terça-feira, 16 de setembro de 2014

Mais três autores: memórias inspiradoras

Romero Britto

Provavelmente, a maioria dentre nós conserva lembrança das vivências infantis com os primeiros livros e com as histórias ouvidas, lidas, assistidas. Negativas ou positivas, as experiências da infância são marcantes e conseguem influenciar as inclinações leitoras (e escritoras) do adulto.
À semelhança dos escritores da matéria anterior (08/09/2014), e possivelmente com maior força, os autores¹ que trago hoje testemunham a importância das primeiras descobertas relativas à arte verbal  – via leitura de material impresso ou mediação de um adulto –, para sua produção e inclinação artístico-literária posterior.
Confiram os depoimentos e trechos de suas produções, a seguir.
¹ A íntegra dos depoimentos desta matéria, assim como na anterior, está  em Memórias da Literatura Infantil e Juvenil .Trajetórias de Leitura. www.museudapessoa.net/public/.../memoriasliterarias_8dez2009-final.pdf.


1. Marina Colasanti

Jogos de ficção, narrativas de aventuras, contos de fada
Eu tive tantos amigos... Maravilhosos! Primeiro, meu irmão, amigo múltiplo, porque era o meu ídolo. Mais velho, tudo o que dizia sempre era mais certo do que o que eu falasse. Deixou essa certeza muito nítida desde o início: “Você é burra e eu sou o inteligente, você é fraca e eu sou o forte, você cala a boca senão eu te dou uma porrada!”. Mas nos amávamos. Ele desempenhava vários papéis. Inclusive tínhamos um casal de amigos imaginários, com os quais a gente brincava, porque éramos sozinhos.
[...]
Líamos sem parar. Sabe o que é sem parar? Ler, ler, ler... Devorávamos livros. Não havia solidão nenhuma, porque quando se está lendo... Brincávamos também com Sancho, Dom Quixote, os heróis do Emilio Salgari... Os livros nos fizeram imensa companhia.
[...]
Não tenho lembrança de ausência de livro. Sou de uma cultura leitora. A Europa é leitora. Então, uma casa sem livro é inconcebível. Nunca ganhei um primeiro livro, eles estavam ao meu redor sempre. Quando não sabia ler, minha mãe lia para mim. Depois é que aprendi. Há uma continuidade. Não há um momento em que o livro entra – o livro sempre esteve.
[Leituras da infância:] Os contos de fada, seguramente, porque hoje em dia posso dizer que tenho uma obra... Detesto essa palavra, pode parecer muito pretensiosa, mas quero dizer que tenho um corpus em contos de fada já consistente. São raros os autores que trabalham com contos de fada hoje em dia, é complicado trabalhar com eles, porque são confundidos com literatura infantil, há uma série de percalços. É claro que isso vem de uma paixão. Durante toda a minha primeira infância fui orientada com contos de fada [...]

Amostra de produção
No conto transcrito a seguir, note-se a ousadia da autora em usar o conto de fada tradicional, mas subvertê-lo em seu final, apresentando, poeticamente, o amor e a união (e não um objeto, ou um ser fantástico) como elementos mágicos capazes de unir os enamorados.

Com certeza tenho amor
Moça tão resguardada por seus pais não deveria ter ido à feira. Nem foi, embora muito desejasse. Mas porque o desejava, convenceu a ama que a acompanhava a tomar uma rua em vez de outra para ir à igreja, e a rua que tomaram passava tão perto da feira que seus sons a percorriam como água e as crês todas da feira pareciam espelhar-se nas paredes claras. Foi dessa rua, olhando através do véu que lhe cobria metade do rosto que a moça viu os saltimbancos eu suas acrobacias.
E foi nessa rua, recortada como uma silhueta em suas roupas escuras, o rosto meio coberto por um véu, que o mais jovem dos saltimbancos, atrasado a caminho da feira, a viu.
Era o mais jovem era o mais forte era o mais valente entre os onze irmãos. A partir daquele encontro, porém, uma fraqueza que não conhecia deslizou para dentro do seu peito. À noite suspirava como se doente.
– Que tens? – perguntaram-lhe os irmãos.
– Não sei – respondeu. E era verdade. Sabia apenas que a moça velada apare cia nos seus sonhos, e que parecia sonhar mesmo acordado porque mesmo acordado a tinha diante dos olhos.
Àquela rua a moça não voltou mais. Mas ele a procurou em todas as outras ruas da cidade até vê-la passar, esperou diante da igreja até vê-la entrar, acompanhou-a ao longe até vê-la chegar em casa.
Agora sorria, cantava, embora de repente largasse a comida no prato porque nada mais lhe passava na garganta.
– Que tens? – perguntaram-lhe os irmãos.
– Acho, não sei... – respondeu ele abaixando a cabeça sobre o seu rubor – creio... que tenho amor.
Na sua casa, a moça também sorria e cantava, largava de repente a comida no prato e se punha a chorar.
– Tenho... sim... com certeza tenho amor – respondeu à ama que lhe perguntou o que tinha.
Mas nem a ama se alegrou, nem se alegraram os dez irmãos. Pois como alegrar-se com um amor que não podia ser?
De fato, tanto riso, tanto choro acabaram chamando a atenção do pai da moça que, vigilante e sem precisar perguntar, trancou-a no quarto mais alto da sua alta casa. Não era com um saltimbanco que havia de casar a filha criada com tanto esmero.
Mas era com um saltimbanco que ela queria se casar.
E o saltimbanco, ajudado por seus dez irmãos, começou a se preparar para chegar até ela.
Afinal uma noite, lua nenhuma que os denunciasse, encaminharam-se os onze para a casa da moça. Seus pés calçados de feltro calavam-se sobre as pedras.
O mais jovem era o mais forte, teria ele que sustentar os demais. Pernas abertas e firmes, cravou-se no chão bem debaixo da janela dela. O segundo irmão subiu para os seus ombros, estendeu a mão e o terceiro subiu. O quarto escalou os outros até subir nos ombros do terceiro. E, um por cima do outro, foram se construindo como uma torre. Até que o último chegou ao topo.
O último chegou ao topo, e o topo não chegou à altura da janela da moça. De cima a baixo os irmãos passaram-se a palavra. Os onze pareceram ondejar por um instante. Então o mais jovem e mais forte saiu debaixo dos pés de seu irmão deixando-o suspenso no ar, e tomando a mão que este lhe estendeu subiu rapidamente por ele, galgando seus irmãos um a um.
No alto, a janela se abriu.
[COLASANTI, Marina. Vinte e três histórias de um viajante. Rio de Janeiro: Global,2005.]


2. Ricardo Azevedo

Casos e histórias populares
Não tive muito isso [contação de histórias]. Meu pai trabalhava demais, e era meio fechadão. Ficava muito no escritório, no andar de cima da casa. Era uma casa grande, e na parte de cima tinha um quarto, que era dos meus irmãos mais velhos, e o resto era o escritório. Era um baita de um escritório, com sete, oito mil livros, uma coisa imensa, e ele ficava lá. Ele estava na USP ou no escritório, estudando, lendo. Vivia uma vida muito ligada ao estudo.
De vez em quando ele contava histórias, principalmente no sítio, sempre histórias populares. Inclusive reconto uma delas, que é o “Gaspar, eu caio”. Hoje mexo com folclore. Aprendi a valorizar isso com meu pai, sem dúvida, desde pequeno.
Ele fazia umas coisas interessantes. Ele nos pegava – principalmente os três filhos que tinham mais ou menos a mesma idade, o Alberto, o João e eu – e fazia uns jograis em casa com um gravadorzinho pequeno de rolo, ainda no tempo de rolo. Por exemplo, trovas populares, poemas de Castro Alves, Vicente de Carvalho, Gonçalves Dias, vários poemas de que ele gostava. Ele também participava e dava uma parte para cada um. Lembro-me de Juca Pirama, agora talvez não saiba recitar, mas sabia de cor o canto do guerreiro.
[...]
Nasci no meio de livros, o andar de cima da casa eram livros, e o meu pai e a minha mãe não eram pessoas de indicar livros. Eram leitores, mas não de indicar. O espírito da coisa era o seguinte: os livros estão aí, como se fosse um pomar, na verdade. Você ia lá e pegava a fruta, experimentava, gostava; se não gostava, cuspia. Era essa a sensação que eu tinha.
[...]
Tínhamos lá em casa o Thesouro da juventude, tenho até hoje essa coleção, guardei. Eu era um habitué do Thesouro da juventude. Eu me interessava pelos contos que ele tinha: contos populares, em todos os volumes. Como eram dezoito volumes e cada um tinha uns dez ou doze contos, era uma festa. Sempre pegava um volume qualquer e ia direto aos contos. Foi uma leitura muito importante.

Amostra de produção
Na obra de Ricardo Azevedo, sobressaem-se a pesquisa e a produção relativas ao folclore e à tradição oral. O conto a seguir mostra um tanto de humor negro e outro tanto de gaiatice (castigada), bem próprios dos contos populares.
Três moços malvados (versão de um conto popular)
Eram três moços malvados. Gostavam de entrar no mato caçar tudo quanto é bicho. Levavam espingarda de chumbo grosso, espingarda de cartucho e até revolver de dois canos. Ficavam o dia inteiro dando tiro. Matavam arara, papagaio, tucano, bem-te-vi, sanhaço, tiziu, caga-sebo, pintassilgo, joão-de-barro, andorinha, rolinha, sofrê, sabiá, sem-fim e corrupião. Matavam macuco, caburé, curiango, coruja, mutum-de-penacho, pica-pau, saíra, garça, quero-quero, socó, jaburu, irerê e pato-do-mato. E também bicho grande que nem tamanduá, tatu, gambá, bicho preguiça, veado, ouriço, capivara, cotia, paca, preá, anta, macaco, quati, tartaruga e cachorro-do-mato.
Os três bandidos caçavam por caçar. Matavam por divertimento. Gostavam de ver quem tinha melhor pontaria, quem acertava num tiro só, quem destruía mais.
Um, dia, durante a caçada, escutaram uma voz grossa gritando no fundo do mato:
– Olha o laço!
Os três estranharam. E a voz grossa:
– Olha o laço!
Os três pararam para ouvir melhor e a voz grossa só no:
– Olha o laço!
Os moços acharam graça. Um deles disse:
– Vamos procurar o tal do laço pra gente olhar?
Os outros acharam ótima ideia. E assim os malvados foram se embrenhando na mata.
Andaram que andaram que andaram cada vez mais fundo, cada vez mais longe de tudo. A floresta foi ficando escura e cheia de sombras.
Os moços acabaram indo parar numa clareira. Debaixo de um imenso pé de jatobá encontraram três sacos cheios de dinheiro. Festejaram dando tiros para o alto.
– A gente agora tá podre de rico!
Logo fizeram uma combinação. Enquanto um deles ia até a cidade comprar vinho para comemorar, os outros dois ficariam na clareira tomando conta do tesouro.
Um dos moços partiu e os outros dois ficaram.
Um dos que ficaram, olhando aquele dinheirão, começou a fazer contas e pensou:
– Vou acabar com meu colega. Quando o outro voltar dou cabo dele também. Assim o dinheiro fica todinho pra mim.
O malvado não pensou duas vezes. Sacou a arma, atirou no companheiro, matou-o e enterrou o corpo ali mesmo. Depois, acendeu um cigarro e ficou esperando sentado debaixo do jatobá.
Acontece que o moço que foi à cidade comprar vinho teve uma ideia parecida:
– Levo o vinho cheio de veneno. Assim os dois bebem, morrem e eu fico com o dinheiro todo.
E fez isso mesmo. Comprou um garrafão de vinho tinto, encheu de veneno de rato e voltou para dentro do mato.
Quando chegou à clareira, levou um tiro e morreu na hora.
O último moço, o bandido que sobrou, sentou numa pedra para descansar. Olhando os três sacos de dinheiro, esfregou mãos de felicidade.
– Agora sim! – disse ele – Fiquei rico. Não vou trabalhar nunca mais. Vou passar o resto da vida comprando coisas, casas, roupas, carros, joias, fazendas…
Dizendo isso, arrancou a rolha do garrafão de vinho e bebeu quase tudo de um gole só.
Foi engolir o vinho e cair duro no chão.
Assim, o laço do diabo terminou de apertar seu nó.
[AZEVEDO, Ricardo. Armazém do Folclore. São Paulo: Ática, 2006.]


3. Tatiana Belinky

Poemas lidos, memorizados, declamados
Para mim não existia brinquedo melhor que livro, até hoje. Meus primeiros livros eram de poesia, poemas. Meu pai lia para mim, desde sempre.
E os poemas que ele lia eram dos bons, não qualquer coisinha. Era Púchkin, Goethe, coisas assim. Eles não escreviam para crianças, mas alguns poemas serviam. Até hoje me lembro de algumas poesias; alguns poemas saíram publicados aqui, os traduzi de cor, nem tinha o original: Di-versos russos; Di-versos alemães; e Di-versos hebraicos.
[...]
Meu pai lia poemas em voz alta e dizia os poemas como um artista, que mexia com todo mundo, adultos também. Era artista mesmo. E gostava de poesia. Eu me criei com poesias e com literatura. Ele lia a Bíblia, Velho Testamento, contava histórias da Bíblia. Lia contos de grandes escritores. Grandes escritores! Não era literaturinha, não. Era boa literatura mesmo, porque todos escreveram coisas que criança pode ouvir. Entende mais, entende menos, mas se acostuma. Comecei a entender muito rapidamente, lia tudo o que me caía nas mãos. Lia o que meus pais liam, o que meus avós liam... O que achava eu lia, entendesse ou não. E o único bem pessoal que trouxe dos meus dez anos foi um livro, que tenho até hoje. Um livro de contos de Turgeniev – um grande escritor –, chamado Turgeniev para crianças. Não foram escritos para crianças, mas escolhidos porque podiam chegar às crianças . Traduzi muitos desses contos para o português. Alguns deles eu ficava na máquina traduzindo sem olhar para o livro, de tanto que eu sabia, tinha uma memória ótima. Meu pai fazia exibição com a minha memória para as visitas. Pegava um livro, escolhia um poema, lia uma vez e dizia: “Conta”. Eu recitava direto. Criança tem essa memória chamada memória eidética, que é como memória fotográfica, mas de palavras.

Amostra de produção
Apaixonada pela literatura, Tatiana Belinky escreveu obras infanto-juvenis, adaptou Lobato para a televisão, traduziu poemas e escreveu os divertidos limeriques, que ela própria descreveu assim, em entrevista:
É a forma de versinho de cinco estrofes. Primeira, segunda e quinta com nove sílabas, rimando. Terceira e quarta curtas, rimando. [...] Todo mundo conhece limerique por minha causa, mas não fui eu que inventei. É uma coisa inglesa, irlandesa até, acho.
Aqui, um deles:

Você sabe o que é Cocanha?
Cocanha é uma terra estranha,
País que se esconde
Ninguém sabe onde –
Lugar misterioso, a Cocanha.

A vida ali é um deleite
Suave tal qual puro azeite –
Na bela Cocanha
O povo se banha
Em rios de mel e de leite.

Cocanha é o país que enfeitiça,
Atrai pela santa preguiça
Da tal vida airada
Do "não fazer nada",
Do "nada importa" por premissa.

Agora, responda ligeiro,
Não leve um dia inteiro
Para decidir
Se quer residir
Naquele país, tão maneiro!

Então eu respondo ao assédio:
Se não houver outro remédio
Eu vou desistir
De lá residir –
Pois lá morreria... De tédio!
[BELINKY, Tatiana. Limeriques da Cocanha. São Paulo: Companhia das Letrinhas, 2008.]


Você que me lê...
E... qualquer que seja sua idade: o que acha de socializar suas experiências de leitura e escrita? O que o moveu ou move? O que o comove? O que serve de impulso ou trava?
Esteja certo/a: a partilha de experiências pode ajudar-nos a formar uma comunidade de leitores e escritores.
Espero seu comentário ou depoimento!
Um abraço.

Nenhum comentário:

Postar um comentário