domingo, 12 de outubro de 2014

Ensinamentos de criança-poeta, segundo Manoel de Barros

Martha Barros


Com certeza, a liberdade e a poesia a gente aprende com as crianças”.
Manoel de Barros, sábio-poeta-criança, diz e prova: o caminho primeiro da poesia é a infância, povoada de fantasias e livre de amarras e conceitos; e sua mais original mestra é a criança, que brinca de inventar a linguagem e compreende, como o poeta, o “reino da despalavra”.
Então, neste Mês da Criança, quem melhor que ele – Manoel Wenceslau Leite de Barros, Manoel pantaneiro (“O tema da minha poesia sou eu mesmo e eu sou pantaneiro”) – recheado de infância, entretido no brincar-palavra, para nos enredar? Para nos “criançar” poeticamente – a nós, adultos seriíssimos – e para lançar-se, com crianças de qualquer idade, em jogos peraltas de entortar palavras?
Uma rã me pedra.
Um passarinho me árvore.
Os jardins se borboletam.
Folhas secas me outonam.¹
[BARROS, Manoel de. Livro sobre nada. Rio de Janeiro: Record, 2000.]

Ah!, e não esqueçamos: este é também o Mês do Professor... Boa data para brincar de escola poética, reinventar e desensinar gramáticas, transver, transouvir, trans-sentir – transgredir, conservando o sorriso da infância.
Para o eu lírico, desensinamento é brincadeira séria. Tão séria, que pode beirar a (des)evangelização, para desvelar transmutações, explicar delírios e iluminar nascimentos:
No descomeço era o verbo.
Só depois é que veio o delírio do verbo.
O delírio do verbo estava no começo, lá onde a
criança diz: Eu escuto a cor dos passarinhos.
A criança não sabe que o verbo escutar não funciona
para cor, mas para som.
Então se a criança muda a função de um verbo, ele
delira
E pois.
Em poesia que é voz de poeta, que é a voz de fazer
nascimentos –
O verbo tem que pegar delírio.
[BARROS, Manoel de. O livro das ignorãças. Rio de Janeiro: Record, 2004.]

Martha Barros

Manoel para Manoel
Manoel-criança ensinou o caminho a Manoel poeta-moleque: solitariamente encarapitado na árvore de sua infância, saboreou silêncios, penetrou no outro lado das coisas, descobriu naturezas. A peraltagem que não fez, faz agora, ao construir seu reino linguageiro de deslimitação da palavra:
Manoel por Manoel
Eu tenho um ermo enorme dentro do olho. Por motivo do ermo não fui um menino peralta. Agora tenho saudade do que não fui. Acho que o que faço agora é o que não pude fazer na infância. Faço outro tipo de peraltagem. Quando eu era criança eu deveria pular muro do vizinho para catar goiaba. Mas não havia vizinho. Em vez de peraltagem eu fazia solidão. Brincava de fingir que pedra era lagarto. Que lata era navio. Que sabugo era um serzinho mal resolvido e igual a um filhote de gafanhoto.
Cresci brincando no chão, entre formigas. De uma infância livre e sem comparamentos. Eu tinha mais comunhão com as coisas do que comparação.
Porque se a gente fala a partir de ser criança, a gente faz comunhão: de um orvalho e sua aranha, de uma tarde e suas garças, de um pássaro e sua árvore. Então eu trago das minhas raízes crianceiras a visão comungante e oblíqua das coisas. Eu sei dizer sem pudor que o escuro me ilumina. É um paradoxo que ajuda a poesia e que eu falo sem pudor. Eu tenho que essa visão oblíqua vem de eu ter sido criança em algum lugar perdido onde havia transfusão da natureza e comunhão com ela. Era o menino e os bichinhos. Era o menino e o sol. O menino e o rio. Era o menino e as árvores.
[BARROS, Manoel de. Memórias inventadas: a infância. São Paulo: Planeta, 2010.]

Depois, na adolescência já inclinada à poesia, veio a cumplicidade do adulto/criança, que avaliza e incentiva as transgressões palavreiras, e abre caminho para a revelação do sagrado direito de “errar bem o idioma”:
Descobri aos 13 anos que o que me dava prazer nas
leituras não era a beleza das frases, mas a doença
delas.
Comuniquei ao Padre Ezequiel, um meu Preceptor,
esse gosto esquisito.
Eu pensava que fosse um sujeito escaleno.
– Gostar de fazer defeitos na frase é muito
saudável, o Padre me disse.
Ele fez um limpamento em meus receios.
O Padre falou ainda: Manoel, isso não é doença,
pode muito que você carregue para o resto da
vida um certo gosto por nadas…
E se riu.
Você não é de bugre? – ele continuou.
Que sim, eu respondi.
Veja que bugre só pega por desvios, não anda em
estradas –
Pois é nos desvios que encontra as melhores
surpresas e os ariticuns maduros.
Há que apenas saber errar bem o seu idioma.
Esse Padre Ezequiel foi o meu primeiro professor de
agramática.
[BARROS, Manoel de. O livro das ignorãças. Rio de Janeiro: Record, 2004.]

Martha Barros

Manoel para crianças-crianças e outras mais
Termino com este poema em vídeo, no qual a contadora de histórias Andi Rubenstein apresenta o conto O menino que carregava água na peneira, bela metáfora do despropósito de fazer poesia. Eis o texto:
Tenho um livro sobre águas e meninos.
Gostei mais de um menino
que carregava água na peneira.

A mãe disse que carregar água na peneira
era o mesmo que roubar um vento e
sair correndo com ele para mostrar aos irmãos.

A mãe disse que era o mesmo
que catar espinhos na água.
O mesmo que criar peixes no bolso.

O menino era ligado em despropósitos.
Quis montar os alicerces
de uma casa sobre orvalhos.

A mãe reparou que o menino
gostava mais do vazio, do que do cheio.
Falava que vazios são maiores e até infinitos.

Com o tempo aquele menino
que era cismado e esquisito,
porque gostava de carregar água na peneira.

Com o tempo descobriu que
escrever seria o mesmo
que carregar água na peneira.

No escrever o menino viu
que era capaz de ser noviça,
monge ou mendigo ao mesmo tempo.

O menino aprendeu a usar as palavras.
Viu que podia fazer peraltagens com as palavras.
E começou a fazer peraltagens.

Foi capaz de modificar a tarde botando uma chuva nela.
O menino fazia prodígios.
Até fez uma pedra dar flor.

A mãe reparava o menino com ternura.
A mãe falou: Meu filho, você vai ser poeta!
Você vai carregar água na peneira a vida toda.

Você vai encher os vazios
com as suas peraltagens,
e algumas pessoas vão te amar por seus despropósitos!
[BARROS, Manoel de. Exercícios de ser criança. Rio de Janeiro: Salamandra, 1999.]




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