segunda-feira, 29 de setembro de 2014

Nos dias de hoje...

Escher

Estes são tempos em que se conversa, pensa, lê sobre consciência, responsabilidade, honestidade, sinceridade – e sobre tantos outros assuntos ligados ao virtuoso campo da ética. Ou, então, a seus correlatos contrários...
O que me sugere partilhar com você, leitor/a, dois textos de escritores brasileiros.
O primeiro deles, Um homem de consciência, é conto do livro Cidades Mortas, em que Monteiro Lobato volta seu olhar crítico, temperado de sátira e (algum) bom-humor, para a realidade social, política e econômica da época. Boa parte de sua crítica está centrada em costumes e personagens de cidadezinhas decadentes, referência às cidades do interior paulista, pós-ciclo do café.
O segundo, Uma fábula sobre a fábula, é original de Malba Tahan (pseudônimo do professor e escritor brasileiro Júlio César de Mello e Souza, autor, também, de O homem que calculava). Verdadeira fábula moral, a narrativa tornou-se mais conhecida por intermédio de Regina Machado, pesquisadora e contadora de histórias, que a recontou em livro¹.
Os dois contos cumprem não apenas a missão literária de envolver/encantar o leitor, como ainda outra: a de levá-lo a refletir sobre certos comportamentos humanos. É o que os torna, a meu ver, bastante apropriados aos dias de hoje.
Será esta, também, sua opinião?
Boa leitura!
¹ MACHADO, Regina. O violino cigano. São Paulo: Cia das Letras, 2004. Ao recontar a narrativa, a escritora faz uma observação a respeito da forma de invocação usada por Malba Tahan: “essa invocação que introduz a história não está escrita de maneira correta. [...] A grafia certa de ‘Allahur Akbar!’ (que ele traduz com ‘Deus é grande!’) é ‘Allah Hu Akbar!’ (e a tradução é ‘Deus é o maior!’). Mas isso não tem a menor importância diante da beleza da história...”


Um homem de consciência
Chamava-se Teodoro, só. O mais pacato e modesto dos homens. Honestíssimo e lealíssimo, com um defeito apenas: não dar o mínimo valor a si próprio. Para João Teodoro, a coisa de menos importância no mundo era João Teodoro.
Nunca fora nada na vida, nem admitia a hipótese de vir a ser alguma coisa. E por muito tempo não quis nem sequer o que todos ali queriam: mudar-se para terra melhor.
Mas João Teodoro acompanhava com aperto no coração o desaparecimento visível de sua Itaoca.
– Isto já foi muito melhor, dizia consigo. Já teve três médicos bem bons – agora um e bem ruinzote. Já teve seis advogados e hoje mal dá serviço para um rábula ordinário como o Tenório. Nem circo de cavalinhos bate mais por aqui. A gente que presta se muda. Fica o restolho. Decididamente, a minha Itaoca está se acabando...
João Teodoro entrou a incubar a ideia de também mudar-se, mas para isso necessitava de um fato qualquer que o convencesse de maneira absoluta de que Itaoca não tinha mesmo conserto ou arranjo possível.
– É isso – deliberou lá por dentro. Quando eu verificar que tudo está perdido, que Itaoca não vale mais nada de nada, então arrumo a trouxa e boto-me fora daqui.
Um dia, aconteceu a grande novidade: a nomeação de João Teodoro para delegado. Nosso homem recebeu a notícia como se fosse uma porretada no crânio. Delegado, ele! Ele que não era nada, nunca fora nada, não queria ser nada, não se julgava capaz de nada...
Ser delegado de uma cidadezinha daquelas é coisa seriíssima. Não há cargo mais importante. É o homem que prende os outros, que solta, que manda dar sovas, que vai à capital falar com o governo. Uma coisa colossal ser delegado – e estava ele, João Teodoro, de-le-ga-do de Itaoca!
João Teodoro caiu em meditação profunda. Passou a noite em claro, pensando e arrumando as malas. Pela madrugada, botou-as num burro, montou seu cavalo magro e partiu.
Antes de deixar a cidade, foi visto por um amigo madrugador.
– Que é isso, João? Para onde se atira tão cedo, assim de armas e bagagens?
– Vou-me embora – respondeu o retirante. Verifiquei que Itaoca chegou mesmo ao fim.
– Mas, como? Agora que você está delegado?
– Justamente por isso. Terra em que João Teodoro chega a delegado eu não moro. Adeus.
E sumiu.
MONTEIRO LOBATO, José Bento. CIDADES MORTAS. São Paulo: Brasiliense, 1995.


Uma fábula sobre a fábula
(
Lenda Oriental)
Allahur Akbar! Allahur Akbar! (Deus é grande! Deus é grande!)
Quando Deus criou a mulher criou também a Fantasia.
Um dia a Verdade resolveu visitar um grande palácio. E havia de ser o próprio palácio em que morava o sultão Harun Al-Raschid.
Envolta em lindas formas num véu claro e transparente, foi ela bater à porta do rico palácio em que vivia o glorioso senhor das terras mulçumanas. Ao ver aquela formosa mulher, quase nua, o chefe dos guardas perguntou-lhe:
– Quem és?
– Sou a Verdade! – respondeu ela, com voz firme. – Quero falar ao vosso amo e senhor, o sultão Harun Al-Raschid, o Cheique do Islã!
O chefe dos guardas, zeloso da segurança do palácio, apressou-se em levar a nova ao grão-vizir:
– Senhor, – disse, inclinando-se humilde, – uma mulher desconhecida, quase nua, quer falar ao nosso soberano, o sultão Harun Al-Raschid, Príncipe dos Crentes.
– Como se chama?
– Chama-se Verdade!
– A Verdade! – exclamou o grão-vizir, subitamente assaltado de grande espanto. – A Verdade quer penetrar neste palácio! Não! Nunca! Que seria de mim, que seria de todos nós, se a Verdade aqui entrasse? A perdição, a desgraça nossa! Dize-lhe que uma mulher nua, despudorada, não entra aqui!
Voltou o chefe dos guardas com o recado do grão-vizir e disse à Verdade:
– Não podes entrar, minha filha. A tua nudez iria ofender o nosso Califa. Com esses ares impudicos não poderás ir à presença do Príncipe dos Crentes, o nosso glorioso sultão Harun Al-Raschid. Volta, pois, pelos caminhos de Allah!
Vendo que não conseguiria realizar o seu intento, ficou muito triste a Verdade, e afastou-se lentamente do grande palácio do magnânimo sultão Harun Al-Raschid, cujas portas se lhe fecharam à diáfana formosura!
Mas...
Allahur Akbar! Allahur Akbar!
Quando Deus criou a mulher, criou também a Obstinação.
E a Verdade continuou a alimentar o propósito de visitar um grande palácio. E havia de ser o próprio palácio em que morava o sultão Harun Al-Raschid...
Cobriu as peregrinas formas de um couro grosseiro como os que usam os pastores e foi novamente bater à porta do suntuoso palácio em que vivia o glorioso senhor das terras mulçumanas.
Ao ver aquela formosa mulher grosseiramente vestida com peles, o chefe dos guardas perguntou-lhe:
– Quem és?
– Sou a Acusação! – respondeu ela, em tom severo. – Quero falar ao vosso amo e senhor, o sultão Harun Al-Raschid, Comendador dos Crentes!
O chefe dos guardas, zeloso da segurança do palácio, correu a entender-se como o grão-vizir.
– Senhor – disse, inclinando-se humilde, – uma mulher desconhecida, o corpo envolto em grosseiras peles, deseja falar ao nosso soberano, o sultão Harun Al-Raschid.
– Como se chama?
– Acusação!
– A Acusação? – repetiu o grão-vizir, aterrorizado. – A Acusação quer entrar nesse palácio? Não! Nunca! Que seria de mim, que seria de todos nós, se a Acusação aqui entrasse! A perdição, a desgraça nossa! Dize-lhe que não, que não pode entrar! Dize-lhe que uma mulher, sob as vestes grosseiras de um zagal, não pode falar ao Califa, nosso amo e senhor!
Voltou o chefe dos guardas com a proibição do grão-vizir e disse à Verdade.
– Não podes entrar, minha filha. Com essas vestes grosseiras, próprias de um beduíno rude e pobre, não poderás falar ao nosso amo e senhor, o sultão Harun Al-Raschid. Volta, pois, em paz, pelos caminhos de Allah!
Vendo quem não conseguiria realizar o seu intento, ficou ainda mais triste a Verdade e afastou-se vagarosamente do grande palácio do poderoso Harun Al-Raschid, cuja cúpula cintilava aos últimos clarões do sol poente.
Mas...
Allahur Akbar! Allahur Akbar!
Quando Deus criou a mulher, criou também o Capricho.
E a Verdade entrou-se do vivo desejo de visitar um grande palácio. E havia de ser o próprio palácio em que morava o sultão Harun Al-Raschid.
Vestiu-se com riquíssimos trajos, cobriu-se com joias e adornos, envolveu o rosto em um manto diáfano de seda e foi bater à porta do palácio em que vivia o glorioso senhor dos Árabes.
Ao ver aquela encantadora mulher, linda como a quarta lua do mês de Ramadã, o chefe dos guardas perguntou-lhe:
– Quem és?
– Sou a Fábula – respondeu ela, em tom meigo e mavioso. – Quero falar ao vosso amo e senhor, o generoso sultão Harun Al-Raschid, Emir dos Árabes!
O chefe dos guardas, zeloso da segurança do palácio, correu, radiante, a falar com o grão-vizir:
– Senhor, – disse, inclinando-se, humilde – uma linda e encantadora mulher, vestida como uma princesa, solicita audiência de nosso amo e senhor, o sultão Harun Al-Raschid, Emir dos Crentes.
– Como se chama?
– Chama-se Fábula!
– A Fábula! – exclamou o grão-vizir, cheio de alegria. – A Fábula quer entrar neste palácio! Allah seja louvado! Que entre! Bem-vinda seja a encantadora Fábula: Cem formosas escravas irão recebê-la com flores e perfumes! Quero que a Fábula tenha, neste palácio, o acolhimento digno de uma verdadeira rainha!
E abertas de par em par as portas do grande palácio de Bagdá, a formosa peregrina entrou.
E foi assim, sob o aspecto de Fábula, que a Verdade conseguiu aparecer ao poderoso califa de Bagdá, o sultão Harun Al-Raschid, Vigário de Allah e senhor do grande império mulçumano!

TAHAN, Malba. Minha vida querida. Rio de Janeiro: Conquista, 1957. Disponível em www.botucatu.sp.gov.br/.../Uma%20fabula%20sobre%20a%20fabula.pdf.

terça-feira, 16 de setembro de 2014

Mais três autores: memórias inspiradoras

Romero Britto

Provavelmente, a maioria dentre nós conserva lembrança das vivências infantis com os primeiros livros e com as histórias ouvidas, lidas, assistidas. Negativas ou positivas, as experiências da infância são marcantes e conseguem influenciar as inclinações leitoras (e escritoras) do adulto.
À semelhança dos escritores da matéria anterior (08/09/2014), e possivelmente com maior força, os autores¹ que trago hoje testemunham a importância das primeiras descobertas relativas à arte verbal  – via leitura de material impresso ou mediação de um adulto –, para sua produção e inclinação artístico-literária posterior.
Confiram os depoimentos e trechos de suas produções, a seguir.
¹ A íntegra dos depoimentos desta matéria, assim como na anterior, está  em Memórias da Literatura Infantil e Juvenil .Trajetórias de Leitura. www.museudapessoa.net/public/.../memoriasliterarias_8dez2009-final.pdf.


1. Marina Colasanti

Jogos de ficção, narrativas de aventuras, contos de fada
Eu tive tantos amigos... Maravilhosos! Primeiro, meu irmão, amigo múltiplo, porque era o meu ídolo. Mais velho, tudo o que dizia sempre era mais certo do que o que eu falasse. Deixou essa certeza muito nítida desde o início: “Você é burra e eu sou o inteligente, você é fraca e eu sou o forte, você cala a boca senão eu te dou uma porrada!”. Mas nos amávamos. Ele desempenhava vários papéis. Inclusive tínhamos um casal de amigos imaginários, com os quais a gente brincava, porque éramos sozinhos.
[...]
Líamos sem parar. Sabe o que é sem parar? Ler, ler, ler... Devorávamos livros. Não havia solidão nenhuma, porque quando se está lendo... Brincávamos também com Sancho, Dom Quixote, os heróis do Emilio Salgari... Os livros nos fizeram imensa companhia.
[...]
Não tenho lembrança de ausência de livro. Sou de uma cultura leitora. A Europa é leitora. Então, uma casa sem livro é inconcebível. Nunca ganhei um primeiro livro, eles estavam ao meu redor sempre. Quando não sabia ler, minha mãe lia para mim. Depois é que aprendi. Há uma continuidade. Não há um momento em que o livro entra – o livro sempre esteve.
[Leituras da infância:] Os contos de fada, seguramente, porque hoje em dia posso dizer que tenho uma obra... Detesto essa palavra, pode parecer muito pretensiosa, mas quero dizer que tenho um corpus em contos de fada já consistente. São raros os autores que trabalham com contos de fada hoje em dia, é complicado trabalhar com eles, porque são confundidos com literatura infantil, há uma série de percalços. É claro que isso vem de uma paixão. Durante toda a minha primeira infância fui orientada com contos de fada [...]

Amostra de produção
No conto transcrito a seguir, note-se a ousadia da autora em usar o conto de fada tradicional, mas subvertê-lo em seu final, apresentando, poeticamente, o amor e a união (e não um objeto, ou um ser fantástico) como elementos mágicos capazes de unir os enamorados.

Com certeza tenho amor
Moça tão resguardada por seus pais não deveria ter ido à feira. Nem foi, embora muito desejasse. Mas porque o desejava, convenceu a ama que a acompanhava a tomar uma rua em vez de outra para ir à igreja, e a rua que tomaram passava tão perto da feira que seus sons a percorriam como água e as crês todas da feira pareciam espelhar-se nas paredes claras. Foi dessa rua, olhando através do véu que lhe cobria metade do rosto que a moça viu os saltimbancos eu suas acrobacias.
E foi nessa rua, recortada como uma silhueta em suas roupas escuras, o rosto meio coberto por um véu, que o mais jovem dos saltimbancos, atrasado a caminho da feira, a viu.
Era o mais jovem era o mais forte era o mais valente entre os onze irmãos. A partir daquele encontro, porém, uma fraqueza que não conhecia deslizou para dentro do seu peito. À noite suspirava como se doente.
– Que tens? – perguntaram-lhe os irmãos.
– Não sei – respondeu. E era verdade. Sabia apenas que a moça velada apare cia nos seus sonhos, e que parecia sonhar mesmo acordado porque mesmo acordado a tinha diante dos olhos.
Àquela rua a moça não voltou mais. Mas ele a procurou em todas as outras ruas da cidade até vê-la passar, esperou diante da igreja até vê-la entrar, acompanhou-a ao longe até vê-la chegar em casa.
Agora sorria, cantava, embora de repente largasse a comida no prato porque nada mais lhe passava na garganta.
– Que tens? – perguntaram-lhe os irmãos.
– Acho, não sei... – respondeu ele abaixando a cabeça sobre o seu rubor – creio... que tenho amor.
Na sua casa, a moça também sorria e cantava, largava de repente a comida no prato e se punha a chorar.
– Tenho... sim... com certeza tenho amor – respondeu à ama que lhe perguntou o que tinha.
Mas nem a ama se alegrou, nem se alegraram os dez irmãos. Pois como alegrar-se com um amor que não podia ser?
De fato, tanto riso, tanto choro acabaram chamando a atenção do pai da moça que, vigilante e sem precisar perguntar, trancou-a no quarto mais alto da sua alta casa. Não era com um saltimbanco que havia de casar a filha criada com tanto esmero.
Mas era com um saltimbanco que ela queria se casar.
E o saltimbanco, ajudado por seus dez irmãos, começou a se preparar para chegar até ela.
Afinal uma noite, lua nenhuma que os denunciasse, encaminharam-se os onze para a casa da moça. Seus pés calçados de feltro calavam-se sobre as pedras.
O mais jovem era o mais forte, teria ele que sustentar os demais. Pernas abertas e firmes, cravou-se no chão bem debaixo da janela dela. O segundo irmão subiu para os seus ombros, estendeu a mão e o terceiro subiu. O quarto escalou os outros até subir nos ombros do terceiro. E, um por cima do outro, foram se construindo como uma torre. Até que o último chegou ao topo.
O último chegou ao topo, e o topo não chegou à altura da janela da moça. De cima a baixo os irmãos passaram-se a palavra. Os onze pareceram ondejar por um instante. Então o mais jovem e mais forte saiu debaixo dos pés de seu irmão deixando-o suspenso no ar, e tomando a mão que este lhe estendeu subiu rapidamente por ele, galgando seus irmãos um a um.
No alto, a janela se abriu.
[COLASANTI, Marina. Vinte e três histórias de um viajante. Rio de Janeiro: Global,2005.]


2. Ricardo Azevedo

Casos e histórias populares
Não tive muito isso [contação de histórias]. Meu pai trabalhava demais, e era meio fechadão. Ficava muito no escritório, no andar de cima da casa. Era uma casa grande, e na parte de cima tinha um quarto, que era dos meus irmãos mais velhos, e o resto era o escritório. Era um baita de um escritório, com sete, oito mil livros, uma coisa imensa, e ele ficava lá. Ele estava na USP ou no escritório, estudando, lendo. Vivia uma vida muito ligada ao estudo.
De vez em quando ele contava histórias, principalmente no sítio, sempre histórias populares. Inclusive reconto uma delas, que é o “Gaspar, eu caio”. Hoje mexo com folclore. Aprendi a valorizar isso com meu pai, sem dúvida, desde pequeno.
Ele fazia umas coisas interessantes. Ele nos pegava – principalmente os três filhos que tinham mais ou menos a mesma idade, o Alberto, o João e eu – e fazia uns jograis em casa com um gravadorzinho pequeno de rolo, ainda no tempo de rolo. Por exemplo, trovas populares, poemas de Castro Alves, Vicente de Carvalho, Gonçalves Dias, vários poemas de que ele gostava. Ele também participava e dava uma parte para cada um. Lembro-me de Juca Pirama, agora talvez não saiba recitar, mas sabia de cor o canto do guerreiro.
[...]
Nasci no meio de livros, o andar de cima da casa eram livros, e o meu pai e a minha mãe não eram pessoas de indicar livros. Eram leitores, mas não de indicar. O espírito da coisa era o seguinte: os livros estão aí, como se fosse um pomar, na verdade. Você ia lá e pegava a fruta, experimentava, gostava; se não gostava, cuspia. Era essa a sensação que eu tinha.
[...]
Tínhamos lá em casa o Thesouro da juventude, tenho até hoje essa coleção, guardei. Eu era um habitué do Thesouro da juventude. Eu me interessava pelos contos que ele tinha: contos populares, em todos os volumes. Como eram dezoito volumes e cada um tinha uns dez ou doze contos, era uma festa. Sempre pegava um volume qualquer e ia direto aos contos. Foi uma leitura muito importante.

Amostra de produção
Na obra de Ricardo Azevedo, sobressaem-se a pesquisa e a produção relativas ao folclore e à tradição oral. O conto a seguir mostra um tanto de humor negro e outro tanto de gaiatice (castigada), bem próprios dos contos populares.
Três moços malvados (versão de um conto popular)
Eram três moços malvados. Gostavam de entrar no mato caçar tudo quanto é bicho. Levavam espingarda de chumbo grosso, espingarda de cartucho e até revolver de dois canos. Ficavam o dia inteiro dando tiro. Matavam arara, papagaio, tucano, bem-te-vi, sanhaço, tiziu, caga-sebo, pintassilgo, joão-de-barro, andorinha, rolinha, sofrê, sabiá, sem-fim e corrupião. Matavam macuco, caburé, curiango, coruja, mutum-de-penacho, pica-pau, saíra, garça, quero-quero, socó, jaburu, irerê e pato-do-mato. E também bicho grande que nem tamanduá, tatu, gambá, bicho preguiça, veado, ouriço, capivara, cotia, paca, preá, anta, macaco, quati, tartaruga e cachorro-do-mato.
Os três bandidos caçavam por caçar. Matavam por divertimento. Gostavam de ver quem tinha melhor pontaria, quem acertava num tiro só, quem destruía mais.
Um, dia, durante a caçada, escutaram uma voz grossa gritando no fundo do mato:
– Olha o laço!
Os três estranharam. E a voz grossa:
– Olha o laço!
Os três pararam para ouvir melhor e a voz grossa só no:
– Olha o laço!
Os moços acharam graça. Um deles disse:
– Vamos procurar o tal do laço pra gente olhar?
Os outros acharam ótima ideia. E assim os malvados foram se embrenhando na mata.
Andaram que andaram que andaram cada vez mais fundo, cada vez mais longe de tudo. A floresta foi ficando escura e cheia de sombras.
Os moços acabaram indo parar numa clareira. Debaixo de um imenso pé de jatobá encontraram três sacos cheios de dinheiro. Festejaram dando tiros para o alto.
– A gente agora tá podre de rico!
Logo fizeram uma combinação. Enquanto um deles ia até a cidade comprar vinho para comemorar, os outros dois ficariam na clareira tomando conta do tesouro.
Um dos moços partiu e os outros dois ficaram.
Um dos que ficaram, olhando aquele dinheirão, começou a fazer contas e pensou:
– Vou acabar com meu colega. Quando o outro voltar dou cabo dele também. Assim o dinheiro fica todinho pra mim.
O malvado não pensou duas vezes. Sacou a arma, atirou no companheiro, matou-o e enterrou o corpo ali mesmo. Depois, acendeu um cigarro e ficou esperando sentado debaixo do jatobá.
Acontece que o moço que foi à cidade comprar vinho teve uma ideia parecida:
– Levo o vinho cheio de veneno. Assim os dois bebem, morrem e eu fico com o dinheiro todo.
E fez isso mesmo. Comprou um garrafão de vinho tinto, encheu de veneno de rato e voltou para dentro do mato.
Quando chegou à clareira, levou um tiro e morreu na hora.
O último moço, o bandido que sobrou, sentou numa pedra para descansar. Olhando os três sacos de dinheiro, esfregou mãos de felicidade.
– Agora sim! – disse ele – Fiquei rico. Não vou trabalhar nunca mais. Vou passar o resto da vida comprando coisas, casas, roupas, carros, joias, fazendas…
Dizendo isso, arrancou a rolha do garrafão de vinho e bebeu quase tudo de um gole só.
Foi engolir o vinho e cair duro no chão.
Assim, o laço do diabo terminou de apertar seu nó.
[AZEVEDO, Ricardo. Armazém do Folclore. São Paulo: Ática, 2006.]


3. Tatiana Belinky

Poemas lidos, memorizados, declamados
Para mim não existia brinquedo melhor que livro, até hoje. Meus primeiros livros eram de poesia, poemas. Meu pai lia para mim, desde sempre.
E os poemas que ele lia eram dos bons, não qualquer coisinha. Era Púchkin, Goethe, coisas assim. Eles não escreviam para crianças, mas alguns poemas serviam. Até hoje me lembro de algumas poesias; alguns poemas saíram publicados aqui, os traduzi de cor, nem tinha o original: Di-versos russos; Di-versos alemães; e Di-versos hebraicos.
[...]
Meu pai lia poemas em voz alta e dizia os poemas como um artista, que mexia com todo mundo, adultos também. Era artista mesmo. E gostava de poesia. Eu me criei com poesias e com literatura. Ele lia a Bíblia, Velho Testamento, contava histórias da Bíblia. Lia contos de grandes escritores. Grandes escritores! Não era literaturinha, não. Era boa literatura mesmo, porque todos escreveram coisas que criança pode ouvir. Entende mais, entende menos, mas se acostuma. Comecei a entender muito rapidamente, lia tudo o que me caía nas mãos. Lia o que meus pais liam, o que meus avós liam... O que achava eu lia, entendesse ou não. E o único bem pessoal que trouxe dos meus dez anos foi um livro, que tenho até hoje. Um livro de contos de Turgeniev – um grande escritor –, chamado Turgeniev para crianças. Não foram escritos para crianças, mas escolhidos porque podiam chegar às crianças . Traduzi muitos desses contos para o português. Alguns deles eu ficava na máquina traduzindo sem olhar para o livro, de tanto que eu sabia, tinha uma memória ótima. Meu pai fazia exibição com a minha memória para as visitas. Pegava um livro, escolhia um poema, lia uma vez e dizia: “Conta”. Eu recitava direto. Criança tem essa memória chamada memória eidética, que é como memória fotográfica, mas de palavras.

Amostra de produção
Apaixonada pela literatura, Tatiana Belinky escreveu obras infanto-juvenis, adaptou Lobato para a televisão, traduziu poemas e escreveu os divertidos limeriques, que ela própria descreveu assim, em entrevista:
É a forma de versinho de cinco estrofes. Primeira, segunda e quinta com nove sílabas, rimando. Terceira e quarta curtas, rimando. [...] Todo mundo conhece limerique por minha causa, mas não fui eu que inventei. É uma coisa inglesa, irlandesa até, acho.
Aqui, um deles:

Você sabe o que é Cocanha?
Cocanha é uma terra estranha,
País que se esconde
Ninguém sabe onde –
Lugar misterioso, a Cocanha.

A vida ali é um deleite
Suave tal qual puro azeite –
Na bela Cocanha
O povo se banha
Em rios de mel e de leite.

Cocanha é o país que enfeitiça,
Atrai pela santa preguiça
Da tal vida airada
Do "não fazer nada",
Do "nada importa" por premissa.

Agora, responda ligeiro,
Não leve um dia inteiro
Para decidir
Se quer residir
Naquele país, tão maneiro!

Então eu respondo ao assédio:
Se não houver outro remédio
Eu vou desistir
De lá residir –
Pois lá morreria... De tédio!
[BELINKY, Tatiana. Limeriques da Cocanha. São Paulo: Companhia das Letrinhas, 2008.]


Você que me lê...
E... qualquer que seja sua idade: o que acha de socializar suas experiências de leitura e escrita? O que o moveu ou move? O que o comove? O que serve de impulso ou trava?
Esteja certo/a: a partilha de experiências pode ajudar-nos a formar uma comunidade de leitores e escritores.
Espero seu comentário ou depoimento!
Um abraço.

segunda-feira, 8 de setembro de 2014

A construção leitora e escritora: três autores e suas memórias

Romero Britto

Em tempos de se refletir sobre a importância da Alfabetização¹, voltei minha curiosidade para escritores que se dedicam ou se dedicaram à tarefa de escrever para o público infanto-juvenil.
Mestres dedicados, ambientes propícios, pais leitores: estes são alguns dos fatores que se costuma associar ao aprendizado prazeroso da leitura e da escrita. Terá sido assim, com Ana Maria Machado, Bartolomeu Campos de Queirós e tantos outros? Como teria se constituído o imaginário infantil, qual a influência desses primeiros anos de convívio com a palavra, a história e a escrita, sobre a produção literária de cada um deles?
Mapear tais questões pode nos ajudar a perceber os caminhos possíveis para a adequada educação leitora e escritora dos mais jovens. Por isso mesmo, registro a seguir depoimentos de três autores², mirando, especialmente, seus contatos com as narrativas e os primeiros livros que construíram sua experiência leitora.
Acrescento, ainda, pequena amostra de suas obras.
¹ O dia 8 de setembro foi declarado em 1967, pela ONU e pela UNESCO, como o Dia Internacional da Alfabetização, “com o objetivo de despertar a consciência da comunidade internacional e chegar a um compromisso mundial com relação ao desenvolvimento e à educação”.
² A íntegra desses depoimentos, bem como o de vários outros autores, está disponível em Memórias da Literatura Infantil e Juvenil .Trajetórias de Leitura. www.museudapessoa.net/public/.../memoriasliterarias_8dez2009-final.pdf.


1. Ana Maria Machado

Histórias contadas
A família da minha mãe nós víamos no verão ou nas férias de julho, no Espírito Santo, pois meus avós moravam em Vitória. Eles tinham uma casa de praia em Manguinhos, uma vilazinha de pescadores que ficava longe da capital. Hoje a gente chega lá em vinte minutos por estrada asfaltada. Naquele lugar pequenininho, naquele tempo, não tinha luz elétrica. A casa era de taipa, o telhado de palha, não tinha forro. De um quarto via-se o outro.
Dormíamos todos os primos – os meninos num quarto, as meninas no outro – em esteira ou colchão no chão, ou em rede. Jantávamos cedo, enquanto tinha a luz do dia, porque depois era só lampião, lamparina ou vela. Depois do jantar, sentávamos na varanda. Em noite de lua, atravessávamos o quintal, sentávamos na praia e fazíamos fogueirinha. A fogueira era muito útil, pois a fumaça espantava os mosquitos. E ficávamos cantando, contando caso, conversando.
Essa era também a hora de vovó contar história, rodando em volta da fogueira. Às vezes um tio ou outro contava também. Quando tinha pouca gente, por causa da chuva, por exemplo, era só vovó quem contava. Nas férias de julho não ia quase ninguém lá, só alguns primos. Mas eu sempre ia porque adorava ouvir histórias, principalmente quando ela contava deitada na rede, a gente no colo dela, balançando. A corda rangia e ela começava: “Era uma vez, há muitos e muitos anos...”.
[...]
Meu pai também gostava de nos mostrar as figuras de livros que eram difíceis de ler. Por exemplo, um Robinson Crusoé de oitocentas páginas: ele contava um pouco da história a partir da ilustração. E minha mãe contava histórias para os meus irmãos, menores que eu. Ela lia para eles e eu ouvia junto, e às vezes ela dizia para mim: “Continua ”, e passava a fazer outra coisa. Eu me lembro bem desse Natal, quando descobriram que eu sabia ler. Como eu faço anos no Natal, tinha sempre essa coisa do presente especial, e qual era o meu presente especial? Ter um livro só para mim.

Leituras
Ganhei Reinações de Narizinho, que me dava a sensação de estar ficando adulta: “Sou capaz de ter um livro só meu, para eu ler sozinha ”.Eu fazia questão de ler sozinha. E Reinações de Narizinho é um livro fantástico para isso, pois, além de abrir um mundo, ele tem continuação. Então, fui lendo Monteiro Lobato um atrás do outro. Levei muito tempo nessa leitura. Lia Monteiro Lobato antes, durante e depois do período em que moramos em Buenos Aires. Eu e meus irmãos. A gente lia e relia, coloria as figuras que estavam em preto e branco; enfim, tinha um monte de atividades em torno do livro. Também conversávamos sobre as histórias de Lobato, pois eram livros que meus pais tinham lido. Então, a gente tinha muito o que conversar com eles.

Amostra de produção
O escriba (“escrevinhador”); a ligação afetiva entre avô e neto, afinada e aprofundada por meio da troca de correspondência; o estímulo para a leitura e escrita – compõem, em conjunto, a sensível narrativa da qual retirei esta carta do menino Pepe:
Seu Governo,
Meu avô trabalhou a vida inteira e está muito cansado. Precisa descansar e não aguenta mais ficar suando no calorão do sol. Precisa se sentar para ficar olhando o mar, tomando água de coco e pensando na vida. Ou conversando e jogando dominó com os amigos, debaixo de alguma das  árvores que ele plantou. Não quer se preocupar mais com trabalho.
Ele tem direito, sabe? E sabe também? Ele é o melhor jardineiro do bairro, venha só ver as flores os canteiros. Pergunte a qualquer um dos canteiros do Seu José. Mas agora ele não aguenta mais cuidar das plantas o tempo todo, tem horas que prefere descansar. E, se eu tiver que ajudar, acabo não indo à escola.
Quem disse que ele tem direito foi a minha professora. Ela é bonita e sabe muitas coisas. Ela ensina para muita gente. Pode até lhe ensinar, senhor governo. Se você precisar aprender com ela, vou lhe explicar: a escola fica em frente à igreja e ainda tem umas carteiras vazias na minha sala. Mas no time de futebol, não tem lugar. Só se for no banco de reserva. Ou se o cara jogar mesmo muito bem.
Responda logo, porque meu avô José está velhinho e não aguenta mais esperar muito tempo.
Atenciosamente,
Pepe
[MACHADO, Ana Maria. De carta em carta. São Paulo: Moderna, 2002.]


2. Bartolomeu Campos de Queirós

Histórias na parede e outras mais
Eu tinha um avô por parte de pai chamado Joaquim Queirós. Fui criado por ele durante certo tempo. Era seu neto preferido. Ele foi um cara que ganhou a sorte grande na loteria. Nunca mais trabalhou. Era um pensador; vivia na janela olhando o povo passar e observando a cidade, e escrevia nas paredes da casa tudo o que acontecia: as notícias do lugar, quem viajou, quem casou, quem morreu, um desastre, qualquer coisa. E foi nessas paredes que aprendi a ler. O meu primeiro livro foi a parede da casa do meu avô.
Eu perguntava para o meu avô: “Que palavra é essa? E aquela?” E ele ia me explicando, e eu, decifrando. O muro do quintal era meu, lá eu rabiscava com o carvão que sobrava do fogão a lenha. No muro da casa dele eu escrevia as coisas que ia aprendendo. Aprendi a ler assim. Meu avô me dizia que, com as vinte e seis letras do alfabeto, podia-se escrever tudo o que se pensava. Eu achava muito pouca letra para escrever tudo. Estava sempre pensando uma palavra que não desse conta de escrever. Meu exercício de infância com as palavras era este: pensar uma palavra que não pudesse escrever. Até hoje acho que é essa a tentativa que faço na literatura: saber que a palavra não me esgota. A palavra nunca escreve tudo o que a emoção sente.
[...]
Esse avô também adorava contar história. A avó também. Ela não gostava de solidão. Não ficava sozinha nem um minuto. Tinha que estar sempre rodeada de alguém. Às vezes, ia fazer as necessidades fisiológicas e botava o penico em cima da cama. Sentava, se cobria com aquela saia grande daqueles tempos, sentava a gente em volta e começava a contar histórias para não ficar sozinha. Inventadas da cabeça dela. Muitas de alma do outro mundo, de santo... A gente gostava. Meu avô, às vezes, contava algum conto de fada. Também de tradição oral, casos das pessoas que existiam naquele tempo.

Leituras
Minha mãe já era leitora voraz. Lia uns livros que circulavam naquela época, que eram da Coleção Clone: A cidadela, Mulheres de bronze... Não tinha literatura infantil, e a gente nem se preocupava com isso . Tinha o livro da escola, mas não era livro literário. Eu lia o que sobrava em casa. Li até uma literatura dita “para adulto”.
Sempre li tudo. Li a Bíblia quando ainda era bem pequeno. Lia os pedaços de jornais que meu pai trazia da cidade embrulhando alguma coisa. Interessava-me muito a leitura, e lia qualquer coisa que me caía na mão. A gente tinha essa liberdade. Não havia censura de leitura. Se você gostasse de alguma coisa, lia. Tinha uns livros de história americana que meu pai às vezes lia. Eram do Roosevelt.
Havia também os contos de fada que chegavam da Europa. Na escola a professora lia, e a gente também. Mas não era uma literatura brasileira, era europeia. Só fui ler Monteiro Lobato muito tarde: quando já estava envolvido na literatura infantil e juvenil, detive-me na obra do Monteiro e comecei a me interessar por ela.

Amostra de produção
O peixe e o pássaro, primeiro livro de Bartolomeu Campos de Queirós, inunda-se de poesia, como todos os seus escritos. Transcrevo trechos significativos do belo conto:
O peixe e o pássaro
[...]
A posse
A estória é minha, mas o passarinho e o peixinho não são meus.
Até que é fácil possuí-los. Basta um aquário e uma gaiola.
Mas não me importa tê-los na mão. Aprendo a me satisfazer pelos olhos, assim como os pássaros e peixes que não têm mãos.

A paisagem
Minha estória começa num momento de manhã.
Estou com os olhos olhando sem ver nada. Parece que estou esquecido de mim. Não há cenário e é bom assim. É bom porque minha estória pode acontecer amanhã ou depois de amanhã, apenas no coração.
Basta existir uma vida,
ou qualquer espécie de vida,
para que em torno dela exista o impossível.
[...]
A surpresa
Vocês percebem que minha história é de amor.
Amor de peixe e de pássaro. Como é o seu início eu não sei.
Acredito que nem os namorados sabem.
A gente só sabe que gosta quando está gostando.
O tempo aqui não tem a mínima importância.
[...]
Novamente o tempo
Deve ser meio dia. Estou assentado sobre minha sombra.
Não existe vento. Tudo está parado no seu devido lugar:
pássaro no ar, peixe na água e eu na terra.

A certeza
É um amor impossível o de peixe e pássaro. Nunca podem estar juntos. O pássaro morre afogado na água. O peixe morre afogado no ar.
Depois, peixe e pássaro não têm mãos para amar.
Não sei nada sobre o coração de peixe nem de pássaro.
Penso que devem ter muita esperança.

A minha solução
Quero construir uma gaiola conjugada com um aquário e deixá-los juntos.
Minha ideia me entristece como os compromissos aceitos com antecedência.
[...]
A continuação
Por muitas vezes pelo resto da tarde o pássaro bica a água e se enfeita de folhas.
Por muitas vezes o peixe coloca a cabecinha de colares de água e sol fora do rio.
O canto faz-se breve e exato.

O fim
Escurece no céu e o escuro se reflete nas águas.
Não vejo mais o peixe nem o pássaro.
Volto no dia seguinte aos meus compromissos e penso:
                                          peixe e pássaro vivem pouco
                                          mas vivem muito num dia só.
[QUEIRÓS, Bartolomeu Campos de. O peixe e o pássaro. Belo Horizonte: Miguilim, 1984.]


3. Angela-Lago

Histórias contadas, mas não recontadas
Minha mãe foi contadora de histórias. Papai também, dos casos de Minas. Mamãe lia para a gente, na cama, os contos de fada. Fiquei doida para aprender a ler e ir atrás dos contos que ela contava. Como eram muitos filhos, ela não podia satisfazer o “conta de novo” de cada um. O desejo de reler, de retomar esses contos, me fez querer aprender a ler rapidamente. Minha mãe era brava. Depois de contar, pronto! Não adiantava pedir “conta outra vez”, pois acabou... Era preciso esperar o momento de saber ler e correr à biblioteca da escola no horário livre para reler os contos, ou então em casa, nos livros que nunca faltaram. E me lembro dela lendo Andersen, alguns contos dos Irmãos Grimm... Diversos. Ainda hoje releio os contos de fada, pois são absolutamente terapêuticos e me fazem um bem enorme. Se fico deprimida , leio contos de fada, até hoje.

Leituras
Contos de fada... Contos de fada... Se você me perguntar por Monteiro Lobato, digo não; contos de fada. Os contos de fada me fizeram acreditar que superaria todas as dificuldades e que seria uma princesa. Coisa em que só estou acreditando agora, com idade já de ser rainha. Mas começo a acreditar que, como ser humano, há espaço para minha realeza de ser humano.
Dois livros que li ainda criança, muito ilustrados, da Alaíde Lisboa, que era de Belo Horizonte, me marcaram. Lindamente ilustrados, “modernissimamente” ilustrados, bem anos 1950, bem modernos mesmo. São A bonequinha preta e O bonequinho doce. Os dois livros fizeram parte de leituras na sala de aula, e não da biblioteca. Da biblioteca vem a lembrança dos contos de fada. Livros grandes, com uma pequena vinheta ou ilustração de página inteira. Em preto e branco , provavelmente; e o texto tinha primazia sobre a imagem.

Amostra de produção
Angela-Lago não apenas escreve, mas também ilustra muitos de seus livros. É assim, com Sete histórias para sacudir o esqueleto, em que reconta causos de assombração aos quais não falta a malandragem, o humor e a feição da contação oral. Desse livro, transcrevo o conto que vem a seguir.
Caio?
Em Bom Despacho tinha uma fazenda à venda, mas ninguém queria comprar: era mal-assombrada.
Quando o preço chegou lá embaixo, veio de Luzes um comprador para fechar negócio.
O caseiro aconselhou o homem a passar a noite na fazenda e deixar a decisão para o dia seguinte. E o homem ficou para dormir.
De madrugada, acordou com uma voz cavernosa:
– Caaaaaaio? Caaaaaaio? – a voz repetia.
Acontece que o homem se chamava Caio. Ele estranhou muito e foi com custo que gaguejou:
– A-a-a-qui.
E na mesma hora um osso de perna caiu em cima dele.
O homem gelou. Mas não adiantava correr, a assombração sabia até seu nome. Melhor era continuar deitado e se cobrir todinho.
Dali a pouco o vozeirão recomeçou:
–  Caaaaaaio? Caaaaio?
E se a assombração não soubesse o nome dele coisa nenhuma e estivesse só perguntando se podia cair? Por via das dúvidas, Caio murmurou:
– Sim.
Caiu outro osso. E Caio matutava. Será que a assombração estava pensando que “Sim” queria dizer “Sim, pode cair”? Ou “Sim, sou eu, o Caio”? Resolveu desvendar a questão de uma vez por todas.
– Eu!?!
Caiu mais um osso.
De novo:
– Caaaaaio? Caaaaaaaaaio?
E o Caio, para testar:
– Cai!
Caiu outro osso.
Aí o Caio começou a achar que a assombração estava gozando a cara dele.
– Caiiiuuuu!? – por coincidência, a assombração desafinou nessa hora.
O homem teve um treco. Deu dois tiros para o alto, chorando nervoso:
– Cai, mas cai logo, que eu não aguento mais essa história!
E para a surpresa, quem despencou do forro do teto foi o caseiro, que não queria dono novo na fazenda onde ele gostava de vadiar.
[LAGO, Angela. Sete histórias para sacudir o esqueleto. São Paulo: Companhia das Letrinhas, 2002]

Angela, ainda
A linguagem visual é muito forte na obra de Angela-Lago. Suas experiências abrangem, inclusive, técnicas do mundo virtual. Confira, por exemplo, sua versão interativa (sem narrativa verbal) da tradicional Chapeuzinho vermelho (disponível em Angela Lago/Chapeuzinho).
Ali, o uso da tecnologia permite retomar e reformular o original, pois dinamiza as figuras e, principalmente, faz com que o usuário seja coprodutor da história: de fato, o enredo só evolui – e se transforma, tomando este ou aquele rumo – ao clique de quem comanda o mouse.


O assunto não terminou...
...Há outros depoimentos, igualmente interessantes, que gostaria de apresentar a você, leitor.
Por enquanto, deixo uma sugestão: que tal rememorar experiências pessoais de leitura e escrita – e, quem sabe, escrevê-las? (Voltarei a isso, também...)