segunda-feira, 8 de setembro de 2014

A construção leitora e escritora: três autores e suas memórias

Romero Britto

Em tempos de se refletir sobre a importância da Alfabetização¹, voltei minha curiosidade para escritores que se dedicam ou se dedicaram à tarefa de escrever para o público infanto-juvenil.
Mestres dedicados, ambientes propícios, pais leitores: estes são alguns dos fatores que se costuma associar ao aprendizado prazeroso da leitura e da escrita. Terá sido assim, com Ana Maria Machado, Bartolomeu Campos de Queirós e tantos outros? Como teria se constituído o imaginário infantil, qual a influência desses primeiros anos de convívio com a palavra, a história e a escrita, sobre a produção literária de cada um deles?
Mapear tais questões pode nos ajudar a perceber os caminhos possíveis para a adequada educação leitora e escritora dos mais jovens. Por isso mesmo, registro a seguir depoimentos de três autores², mirando, especialmente, seus contatos com as narrativas e os primeiros livros que construíram sua experiência leitora.
Acrescento, ainda, pequena amostra de suas obras.
¹ O dia 8 de setembro foi declarado em 1967, pela ONU e pela UNESCO, como o Dia Internacional da Alfabetização, “com o objetivo de despertar a consciência da comunidade internacional e chegar a um compromisso mundial com relação ao desenvolvimento e à educação”.
² A íntegra desses depoimentos, bem como o de vários outros autores, está disponível em Memórias da Literatura Infantil e Juvenil .Trajetórias de Leitura. www.museudapessoa.net/public/.../memoriasliterarias_8dez2009-final.pdf.


1. Ana Maria Machado

Histórias contadas
A família da minha mãe nós víamos no verão ou nas férias de julho, no Espírito Santo, pois meus avós moravam em Vitória. Eles tinham uma casa de praia em Manguinhos, uma vilazinha de pescadores que ficava longe da capital. Hoje a gente chega lá em vinte minutos por estrada asfaltada. Naquele lugar pequenininho, naquele tempo, não tinha luz elétrica. A casa era de taipa, o telhado de palha, não tinha forro. De um quarto via-se o outro.
Dormíamos todos os primos – os meninos num quarto, as meninas no outro – em esteira ou colchão no chão, ou em rede. Jantávamos cedo, enquanto tinha a luz do dia, porque depois era só lampião, lamparina ou vela. Depois do jantar, sentávamos na varanda. Em noite de lua, atravessávamos o quintal, sentávamos na praia e fazíamos fogueirinha. A fogueira era muito útil, pois a fumaça espantava os mosquitos. E ficávamos cantando, contando caso, conversando.
Essa era também a hora de vovó contar história, rodando em volta da fogueira. Às vezes um tio ou outro contava também. Quando tinha pouca gente, por causa da chuva, por exemplo, era só vovó quem contava. Nas férias de julho não ia quase ninguém lá, só alguns primos. Mas eu sempre ia porque adorava ouvir histórias, principalmente quando ela contava deitada na rede, a gente no colo dela, balançando. A corda rangia e ela começava: “Era uma vez, há muitos e muitos anos...”.
[...]
Meu pai também gostava de nos mostrar as figuras de livros que eram difíceis de ler. Por exemplo, um Robinson Crusoé de oitocentas páginas: ele contava um pouco da história a partir da ilustração. E minha mãe contava histórias para os meus irmãos, menores que eu. Ela lia para eles e eu ouvia junto, e às vezes ela dizia para mim: “Continua ”, e passava a fazer outra coisa. Eu me lembro bem desse Natal, quando descobriram que eu sabia ler. Como eu faço anos no Natal, tinha sempre essa coisa do presente especial, e qual era o meu presente especial? Ter um livro só para mim.

Leituras
Ganhei Reinações de Narizinho, que me dava a sensação de estar ficando adulta: “Sou capaz de ter um livro só meu, para eu ler sozinha ”.Eu fazia questão de ler sozinha. E Reinações de Narizinho é um livro fantástico para isso, pois, além de abrir um mundo, ele tem continuação. Então, fui lendo Monteiro Lobato um atrás do outro. Levei muito tempo nessa leitura. Lia Monteiro Lobato antes, durante e depois do período em que moramos em Buenos Aires. Eu e meus irmãos. A gente lia e relia, coloria as figuras que estavam em preto e branco; enfim, tinha um monte de atividades em torno do livro. Também conversávamos sobre as histórias de Lobato, pois eram livros que meus pais tinham lido. Então, a gente tinha muito o que conversar com eles.

Amostra de produção
O escriba (“escrevinhador”); a ligação afetiva entre avô e neto, afinada e aprofundada por meio da troca de correspondência; o estímulo para a leitura e escrita – compõem, em conjunto, a sensível narrativa da qual retirei esta carta do menino Pepe:
Seu Governo,
Meu avô trabalhou a vida inteira e está muito cansado. Precisa descansar e não aguenta mais ficar suando no calorão do sol. Precisa se sentar para ficar olhando o mar, tomando água de coco e pensando na vida. Ou conversando e jogando dominó com os amigos, debaixo de alguma das  árvores que ele plantou. Não quer se preocupar mais com trabalho.
Ele tem direito, sabe? E sabe também? Ele é o melhor jardineiro do bairro, venha só ver as flores os canteiros. Pergunte a qualquer um dos canteiros do Seu José. Mas agora ele não aguenta mais cuidar das plantas o tempo todo, tem horas que prefere descansar. E, se eu tiver que ajudar, acabo não indo à escola.
Quem disse que ele tem direito foi a minha professora. Ela é bonita e sabe muitas coisas. Ela ensina para muita gente. Pode até lhe ensinar, senhor governo. Se você precisar aprender com ela, vou lhe explicar: a escola fica em frente à igreja e ainda tem umas carteiras vazias na minha sala. Mas no time de futebol, não tem lugar. Só se for no banco de reserva. Ou se o cara jogar mesmo muito bem.
Responda logo, porque meu avô José está velhinho e não aguenta mais esperar muito tempo.
Atenciosamente,
Pepe
[MACHADO, Ana Maria. De carta em carta. São Paulo: Moderna, 2002.]


2. Bartolomeu Campos de Queirós

Histórias na parede e outras mais
Eu tinha um avô por parte de pai chamado Joaquim Queirós. Fui criado por ele durante certo tempo. Era seu neto preferido. Ele foi um cara que ganhou a sorte grande na loteria. Nunca mais trabalhou. Era um pensador; vivia na janela olhando o povo passar e observando a cidade, e escrevia nas paredes da casa tudo o que acontecia: as notícias do lugar, quem viajou, quem casou, quem morreu, um desastre, qualquer coisa. E foi nessas paredes que aprendi a ler. O meu primeiro livro foi a parede da casa do meu avô.
Eu perguntava para o meu avô: “Que palavra é essa? E aquela?” E ele ia me explicando, e eu, decifrando. O muro do quintal era meu, lá eu rabiscava com o carvão que sobrava do fogão a lenha. No muro da casa dele eu escrevia as coisas que ia aprendendo. Aprendi a ler assim. Meu avô me dizia que, com as vinte e seis letras do alfabeto, podia-se escrever tudo o que se pensava. Eu achava muito pouca letra para escrever tudo. Estava sempre pensando uma palavra que não desse conta de escrever. Meu exercício de infância com as palavras era este: pensar uma palavra que não pudesse escrever. Até hoje acho que é essa a tentativa que faço na literatura: saber que a palavra não me esgota. A palavra nunca escreve tudo o que a emoção sente.
[...]
Esse avô também adorava contar história. A avó também. Ela não gostava de solidão. Não ficava sozinha nem um minuto. Tinha que estar sempre rodeada de alguém. Às vezes, ia fazer as necessidades fisiológicas e botava o penico em cima da cama. Sentava, se cobria com aquela saia grande daqueles tempos, sentava a gente em volta e começava a contar histórias para não ficar sozinha. Inventadas da cabeça dela. Muitas de alma do outro mundo, de santo... A gente gostava. Meu avô, às vezes, contava algum conto de fada. Também de tradição oral, casos das pessoas que existiam naquele tempo.

Leituras
Minha mãe já era leitora voraz. Lia uns livros que circulavam naquela época, que eram da Coleção Clone: A cidadela, Mulheres de bronze... Não tinha literatura infantil, e a gente nem se preocupava com isso . Tinha o livro da escola, mas não era livro literário. Eu lia o que sobrava em casa. Li até uma literatura dita “para adulto”.
Sempre li tudo. Li a Bíblia quando ainda era bem pequeno. Lia os pedaços de jornais que meu pai trazia da cidade embrulhando alguma coisa. Interessava-me muito a leitura, e lia qualquer coisa que me caía na mão. A gente tinha essa liberdade. Não havia censura de leitura. Se você gostasse de alguma coisa, lia. Tinha uns livros de história americana que meu pai às vezes lia. Eram do Roosevelt.
Havia também os contos de fada que chegavam da Europa. Na escola a professora lia, e a gente também. Mas não era uma literatura brasileira, era europeia. Só fui ler Monteiro Lobato muito tarde: quando já estava envolvido na literatura infantil e juvenil, detive-me na obra do Monteiro e comecei a me interessar por ela.

Amostra de produção
O peixe e o pássaro, primeiro livro de Bartolomeu Campos de Queirós, inunda-se de poesia, como todos os seus escritos. Transcrevo trechos significativos do belo conto:
O peixe e o pássaro
[...]
A posse
A estória é minha, mas o passarinho e o peixinho não são meus.
Até que é fácil possuí-los. Basta um aquário e uma gaiola.
Mas não me importa tê-los na mão. Aprendo a me satisfazer pelos olhos, assim como os pássaros e peixes que não têm mãos.

A paisagem
Minha estória começa num momento de manhã.
Estou com os olhos olhando sem ver nada. Parece que estou esquecido de mim. Não há cenário e é bom assim. É bom porque minha estória pode acontecer amanhã ou depois de amanhã, apenas no coração.
Basta existir uma vida,
ou qualquer espécie de vida,
para que em torno dela exista o impossível.
[...]
A surpresa
Vocês percebem que minha história é de amor.
Amor de peixe e de pássaro. Como é o seu início eu não sei.
Acredito que nem os namorados sabem.
A gente só sabe que gosta quando está gostando.
O tempo aqui não tem a mínima importância.
[...]
Novamente o tempo
Deve ser meio dia. Estou assentado sobre minha sombra.
Não existe vento. Tudo está parado no seu devido lugar:
pássaro no ar, peixe na água e eu na terra.

A certeza
É um amor impossível o de peixe e pássaro. Nunca podem estar juntos. O pássaro morre afogado na água. O peixe morre afogado no ar.
Depois, peixe e pássaro não têm mãos para amar.
Não sei nada sobre o coração de peixe nem de pássaro.
Penso que devem ter muita esperança.

A minha solução
Quero construir uma gaiola conjugada com um aquário e deixá-los juntos.
Minha ideia me entristece como os compromissos aceitos com antecedência.
[...]
A continuação
Por muitas vezes pelo resto da tarde o pássaro bica a água e se enfeita de folhas.
Por muitas vezes o peixe coloca a cabecinha de colares de água e sol fora do rio.
O canto faz-se breve e exato.

O fim
Escurece no céu e o escuro se reflete nas águas.
Não vejo mais o peixe nem o pássaro.
Volto no dia seguinte aos meus compromissos e penso:
                                          peixe e pássaro vivem pouco
                                       mas vivem muito num só dia só.
[QUEIRÓS, Bartolomeu Campos de. O peixe e o pássaro. Belo Horizonte: Miguilim, 1984.]


3. Angela-Lago

Histórias contadas, mas não recontadas
Minha mãe foi contadora de histórias. Papai também, dos casos de Minas. Mamãe lia para a gente, na cama, os contos de fada. Fiquei doida para aprender a ler e ir atrás dos contos que ela contava. Como eram muitos filhos, ela não podia satisfazer o “conta de novo” de cada um. O desejo de reler, de retomar esses contos, me fez querer aprender a ler rapidamente. Minha mãe era brava. Depois de contar, pronto! Não adiantava pedir “conta outra vez”, pois acabou... Era preciso esperar o momento de saber ler e correr à biblioteca da escola no horário livre para reler os contos, ou então em casa, nos livros que nunca faltaram. E me lembro dela lendo Andersen, alguns contos dos Irmãos Grimm... Diversos. Ainda hoje releio os contos de fada, pois são absolutamente terapêuticos e me fazem um bem enorme. Se fico deprimida , leio contos de fada, até hoje.

Leituras
Contos de fada... Contos de fada... Se você me perguntar por Monteiro Lobato, digo não; contos de fada. Os contos de fada me fizeram acreditar que superaria todas as dificuldades e que seria uma princesa. Coisa em que só estou acreditando agora, com idade já de ser rainha. Mas começo a acreditar que, como ser humano, há espaço para minha realeza de ser humano.
Dois livros que li ainda criança, muito ilustrados, da Alaíde Lisboa, que era de Belo Horizonte, me marcaram. Lindamente ilustrados, “modernissimamente” ilustrados, bem anos 1950, bem modernos mesmo. São A bonequinha preta e O bonequinho doce. Os dois livros fizeram parte de leituras na sala de aula, e não da biblioteca. Da biblioteca vem a lembrança dos contos de fada. Livros grandes, com uma pequena vinheta ou ilustração de página inteira. Em preto e branco , provavelmente; e o texto tinha primazia sobre a imagem.

Amostra de produção
Angela-Lago não apenas escreve, mas também ilustra muitos de seus livros. É assim, com Sete histórias para sacudir o esqueleto, em que reconta causos de assombração aos quais não falta a malandragem, o humor e a feição da contação oral. Desse livro, transcrevo o conto que vem a seguir.
Caio?
Em Bom Despacho tinha uma fazenda à venda, mas ninguém queria comprar: era mal-assombrada.
Quando o preço chegou lá embaixo, veio de Luzes um comprador para fechar negócio.
O caseiro aconselhou o homem a passar a noite na fazenda e deixar a decisão para o dia seguinte. E o homem ficou para dormir.
De madrugada, acordou com uma voz cavernosa:
– Caaaaaaio? Caaaaaaio? – a voz repetia.
Acontece que o homem se chamava Caio. Ele estranhou muito e foi com custo que gaguejou:
– A-a-a-qui.
E na mesma hora um osso de perna caiu em cima dele.
O homem gelou. Mas não adiantava correr, a assombração sabia até seu nome. Melhor era continuar deitado e se cobrir todinho.
Dali a pouco o vozeirão recomeçou:
–  Caaaaaaio? Caaaaio?
E se a assombração não soubesse o nome dele coisa nenhuma e estivesse só perguntando se podia cair? Por via das dúvidas, Caio murmurou:
– Sim.
Caiu outro osso. E Caio matutava. Será que a assombração estava pensando que “Sim” queria dizer “Sim, pode cair”? Ou “Sim, sou eu, o Caio”? Resolveu desvendar a questão de uma vez por todas.
– Eu!?!
Caiu mais um osso.
De novo:
– Caaaaaio? Caaaaaaaaaio?
E o Caio, para testar:
– Cai!
Caiu outro osso.
Aí o Caio começou a achar que a assombração estava gozando a cara dele.
– Caiiiuuuu!? – por coincidência, a assombração desafinou nessa hora.
O homem teve um treco. Deu dois tiros para o alto, chorando nervoso:
– Cai, mas cai logo, que eu não aguento mais essa história!
E para a surpresa, quem despencou do forro do teto foi o caseiro, que não queria dono novo na fazenda onde ele gostava de vadiar.
[LAGO, Angela. Sete histórias para sacudir o esqueleto. São Paulo: Companhia das Letrinhas, 2002]

Angela, ainda
A linguagem visual é muito forte na obra de Angela-Lago. Suas experiências abrangem, inclusive, técnicas do mundo virtual. Confira, por exemplo, sua versão interativa (sem narrativa verbal) da tradicional Chapeuzinho vermelho (disponível em Angela Lago/Chapeuzinho).
Ali, o uso da tecnologia permite retomar e reformular o original, pois dinamiza as figuras e, principalmente, faz com que o usuário seja coprodutor da história: de fato, o enredo só evolui – e se transforma, tomando este ou aquele rumo – ao clique de quem comanda o mouse.


O assunto não terminou...
...Há outros depoimentos, igualmente interessantes, que gostaria de apresentar a você, leitor.
Por enquanto, deixo uma sugestão: que tal rememorar experiências pessoais de leitura e escrita – e, quem sabe, escrevê-las? (Voltarei a isso, também...)

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