segunda-feira, 25 de agosto de 2014

Para alimentar o prazer da escrita


Começo parafraseando Horácio: “Tem todos os votos quem misturou o útil ao agradável, deleitando e, ao mesmo tempo, instruindo o escritor aprendiz.”¹
Porque, afinal, a busca do prazer é inerente ao ser humano – e não seria diferente, em se tratando da aprendizagem.  O Mestre sabe que o sucesso do autocrescimento mescla, necessariamente, o esforço contínuo, concentrado e trabalhoso, ao deleite pelo caminho empreendido  – e tem em mente o equilíbrio entre os dois aspectos.
Idêntica preocupação acompanha o professor de língua materna e qualquer um que oriente ou inicie alguém na aventura da leitura, da compreensão e da expressão oral e escrita: pois, tanto o pequeno aprendiz (que mal sabe pegar o lápis) quanto o adolescente ou o adulto (que quer ou precisa empreender progressos) vive e oscila entre a novidade da aventura e o cansaço da repetição; entre a pressa de visualizar resultados e a paciência de caminhar passo a passo; entre a felicidade dos acertos e a frustração dos erros.
Ao professor, cabe salientar importâncias e atenuar arestas. Para o estudante, por sua vez, o esforço e o desafio a si próprio ficam mais interessantes, se o mestre, em vez de manter a distância da “autoridade incontestável”, participar do jogo do conhecimento e tornar-se companheiro e condutor de descobertas.
¹ Frase original: “Tem todos os votos quem misturou o útil ao agradável, deleitando e, ao mesmo tempo, instruindo o leitor” HORÁCIO. A Arte Poética. Tradução: Dante Tringali, São Paulo: Musa, 1993.

Leoni e as cartas
Giulio D. Leoni, professor de língua italiana (nos meus bons tempos da PUC), foi para mim esse companheiro por trilhas aventureiras de novos saberes, e por duas razões.
Em primeiro lugar: dono de ampla cultura e humor crítico, temperava as lições mais árduas com chistes e historietas de sua terra natal, amenizando nossas dificuldades e, em paralelo, direcionando nosso olhar para o modo de viver e a cultura da Itália. Assim, mais que simples e desconectadas regras gramaticais, o aprendizado era da língua enquanto expressão de um povo e de uma cultura.
Em segundo lugar, na medida da evolução de cada aluno, transformava incipientes “exercícios para casa” em interessantes diálogos escritos, de tal forma que, no lugar da mera tarefa e correção linguística, estabelecia-se uma correspondência aluno-professor, mediante bilhetes ou pequenas cartas (em italiano, claro). Nessa interlocução, Leoni assumia-se leitor e, como tal, questionava ideias e modo de expressá-las.
Falo por experiência pessoal: o desafio, o jogo, o desejo de aperfeiçoamento eram constantes impulsos para ampliar conhecimentos. Formava-se um belo circuito, porque eu queria ampliar o diálogo, mais e mais; para isso, precisava urgentemente conhecer melhor a língua e os costumes italianos; ao conhecê-los, queria comunicar os novos saberes e, para isso, precisava saber ainda mais...
Por outro lado, particularmente quando eu relatava algo do Brasil ou da região em que havia nascido, sentia-me impelida a defender um ponto de vista, em oposição ao que ele expressava. De qualquer modo, falávamos de realidades – do cotidiano, dos povos, das aulas – e as aprendizagens continuamente se ligavam a vivências, como pleiteiam os entendidos: “... em relação à escrita, motivar é propiciar aos estudantes, com a maior frequência possível, uma situação real de comunicação, com a escolha de situações e temas que tenham correspondência com os interesses dos aprendentes, bem como com a realidade de seu dia a dia.”²
O importante – e difícil – era organizar claramente as ideias, usando os parcos conhecimentos da língua italiana. E, ai de mim, se não estivessem claras... O professor sabia, também, ser exigente e até severo, ao apontar desvios e encaminhar novos estudos. Valorizava a produção do aluno, sim, mas não lhe dava o conforto do “elogio barateado”, nem lançava mão da “pedagogia da facilitação”, para usar as palavras de do mestre linguista Geraldi.³
Naquele tempo, apenas faltava algo que, além de gratificante, acelera e amplia o crescimento do estudante, como hoje se sabe: a coletivização da troca de correspondência escrita e, portanto, maior intercâmbio de saberes e ideias entre todos os alunos.
² PASSARELLI, Lílian Ghiuro. Ensino e correção na produção de textos escolares. São Paulo: Cortez, 2012.
³ GERALDI, João Wanderley. Portos de Passagem. São Paulo: WMF Martins Fontes, 2013.



Intercâmbio e parceria
Ao se cogitar de criação, invenção, organização e expressão de ideias – quando e onde o conhecimento se faça presente –, a partilha, a colaboração com o outro traz ganhos substantivos.
O auxílio mútuo confere segurança à aprendizagem, uma vez que a visão compartilhada fornece oportunidade para rever ou reafirmar concepções próprias, estímulo para continuar e, ainda, prazer para desenvolver as etapas necessárias rumo ao objetivo. Provam-no, não só os muitos depoimentos e tantas vivências de educadores e alunos, como também a experiência de intelectuais e artistas, reconhecidos por sua competência.
Registro, como exemplo, partes da correspondência de Chico Buarque e Vinícius de Moraes, em relação à letra de Valsinha, composta por ambos, na década de 70. As cartas trocadas entre eles (estando Vinícius, na Argentina e Chico, no Brasil) revelam autonomia e liberdade para sugerir, acatar e, mesmo, rechaçar mudanças. De igual modo, mostram que até as divergências de opinião podem ocorrer, em clima de respeito pelo trabalho um do outro. (A se notar, especialmente, a forma cordial, afetuosa, mas firme, com que Chico responde ao companheiro mais velho e experiente.)
Na carta de Vinícius, destaco em negrito algumas mudanças apontadas, para melhor entendimento dos comentários de Chico. Acrescento que transcrevi os trechos de forma fiel e sem censura, em respeito à liberdade de expressão, sempre tão significativa.
Quanto ao resultado, muitos de nós conhecemos a versão acabada da canção – (que eu relembro no vídeo final).

De Vinícius para Chico
Mar del Plata, 24 de janeiro de 1971
Chiquérrimo,
Dei uma apertada linda na sua letra, depois que você partiu, porque achei que valia a pena trabalhar mais um pouquinho sobre ela. [...]
Claro que a letra é sua, e eu nada mais fiz que dar uma aparafusada geral. Às vezes o cara de fora vê melhor essas coisas. Enfim, porra, aí vai ela. Dei-lhe o nome de “Valsa hippie”, porque parece-me que tua letra tem esse elemento hippie que dá um encanto todo moderno à valsa, brasileira e antigona. Que é que você acha? O pessoal aqui, no princípio, estranhou um pouco, mas depois se amarrou na ideia.
Escreva logo, dizendo o que você achou.
Valsa hippie
“Um dia ele chegou tão diferente do seu jeito de sempre chegar
Olhou-a dum jeito mais quente do que comumente costumava olhar
E não falou mal da poesia como mania sua de falar
E nem deixou-a só num canto; pra seu grande espanto disse: vamos nos amar
Aí ela se recordou do tempo em que saíam para namorar
E pôs seu vestido dourado cheirando a guardado de tanto esperar
Depois os dois deram-se os braços como a gente antiga costumava dar
E cheios de ternura e graça foram para a praça e começaram a bailar
E logo toda a vizinhança ao som daquela dança foi e despertou
E veio para a praça escura, e muita gente jura que se iluminou
E foram tantos beijos loucos, tantos gritos roucos como não se ouviam mais
Que o mundo compreendeu
E o dia amanheceu em paz”.

De Chico Buarque para Vinícius de Moraes
Rio, 2 de fevereiro (sem o ano)
Caro poeta,
Recebi as duas cartas e fiquei meio embananado [...] porque, como você já sabe, o público tem recebido a valsinha com o maior entusiasmo, pedindo bis e tudo. Sem exagero, ela é o ponto alto do show, junto com o “Apesar de você”. Então dá um certo medo de mudar demais.
Enfim, a música é sua e a discussão continua aberta. Vou tentar defender, por pontos, a minha opinião. [...]
“Valsa hippie” é um título forte. É bonito, mas pode parecer forçação de barra, com tudo que há de hippie por aí. “Valsa hippie” ligada à filosofia hippie como você a ligou, é um título perfeito. Mas hippie, para o grande público, já deixou de ser filosofia para ser a moda pra frente de se usar roupa e cabelo. Aí já não tem nada a ver.
Pela mesma razão eu prefiro que o nosso personagem xingue ou, mais delicado, maldiga a vida, em vez de falar mal da poesia. A sua solução é mais bonita e completa, mas eu acho que ela diminui o efeito do que se segue. Esse homem da primeira estrofe é o anti-hippie. Acho mesmo que ele nunca soube o que é poesia. É bancário e está com o saco cheio e está sempre mandando sua mulher à merda. Quer dizer, neste dia ele chegou diferente, não maldisse (ou “xingou” mesmo) a vida tanto e convidou-a pra rodar.
“Convidou-a pra rodar” eu gosto muito, poeta, deixa ficar. Rodar que é dar um passeio e é dançar. Depois eu acho que, se ele já for convidando a coitada para amar, perde-se o suspense do vestido no armário e a tesão da trepada final. “Pra seu grande espanto”, você tem razão, é melhor que “para seu espanto”. [...]
*Apesar do Orestes (vestido de dourado é lindo), eu gosto muito do som do vestido decotado. É gostoso de cantar vestido decotado. [...] E eu também gosto do decotado ligado ao “ousar” que ela não queria por causa do marido chato e quadrado. [...]
Você está certo quanto ao “o mundo” em vez de “a gente”. Ah, voltando à estrofe anterior, gostei do último verso onde você diz “e cheios de ternura e graça” em vez de “e foram-se cheios de graça”. Agora, estou pensando em retomar uma ideia anterior, quando eu pensava em colocá-los em estado de graça. Aproveitando a sua ternura, poderíamos fazer “Em estado de ternura e graça foram para a praça e começaram a se abraçar”.[...]

Um dia ele chegou tão diferente do seu jeito de sempre chegar
Olhou-a dum jeito muito mais quente do que sempre costumava olhar
E não maldisse a vida tanto quanto era seu jeito de sempre falar
E nem deixou-a só num canto, pra seu grande espanto convidou-a pra rodar
Então ela se fez bonita como há muito tempo não queria ousar
Com seu vestido decotado cheirando a guardado de tanto esperar
Depois os dois deram-se os braços como há muito tempo não se usava dar
E cheios de ternura e graça foram para a praça e começaram a se abraçar
E ali dançaram tanta dança que a vizinhança toda despertou
E foi tanta felicidade que toda a cidade enfim se iluminou
E foram tantos beijos loucos
Tantos gritos roucos como não se ouvia mais
Que o mundo compreendeu
E o dia amanheceu
Em paz.
[Fonte: Hora do Povo. Disponível em: http://rizzolot.wordpress.com/2007/05/18/chico-buarque-e-vinicius-de-moraes-da-arte-de-escolher-e-lapidar-palavras.]

Para ouvir
Então, leitor, o que achou das modificações pós-parceria? Se pensa como eu, deve ter chegado à conclusão de que o trabalho conjunto valeu, sim, a pena – pois resultou em canção particularmente sensível.
Convido-o a ouvi-la (e penso que não será sua primeira vez).


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