domingo, 10 de agosto de 2014

Pais, ora essa...


A palavra denuncia, a palavra revela, a palavra faz ver cantos escondidos de nossa alma. Eu já disse isso, não?
Claro que sim, algumas vezes. Em uma delas, tomei, até, o testemunho de Todorov¹, para validar minha afirmação de que o texto (oral ou escrito; verbal ou não verbal, não importa) tem o condão de levar-nos à autoconsciência.
Retomo a ideia, nesta ocasião em que a sociedade comemora o Dia dos Pais. Não fique o leitor preocupado, pois não pretendo discutir origens e propósitos de datas “comemorativas/familiares”, cada vez mais numerosas. Meu intento é tão somente revisitar alguns de nossos cronistas, para flagrar o que seus textos ficcionais desnudam da real, doce e trabalhosa missão de ser pai: será possível os papais se reconhecerem ou se descobrirem neles?
Minha leitura e escolha para registro recaiu em três crônicas bem-humoradas, que apontam dificuldades de relacionamento, sem dúvida; mas, ao mesmo tempo, deixam claro o afeto e o cuidado inerentes à paternidade.
¹ “... não posso dispensar as palavras dos poetas, as narrativas dos romancistas. Elas me permitem dar forma aos pensamentos que experimento, ordenar o fluxo de pequenos eventos que constituem minha vida.” TODOROV, Tzvetan. A literatura em perigo. Rio de Janeiro: DIFEL, 2009.

  
Carlos Drummond de Andrade
Em Drummond, o prazer e o relaxamento do lazer familiar ficam ameaçados, quando a filha resolve fazer valer sua vontade. O diálogo divertido e o narrador avaliador conduzem o enredo com um sabor especial, rumo ao desfecho inesperado... pelo menos para o pai. 
No restaurante
– Quero lasanha.
Aquele anteprojeto de mulher – quatro anos, no máximo, desabrochando na ultraminissaia – entrou decidido no restaurante. Não precisava de menu, não precisava de mesa, não precisava de nada. Sabia perfeitamente o que queria. Queria lasanha.
O pai, que mal acabara de estacionar o carro em uma vaga de milagre, apareceu para dirigir a operação-jantar, que é, ou era, da competência dos senhores pais.
– Meu bem, venha cá.
– Quero lasanha.
– Escute aqui, querida. Primeiro escolhe-se a mesa.
– Não, já escolhi. Lasanha.
Que parada – lia-se na cara do pai. Relutante, a garotinha condescendeu em sentar-se primeiro, e depois encomendar o prato:
– Vou querer lasanha.
– Filhinha, por que não pedimos camarão? Você gosta tanto de camarão.
– Gosto, mas quero lasanha.
– Eu sei, eu sei que você adora camarão. A gente pede uma fritada bem bacana de camarão. Tá?
– Quero lasanha, papai. Não quero camarão.
– Vamos fazer uma coisa. Depois do camarão a gente traça uma lasanha. Que tal?
– Você come camarão e eu como lasanha.
O garçom aproximou-se, e ela foi logo instruindo:
— Quero uma lasanha.
O pai corrigiu:
– Traga uma fritada pra dois. Caprichada.
A coisinha amuou. Então não podia querer? Queriam querer em nome dela? Porque é proibido comer lasanha? Essas interrogações também se liam no seu rosto, pois os lábios mantinham reserva. Quando o garçom voltou com os pratos e o serviço, ela atacou:
– Moço, tem lasanha?
– Perfeitamente, senhorita.
O pai, no contra-ataque:
– O senhor providenciou a fritada?
– Já, sim, doutor.
– De camarões bem grandes?
– Daqueles legais, doutor.
– Bem, então me vê um chinite, e pra ela... O que é que você quer, meu anjo?
– Uma lasanha.
– Traz um suco de laranja pra ela.
Com o chopinho e o suco de laranja, veio a famosa fritada de camarão, que, para surpresa do restaurante inteiro, interessado no desenrolar dos acontecimentos, não foi recusada pela senhorita. Ao contrário, papou-a, e bem. A silenciosa manducação atestava, ainda uma vez, no mundo a vitória do mais forte.
– Estava uma coisa, hem? – comentou o pai, com um sorriso bem alimentado. – Sábado que vem a gente repete... Combinado?
– Agora a lasanha, não é, papai?
– Eu estou satisfeito. Uns camarões tão geniais! Mas você quer comer mesmo?
– Eu e você, tá?
– Meu amor, eu...
– Tem de me acompanhar, ouviu? Pede a lasanha.
O pai baixou a cabeça, chamou o garçom, pediu. Aí, um casal, na mesa vizinha, bateu palmas. O resto da sala acompanhou. O pai não sabia onde se meter. A garotinha, impassível. Se, na conjuntura, o poder jovem cambaleia, vem aí, com força total, o poder ultrajovem.
ANDRADE, Carlos Drummond de. Para gostar de ler - Vol. 1. São Paulo: Ática, 1999. 


Fernando Sabino
Embora a crônica de Sabino seja do tempo da máquina de escrever e do um cruzeiro, qualquer pai reconheceria, na vida agitada de hoje em dia, duas situações bem atuais ali expostas, ou seja, o frequentemente obrigatório trabalho profissional no próprio lar e a coparticipação no cuidado dos filhos. O cronista mostra o resultado, quando as duas tarefas se sobrepõem: a atenção dividida do pai e a obstinação própria da criança enredam-se, assim, para construir uma narrativa com leves toques de ironia e boa dose de ternura. 
A fuga
Mal o pai colocou o papel na máquina, o menino começou a empurrar uma cadeira pela sala, fazendo um barulho infernal.
– Para com esse barulho, meu filho – falou, sem se voltar.
Com três anos já sabia reagir como homem ao impacto das grandes injustiças paternas: não estava fazendo barulho, estava só empurrando uma cadeira.
– Pois então para de empurrar a cadeira.
– Eu vou embora – foi a resposta.
Distraído, o pai não reparou que ele juntava ação às palavras, no ato de juntar do chão suas coisinhas, enrolando-as num pedaço de pano. Era a sua bagagem: um caminhão de plástico com apenas três rodas, um resto de biscoito, uma chave (onde diabo meteram a chave da despensa – a mãe mais tarde irá dizer), metade de uma tesourinha enferrujada, sua única arma para a grande aventura, um botão amarrado num barbante.
A calma que baixou então na sala era vagamente inquietante. De repente, o pai olhou ao redor e não viu o menino. Deu com a porta da rua aberta, correu até o portão:
– Viu um menino saindo desta casa? – gritou para o operário que descansava diante da obra do outro lado da rua, sentado no meio-fio.
– Saiu agora mesmo com uma trouxinha – informou ele.
Correu até a esquina e teve tempo de vê-lo ao longe, caminhando cabisbaixo ao longo do muro. A trouxa, arrastada no chão, ia deixando pelo caminho alguns de seus pertences: o botão, o pedaço de biscoito e – saíra de casa prevenido – uma moeda de 1 cruzeiro. Chamou-o, mas ele apertou o passinho, abriu a correr em direção à Avenida, como disposto a atirar-se diante do ônibus que surgia à distância.
– Meu filho, cuidado!
 O ônibus deu uma freada brusca, uma guinada para a esquerda, os pneus cantaram no asfalto. O menino, assustado, arrepiou carreira. O pai precipitou-se e o arrebanhou com o braço como a um animalzinho:
– Que susto você me passou, meu filho – e apertava-o contra o peito, comovido.
– Deixa eu descer, papai. Você está me machucando.
Irresoluto, o pai pensava agora se não seria o caso de lhe dar umas palmadas:
– Machucando, é? Fazer uma coisa dessas com seu pai.
– Me larga. Eu quero ir embora.
Trouxe-o para casa e o largou novamente na sala – tendo antes o cuidado de fechar a porta da rua e retirar a chave, como ele fizera com a da despensa.
– Fique aí quietinho, está ouvindo? Papai está trabalhando.
– Fico, mas vou empurrar esta cadeira.  E o barulho recomeçou.
SABINO, Fernando. Quadrante 1. Rio de Janeiro, Ed. do Autor, 1968. 


Luís Fernando Veríssimo
No texto de Veríssimo, o conflito de gerações estabelece-se em forma de diálogo “pano rápido”, e o narrador limita-se à irônica avaliação final. Nós, leitores contemporâneos do cronista, logicamente, reconstruímos o sentido com base em nosso conhecimento de mundo (o que não aconteceria com leitores de culturas ou tempos muito diferentes deste espaço e tempo). 
Pai não entende nada
– Um biquíni novo?
– É, pai.
– Você comprou um no ano passado!
– Não serve mais, pai. Eu cresci.
– Como não serve? No ano passado você tinha 14 anos, este ano tem 15. Não cresceu tanto assim.
– Não serve, pai.
– Está bem, está bem. Toma o dinheiro. Compra um biquíni maior.
– Maior não, pai. Menor.
Aquele pai, também, não entendia nada.
Veríssimo, Luis Fernando. Festa de criança. São Paulo: Ática, 2000. 

Leitor, talvez pai...
...Ou, quem sabe, filho/filha: as leituras suscitaram alguma imagem ou recordação de relações paternas?
Em caso positivo, que tal seguir o exemplo de nossos escritores e pôr sua experiência no papel?
Eu lhe desejo boa “aventura escritora”!

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