segunda-feira, 25 de agosto de 2014

Para alimentar o prazer da escrita


Começo parafraseando Horácio: “Tem todos os votos quem misturou o útil ao agradável, deleitando e, ao mesmo tempo, instruindo o escritor aprendiz.”¹
Porque, afinal, a busca do prazer é inerente ao ser humano – e não seria diferente, em se tratando da aprendizagem.  O Mestre sabe que o sucesso do autocrescimento mescla, necessariamente, o esforço contínuo, concentrado e trabalhoso, ao deleite pelo caminho empreendido  – e tem em mente o equilíbrio entre os dois aspectos.
Idêntica preocupação acompanha o professor de língua materna e qualquer um que oriente ou inicie alguém na aventura da leitura, da compreensão e da expressão oral e escrita: pois, tanto o pequeno aprendiz (que mal sabe pegar o lápis) quanto o adolescente ou o adulto (que quer ou precisa empreender progressos) vive e oscila entre a novidade da aventura e o cansaço da repetição; entre a pressa de visualizar resultados e a paciência de caminhar passo a passo; entre a felicidade dos acertos e a frustração dos erros.
Ao professor, cabe salientar importâncias e atenuar arestas. Para o estudante, por sua vez, o esforço e o desafio a si próprio ficam mais interessantes, se o mestre, em vez de manter a distância da “autoridade incontestável”, participar do jogo do conhecimento e tornar-se companheiro e condutor de descobertas.
¹ Frase original: “Tem todos os votos quem misturou o útil ao agradável, deleitando e, ao mesmo tempo, instruindo o leitor” HORÁCIO. A Arte Poética. Tradução: Dante Tringali, São Paulo: Musa, 1993.

Leoni e as cartas
Giulio D. Leoni, professor de língua italiana (nos meus bons tempos da PUC), foi para mim esse companheiro por trilhas aventureiras de novos saberes, e por duas razões.
Em primeiro lugar: dono de ampla cultura e humor crítico, temperava as lições mais árduas com chistes e historietas de sua terra natal, amenizando nossas dificuldades e, em paralelo, direcionando nosso olhar para o modo de viver e a cultura da Itália. Assim, mais que simples e desconectadas regras gramaticais, o aprendizado era da língua enquanto expressão de um povo e de uma cultura.
Em segundo lugar, na medida da evolução de cada aluno, transformava incipientes “exercícios para casa” em interessantes diálogos escritos, de tal forma que, no lugar da mera tarefa e correção linguística, estabelecia-se uma correspondência aluno-professor, mediante bilhetes ou pequenas cartas (em italiano, claro). Nessa interlocução, Leoni assumia-se leitor e, como tal, questionava ideias e modo de expressá-las.
Falo por experiência pessoal: o desafio, o jogo, o desejo de aperfeiçoamento eram constantes impulsos para ampliar conhecimentos. Formava-se um belo circuito, porque eu queria ampliar o diálogo, mais e mais; para isso, precisava urgentemente conhecer melhor a língua e os costumes italianos; ao conhecê-los, queria comunicar os novos saberes e, para isso, precisava saber ainda mais...
Por outro lado, particularmente quando eu relatava algo do Brasil ou da região em que havia nascido, sentia-me impelida a defender um ponto de vista, em oposição ao que ele expressava. De qualquer modo, falávamos de realidades – do cotidiano, dos povos, das aulas – e as aprendizagens continuamente se ligavam a vivências, como pleiteiam os entendidos: “... em relação à escrita, motivar é propiciar aos estudantes, com a maior frequência possível, uma situação real de comunicação, com a escolha de situações e temas que tenham correspondência com os interesses dos aprendentes, bem como com a realidade de seu dia a dia.”²
O importante – e difícil – era organizar claramente as ideias, usando os parcos conhecimentos da língua italiana. E, ai de mim, se não estivessem claras... O professor sabia, também, ser exigente e até severo, ao apontar desvios e encaminhar novos estudos. Valorizava a produção do aluno, sim, mas não lhe dava o conforto do “elogio barateado”, nem lançava mão da “pedagogia da facilitação”, para usar as palavras do mestre linguista Geraldi.³
Naquele tempo, apenas faltava algo que, além de gratificante, acelera e amplia o crescimento do estudante, como hoje se sabe: a coletivização da troca de correspondência escrita e, portanto, maior intercâmbio de saberes e ideias entre todos os alunos.
² PASSARELLI, Lílian Ghiuro. Ensino e correção na produção de textos escolares. São Paulo: Cortez, 2012.
³ GERALDI, João Wanderley. Portos de Passagem. São Paulo: WMF Martins Fontes, 2013.



Intercâmbio e parceria
Ao se cogitar de criação, invenção, organização e expressão de ideias – quando e onde o conhecimento se faça presente –, a partilha, a colaboração com o outro traz ganhos substantivos.
O auxílio mútuo confere segurança à aprendizagem, uma vez que a visão compartilhada fornece oportunidade para rever ou reafirmar concepções próprias, estímulo para continuar e, ainda, prazer para desenvolver as etapas necessárias rumo ao objetivo. Provam-no, não só os muitos depoimentos e tantas vivências de educadores e alunos, como também a experiência de intelectuais e artistas, reconhecidos por sua competência.
Registro, como exemplo, partes da correspondência de Chico Buarque e Vinícius de Moraes, em relação à letra de Valsinha, composta por ambos, na década de 70. As cartas trocadas entre eles (estando Vinícius, na Argentina e Chico, no Brasil) revelam autonomia e liberdade para sugerir, acatar e, mesmo, rechaçar mudanças. De igual modo, mostram que até as divergências de opinião podem ocorrer, em clima de respeito pelo trabalho um do outro. (A se notar, especialmente, a forma cordial, afetuosa, mas firme, com que Chico responde ao companheiro mais velho e experiente.)
Na carta de Vinícius, destaco em negrito algumas mudanças apontadas, para melhor entendimento dos comentários de Chico. Acrescento que transcrevi os trechos de forma fiel e sem censura, em respeito à liberdade de expressão, sempre tão significativa.
Quanto ao resultado, muitos de nós conhecemos a versão acabada da canção – (que eu relembro no vídeo final).

De Vinícius para Chico
Mar del Plata, 24 de janeiro de 1971
Chiquérrimo,
Dei uma apertada linda na sua letra, depois que você partiu, porque achei que valia a pena trabalhar mais um pouquinho sobre ela. [...]
Claro que a letra é sua, e eu nada mais fiz que dar uma aparafusada geral. Às vezes o cara de fora vê melhor essas coisas. Enfim, porra, aí vai ela. Dei-lhe o nome de “Valsa hippie”, porque parece-me que tua letra tem esse elemento hippie que dá um encanto todo moderno à valsa, brasileira e antigona. Que é que você acha? O pessoal aqui, no princípio, estranhou um pouco, mas depois se amarrou na ideia.
Escreva logo, dizendo o que você achou.
Valsa hippie
“Um dia ele chegou tão diferente do seu jeito de sempre chegar
Olhou-a dum jeito mais quente do que comumente costumava olhar
E não falou mal da poesia como mania sua de falar
E nem deixou-a só num canto; pra seu grande espanto disse: vamos nos amar
Aí ela se recordou do tempo em que saíam para namorar
E pôs seu vestido dourado cheirando a guardado de tanto esperar
Depois os dois deram-se os braços como a gente antiga costumava dar
E cheios de ternura e graça foram para a praça e começaram a bailar
E logo toda a vizinhança ao som daquela dança foi e despertou
E veio para a praça escura, e muita gente jura que se iluminou
E foram tantos beijos loucos, tantos gritos roucos como não se ouviam mais
Que o mundo compreendeu
E o dia amanheceu em paz”.

De Chico Buarque para Vinícius de Moraes
Rio, 2 de fevereiro (sem o ano)
Caro poeta,
Recebi as duas cartas e fiquei meio embananado [...] porque, como você já sabe, o público tem recebido a valsinha com o maior entusiasmo, pedindo bis e tudo. Sem exagero, ela é o ponto alto do show, junto com o “Apesar de você”. Então dá um certo medo de mudar demais.
Enfim, a música é sua e a discussão continua aberta. Vou tentar defender, por pontos, a minha opinião. [...]
“Valsa hippie” é um título forte. É bonito, mas pode parecer forçação de barra, com tudo que há de hippie por aí. “Valsa hippie” ligada à filosofia hippie como você a ligou, é um título perfeito. Mas hippie, para o grande público, já deixou de ser filosofia para ser a moda pra frente de se usar roupa e cabelo. Aí já não tem nada a ver.
Pela mesma razão eu prefiro que o nosso personagem xingue ou, mais delicado, maldiga a vida, em vez de falar mal da poesia. A sua solução é mais bonita e completa, mas eu acho que ela diminui o efeito do que se segue. Esse homem da primeira estrofe é o anti-hippie. Acho mesmo que ele nunca soube o que é poesia. É bancário e está com o saco cheio e está sempre mandando sua mulher à merda. Quer dizer, neste dia ele chegou diferente, não maldisse (ou “xingou” mesmo) a vida tanto e convidou-a pra rodar.
“Convidou-a pra rodar” eu gosto muito, poeta, deixa ficar. Rodar que é dar um passeio e é dançar. Depois eu acho que, se ele já for convidando a coitada para amar, perde-se o suspense do vestido no armário e a tesão da trepada final. “Pra seu grande espanto”, você tem razão, é melhor que “para seu espanto”. [...]
*Apesar do Orestes (vestido de dourado é lindo), eu gosto muito do som do vestido decotado. É gostoso de cantar vestido decotado. [...] E eu também gosto do decotado ligado ao “ousar” que ela não queria por causa do marido chato e quadrado. [...]
Você está certo quanto ao “o mundo” em vez de “a gente”. Ah, voltando à estrofe anterior, gostei do último verso onde você diz “e cheios de ternura e graça” em vez de “e foram-se cheios de graça”. Agora, estou pensando em retomar uma ideia anterior, quando eu pensava em colocá-los em estado de graça. Aproveitando a sua ternura, poderíamos fazer “Em estado de ternura e graça foram para a praça e começaram a se abraçar”.[...]

Um dia ele chegou tão diferente do seu jeito de sempre chegar
Olhou-a dum jeito muito mais quente do que sempre costumava olhar
E não maldisse a vida tanto quanto era seu jeito de sempre falar
E nem deixou-a só num canto, pra seu grande espanto convidou-a pra rodar
Então ela se fez bonita como há muito tempo não queria ousar
Com seu vestido decotado cheirando a guardado de tanto esperar
Depois os dois deram-se os braços como há muito tempo não se usava dar
E cheios de ternura e graça foram para a praça e começaram a se abraçar
E ali dançaram tanta dança que a vizinhança toda despertou
E foi tanta felicidade que toda a cidade enfim se iluminou
E foram tantos beijos loucos
Tantos gritos roucos como não se ouvia mais
Que o mundo compreendeu
E o dia amanheceu
Em paz.
[Fonte: Hora do Povo. Disponível em: http://rizzolot.wordpress.com/2007/05/18/chico-buarque-e-vinicius-de-moraes-da-arte-de-escolher-e-lapidar-palavras.]

Para ouvir
Então, leitor, o que achou das modificações pós-parceria? Se pensa como eu, deve ter chegado à conclusão de que o trabalho conjunto valeu, sim, a pena – pois resultou em canção particularmente sensível.
Convido-o a ouvi-la (e penso que não será sua primeira vez).


sábado, 16 de agosto de 2014

Onde fica o prazer de escrever?


Escrever é... lutar?!
Escrever... Quantas vezes tenho de refazer um texto, até que saia do jeito que eu quero! Mesmo assim, depois de alguns dias de tê-lo considerado acabado, sempre que o releio, vejo que aqui deveria ter usado outra palavra, deveria ter sido mais explícita...
Gerar um texto não é fácil. Estudantes, professores, teóricos, literatos, profissionais de qualquer cargo e área sabem de que estou falando. Sobretudo, o estudante: a esse, quando vê a magia de uma obra acabada e publicada, com tudo no lugar, deve parecer que não há dor ou suor na escrita. E que escrever, rasurar, corrigir, refazer é só para ele, pequeno aprendiz que nunca chegará a ser mago ou feiticeiro...
É que, como a maioria dos leitores, o principiante, geralmente, não conhece o processo de criação e apenas tem acesso a produtos acabados, ou seja, a textos finalizadíssimos, de escritores já “prontos” e consagrados. Assim, é difícil convencer-se de que também chegará lá. No entanto: “Qual autor, por mais vivido e gabaritado, nunca ‘escorregou na Gramática’? Onde estão esses originais que não chegam ao público ou aos livros didáticos? Não seria mais coerente mostrar que, se até os renomados escritores são passíveis de “erros” gramaticais, de coesão, de coerência, temos que trabalhar para que nossos textos estejam cada vez mais sedutores em todos os aspectos?1
Ocorre que escrever – escrever, mesmo – não é “escrever e ponto”. É reescrever, reescrever, reescrever. É processo de geração de embrião, depois nascimento, crescimento, desenvolvimento, passo a passo.
Isso pode doer, sim, pois os bons resultados demoram, como nos ensina o poema de Drummond (reparem, principalmente, nos trechos em destaque): 

O Lutador 2

Lutar com palavras
é a luta mais vã.
Entanto lutamos
mal rompe a manhã.
São muitas, eu pouco.
Algumas, tão fortes
como o javali.
Não me julgo louco.
Se o fosse, teria
poder de encantá-las.
Mas lúcido e frio,
apareço e tento
apanhar algumas
para meu sustento num dia de vida.
Deixam-se enlaçar,
tontas à carícia
e súbito fogem
e não há ameaça
e nem há sevícia
que as traga de novo
ao centro da praça.

Insisto, solerte.
Busco persuadi-las.
Ser-lhes-ei escravo
de rara humildade.
Guardarei sigilo
de nosso comércio.
Na voz, nenhum travo
de zanga ou desgosto.
Sem me ouvir deslizam,
perpassam levíssimas
e viram-me o rosto.
Lutar com palavras
parece sem fruto.
Não têm carne e sangue…
Entretanto, luto.

Palavra, palavra
(digo exasperado),
se me desafias,
aceito o combate.
Quisera possuir-te
neste descampado,
sem roteiro de unha
ou marca de dente
nessa pele clara.
Preferes o amor
de uma posse impura
e que venha o gozo
da maior tortura.

Luto corpo a corpo,
luto todo o tempo,
sem maior proveito
que o da caça ao vento.
Não encontro vestes,
não seguro formas,
é fluido inimigo
que me dobra os músculos
e ri-se das normas
da boa peleja.
[...]

Até aqui, pelo menos, podemos concluir: escrever é “lutar com palavras”. Portanto, escrever é... trabalho. Qual? E como?
1 MARTINS, Isa Ferreira. Afinal, o que é um texto? Uma pergunta para a discussão sobre o ensino da produção textual. Disponível em: www.filologia.org.br/xvi_cnlf/min_ofic/04.pdf
2 ANDRADE, Carlos Drummond de. In José. Reunião – 10 livros de poesia. Rio de Janeiro: José Olympio, 1974.




 Afinal: trabalho ou prazer?
Leitor, se você leu as crônicas de Rubem Braga e Carlos Drummond de Andrade, registradas na matéria anterior (05/08/2014 Quando o escrever é obrigação), deve ter percebido o “charminho” de quem, sob a máscara do fastio em escrever, joga criativamente com ideias e palavras, elaborando um belo texto. Eu diria que tanto um quanto o outro se comprazem em brincar com o interlocutor, fingindo não ter nem o quê, nem por que dizer, mas elegendo seu próprio ofício como seu assunto, sua razão de elaborar o texto – e de escolher cuidadosamente as palavras e proceder a quantas revisões se façam necessárias (alguém duvida?). Desse modo, fogem do escrever... escrevendo.
É bom não esquecer que o “escrever por escrever” não existe, mesmo quando se trata do texto que permanece “secreto” (diário, confissão pessoal, etc.): condição básica da escrita é a intenção de quem escreve de se dirigir a um interlocutor, verbalizando algo que tem a dizer. Ora, o “ter o que dizer” implica ao escrevente a contínua tarefa de revisar seu repertório de conhecimentos vivenciais, textuais e linguísticos, para selecionar ideias e modos de falar/escrever mais adequados ao que deseja/precisa dizer:
“... O fluir do pensamento e da escrita não é mero impulso mágico, mas movimento possível, por solicitar e promover algo bem real: o repertório individual, as percepções e memórias, enfim, o conhecimento de mundo de cada um. (Ver matéria de 05/12/2013, Escrever começa antes do escrever.)
Selecionadas e organizadas as ideias, encontrada a estrutura formal mais adequada e as palavras mais significativas, eis o primeiro texto, possivelmente não muito satisfatório.
Então, é imprescindível ler o que se escreveu, buscando a perspectiva do leitor e o rigor do crítico, para, em seguida, revisar, modificar, reescrever, reescrever, reescrever. Trabalho árduo, não?
Contudo, em O Lutador, registrado acima, o eu poético entrelaça dor e prazer: “que venha o gozo/da maior tortura” – o que me faz voltar à pergunta-título: onde fica o prazer? Porque, convenhamos: quando o escrever não é exatamente opção, mas obrigação e, até, “tortura”, o prazer pode existir? Onde? Como?

O prazer em relação ao produto e ao processo
Os objetivos, frequentemente, dão forças ao indivíduo para realizar coisas difíceis. A construção da casa própria, a execução de uma obra musical, a pintura de um quadro, o alcance de um recorde esportivo e tantos outros desejos requerem planejamento, sacrifício, suor; mas a visão do fim almejado – do produto conquistado – dá o alento necessário para ir cada vez mais longe.
Se o trabalho é compensado pelo êxito final, os degraus intermediários, por mais que sejam atribulados, podem ser, por seu lado, igualmente prazerosos: a escolha dos materiais para a nova casa, a busca da melhor sonoridade para a música, da cor adequada para a cena retratada, do movimento perfeito no esporte; as repetições e correções intermináveis de ações são aceitas e bem-vindas, porque se referem a algo que faz sentido e que é desejado pelo sujeito.
Assim é com o texto. Aceita-se o esforço da escrita, muitas vezes, apenas como caminho para se alcançar outro objetivo (a carta de motorista, o emprego, a conquista de um amor, o convencimento do júri, o desabafo de uma emoção, a finalização do curso). Em contrapartida, se quem escreve toma consciência do significado pessoal e social, do potencial transformador do texto, enquanto ação posta em palavras, cresce-lhe o desejo de aprendizagem e aperfeiçoamento, move-o o prazer do desafio a si próprio, em busca da expressão linguística autônoma.
É a descoberta do “trabalho prazeroso, porque produtivo e criativo”3 – o mesmo que emerge entre os múltiplos e preciosos significados de outro poema de Drummond, O Elefante, no qual o leitor pode apreciar a imersão do criador em sua criação e a relação de afetividade que daí resulta, pois a obra (o texto, no caso) faz-se objeto palpável de realização, expressão e comunicação com os outros homens.
A seguir, trechos do poema, com alguns comentários indicadores.


O Elefante 4

[O eu poético começa sua construção, consciente de seu parco material e limitada técnica:]
Fabrico um elefante
de meus poucos recursos.
Um tanto de madeira
tirado a velhos móveis
talvez lhe dê apoio.
E o encho de algodão,
de paina, de doçura.
A cola vai fixar
suas orelhas pensas.
A tromba se enovela,
é a parte mais feliz
de sua arquitetura.
Mas há também as presas,
dessa matéria pura
que não sei figurar.

[“Mambembe”, talvez, mas autêntico, verdadeiro, correspondente à verdade de quem o fabrica:]
Tão alva essa riqueza
a espojar-se nos circos
sem perda ou corrupção.
E há por fim os olhos,
onde se deposita
a parte do elefante
mais fluida e permanente,
alheia a toda fraude.

[A intenção é chegar ao outro e transformá-lo, com sua mensagem de verdade e amorosidade:]
Eis o meu pobre elefante
pronto para sair
à procura de amigos
num mundo enfastiado
que já não crê em bichos
e duvida das coisas.
Ei-lo, massa imponente
e frágil, que se abana
e move lentamente
a pele costurada
onde há flores de pano
e nuvens, alusões
a um mundo mais poético
onde o amor reagrupa
as formas naturais.

Vai o meu elefante
pela rua povoada,
mas não o querem ver
nem mesmo para rir
da cauda que ameaça
deixá-lo ir sozinho.
É todo graça, embora
as pernas não ajudem
e seu ventre balofo
se arrisque a desabar
ao mais leve empurrão.

[O objetivo nem sempre é alcançado, mas, em vez de frustração, o que move o eu poético é o sentimento de persistir, sempre:]
E já tarde da noite
volta meu elefante,
mas volta fatigado,
as patas vacilantes
se desmancham no pó.
Ele não encontrou
o de que carecia,
o de que carecemos,
eu e meu elefante,
em que amo disfarçar-me.
Exausto de pesquisa,
caiu-lhe o vasto engenho
como simples papel.
A cola se dissolve
e todo o seu conteúdo
de perdão, de carícia,
de pluma, de algodão,
jorra sobre o tapete,
qual mito desmontado.
Amanhã recomeço.

3 PASSARELLI, Lílian Ghiuro. Ensino e correção na produção de textos escolares. São Paulo: Cortez, 2012.
4 ANDRADE, Carlos Drummond de. In A Rosa do povo. Reunião – 10 livros de poesia. Rio de Janeiro: José Olympio, 1974.]

domingo, 10 de agosto de 2014

Pais, ora essa...


A palavra denuncia, a palavra revela, a palavra faz ver cantos escondidos de nossa alma. Eu já disse isso, não?
Claro que sim, algumas vezes. Em uma delas, tomei, até, o testemunho de Todorov¹, para validar minha afirmação de que o texto (oral ou escrito; verbal ou não verbal, não importa) tem o condão de levar-nos à autoconsciência.
Retomo a ideia, nesta ocasião em que a sociedade comemora o Dia dos Pais. Não fique o leitor preocupado, pois não pretendo discutir origens e propósitos de datas “comemorativas/familiares”, cada vez mais numerosas. Meu intento é tão somente revisitar alguns de nossos cronistas, para flagrar o que seus textos ficcionais desnudam da real, doce e trabalhosa missão de ser pai: será possível os papais se reconhecerem ou se descobrirem neles?
Minha leitura e escolha para registro recaiu em três crônicas bem-humoradas, que apontam dificuldades de relacionamento, sem dúvida; mas, ao mesmo tempo, deixam claro o afeto e o cuidado inerentes à paternidade.
¹ “... não posso dispensar as palavras dos poetas, as narrativas dos romancistas. Elas me permitem dar forma aos pensamentos que experimento, ordenar o fluxo de pequenos eventos que constituem minha vida.” TODOROV, Tzvetan. A literatura em perigo. Rio de Janeiro: DIFEL, 2009.

  
Carlos Drummond de Andrade
Em Drummond, o prazer e o relaxamento do lazer familiar ficam ameaçados, quando a filha resolve fazer valer sua vontade. O diálogo divertido e o narrador avaliador conduzem o enredo com um sabor especial, rumo ao desfecho inesperado... pelo menos para o pai. 
No restaurante
– Quero lasanha.
Aquele anteprojeto de mulher – quatro anos, no máximo, desabrochando na ultraminissaia – entrou decidido no restaurante. Não precisava de menu, não precisava de mesa, não precisava de nada. Sabia perfeitamente o que queria. Queria lasanha.
O pai, que mal acabara de estacionar o carro em uma vaga de milagre, apareceu para dirigir a operação-jantar, que é, ou era, da competência dos senhores pais.
– Meu bem, venha cá.
– Quero lasanha.
– Escute aqui, querida. Primeiro escolhe-se a mesa.
– Não, já escolhi. Lasanha.
Que parada – lia-se na cara do pai. Relutante, a garotinha condescendeu em sentar-se primeiro, e depois encomendar o prato:
– Vou querer lasanha.
– Filhinha, por que não pedimos camarão? Você gosta tanto de camarão.
– Gosto, mas quero lasanha.
– Eu sei, eu sei que você adora camarão. A gente pede uma fritada bem bacana de camarão. Tá?
– Quero lasanha, papai. Não quero camarão.
– Vamos fazer uma coisa. Depois do camarão a gente traça uma lasanha. Que tal?
– Você come camarão e eu como lasanha.
O garçom aproximou-se, e ela foi logo instruindo:
— Quero uma lasanha.
O pai corrigiu:
– Traga uma fritada pra dois. Caprichada.
A coisinha amuou. Então não podia querer? Queriam querer em nome dela? Porque é proibido comer lasanha? Essas interrogações também se liam no seu rosto, pois os lábios mantinham reserva. Quando o garçom voltou com os pratos e o serviço, ela atacou:
– Moço, tem lasanha?
– Perfeitamente, senhorita.
O pai, no contra-ataque:
– O senhor providenciou a fritada?
– Já, sim, doutor.
– De camarões bem grandes?
– Daqueles legais, doutor.
– Bem, então me vê um chinite, e pra ela... O que é que você quer, meu anjo?
– Uma lasanha.
– Traz um suco de laranja pra ela.
Com o chopinho e o suco de laranja, veio a famosa fritada de camarão, que, para surpresa do restaurante inteiro, interessado no desenrolar dos acontecimentos, não foi recusada pela senhorita. Ao contrário, papou-a, e bem. A silenciosa manducação atestava, ainda uma vez, no mundo a vitória do mais forte.
– Estava uma coisa, hem? – comentou o pai, com um sorriso bem alimentado. – Sábado que vem a gente repete... Combinado?
– Agora a lasanha, não é, papai?
– Eu estou satisfeito. Uns camarões tão geniais! Mas você quer comer mesmo?
– Eu e você, tá?
– Meu amor, eu...
– Tem de me acompanhar, ouviu? Pede a lasanha.
O pai baixou a cabeça, chamou o garçom, pediu. Aí, um casal, na mesa vizinha, bateu palmas. O resto da sala acompanhou. O pai não sabia onde se meter. A garotinha, impassível. Se, na conjuntura, o poder jovem cambaleia, vem aí, com força total, o poder ultrajovem.
ANDRADE, Carlos Drummond de. Para gostar de ler - Vol. 1. São Paulo: Ática, 1999. 


Fernando Sabino
Embora a crônica de Sabino seja do tempo da máquina de escrever e do um cruzeiro, qualquer pai reconheceria, na vida agitada de hoje em dia, duas situações bem atuais ali expostas, ou seja, o frequentemente obrigatório trabalho profissional no próprio lar e a coparticipação no cuidado dos filhos. O cronista mostra o resultado, quando as duas tarefas se sobrepõem: a atenção dividida do pai e a obstinação própria da criança enredam-se, assim, para construir uma narrativa com leves toques de ironia e boa dose de ternura. 
A fuga
Mal o pai colocou o papel na máquina, o menino começou a empurrar uma cadeira pela sala, fazendo um barulho infernal.
– Para com esse barulho, meu filho – falou, sem se voltar.
Com três anos já sabia reagir como homem ao impacto das grandes injustiças paternas: não estava fazendo barulho, estava só empurrando uma cadeira.
– Pois então para de empurrar a cadeira.
– Eu vou embora – foi a resposta.
Distraído, o pai não reparou que ele juntava ação às palavras, no ato de juntar do chão suas coisinhas, enrolando-as num pedaço de pano. Era a sua bagagem: um caminhão de plástico com apenas três rodas, um resto de biscoito, uma chave (onde diabo meteram a chave da despensa – a mãe mais tarde irá dizer), metade de uma tesourinha enferrujada, sua única arma para a grande aventura, um botão amarrado num barbante.
A calma que baixou então na sala era vagamente inquietante. De repente, o pai olhou ao redor e não viu o menino. Deu com a porta da rua aberta, correu até o portão:
– Viu um menino saindo desta casa? – gritou para o operário que descansava diante da obra do outro lado da rua, sentado no meio-fio.
– Saiu agora mesmo com uma trouxinha – informou ele.
Correu até a esquina e teve tempo de vê-lo ao longe, caminhando cabisbaixo ao longo do muro. A trouxa, arrastada no chão, ia deixando pelo caminho alguns de seus pertences: o botão, o pedaço de biscoito e – saíra de casa prevenido – uma moeda de 1 cruzeiro. Chamou-o, mas ele apertou o passinho, abriu a correr em direção à Avenida, como disposto a atirar-se diante do ônibus que surgia à distância.
– Meu filho, cuidado!
 O ônibus deu uma freada brusca, uma guinada para a esquerda, os pneus cantaram no asfalto. O menino, assustado, arrepiou carreira. O pai precipitou-se e o arrebanhou com o braço como a um animalzinho:
– Que susto você me passou, meu filho – e apertava-o contra o peito, comovido.
– Deixa eu descer, papai. Você está me machucando.
Irresoluto, o pai pensava agora se não seria o caso de lhe dar umas palmadas:
– Machucando, é? Fazer uma coisa dessas com seu pai.
– Me larga. Eu quero ir embora.
Trouxe-o para casa e o largou novamente na sala – tendo antes o cuidado de fechar a porta da rua e retirar a chave, como ele fizera com a da despensa.
– Fique aí quietinho, está ouvindo? Papai está trabalhando.
– Fico, mas vou empurrar esta cadeira.  E o barulho recomeçou.
SABINO, Fernando. Quadrante 1. Rio de Janeiro, Ed. do Autor, 1968. 


Luís Fernando Veríssimo
No texto de Veríssimo, o conflito de gerações estabelece-se em forma de diálogo “pano rápido”, e o narrador limita-se à irônica avaliação final. Nós, leitores contemporâneos do cronista, logicamente, reconstruímos o sentido com base em nosso conhecimento de mundo (o que não aconteceria com leitores de culturas ou tempos muito diferentes deste espaço e tempo). 
Pai não entende nada
– Um biquíni novo?
– É, pai.
– Você comprou um no ano passado!
– Não serve mais, pai. Eu cresci.
– Como não serve? No ano passado você tinha 14 anos, este ano tem 15. Não cresceu tanto assim.
– Não serve, pai.
– Está bem, está bem. Toma o dinheiro. Compra um biquíni maior.
– Maior não, pai. Menor.
Aquele pai, também, não entendia nada.
Veríssimo, Luis Fernando. Festa de criança. São Paulo: Ática, 2000. 

Leitor, talvez pai...
...Ou, quem sabe, filho/filha: as leituras suscitaram alguma imagem ou recordação de relações paternas?
Em caso positivo, que tal seguir o exemplo de nossos escritores e pôr sua experiência no papel?
Eu lhe desejo boa “aventura escritora”!

terça-feira, 5 de agosto de 2014

Quando o escrever é obrigação

 

Desta obrigação ninguém foge
Nunca é demais repetir: para o homem que vive em meio letrado, escrever é uma necessidade. Necessidade pessoal (permite organizar emoções, sentimentos e a vida prática); necessidade social (é forma de atuação e de inclusão). Nas grandes cidades, por exemplo, não há como fugir da escrita – em repartições públicas, serviços de saúde e, mesmo, na profissão –, o que envolve desde preencher guias, tabelas e documentos, repetindo fórmulas de textos padronizados, até usar de lógica para organizar bons argumentos em textos mais elaborados, ou fazer fluir a imaginação em textos ficcionais.
Escrever, porque a profissão principal exige ou porque a ocupação/evento do momento demanda, ah!, pode ser tormento, tortura; pode causar irritação, desconforto...
O profissional-cronista Rubem Braga exprime tal situação de modo contundente, em crônica deliciosamente... mal-humorada. Vamos ler?

Ao respeitável público
Chegou meu dia. Todo cronista tem seu dia em que, não tendo nada a escrever, fala da falta de assunto. Chegou meu dia. Que bela tarde para não se escrever!
Esse calor que arrasa tudo; esse Carnaval que está perto, que vem aí no fim da semana; esses jornais lidos e relidos na minha mesa, sem nada interessante; esse cigarro que fumo sem prazer; essas cartas na gaveta onde ninguém me conta nada que possa me fazer mal ou bem; essa perspectiva morna do dia de amanhã; essa lembrança aborrecida do dia de ontem; outra vez, e sempre, esse calor, esse calor, esse calor...
Portanto, meu distinto leitor, minha encantadora leitora, queiram ter a fineza de retirar os olhos desta coluna. Não leiam mais. Fiquem sabendo que eu secretamente os odeio a todos; que vocês todos são pessoas aborrecidas e irritantes; que eu desejo sinceramente que todos tenham um péssimo Carnaval, uma horrível quaresma, um infelicíssimo ano de 1934, uma vida toda atrapalhada, uma morte estúpida! Aproveitem este meu momento de sinceridade e não se iludam com o que eu disser amanhã ou depois, com a minha habitual falta de vergonha. Saibam que o desejo mais sagrado que tenho no peito é mandar vocês todos simplesmente às favas, sem delicadeza nenhuma.
Por que ousam gostar ou aborrecer o que escrevo? O que têm comigo? Acaso me conhecem, sabem alguma coisa de meus problemas, de minha vida? Então, pelo amor de Deus, desapareçam desta coluna. Este jornal tem dezenas de milhares de leitoras; por que é que, no meio de tanta gente, vocês, e só vocês, resolveram ler o que escrevo? O jornal é grande, senhorita, é imenso, cavalheiro, tem crimes, tem esporte, tem política, tem cinema, tem uma infinidade de coisas. Aqui nesta coluna, eu nunca lhes direi nada, mas nada de nada, que sirva para o que quer que seja. E não direi, porque não interessa; porque vocês não me agradam; porque eu os detesto.
Portanto, se a senhorita é bastante teimosa, se o cavalheiro é bastante cabeçudo para me ter lido até aqui, pensem um pouco, sejam bem-educados e deem o fora. Eu faço votos para que todos vocês amanheçam amanhã atacados de febre amarela ou de tifo exantemático. Se houvesse micróbios que eu pudesse lhes transmitir assim, através do Jornal, pelos olhos, fiquem sabendo que hoje eu lhes mandaria as piores doenças: tracoma, por exemplo.
Mas ainda insistem? Ah, se eu pudesse escrever aqui alguns insultos e adjetivos que tenho no bico da pena! Eu lhes garanto que não são palavras nada amáveis: são dessas que ofendem toda a família. Mas não posso e não devo. Eu tenho de suportar vocês diariamente, sem descanso e sem remédio. Vocês podem virar a página, podem fugir de mim quando entenderem. Eu tenho de estar aqui todo dia, exposto à curiosidade estúpida ou à indiferença humilhante de dezenas de milhares de pessoas.
Fiquem sabendo que eu hoje tinha assunto e os recusei todos. Eu poderia, se quisesse, neste momento, escrever duzentas crônicas engraçadinhas ou tristes, boas ou imbecis, úteis ou inúteis, interessantes ou cacetes. Assunto não falta, porque eu me acostumei a aproveitar qualquer assunto. Mas eu quero hoje precisamente falar claro a vocês todos. Eu quero, pelo menos hoje, dizer o que sinto todo dia: dizer que, se eu os aborreço, vocês me aborrecem terrivelmente mais.
Amanhã eu posso voltar bonzinho, manso, jeitoso, posso falar bem de todo mundo, até do governo, até da polícia. Saibam, desde já, que eu farei isto porque sou cretino por profissão; mas que com todas as forças da alma eu desejo que vocês todos morram de erisipela ou de peste bubônica.
Até amanhã. Passem mal.
Texto publicado no Diário de São Paulo, em 1934. Disponível em: <http://www.almacarioca.net/ao-respeitavel-publico/>. Acesso em: 14 nov. 2007.





Ai, a necessidade...
...Eu diria mais: a inevitabilidade. O cronista sabe disso; por isso, despede-se com um “até amanhã” e nova pitadinha de mau humor (“passem mal”). Se é assim, onde fica o desejado e desejável “prazer da escrita”?
Eu própria, em várias matérias, pleiteei sua existência: “O ideal, claro, é conquistar uma escrita de tal modo competente e realizadora que, mesmo quando obrigatória, proporcione prazer a quem escreve... e a quem lê.” (15 de outubro de 2013: É possível aprender a escrever?)
Leitor, a tentação de pôr mais alguns grilos em sua cabeça faz-me registrar, ainda, uma crônica de Drummond que não apenas aponta o enfado do (supostamente feliz) criador, como também destrói a própria necessidade do escrever (“Sua escrita – por hipótese – transforma a cara das coisas, há capítulos da História devidos à sua maneira de ajuntar substantivos, adjetivos, verbos?”). A minha ideia é acrescentar, às suas reflexões, outro viés crítico sobre a tarefa de escrever, para depois retomar a questão: pode a escrita ser, além de trabalho, também prazer?

Hoje não escrevo
Chega um dia de falta de assunto. Ou, mais propriamente, de falta de apetite para os milhares de assuntos.
Escrever é triste. Impede a conjugação de tantos outros verbos. Os dedos sobre o teclado, as letras se reunindo com maior ou menor velocidade, mas com igual indiferença pelo que vão dizendo, enquanto lá fora a vida estoura não só em bombas como também em dádivas de toda natureza, inclusive a simples claridade da hora, vedada a você, que está de olho na maquininha. O mundo deixa de ser realidade quente para se reduzir a marginália, purê de palavras, reflexos no espelho (infiel) do dicionário.
O que você perde em viver, escrevinhando sobre a vida. Não apenas o sol, mas tudo que ele ilumina. Tudo que se faz sem você, porque com você não é possível contar. Você esperando que os outros vivam para depois comentá-los com a maior cara de pau (“com isenção de largo espectro”, como diria a bula, se seus escritos fossem produtos medicinais). Selecionando os retalhos de vida dos outros, para objeto de sua divagação descompromissada. Sereno. Superior. Divino. Sim, como se fosse deus, rei proprietário do universo, que escolhe para o seu jantar de notícias um terremoto, uma revolução, um adultério grego – às vezes nem isso, porque no painel imenso você escolhe só um besouro em campanha para verrumar a madeira. Sim, senhor, que importância a sua: sentado aí, camisa aberta, sandálias, ar condicionado, cafezinho, dando sua opinião sobre a angústia, a revolta, o ridículo, a maluquice dos homens. Esquecido de que é um deles.
Ah, você participa com palavras? Sua escrita – por hipótese – transforma a cara das coisas, há capítulos da História devidos à sua maneira de ajuntar substantivos, adjetivos, verbos? Mas foram os outros, crédulos, sugestionáveis, que fizeram o acontecimento. Isso de escrever O Capital é uma coisa, derrubar as estruturas, na raça, é outra. E nem sequer você escreveu O Capital. Não é todos os dias que se mete uma ideia na cabeça do próximo, por via gramatical. E a regra situa no mesmo saco escrever e abster-se. Vazio, antes e depois da operação.
Claro, você aprovou as valentes ações dos outros, sem se dar ao incômodo de praticá-las. Desaprovou as ações nefandas, e dispensou-se de corrigir-lhe os efeitos. Assim é fácil manter a consciência limpa. Eu queria ver sua consciência faiscando de limpeza é na ação, que costuma sujar os dedos e mais alguma coisa. Ao passo que, em sua protegida pessoa, eles apenas se tisnam quando é hora de mudar a fita no carretel.
E então vem o tédio. De Senhor dos Assuntos, passar a espectador enfastiado de espetáculo. Tantos fatos simultâneos e entrechocantes, o absurdo promovido a regra de jogo, excesso de vibração, dificuldade em abranger a cena com o simples par de olhos e uma fatigada atenção. Tudo se repete na linha do imprevisto, pois ao imprevisto sucede outro, num mecanismo de monotonia... explosiva. Na hora ingrata de escrever, como optar entre as variedades de insólito? E que dizer, que não seja invalidado pelo acontecimento de logo mais, ou de agora mesmo? Que sentir ou ruminar, se não nos concedem tempo para isso entre dois acontecimentos que desabam como meteoritos sobre a mesa? Nem sequer você pode lamentar-se pela incomodidade profissional. Não é redator de boletim político, não é comentarista internacional, colunista especializado, não precisa esgotar os temas, ver mais longe do que o comum, manter-se afiado como a boa peixeira pernambucana. Você é o marginal ameno, sem responsabilidade na instrução ou orientação do público, não há razão para aborrecer-se com os fatos e a leve obrigação de confeitá-los ou temperá-los à sua maneira. Que é isso, rapaz. Entretanto, aí está você, casmurro e indisposto para a tarefa de encher o papel de sinaizinhos pretos. Concluiu que não há assunto, quer dizer: que não há para você, porque ao assunto deve corresponder certo número de sinaizinhos, e você não sabe ir além disso, não corta de verdade a barriga da vida, não revolve os intestinos da vida, fica em sua cadeira, assuntando, assuntando...
Então hoje não tem crônica.
ANDRADE, Carlos Drummond de. O poder ultrajovem e mais 79 textos em prosa e verso. Rio de janeiro: J. Olympio, 1975.


Voltando à questão...
Afinal, pode-se encontrar satisfação em algo que se pratica “queira ou não queira”? Bem, tentarei responder a isso; porém... na próxima matéria. Por enquanto, sigo (apenas em parte) Rubem Braga, despedindo-me:
Até a próxima. E passem... muito, muito bem.