sábado, 16 de agosto de 2014

Onde fica o prazer de escrever?


Escrever é... lutar?!
Escrever... Quantas vezes tenho de refazer um texto, até que saia do jeito que eu quero! Mesmo assim, depois de alguns dias de tê-lo considerado acabado, sempre que o releio, vejo que aqui deveria ter usado outra palavra, deveria ter sido mais explícita...
Gerar um texto não é fácil. Estudantes, professores, teóricos, literatos, profissionais de qualquer cargo e área sabem de que estou falando. Sobretudo, o estudante: a esse, quando vê a magia de uma obra acabada e publicada, com tudo no lugar, deve parecer que não há dor ou suor na escrita. E que escrever, rasurar, corrigir, refazer é só para ele, pequeno aprendiz que nunca chegará a ser mago ou feiticeiro...
É que, como a maioria dos leitores, o principiante, geralmente, não conhece o processo de criação e apenas tem acesso a produtos acabados, ou seja, a textos finalizadíssimos, de escritores já “prontos” e consagrados. Assim, é difícil convencer-se de que também chegará lá. No entanto: “Qual autor, por mais vivido e gabaritado, nunca ‘escorregou na Gramática’? Onde estão esses originais que não chegam ao público ou aos livros didáticos? Não seria mais coerente mostrar que, se até os renomados escritores são passíveis de “erros” gramaticais, de coesão, de coerência, temos que trabalhar para que nossos textos estejam cada vez mais sedutores em todos os aspectos?1
Ocorre que escrever – escrever, mesmo – não é “escrever e ponto”. É reescrever, reescrever, reescrever. É processo de geração de embrião, depois nascimento, crescimento, desenvolvimento, passo a passo.
Isso pode doer, sim, pois os bons resultados demoram, como nos ensina o poema de Drummond (reparem, principalmente, nos trechos em destaque): 

O Lutador 2

Lutar com palavras
é a luta mais vã.
Entanto lutamos
mal rompe a manhã.
São muitas, eu pouco.
Algumas, tão fortes
como o javali.
Não me julgo louco.
Se o fosse, teria
poder de encantá-las.
Mas lúcido e frio,
apareço e tento
apanhar algumas
para meu sustento num dia de vida.
Deixam-se enlaçar,
tontas à carícia
e súbito fogem
e não há ameaça
e nem há sevícia
que as traga de novo
ao centro da praça.

Insisto, solerte.
Busco persuadi-las.
Ser-lhes-ei escravo
de rara humildade.
Guardarei sigilo
de nosso comércio.
Na voz, nenhum travo
de zanga ou desgosto.
Sem me ouvir deslizam,
perpassam levíssimas
e viram-me o rosto.
Lutar com palavras
parece sem fruto.
Não têm carne e sangue…
Entretanto, luto.

Palavra, palavra
(digo exasperado),
se me desafias,
aceito o combate.
Quisera possuir-te
neste descampado,
sem roteiro de unha
ou marca de dente
nessa pele clara.
Preferes o amor
de uma posse impura
e que venha o gozo
da maior tortura.

Luto corpo a corpo,
luto todo o tempo,
sem maior proveito
que o da caça ao vento.
Não encontro vestes,
não seguro formas,
é fluido inimigo
que me dobra os músculos
e ri-se das normas
da boa peleja.
[...]

Até aqui, pelo menos, podemos concluir: escrever é “lutar com palavras”. Portanto, escrever é... trabalho. Qual? E como?
1 MARTINS, Isa Ferreira. Afinal, o que é um texto? Uma pergunta para a discussão sobre o ensino da produção textual. Disponível em: www.filologia.org.br/xvi_cnlf/min_ofic/04.pdf
2 ANDRADE, Carlos Drummond de. In José. Reunião – 10 livros de poesia. Rio de Janeiro: José Olympio, 1974.




 Afinal: trabalho ou prazer?
Leitor, se você leu as crônicas de Rubem Braga e Carlos Drummond de Andrade, registradas na matéria anterior (05/08/2014 Quando o escrever é obrigação), deve ter percebido o “charminho” de quem, sob a máscara do fastio em escrever, joga criativamente com ideias e palavras, elaborando um belo texto. Eu diria que tanto um quanto o outro se comprazem em brincar com o interlocutor, fingindo não ter nem o quê, nem por que dizer, mas elegendo seu próprio ofício como seu assunto, sua razão de elaborar o texto – e de escolher cuidadosamente as palavras e proceder a quantas revisões se façam necessárias (alguém duvida?). Desse modo, fogem do escrever... escrevendo.
É bom não esquecer que o “escrever por escrever” não existe, mesmo quando se trata do texto que permanece “secreto” (diário, confissão pessoal, etc.): condição básica da escrita é a intenção de quem escreve de se dirigir a um interlocutor, verbalizando algo que tem a dizer. Ora, o “ter o que dizer” implica ao escrevente a contínua tarefa de revisar seu repertório de conhecimentos vivenciais, textuais e linguísticos, para selecionar ideias e modos de falar/escrever mais adequados ao que deseja/precisa dizer:
“... O fluir do pensamento e da escrita não é mero impulso mágico, mas movimento possível, por solicitar e promover algo bem real: o repertório individual, as percepções e memórias, enfim, o conhecimento de mundo de cada um. (Ver matéria de 05/12/2013, Escrever começa antes do escrever.)
Selecionadas e organizadas as ideias, encontrada a estrutura formal mais adequada e as palavras mais significativas, eis o primeiro texto, possivelmente não muito satisfatório.
Então, é imprescindível ler o que se escreveu, buscando a perspectiva do leitor e o rigor do crítico, para, em seguida, revisar, modificar, reescrever, reescrever, reescrever. Trabalho árduo, não?
Contudo, em O Lutador, registrado acima, o eu poético entrelaça dor e prazer: “que venha o gozo/da maior tortura” – o que me faz voltar à pergunta-título: onde fica o prazer? Porque, convenhamos: quando o escrever não é exatamente opção, mas obrigação e, até, “tortura”, o prazer pode existir? Onde? Como?

O prazer em relação ao produto e ao processo
Os objetivos, frequentemente, dão forças ao indivíduo para realizar coisas difíceis. A construção da casa própria, a execução de uma obra musical, a pintura de um quadro, o alcance de um recorde esportivo e tantos outros desejos requerem planejamento, sacrifício, suor; mas a visão do fim almejado – do produto conquistado – dá o alento necessário para ir cada vez mais longe.
Se o trabalho é compensado pelo êxito final, os degraus intermediários, por mais que sejam atribulados, podem ser, por seu lado, igualmente prazerosos: a escolha dos materiais para a nova casa, a busca da melhor sonoridade para a música, da cor adequada para a cena retratada, do movimento perfeito no esporte; as repetições e correções intermináveis de ações são aceitas e bem-vindas, porque se referem a algo que faz sentido e que é desejado pelo sujeito.
Assim é com o texto. Aceita-se o esforço da escrita, muitas vezes, apenas como caminho para se alcançar outro objetivo (a carta de motorista, o emprego, a conquista de um amor, o convencimento do júri, o desabafo de uma emoção, a finalização do curso). Em contrapartida, se quem escreve toma consciência do significado pessoal e social, do potencial transformador do texto, enquanto ação posta em palavras, cresce-lhe o desejo de aprendizagem e aperfeiçoamento, move-o o prazer do desafio a si próprio, em busca da expressão linguística autônoma.
É a descoberta do “trabalho prazeroso, porque produtivo e criativo”3 – o mesmo que emerge entre os múltiplos e preciosos significados de outro poema de Drummond, O Elefante, no qual o leitor pode apreciar a imersão do criador em sua criação e a relação de afetividade que daí resulta, pois a obra (o texto, no caso) faz-se objeto palpável de realização, expressão e comunicação com os outros homens.
A seguir, trechos do poema, com alguns comentários indicadores.


O Elefante 4

[O eu poético começa sua construção, consciente de seu parco material e limitada técnica:]
Fabrico um elefante
de meus poucos recursos.
Um tanto de madeira
tirado a velhos móveis
talvez lhe dê apoio.
E o encho de algodão,
de paina, de doçura.
A cola vai fixar
suas orelhas pensas.
A tromba se enovela,
é a parte mais feliz
de sua arquitetura.
Mas há também as presas,
dessa matéria pura
que não sei figurar.

[“Mambembe”, talvez, mas autêntico, verdadeiro, correspondente à verdade de quem o fabrica:]
Tão alva essa riqueza
a espojar-se nos circos
sem perda ou corrupção.
E há por fim os olhos,
onde se deposita
a parte do elefante
mais fluida e permanente,
alheia a toda fraude.

[A intenção é chegar ao outro e transformá-lo, com sua mensagem de verdade e amorosidade:]
Eis o meu pobre elefante
pronto para sair
à procura de amigos
num mundo enfastiado
que já não crê em bichos
e duvida das coisas.
Ei-lo, massa imponente
e frágil, que se abana
e move lentamente
a pele costurada
onde há flores de pano
e nuvens, alusões
a um mundo mais poético
onde o amor reagrupa
as formas naturais.

Vai o meu elefante
pela rua povoada,
mas não o querem ver
nem mesmo para rir
da cauda que ameaça
deixá-lo ir sozinho.
É todo graça, embora
as pernas não ajudem
e seu ventre balofo
se arrisque a desabar
ao mais leve empurrão.

[O objetivo nem sempre é alcançado, mas, em vez de frustração, o que move o eu poético é o sentimento de persistir, sempre:]
E já tarde da noite
volta meu elefante,
mas volta fatigado,
as patas vacilantes
se desmancham no pó.
Ele não encontrou
o de que carecia,
o de que carecemos,
eu e meu elefante,
em que amo disfarçar-me.
Exausto de pesquisa,
caiu-lhe o vasto engenho
como simples papel.
A cola se dissolve
e todo o seu conteúdo
de perdão, de carícia,
de pluma, de algodão,
jorra sobre o tapete,
qual mito desmontado.
Amanhã recomeço.

3 PASSARELLI, Lílian Ghiuro. Ensino e correção na produção de textos escolares. São Paulo: Cortez, 2012.
4 ANDRADE, Carlos Drummond de. In A Rosa do povo. Reunião – 10 livros de poesia. Rio de Janeiro: José Olympio, 1974.]

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