sábado, 18 de outubro de 2014

Um olhar e um ponto de vista sobre o professor


De vez em quando todos os olhos se voltam pra mim
De lá do fundo da escuridão,

Esperando que eu seja um herói.¹

Outubro é pródigo em motivos para se conversar sobre Educação. Sem esquecer todo o contexto político-eleitoral deste ano, propício ao debate de políticas públicas, o mês comporta datas comemorativas (do Professor, da Criança) e o início da maratona de vestibulares.
Ao mesmo tempo, com a proximidade do final do ano letivo, as expectativas aumentam, instituições e famílias dão maior atenção às performances educacionais, às ações realizadas, aos resultados alcançados. Ouvem-se críticas aos desacertos, ao descaso da escola ante a realidade de crianças e jovens, à defasagem em relação às tecnologias digitais.
Pela relação direta com o aluno, o professor (sua formação e competência) é o que mais aparece, natural e insistentemente, na mira de leigos e especializados. Muitos o apontam como o grande responsável pela inexistência de uma escola aberta a transformações e denunciam seu despreparo para lidar com as demandas dos novos tempos.
Na máquina obsoleta, ele seria a peça mais desgastada. Pleiteia-se uma Escola aberta às alterações necessárias e inevitáveis, com um Mestre à sua altura. Mas, quem é esse mestre? É um professor “genérico” (o genérico está em moda...), de um “professorado” sem nome e sem rosto? Ou é alguém com identidade própria, com sua bagagem de conhecimentos, seu repertório e suas aflições particulares?
Dados da realidade: coordenadores e formadores sensíveis, ao trabalhar com o professor, conseguem flagrar – num intervalo qualquer, na reunião de coordenação ou de formação acaba, numa pausa momentânea – seu olhar de inquietação, demonstrando a existência de questões não muito bem resolvidas. “O que faço com o que sei, o que faço com o que até agora fazia; como harmonizar formas novas de ação com as expectativas dos pais, das provas oficiais, do vestibular, da direção; como integrar-me à ação dos colegas, para promover continuidade e progresso de saberes, se o tempo para trocas e o diálogo entre pares é pouco (e, quem sabe,  a boa vontade também)”?
A verdade é que hoje, mais que ontem, espera-se muito da educação escolar: pensar prioritariamente no aluno, trazer a sociedade para a escola e levar a escola à sociedade, contemplar a diversidade, contar com a participação da família e da comunidade, explorar linguagens tecnológicas... Os múltiplos enfoques levam, manifestamente, alguns professores a se sentirem “miúdos” e até a questionarem relevâncias, pois é bem difícil “encaixar” todas as demandas em sua atuação diária.
Além do mais, uma coisa é certa: a necessidade de mudança não reconfigura automaticamente a cabeça de ninguém – nem daqueles professores que já percorriam (conformados ou não) alguns trilhos costumeiramente repisados, nem dos jovens profissionais que ainda abraçam corajosamente a missão educativa.
Daí, minha pergunta: como as mudanças e correções de rumo chegam aos professores e são, com eles, trabalhadas? Será que as escolas (e outros órgãos públicos relacionados), democraticamente, dão ensejo à participação dos professores em decisões que envolvem estreitamente seu fazer pedagógico? Favorecem encontros e trocas profissionais? Principalmente: levam em conta o impacto causado por novas ideias, e seu tempo de amadurecimento e de compreensão?
Porque, dependendo de como se dá, a introdução de novas teorias, concepções, conhecimentos e projetos pode ser recebida como oriunda de um exercício de poder – o poder de quem detém a palavra e a decisão, o poder de quem, oficialmente, é “o dono da voz”. (“O que é bom para o dono é bom para a voz”, ironiza Chico Buarque.)
Afinal, as palavras não são inocentes – nem em si, nem quanto à escolha e o uso que delas se faz. Elas criam, efetivamente, realidades, uma vez que “o que é dito” é mediado pelo “como é dito”. E tanto podem conquistar para a união e a ação, como levar ao individualismo e à passividade. Desse modo, em vez de convite e parceria para o diálogo e a reflexão (“e se nós fizéssemos...”), poderia estar ressoando, em direção aos professores, a fala afirmativa e imperativa (“a partir de agora, é”; “façam”), usada para cercear vozes discordantes e impor vontades.
Vamos comparar: quando o foco são os alunos, advoga-se partir de sua realidade, para uma aprendizagem verdadeiramente significativa. Ora, não pode ser diferente, quando se trata da formação e do trabalho cotidiano de professores: a ampliação de conhecimentos, a construção de projetos e a decisão sobre ações só podem se efetuar com base em sua realidade pessoal e profissional. Há que se levar em conta tanto suas realizações quanto suas dificuldades; e, inclusive,  detectar e compreender resistências em discursos aparentemente harmônicos e coerentes, mas que encobrem a defesa de posições cristalizadas e camuflam o esgarçamento de relações e parcerias.
Sabemos: apesar de inseguranças e interrogações, existem vários movimentos positivos e alentadores em termos de Educação. Há exemplos de uma escola que se refaz, que se desconstrói e se reconstrói continuadamente, buscando parcerias dentro e fora, e aceitando trabalhar-se para avançar. Há exemplos, também, de um aluno que tem, agora, a oportunidade de ser visto e ouvido, e de exercer seu protagonismo e liderança, principalmente por seu conhecimento e manejo do mundo virtual. 
Augusto de Campos
E... há o professor. Quer seja aquele sequioso de ir em frente e otimizar sua missão, ou aquele não muito convencido nem disposto a sair de seu confortável mundo conhecido, não pode ser um elo mais ou menos inseguro e perdido do universo escolar. Justamente ele  que é o executor, o “movimento com cérebro e coração”, da escola que se quer dinâmica e em contínua reinvenção – precisa ser incluído (e incluir-se), de fato, na gestão democrática da instituição para a qual contribui com seu trabalho.
Que a vocação educativa, o trabalho e empenho de todo Professor recebam o olhar, o gesto e a participação solidária dos demais responsáveis pela Educação. Só assim, sua ação poderá ser propositiva e autoral.

quarta-feira, 15 de outubro de 2014

Uma reflexão para o Dia do Professor


Antes de mais nada, permitam-me dizer melhor: uma reflexão para o Dia do Professor-Educador – pois, sabemos: sua (nossa) missão não se limita a transmitir de conhecimentos.
Rubem Alves opõe a dimensão do educador ao cargo de professor, da seguinte forma: “... os educadores são como velhas árvores. Possuem uma face, um nome, uma ‘estória’ a ser contada. Habitam um mundo em que o que vale é a relação que os liga aos alunos, sendo que cada aluno é uma ‘entidade’ sui generis, portador de um nome, também uma ‘estória’, sofrendo tristezas e alimentando esperanças.” Enquanto “professores são habitantes de um mundo diferente, onde (...) o que interessa é um ‘crédito’ cultural que o aluno adquire numa disciplina identificada por uma sigla”.¹
Ele me faz pensar no Educador que cuida e, por isso mesmo, não pode ser absolutista nem inerte, pois observa o desenvolvimento de cada ser, em seu momento próprio, e age de acordo. No Educador que se equilibra: acata dúvidas, suscita inquietudes, mas também oferece modelos e referências; permite, sem ser permissivo. Dessa maneira, sua tarefa educativa passa a ser uma experiência desafiante, mas segura, além de fundadora – uma vez que, por ela, mestre e aprendiz decolam da realidade conhecida, exploram novos caminhos de reflexão e atuação, recriam expectativas, constroem saberes e instauram o novo, fundindo experiências enriquecedoras e transformadoras à sua própria realidade pessoal e social.
Penso (idealmente, quem sabe) naquele Educador, de todos os níveis, que transita quase com devoção pela esfera pública inerente ao seu trabalho, sem ignorar o espaço particular – seu e do aluno. Não penso em qualquer professor, mas naquele que infunde entusiasmo, porque põe a alma no que faz. Naquele Mestre que se sabe “maior que o aluno”, não por arrogância e presunção, mas por trazer experiências a mais e sede de novos saberes; por aceitar expor-se a riscos; por acreditar no crescimento mútuo e contínuo. Ponho o meu foco na necessidade (inevitabilidade) do seu comprometimento
Enfim, meu olhar está naquele que, em sua legítima autoridade, aceita, nos difíceis tempos atuais, o desafio da profissão e suas implicações: pesquisar, estudar, preparar-se; refletir e agir na e para a escola e a profissão (e, por vínculos necessários, na e para a vida). Que, em seu parco tempo, descobre tempo para ouvir o outro (alunos, colegas, direção, comunidade), ativando objetivos, projetos e ações conjuntas. Que tem o que dizer, verdadeiramente, pelo conhecimento de sua área e de sua profissão, além de se interessar pela realidade escolar e extraescolar do aluno, pela realidade da escola e do micro e macro entorno.
Pergunto-me, inúmeras vezes, como nós, educadores, podemos assumir a enorme responsabilidade de, com compaixão e generosidade – sem deixarmos de ser críticos – contribuir para uma escola e uma sociedade em que nós e nossos filhos, e os filhos de nossos filhos se percebam participantes e arquitetos de um projeto humanista, no qual as diferenças (individuais, de geração, de função, de classe) sejam aceitas e respeitadas; no qual se busque, de fato, a unidade construtiva e solidária dentro da diversidade.
Porque, como bem diz Baumann: “Quer eu admita, quer não, sou o guardião do meu irmão; porque o bem-estar do meu irmão depende do que eu faço ou do que eu me abstenho de fazer.” ²
Creio ser papel e missão de quem educa: assumir movimentos e protagonismos no universo dos que vivem a sociedade-escola e integrar-se, por essa via, à macrossociedade dos “homens de boa vontade”.
¹ ALVES, Rubem. Conversas com quem gosta de ensinar. São Paulo: Cortez, 1984.
² BAUMAN, Zygmunt. A sociedade individualizada: vidas contadas e histórias vividas. Rio de Janeiro: Jorge Zahar, 2008.

domingo, 12 de outubro de 2014

Ensinamentos de criança-poeta, segundo Manoel de Barros

Martha Barros


Com certeza, a liberdade e a poesia a gente aprende com as crianças”.
Manoel de Barros, sábio-poeta-criança, diz e prova: o caminho primeiro da poesia é a infância, povoada de fantasias e livre de amarras e conceitos; e sua mais original mestra é a criança, que brinca de inventar a linguagem e compreende, como o poeta, o “reino da despalavra”.
Então, neste Mês da Criança, quem melhor que ele – Manoel Wenceslau Leite de Barros, Manoel pantaneiro (“O tema da minha poesia sou eu mesmo e eu sou pantaneiro”) – recheado de infância, entretido no brincar-palavra, para nos enredar? Para nos “criançar” poeticamente – a nós, adultos seriíssimos – e para lançar-se, com crianças de qualquer idade, em jogos peraltas de entortar palavras?
Uma rã me pedra.
Um passarinho me árvore.
Os jardins se borboletam.
Folhas secas me outonam.¹
[BARROS, Manoel de. Livro sobre nada. Rio de Janeiro: Record, 2000.]

Ah!, e não esqueçamos: este é também o Mês do Professor... Boa data para brincar de escola poética, reinventar e desensinar gramáticas, transver, transouvir, trans-sentir – transgredir, conservando o sorriso da infância.
Para o eu lírico, desensinamento é brincadeira séria. Tão séria, que pode beirar a (des)evangelização, para desvelar transmutações, explicar delírios e iluminar nascimentos:
No descomeço era o verbo.
Só depois é que veio o delírio do verbo.
O delírio do verbo estava no começo, lá onde a
criança diz: Eu escuto a cor dos passarinhos.
A criança não sabe que o verbo escutar não funciona
para cor, mas para som.
Então se a criança muda a função de um verbo, ele
delira
E pois.
Em poesia que é voz de poeta, que é a voz de fazer
nascimentos –
O verbo tem que pegar delírio.
[BARROS, Manoel de. O livro das ignorãças. Rio de Janeiro: Record, 2004.]

Martha Barros

Manoel para Manoel
Manoel-criança ensinou o caminho a Manoel poeta-moleque: solitariamente encarapitado na árvore de sua infância, saboreou silêncios, penetrou no outro lado das coisas, descobriu naturezas. A peraltagem que não fez, faz agora, ao construir seu reino linguageiro de deslimitação da palavra:
Manoel por Manoel
Eu tenho um ermo enorme dentro do olho. Por motivo do ermo não fui um menino peralta. Agora tenho saudade do que não fui. Acho que o que faço agora é o que não pude fazer na infância. Faço outro tipo de peraltagem. Quando eu era criança eu deveria pular muro do vizinho para catar goiaba. Mas não havia vizinho. Em vez de peraltagem eu fazia solidão. Brincava de fingir que pedra era lagarto. Que lata era navio. Que sabugo era um serzinho mal resolvido e igual a um filhote de gafanhoto.
Cresci brincando no chão, entre formigas. De uma infância livre e sem comparamentos. Eu tinha mais comunhão com as coisas do que comparação.
Porque se a gente fala a partir de ser criança, a gente faz comunhão: de um orvalho e sua aranha, de uma tarde e suas garças, de um pássaro e sua árvore. Então eu trago das minhas raízes crianceiras a visão comungante e oblíqua das coisas. Eu sei dizer sem pudor que o escuro me ilumina. É um paradoxo que ajuda a poesia e que eu falo sem pudor. Eu tenho que essa visão oblíqua vem de eu ter sido criança em algum lugar perdido onde havia transfusão da natureza e comunhão com ela. Era o menino e os bichinhos. Era o menino e o sol. O menino e o rio. Era o menino e as árvores.
[BARROS, Manoel de. Memórias inventadas: a infância. São Paulo: Planeta, 2010.]

Depois, na adolescência já inclinada à poesia, veio a cumplicidade do adulto/criança, que avaliza e incentiva as transgressões palavreiras, e abre caminho para a revelação do sagrado direito de “errar bem o idioma”:
Descobri aos 13 anos que o que me dava prazer nas
leituras não era a beleza das frases, mas a doença
delas.
Comuniquei ao Padre Ezequiel, um meu Preceptor,
esse gosto esquisito.
Eu pensava que fosse um sujeito escaleno.
– Gostar de fazer defeitos na frase é muito
saudável, o Padre me disse.
Ele fez um limpamento em meus receios.
O Padre falou ainda: Manoel, isso não é doença,
pode muito que você carregue para o resto da
vida um certo gosto por nadas…
E se riu.
Você não é de bugre? – ele continuou.
Que sim, eu respondi.
Veja que bugre só pega por desvios, não anda em
estradas –
Pois é nos desvios que encontra as melhores
surpresas e os ariticuns maduros.
Há que apenas saber errar bem o seu idioma.
Esse Padre Ezequiel foi o meu primeiro professor de
agramática.
[BARROS, Manoel de. O livro das ignorãças. Rio de Janeiro: Record, 2004.]

Martha Barros

Manoel para crianças-crianças e outras mais
Termino com este poema em vídeo, no qual a contadora de histórias Andi Rubenstein apresenta o conto O menino que carregava água na peneira, bela metáfora do despropósito de fazer poesia. Eis o texto:
Tenho um livro sobre águas e meninos.
Gostei mais de um menino
que carregava água na peneira.

A mãe disse que carregar água na peneira
era o mesmo que roubar um vento e
sair correndo com ele para mostrar aos irmãos.

A mãe disse que era o mesmo
que catar espinhos na água.
O mesmo que criar peixes no bolso.

O menino era ligado em despropósitos.
Quis montar os alicerces
de uma casa sobre orvalhos.

A mãe reparou que o menino
gostava mais do vazio, do que do cheio.
Falava que vazios são maiores e até infinitos.

Com o tempo aquele menino
que era cismado e esquisito,
porque gostava de carregar água na peneira.

Com o tempo descobriu que
escrever seria o mesmo
que carregar água na peneira.

No escrever o menino viu
que era capaz de ser noviça,
monge ou mendigo ao mesmo tempo.

O menino aprendeu a usar as palavras.
Viu que podia fazer peraltagens com as palavras.
E começou a fazer peraltagens.

Foi capaz de modificar a tarde botando uma chuva nela.
O menino fazia prodígios.
Até fez uma pedra dar flor.

A mãe reparava o menino com ternura.
A mãe falou: Meu filho, você vai ser poeta!
Você vai carregar água na peneira a vida toda.

Você vai encher os vazios
com as suas peraltagens,
e algumas pessoas vão te amar por seus despropósitos!
[BARROS, Manoel de. Exercícios de ser criança. Rio de Janeiro: Salamandra, 1999.]




segunda-feira, 6 de outubro de 2014

A Primavera é a estação...


“Humanamente verde, a Primavera chega”, diz Jorge de Sena, unindo, poeticamente, o homem à natureza.
No fundo, bem lá no fundo, é isso o que fazemos todos, ainda que de forma inconsciente: damos de ombros para a preservação da natureza, mas dela nos servimos, como inspiração e modelo; e usamos seus atributos para a representação pessoal e figurada de sentimentos e eventos – especialmente, em relação à primavera.
A “estação do ano que antecede o inverno e precede o verão”, segundo a definição objetiva, indica mais que um estado do mundo natural: para nós, seres constituídos de corpo, alma, pensamento e emoções, evoca movimento, dinamismo, até revolução.
Provam-no os movimentos humanos que se valem do termo, desde os políticos – Primavera dos Povos, de Praga, Árabe, Brasileira (como alguns chamaram as manifestações de 2013) –, até os socioculturais – Jogos da Primavera, Primavera da Saúde (de 2011, no Brasil), Primavera dos Museus (em curso, em alguns estados brasileiros).
O que os une? Existe um traço comum para que a palavra “primavera” esteja em todos? Lembremos que os rituais místicos da estação estão associados à ideia de renovação, purificação, renascimento e fertilidade.
Eis a pista, portanto: a passagem do recolhimento/interiorização do inverno para a explosão da primavera enseja que se estendam tais sentidos às experiências transformadoras e rejuvenescedoras por que passamos.  Daí as inevitáveis “primaveras”: da vida, dos jovens, do amor, da paixão...
... E dos escritores, sobretudo dos poetas, claro – que embaralham pulsações e despertares de naturezas várias, em textos multissignificantes. Vale percorrer escritos de alguns deles e mergulhar no modo como integram sentimentos humanos às reverberações da estação florida.
Vários desses textos desconstroem a visão comum de primavera como “festa de cores e sons”, inspiradora de palavras otimistas e climas etéreos. É que o olhar poético, aliando sensibilidade e técnica, consegue abranger mais amplas dimensões e estruturar outras possibilidades de percepção do mundo.
Meu olhar recaiu sobre Cecília Meireles, Fernando Pessoa e Jorge de Sena.


Cecília, incertezas e brevidades
Nos dois poemas de Cecília Meireles aqui registrados, a natureza é mais que objeto de contemplação: é também instrumento de comparação, medida para avaliar a vida humana.
Em Epigrama nº 3, a certeza da reconstituição cíclica da natureza, ainda quando agredida (mutilados jardins e primaveras abolidas), serve para evocar o oposto, no homem: a incerteza quanto à sua renovação vital:

Epigrama nº 3
Mutilados jardins e primaveras abolidas
abriram seus miraculosos ramos
no cristal em que pousa a minha mão.

(Prodigioso perfume!)

Recompuseram-se tempos, formas, cores, vidas...
Ah! mundo vegetal, nós, humanos, choramos
só da incerteza da ressurreição.
[MEIRELES, Cecília. Viagem. São Paulo: Global, 2012.]

Se, no primeiro poema, a relação é por contraste, no segundo, Renúncia, o que sobressai é a semelhança. Para o eu lírico, a sensação de fugacidade e de despertencimento está tanto na primavera (“breve perfume; “deixa ir a flor”) quanto nos acontecimentos e sentimentos humanos (“a flor dos instantes mais amargos... dada ao vento”).
O leitor poderá perceber, ainda, que essa inclinação para o efêmero é, ao mesmo tempo, condição de mobilidade e energia vital (confiram, por exemplo, o trecho em negrito):

Renúncia
Rama das minhas árvores mais altas,
deixa ir a flor! que o tempo, ao desprendê-la,
roda-a no molde de noites e de albas
onde gira e suspira cada estrela.

Deixa ir a flor! deixa-a ser asa, espaço,
ritmo, desenho, música absoluta,
dando e recuperando o corpo esparso
que, indo e vindo, se observa, e ordena, e escuta...

Falo-te, por saber o que é perder-se.
Conheço o coração da primavera,
e o dom secreto do seu sangue verde,
que num breve perfume existe e espera.

Verti para infinitos desamparos
tudo que tive no meu pensamento.
Era a flor dos instantes mais amargos.
Por onde anda? No abismo. Dada ao vento...
[MEIRELES, Cecília. Viagem. São Paulo: Global, 2012.]


Fernando Pessoa e a “objetividade” de Caeiro
O eu poético de Alberto Caeiro prefere lidar com a objetividade e a certeza. As coisas são – são como são, e tudo está bem: o ciclo da natureza é uma prova da inexorabilidade do mundo real. Compara homem e natureza, aponta a perenidade desta, não afetada pela mortalidade humana. E lança seu olhar sereno para a inevitabilidade dos acontecimentos, cada qual a seu tempo (confira trechos em negrito):

Quando vier a Primavera,
Se eu já estiver morto,
As flores florirão da mesma maneira
E as árvores não serão menos verdes que na Primavera passada.
A realidade não precisa de mim.

Sinto uma alegria enorme
Ao pensar que a minha morte não tem importância nenhuma.

Se soubesse que amanhã morria
E a Primavera era depois de amanhã,
Morreria contente, porque ela era depois de amanhã.
Se esse é o seu tempo, quando havia ela de vir senão no seu tempo?
Gosto que tudo seja real e que tudo esteja certo;
E gosto porque assim seria, mesmo que eu não gostasse.
Por isso, se morrer agora, morro contente,
Porque tudo é real e tudo está certo.

Podem rezar latim sobre o meu caixão, se quiserem.
Se quiserem, podem dançar e cantar à roda dele.
Não tenho preferências para quando já não puder ter preferências.
O que for, quando for, é que será o que é.
[PESSOA, Fernando. Ficções do Interlúdio: poemas completos de Alberto Caeiro. In Obra poética. Rio de Janeiro: Nova Aguilar, 1977.]


Jorge de Sena: o homem não é a primavera, mas...
Jorge de Sena investiga e desvela, poeticamente, a atração que o homem tem pela primavera: o desejo de absorver sua energia, a enganosa percepção de que lhe é semelhante. Tanto, que faz dela um evento que lhe pertence, que lhe é próprio – ou, segundo o olhar profundo do poeta: um evento “humanamente verde”. (Observem os trechos em negrito, neste fragmento de seu belo e longo texto.)

Humanamente verde
III
... E um dia, sem que da noite se adivinhem mais que por estalidos indistintos os contornos, a madrugada acende o seu clarão alheado sobre o que já era um transformar contínuo. Como que vapores nimbam as formas, como que fosforescências brilham por sobre elas. Do negro ou claro e cor de terra de que montes e campos se constroem, emerge como musgo um verde esparso e tenro. Aqui e ali as hastes se levantam, esguias e flexíveis, tal como em ramos brota desenroladamente o que será folhas ou flores. Os animais se movem com gestos de quietude ou de instantânea graça, qual o suspendido imóvel do arvoredo. E os ramos entrecruzam-se na imobilidade de uma brisa que apenas os rodeia, e quedam-se no ar com a mesma curiosidade do animal que estaca, erguido em suas patas rápidas.
IV
Humanamente verde, como puro imaginar do acontecido, o corpo humano agita-se iludido, arrastado na fusão de coisas e paisagem, esquecido já, no curto instante do estourar das seivas, de que o seu tempo e o seu espaço são outros e um só, no intervalo que não é tempo do mundo nem tão-pouco espaço da Terra. Esquecido de que para ele as estações coexistem num longo Inverno do nascer à morte, engana-se a si mesmo, crendo-se uma coisa, ou então um ser vivo apenas entregue ao fluxo de ser-se. E, por suas mãos que se contraem, seus olhos que fitam persistentes, seu anseio que o faz erguer-se abrupto e vertical, sente em si mesmo o tudo que não sente, e pensa que renasce como a terra em que pisa.
Assim a Primavera chega em desenlace e espuma de umidades ao homem que imagina a primavera que vê. Ao animal humano separado de todos os ciclos menos o de ser mortal. Humano porque se separou e viu as coisas e lhe deu os nomes da sua voz aprendida. Animal porque conserva em si mesmo o jogo de existir. Mas animal humano abandonado a si mesmo, que estende as mãos para promessas de flores e frutos que lhe são exteriores, que contempla embevecido o mover-se da vida pelos seres adiante para além dele, e que se levanta diverso de tudo o mais para contender com o perigo de não ser como eles.
É como se, nesse encontro imaginado com a Primavera, houvesse para o homem um retorno que não há ao espaço sem tempo mas só ciclos, em que não era ainda o ser que se tornou; é como se, deixando-se penetrar, pelas ondas que atravessam os mais entes vivos, ele regressasse ao tempo sem espaço em que tudo fluía como se não houvesse distâncias, nem as formas estivessem fechadas nos seus mesmos contornos. [...] Que desejar-se neste indomável tempo repetido vibra em sacudido intermitente veio, concentra-se de seiva e liquefaz-se, e vai e volta sobre as amplas faces do crepúsculo, quando, só cadência e pulsação de longos cílios que pelo corpo vai, a música sem fio de harmonia, concêntrica de círculos e de ecos, desabrocha por rochas de água entretecida em verdes não verdes, mas lembrança.
Humanamente verde, a Primavera chega.
Disponível em http://www.lerjorgedesena.letras.ufrj.br/antologias/poesia/primavera-em-prosa-poetica/

Humanamente verde...
E sua primavera, como é, caro leitor?