segunda-feira, 5 de maio de 2014

O velho eterno: Quintana



Em 5 de maio (1994), faleceu Mario Quintana. Para relembrá-lo, escolhi poemas nos quais o eu lírico volta-se para o próprio universo poético.
A partir dessa visão, e a ela acrescentando o sentido do tempo e espaço em que vivemos, nós, leitores, podemos concretizar e atualizar o olhar abrangente desse poeta de fala simples e lúcida. Nossa leitura, certamente, irá comprovar o quanto o “velho poeta” permanece presente e eterno; e poderá revelar os muitos significados das palavras do poeta.
Aos textos.

Velho poeta? Velha poesia?
Nos poemas a seguir, a poesia assume a tarefa de ressignificar e perenizar o habitual, o cotidiano, o nada, deixando um “gosto de nunca e de sempre”. A eternidade, assim, alcança o poema e se estende ao “velho poeta”. Notem a valoração de elementos desimportantes ao olhar desatento: alguns, como os grilos, têm pistas razoavelmente claras; outros, como o cavalo, o jornal, o lápis verde, o retrato, o ovo de costura, adquirem nitidez mediante ligações feitas a cada nova leitura.

Ah, sim, a velha poesia
Poesia, a minha velha amiga...
eu entrego-lhe tudo
a que os outros não dão importância nenhuma...
a saber:
o silêncio dos velhos corredores
uma esquina
uma lua
(porque há muitas, muitas luas...)
o primeiro olhar daquela primeira namorada
que ainda ilumina, ó alma,
como uma tênue luz de lamparina,
a tua câmara de horrores.
E os grilos?
Não estão ouvindo lá fora os grilos?
Sim, os grilos...
Os grilos são os poetas mortos.

Entrego-lhe grilos aos milhões, um lápis verde
 um retrato
amarelecido, um velho ovo de costura,
os teus pecados, as
reivindicações, as explicações – menos
o dar de ombros e os risos contidos
mas
todas as lágrimas que o orgulho estancou na fonte
as explosões de cólera
o ranger dos dentes
as alegrias agudas até o grito
a dança dos ossos...

Pois bem,
às vezes
de tudo quanto lhe entrego, a Poesia faz uma coisa que
parece nada tem a ver com os ingredientes mas que
tem por isso mesmo um sabor total: eternamente esse
gosto de nunca e de sempre.

O velho poeta
Um dia o meu cavalo voltará sozinho
E assumindo
Sem saber
A minha própria imagem e semelhança
Ele virá ler
Como sempre
Neste mesmo café
O nosso jornal de cada dia
inteiramente alheio ao murmurar das gentes...


Poesia em crise?
Crise da poesia? Ou do mundo?
Em “A árvore dos poemas”, fica a advertência para abrirmos os olhos e examinarmos nosso tempo, descuidado da poesia: ai da geração sem sensibilidade, porque “qual será o destino das almas?”... 
A “Epístola aos novos bárbaros” aprofunda a visão desse mundo apoético, da máscara das “almas supersticiosamente pintadas”; mas aponta, também, para sua redenção, por meio da missão do poeta: “Vim sacudir o que estava dormindo há tanto dentro de cada um de vós.”

A árvore dos poemas
Quando a árvore dos poemas não dá poemas,
Seus galhos se contorcem todos como mãos de
[enterrados vivos.
Os galhos desnudos, ressecos, sem o perdão de Deus!
E, depois, meu Deus, essa lenta procissão de almas
[retirantes...
De vez em quando uma tomba, exausta a beira do
[caminho,
Porque ninguém lhe chega ao lábio o frescor de
[cântaro, a doçura de fruto que poderia haver num
[poema.
Maldita a geração sem poetas que deixa as almas
[seguirem, seguirem como animais em estúpida
[migração!
Quando a árvore dos poemas não dá poemas,
Qual será o destino das almas?

Epístola aos novos bárbaros
Jamais compreendereis a terrível simplicidade das
[minhas palavras
porque elas não são palavras: são rios, pássaros,
[naves...
no rumo de vossas almas bárbaras.
Sim, vós tendes as vossas almas supersticiosamente
[pintadas.
e não apenas a cara e o corpo como os verdadeiros
[selvagens.
Sabeis somente dar ouvido a palavras que não
[compreendeis,
e todos os vossos deuses são nascidos do medo.
E eu na verdade não vos trago a mensagem de
[nenhum deus.
Nem a minha...
Vim sacudir o que estava dormindo há tanto dentro de
[cada um de vós
a limpar-vos de vossas tatuagens.
E o frêmito que sentireis, então, nas almas transfiguradas
não será do revoo dos anjos... Mas apenas
o beijo amoroso e invisível do vento
sobre a pele nua.


Então, o que esperar de um poema?
O poeta desvela a finalidade maior de sua obra: chamar o leitor a procurar e a recriar sentidos amplos e profundos – nos textos e na vida:

Projeto de prefácio
Sábias agudezas... refinamentos...
– não!
Nada disso encontrarás aqui.
Um poema não é para te distraíres
como com essas imagens mutantes dos caleidoscópios.
Um poema não é quando te deténs para apreciar um
[detalhe
Um poema não é também quando paras no fim
porque um verdadeiro poema continua sempre...
Um poema que não te ajude a viver e não saiba
[preparar-te para a morte
não tem sentido: é um pobre chocalho de palavras!

Nota bibliográfica

Os poemas registrados encontram-se em:
QUINTANA, Mário. Baú de espantos. São Paulo: Globo, 2006. Disponível em PDF: globolivros.globo.com (O velho poeta; Projeto de prefácio; O pobre poema; A árvore dos poemas; Epístola aos novos bárbaros).
___________. Os melhores poemas de Mário Quintana. São Paulo: Global, 1995 (Ah, sim, a velha poesia).

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