segunda-feira, 6 de outubro de 2014

A Primavera é a estação...


“Humanamente verde, a Primavera chega”, diz Jorge de Sena, unindo, poeticamente, o homem à natureza.
No fundo, bem lá no fundo, é isso o que fazemos todos, ainda que de forma inconsciente: damos de ombros para a preservação da natureza, mas dela nos servimos, como inspiração e modelo; e usamos seus atributos para a representação pessoal e figurada de sentimentos e eventos – especialmente, em relação à primavera.
A “estação do ano que antecede o inverno e precede o verão”, segundo a definição objetiva, indica mais que um estado do mundo natural: para nós, seres constituídos de corpo, alma, pensamento e emoções, evoca movimento, dinamismo, até revolução.
Provam-no os movimentos humanos que se valem do termo, desde os políticos – Primavera dos Povos, de Praga, Árabe, Brasileira (como alguns chamaram as manifestações de 2013) –, até os socioculturais – Jogos da Primavera, Primavera da Saúde (de 2011, no Brasil), Primavera dos Museus (em curso, em alguns estados brasileiros).
O que os une? Existe um traço comum para que a palavra “primavera” esteja em todos? Lembremos que os rituais místicos da estação estão associados à ideia de renovação, purificação, renascimento e fertilidade.
Eis a pista, portanto: a passagem do recolhimento/interiorização do inverno para a explosão da primavera enseja que se estendam tais sentidos às experiências transformadoras e rejuvenescedoras por que passamos.  Daí as inevitáveis “primaveras”: da vida, dos jovens, do amor, da paixão...
... E dos escritores, sobretudo dos poetas, claro – que embaralham pulsações e despertares de naturezas várias, em textos multissignificantes. Vale percorrer escritos de alguns deles e mergulhar no modo como integram sentimentos humanos às reverberações da estação florida.
Vários desses textos desconstroem a visão comum de primavera como “festa de cores e sons”, inspiradora de palavras otimistas e climas etéreos. É que o olhar poético, aliando sensibilidade e técnica, consegue abranger mais amplas dimensões e estruturar outras possibilidades de percepção do mundo.
Meu olhar recaiu sobre Cecília Meireles, Fernando Pessoa e Jorge de Sena.


Cecília, incertezas e brevidades
Nos dois poemas de Cecília Meireles aqui registrados, a natureza é mais que objeto de contemplação: é também instrumento de comparação, medida para avaliar a vida humana.
Em Epigrama nº 3, a certeza da reconstituição cíclica da natureza, ainda quando agredida (mutilados jardins e primaveras abolidas), serve para evocar o oposto, no homem: a incerteza quanto à sua renovação vital:

Epigrama nº 3
Mutilados jardins e primaveras abolidas
abriram seus miraculosos ramos
no cristal em que pousa a minha mão.

(Prodigioso perfume!)

Recompuseram-se tempos, formas, cores, vidas...
Ah! mundo vegetal, nós, humanos, choramos
só da incerteza da ressurreição.
[MEIRELES, Cecília. Viagem. São Paulo: Global, 2012.]

Se, no primeiro poema, a relação é por contraste, no segundo, Renúncia, o que sobressai é a semelhança. Para o eu lírico, a sensação de fugacidade e de despertencimento está tanto na primavera (“breve perfume; “deixa ir a flor”) quanto nos acontecimentos e sentimentos humanos (“a flor dos instantes mais amargos... dada ao vento”).
O leitor poderá perceber, ainda, que essa inclinação para o efêmero é, ao mesmo tempo, condição de mobilidade e energia vital (confiram, por exemplo, o trecho em negrito):

Renúncia
Rama das minhas árvores mais altas,
deixa ir a flor! que o tempo, ao desprendê-la,
roda-a no molde de noites e de albas
onde gira e suspira cada estrela.

Deixa ir a flor! deixa-a ser asa, espaço,
ritmo, desenho, música absoluta,
dando e recuperando o corpo esparso
que, indo e vindo, se observa, e ordena, e escuta...

Falo-te, por saber o que é perder-se.
Conheço o coração da primavera,
e o dom secreto do seu sangue verde,
que num breve perfume existe e espera.

Verti para infinitos desamparos
tudo que tive no meu pensamento.
Era a flor dos instantes mais amargos.
Por onde anda? No abismo. Dada ao vento...
[MEIRELES, Cecília. Viagem. São Paulo: Global, 2012.]


Fernando Pessoa e a “objetividade” de Caeiro
O eu poético de Alberto Caeiro prefere lidar com a objetividade e a certeza. As coisas são – são como são, e tudo está bem: o ciclo da natureza é uma prova da inexorabilidade do mundo real. Compara homem e natureza, aponta a perenidade desta, não afetada pela mortalidade humana. E lança seu olhar sereno para a inevitabilidade dos acontecimentos, cada qual a seu tempo (confira trechos em negrito):

Quando vier a Primavera,
Se eu já estiver morto,
As flores florirão da mesma maneira
E as árvores não serão menos verdes que na Primavera passada.
A realidade não precisa de mim.

Sinto uma alegria enorme
Ao pensar que a minha morte não tem importância nenhuma.

Se soubesse que amanhã morria
E a Primavera era depois de amanhã,
Morreria contente, porque ela era depois de amanhã.
Se esse é o seu tempo, quando havia ela de vir senão no seu tempo?
Gosto que tudo seja real e que tudo esteja certo;
E gosto porque assim seria, mesmo que eu não gostasse.
Por isso, se morrer agora, morro contente,
Porque tudo é real e tudo está certo.

Podem rezar latim sobre o meu caixão, se quiserem.
Se quiserem, podem dançar e cantar à roda dele.
Não tenho preferências para quando já não puder ter preferências.
O que for, quando for, é que será o que é.
[PESSOA, Fernando. Ficções do Interlúdio: poemas completos de Alberto Caeiro. In Obra poética. Rio de Janeiro: Nova Aguilar, 1977.]


Jorge de Sena: o homem não é a primavera, mas...
Jorge de Sena investiga e desvela, poeticamente, a atração que o homem tem pela primavera: o desejo de absorver sua energia, a enganosa percepção de que lhe é semelhante. Tanto, que faz dela um evento que lhe pertence, que lhe é próprio – ou, segundo o olhar profundo do poeta: um evento “humanamente verde”. (Observem os trechos em negrito, neste fragmento de seu belo e longo texto.)

Humanamente verde
III
... E um dia, sem que da noite se adivinhem mais que por estalidos indistintos os contornos, a madrugada acende o seu clarão alheado sobre o que já era um transformar contínuo. Como que vapores nimbam as formas, como que fosforescências brilham por sobre elas. Do negro ou claro e cor de terra de que montes e campos se constroem, emerge como musgo um verde esparso e tenro. Aqui e ali as hastes se levantam, esguias e flexíveis, tal como em ramos brota desenroladamente o que será folhas ou flores. Os animais se movem com gestos de quietude ou de instantânea graça, qual o suspendido imóvel do arvoredo. E os ramos entrecruzam-se na imobilidade de uma brisa que apenas os rodeia, e quedam-se no ar com a mesma curiosidade do animal que estaca, erguido em suas patas rápidas.
IV
Humanamente verde, como puro imaginar do acontecido, o corpo humano agita-se iludido, arrastado na fusão de coisas e paisagem, esquecido já, no curto instante do estourar das seivas, de que o seu tempo e o seu espaço são outros e um só, no intervalo que não é tempo do mundo nem tão-pouco espaço da Terra. Esquecido de que para ele as estações coexistem num longo Inverno do nascer à morte, engana-se a si mesmo, crendo-se uma coisa, ou então um ser vivo apenas entregue ao fluxo de ser-se. E, por suas mãos que se contraem, seus olhos que fitam persistentes, seu anseio que o faz erguer-se abrupto e vertical, sente em si mesmo o tudo que não sente, e pensa que renasce como a terra em que pisa.
Assim a Primavera chega em desenlace e espuma de umidades ao homem que imagina a primavera que vê. Ao animal humano separado de todos os ciclos menos o de ser mortal. Humano porque se separou e viu as coisas e lhe deu os nomes da sua voz aprendida. Animal porque conserva em si mesmo o jogo de existir. Mas animal humano abandonado a si mesmo, que estende as mãos para promessas de flores e frutos que lhe são exteriores, que contempla embevecido o mover-se da vida pelos seres adiante para além dele, e que se levanta diverso de tudo o mais para contender com o perigo de não ser como eles.
É como se, nesse encontro imaginado com a Primavera, houvesse para o homem um retorno que não há ao espaço sem tempo mas só ciclos, em que não era ainda o ser que se tornou; é como se, deixando-se penetrar, pelas ondas que atravessam os mais entes vivos, ele regressasse ao tempo sem espaço em que tudo fluía como se não houvesse distâncias, nem as formas estivessem fechadas nos seus mesmos contornos. [...] Que desejar-se neste indomável tempo repetido vibra em sacudido intermitente veio, concentra-se de seiva e liquefaz-se, e vai e volta sobre as amplas faces do crepúsculo, quando, só cadência e pulsação de longos cílios que pelo corpo vai, a música sem fio de harmonia, concêntrica de círculos e de ecos, desabrocha por rochas de água entretecida em verdes não verdes, mas lembrança.
Humanamente verde, a Primavera chega.
Disponível em http://www.lerjorgedesena.letras.ufrj.br/antologias/poesia/primavera-em-prosa-poetica/

Humanamente verde...
E sua primavera, como é, caro leitor?

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