terça-feira, 3 de junho de 2014

Encantamento na aprendizagem


Já disse e repito: procuro ancorar minhas propostas para o ensino e a aprendizagem de Língua Materna no quadro mais amplo da Educação Integral, que envolve, além da interdisciplinaridade, pelo menos e necessariamente: o aluno, o professor, a comunidade escolar e a família.
Nesse contexto, alimento-me de experiências e ideias de outros Educadores, pois isso me leva a repensar ou aprofundar conceitos, ampliar perspectivas e manter-me em aprendizado constante. Aliás, a circulação desses importantes saberes é essencial para que a discussão sobre a missão educativa se amplie e possa alcançar toda a sociedade.
É com esse intuito que transcrevo, hoje, o texto de Lilian Silva, professora de História e Filosofia e, mais que tudo, mestra de atuação formadora e transformadora.
  


Hermenêutica & encantamento
Quando eu era menina, ouvia meu pai – que eu achava um gênio! – falar da “Teoria da Hermenêutica”
, a cada vez que desejava se furtar de me dar explicações sobre o sem-número de perguntas que eu lhe fazia.
Um dia, farta da minha ignorância e de ter que engolir a dúvida, para não me expor ainda mais à humilhação (meu pai não era fácil e não perdoava minha ignorância...), superei o comodismo e fui atrás do famoso “pai dos burros” que, aliás, em casa, não era guardado nem na estante; ficava à mão, sobre a geladeira, à guisa de pinguim, porque era, normalmente, às refeições, que papeávamos e quando apareciam as dúvidas. Estava lá (segundo Houaiss): “1. ciência, técnica que tem por objeto a interpretação de textos religiosos ou filosóficos; 2. interpretação dos textos, do sentido das palavras; 3. teoria, ciência voltada à interpretação dos signos e de seu valor simbólico”. Reza a tradição que a etimologia remonta à mitologia grega, uma vez que Hermes “traduzia” as mensagens dos deuses do Olimpo aos seres humanos. Bem, nada tão complicado, claro! E meu pai parou de me enrolar para não responder ao que eu perguntava.
Porém, a história não acaba aqui. Ao enveredar para a Educação, o termo tomou novos significados para mim... O professor, concluí, nada mais é do que um especialista em hermenêutica. E eu tenho pensado muito nisso...
Os professores estudam, pesquisam, se informam, relacionam as informações, gerando conhecimento e, tradicionalmente, teriam que “transmitir” isso aos alunos. E de um jeito digerível à faixa etária do educando. Hermenêutica? Claro! “Traduzimos” os saberes acumulados e produzidos em determinada área e os proporcionamos, mais organizados, mais adaptados, mais convidativos, aos alunos.
E só?? Não. Aí é que a tal hermenêutica me faz pensar. É insuficiente “traduzir” e adaptar as formas de apresentar as informações, conceitos, saberes. A hermenêutica exercida pelo professor é mais árdua, complexa e envolvente do que a do próprio Hermes, afinal, que mortal não se interessaria pelas mensagens dos deuses? Já alunos... E disciplinas escolares não vêm com o mesmo chamado à curiosidade natural que provocam as falas divinas. O professor precisa, de alguma forma, encantar os alunos para que eles se interessem pela “mensagem”. E isso dá um trabalhão.
Não basta mostrar como é legal entender o que houve no passado que explica nosso presente, não basta expor as palavras e como elas se relacionam, como os números são encantadores, como funcionam os ciclos da natureza, como a Terra se formou e como os seres humanos dela se apoderaram... Não basta colocar o conhecimento “traduzido” frente aos olhos dos alunos. É necessário cuidar desses olhos.
A hermenêutica da prática do professor inclui, também, ensinar o aluno a pensar, provocando sua curiosidade. É necessário, ainda, incentivar a fome de aprender. Instigar, problematizar, questionar, incentivar a imaginação. Abrir os olhos... Aprender é dolorido e trabalhoso. Há que se abrir mão de uma verdade-provisória e assumir o “eu não sei”. Só assim, o aprendente está pronto para a novidade. Assumir a própria ignorância – essencial para a vinda de novos saberes -, sem grandes dramas, pode também ser ensinado.
Como tudo isso???? Pela forma mais eficiente – se não a única – de educar: pelo exemplo. Para que os alunos vivenciem a aprendizagem, é necessário que haja uma relação dialógica entre professor e aluno, na qual os conhecimentos são recíprocos. Sendo assim, é preciso que se entenda a sala de aula como um espaço de relações entre os sujeitos – principalmente!!!! –, objetos, vivências, saberes e símbolos.
Um professor burocrático, sem entusiasmo por aprender, pela vida, sem olhos curiosos sobre o mundo e os conhecimentos, sobre seus alunos e sua prática, terá muita dificuldade em provocar nos estudantes a fome de aprender.
E a hermenêutica? Aplicando o vocábulo à Educação, é complexa, porque é via de duas mãos: o professor deve ter por objetivo tornar seu aluno uma pessoa melhor. Reciprocamente, o aluno faz exatamente a mesma coisa com o professor... É muito mais do que tradução, no caso da Educação. É vivência!
[Lilian Silva, em 16/05/2014]

Coda
Permitam-me acrescentar apenas um pensamento ao último parágrafo da sensível educadora: o que se passa idealmente entre aluno e professor é vivência, sim; e é, em última análise, a saudável cooperação para instaurar a tão almejada autoria: na convivência, na aprendizagem, na vida.

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