atuais, o desafio da profissão e suas implicações: pesquisar, estudar, preparar-se; refletir e agir na e para a escola e a profissão (e, por vínculos necessários, na e para a vida). Que, em seu parco tempo, descobre tempo para ouvir o outro (alunos, colegas, direção, comunidade), ativando objetivos, projetos e ações conjuntas. Que tem o que dizer, verdadeiramente, pelo conhecimento de sua área e de sua profissão, além de se interessar pela realidade escolar e extraescolar do aluno, pela realidade da escola e do micro e macro entorno.
Pergunto-me, inúmeras vezes, como nós, educadores, podemos assumir a enorme responsabilidade de, com compaixão e generosidade – sem deixarmos de ser críticos – contribuir para uma escola e uma sociedade em que nós e nossos filhos, e os filhos de nossos filhos se percebam participantes e arquitetos de um projeto humanista, no qual as diferenças (individuais, de geração, de função, de classe) sejam aceitas e respeitadas; no qual se busque, de fato, a unidade construtiva e solidária dentro da diversidade.
Porque, como bem diz Baumann: “Quer eu admita, quer não, sou o guardião do meu irmão; porque o bem-estar do meu irmão depende do que eu faço ou do que eu me abstenho de fazer.” ²
Creio ser papel e missão de quem educa: assumir movimentos e protagonismos no universo dos que vivem a sociedade-escola e integrar-se, por essa via, à macrossociedade dos “homens de boa vontade”.
¹ ALVES, Rubem. Conversas com quem gosta de ensinar. São Paulo: Cortez, 1984.
² BAUMAN, Zygmunt. A sociedade individualizada: vidas contadas e histórias vividas. Rio de Janeiro: Jorge Zahar, 2008.

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