terça-feira, 20 de maio de 2014

Juó Bananère, molto piacere

Pode ser que a efervescência crítica do Brasil, destes últimos tempos, seja oportunidade para colocar em foco um escritor esquecido: Alexandre Marcondes Machado, ou, melhor dizendo, Juó Bananère.


... Quem?



O engenheiro e jornalista Alexandre M. Machado nasceu em 11 de abril de 1892. Bananère, sua máscara/personagem, escritor e poeta, “nasceu” dezenove anos depois, em 1911. Personagem, sim, com nome, sobrenome, nacionalidade e profissão: “era” imigrante italiano, barbeiro, “tinha” mulher, filhos, e “escrevia” em estilo macarrônico, mesclando o italiano ao português-paulista. No decorrer do tempo, “ganhou” família, apresentada em vários escritos, que contavam um pouco da vida de imigrante pobre na São Paulo de então.
De qualquer modo, o que mais ficou de sua obra foram as paródias debochadas de poemas famosos (de Camões, Bilac, Gonçalves Dias e outros) e as crônicas irreverentes, publicadas em revistas humorísticas ("O Queixoso", "A Vespa" e, principalmente, "O Pirralho”, fundado por Oswald de Andrade) e jornais da época. Parte dos poemas foi editada em seu único livro, “La Divina Increnca”(alusão à “Divina Comédia”, de Dante Alighieri).
Não, não há erro, é “La Divina Increnca”, mesmo. O mais notável talvez seja exatamente a construção de uma “língua” própria (já, por si, uma crítica à formalidade linguística), que chama a atenção pelo amálgama de sotaque, sintaxe e expressões de duas línguas e desloca, para o centro da cena, o cidadão “periférico”, quase invisível e frequentemente marginalizado pelas elites. Lendo textos de Bananère, certamente o leitor se lembrará das composições mais atuais de Adoniran Barbosa, que usa recurso semelhante – narrativa de causos e transgressão da língua padrão – e desencadeia igual inclusão cultural e social do mais pobre e esquecido.
Escritores da época o elogiaram: para Alcântara Machado, Juó Bananère era o melhor cronista de São Paulo; para Oswald de Andrade, era o mestre brasileiro da sátira. Em tempos mais recentes, no entanto, pouco se conhece dele. Sugiro que os leitores o visitem, percorrendo os dois textos aqui registrados.


Uma crônica histórica
O primeiro deles segue a linha da revisão humorística da História. Observem (além da linguagem macarrônica, evidentemente) a desconstrução de fatos históricos¹ ligados ao descobrimento do Brasil – por meio da confusão de tempos e espaços e da mistura de personagens do passado e do presente – e a derrubada de convenções e unanimidades literárias, mediante a paródia e a troca de autoria da sempre louvada “Canção do Exílio”, na qual Gonçalves Dias manifesta sua visão romântica e idealista do país.

A invençó do Brasile²
Chi inventò o Brasile fui o Pietro Caporale.
O Pietro Caporale fui un portoghese nassido no Portogallo in quello tempo
che Portogallo era inda a Molarchia, uguale come o Brazile quano era tambê
a Molarchia.
Ma che! porca miseria! tuttas genti stó pinsano che illo fiz una Afriga* pur
causa di indiscobrí o Brasile! Uh! che speranza.
O indiscobrimento du Brasile fui un fatto molto vulgarissimo.
Tenia di sê, nê che o Pietro Caporale non queria.
Si signori! Illo tenia di i p’ra Afriga pur causa di buscá a scravatura i intó si
perdê nu meio du oceanimo. [...]
Aóra, certamente illo tenia di batê na terra, ma siccome illo stava perdido i
non sabia andove stava, intó illo vignó p’ru Brasile e incontró os servagio, o
“Vanfulla”*, o Bó Ritiro, as intalianigna bunitigna, i tambê o migno avó che
ero veterinario da forza publiga.
[...]
Quano o Pietro Caporale disamuntó du navilio fizero una brutta manifestaçó
p’ra elli i disposa livaro illo p’ra avisitá o museu i a Gademia di Diretto.
Inda à Gademia o Dolore Brittofrango* fiz un bunito discursimo i disposa
arricitó aquillo sunetto do Camonhe:
Migna têrra tê parmeras,
Che canta inzima o sabiá;
As aveses che stó aqui,
Tambê tudos sabe gorgeá.
A abobora celestia tambê
Chi stá lá na mia terra,
Tê muitos maise strella
Che o céu da Ingraterra.
Os rio lá só maise grande,
Dos rio di tudas naçó;
I os mato si perdi di vista
Nu meio da imensidó.
Na migna terra tê parmeras
Dove canta a gallinha d’angolla;
Na migna terra tê o Vap’relli*
Che só anda di gartolla.
O Pietro Caporale gustô molto da festa e io tambê.
[CAPELA, Carlos Eduardo Schmidt. Italianos na ficção brasileira: modernidade em processo. Disponível em https://periodicos.ufsc.br]
¹ O viés humorístico de “embaralhamento” da História é, também, a base do Samba do Crioulo Doido, de Stanislaw Poente Preta. O leitor poderá revê-lo na matéria Visões e linguagens do Carnaval, de 27 de fevereiro de 2014.
² Pequeno glossário:
* “Fazer a África”: trocadilho, a lembrar a conhecida expressão "fazer a América".
* “Vanfulla”: referência a “Fanfulla”, jornal da comunidade italiana no Brasil.
* “Dolore Brittofrango”: seu nome verdadeiro era Dolor de Brito Franco – acadêmico da Faculdade de Direito e um dos redatores de “O Pirralho”.
* “Vap’relli”, Spencer Vampré, era advogado, jornalista, professor e diretor da Faculdade de Direito da Universidade de São Paulo, membro da Academia Paulista de Letras... tudo, enfim, que a personagem Bananère desejava ser.


Cronista, mas também poeta
Críticos contemporâneos de Bananère assinalavam a modernidade de seus escritos, que resultavam em crônicas de um tempo e situação histórica, a dar voz ao imigrante, em sua complicada adaptação ao país de destino. É semelhante ao que vemos hoje, de modo exacerbado, na luta pelo direito e inserção de classes, guetos e comunidades na vida social.
Da mesma forma, a paródia de sonetos e outras composições clássicas, um dos pontos fortes – e polêmicos – do poeta, apontava para a revisão crítica de estilos e formas canônicas, depois levada bem mais longe por autores importantes da Semana de Arte Moderna, como Mario e Oswald de Andrade, e que agora se vê agudamente ampliada pelo entrecruzar dos vários dialetos de tribos urbanas, gerações e culturas do mundo globalizado.
Quanto a Juó Bananère, essa reversão do convencional pode ser vista em um de seus textos mais difundidos: a paródia ao poema conhecido como “Ouvir estrelas”, de Olavo Bilac. Comparem, em seguida, o original à sátira: nesta, as expressões do linguajar popular ("Che scuità strella, né meia strella!"; “Cade strella?!”), postas lado a lado com o arremedo de fala erudita (principalmente, nos tercetos), além de implodir a formalidade do soneto e a linguagem burilada do poeta parnasiano, subvertem a língua enquanto sistema pré-estabelecido e ridicularizam a norma culta.
Não se pode deixar de registrar que este é um dos poemas de “La divina Increnca” – obra que propõe o humor corrosivo desde sua pretensiosa apresentação: “Livro di Prupaganda da Literatura Nazionale. JUÓ BANANÉRE – Candidato á Gademia Baolista de Letras.”

Uvi Strella
Juó Bananère

Che scuità strella, né meia strella!
Vucé sta maluco! e io ti dirò intanto,
Chi p'ra iscuitalas moltas veiz livanto,
I vó dà una spiada na gianella.

I passo as notte acunversàno c'oella,
Inguanto che as otra là d'un canto
Sto mi spiano. I o sol come un briglianto
Nasce. Oglio p'ru geu : — Cade strella ? !

Direis intó : — O' migno inlustre amigo !
O chi è chi as strellas ti dizia
Quano illas viéro acunversà contigo?

E io ti dirò: — Studi p'ra intendela,
Pois so chi già studó Astrolomia,
E' capaiz de intende istas strella.
[Edição de 1924, Livraria do Globo. Disponível em: www.brasiliana.usp.br/.../pdf]


Via Láctea - XIII
Olavo Bilac

“Ora (direis) ouvir estrelas! Certo
Perdeste o senso!” E eu vos direi, no entanto,
Que, para ouvi-Ias, muita vez desperto
E abro as janelas, pálido de espanto...

E conversamos toda a noite, enquanto
A via láctea, como um pálio aberto,
Cintila. E, ao vir do sol, saudoso e em pranto,
Inda as procuro pelo céu deserto.

Direis agora: “Tresloucado amigo!
Que conversas com elas? Que sentido
Tem o que dizem, quando estão contigo?”

E eu vos direi: “Amai para entendê-las!
Pois só quem ama pode ter ouvido
Capaz de ouvir e de entender estrelas.”
[Disponível em: www.culturabrasil.org/zip/vialactea.pdf.]

sexta-feira, 9 de maio de 2014

A Educação em uma carta


Ao falar sobre Escrita, Leitura, Língua Portuguesa, tenho em mente a contribuição do ensino/aprendizagem de Língua Materna para a Educação Global do aluno, do indivíduo, do cidadão – ou seja, aquela que tem por base e contempla:
- a partilha e construção – coletiva e solidária – do conhecimento (em vez da
transmissão hierárquica e autoritária de informações);
- a interação entre pessoas de funções, profissões e objetivos iguais e diversos, para o enriquecimento da experiência de todos e para a formação contínua e integral de cada um.
Pois bem: encontrei semelhante visão da Educação e, consequentemente, do papel da Escola, aprofundada e muito bem expressa por Renato Carvalho ¹, em “Carta à minha filha” ². No artigo, sob a capa da linguagem informal e afetiva, capaz de atrair o leitor, há reflexões profundas sobre questões educacionais, que merecem ser conhecidas, comentadas e discutidas.
Por isso mesmo, transcrevo o artigo na íntegra, a seguir.
¹ Renato Carvalho é “designer, apaixonado por Design Educacional. Sonha com uma Educação
focada no estímulo à criatividade, colaboração, autonomia, iniciativa e pensamento crítico.”
² O texto original, publicado em  2 de abril de 2014, encontra-se no site
rescola.com.br
, em que o leitor poderá encontrar outros importantes assuntos e temas relacionados à Educação. Eu o recomendo.


Carta à minha filha: Não deixe que a escola te ensine


Clarice querida,
O mundo está mudando rápido. Bem mais rápido que as nossas escolas. Há tantas delas que ainda não perceberam que este mundo internético em que hoje vivemos é radicalmente diferente do mundo desconectado de algumas poucas décadas atrás e que nossa Educação agora pode e precisa ser muito melhor.
Grandes ideias não faltam: escolas na nuvem na Índia, aulas sem turmas nem professores em Portugal, salas de aula invertidas nos Estados Unidos, brinquedos que ensinam crianças a programar computadores na Inglaterra, milhares de pessoas do mundo todo fazendo juntas cursos de nível superior
Mas é preciso querer ver a necessidade de mudar, e isso demora. Por mais que eu esteja otimista, não acho que os anos que te restam na escola sejam tempo suficiente para essa onda de renovação se espalhar pelo Brasil e chegar à tua sala de aula.
Vai ser por pouco… Você é parte da última geração de alunos da escola do passado. Ou seja, alunos de um modelo de educação igualzinho ao que eu tive, e que também foi o mesmo dos teus avós, teus bisavós, teus trisavós…
Mas se não dá para evitar que as manhãs da tua infância sejam gastas em aulas chatas e desestimulantes, você pode pelo menos ficar alerta aos defeitos desse modelo. Assim, enquanto você aproveita o que a escola pode te oferecer de bom, vai conseguir impedir que ela te ensine algumas coisas que a mim custaram muitos anos para desaprender.

Não deixe que a escola te ensine que conhecimentos podem ser compartimentados, separados em caixinhas, isolados uns dos outros.
Na escola do passado, a matemática acaba quando começa a física e a geografia acaba quando começa a história. No mundo, há biologia no esporte, matemática na música, história na literatura, gramática na programação de computadores… Por isso, depois de ver algo de perto, dê sempre um passo para trás, perceba as relações, enxergue o todo.

Não deixe que a escola te ensine que alguns conhecimentos são mais importantes que outros.
Na escola do passado, para cada aula de artes há duas de geografia e para cada uma de geografia há duas de matemática. Música, artes plásticas, esportes, religião, filosofia são tratados como matérias de “segundo time”. Quantos grandes artistas e esportistas foram vistos como maus alunos e forçados a abandonar seus talentos porque o conhecimento que lhes interessava não era o mesmo que interessava à escola! Persiga teus interesses mesmo que eles não interessem a mais ninguém.

Não deixe que a escola te ensine que há um momento específico para aprender cada coisa.
Na escola do passado, quem não consegue acompanhar a turma é tido como um fracassado e quem quer avançar mais rápido é freado, impedido. Ela exige que todos aprendam o mesmo ao mesmo tempo. Mas as pessoas não são todas iguais. Você pode ter mais facilidade que os colegas em um determinado assunto e menos em outro. Não deixe que te empurrem nem que te segurem. Respeite teu próprio ritmo de aprendizado.

Não deixe que a escola te ensine a decorar.


Ao contrário, esqueça tudo que puder. O homem dominou o planeta porque foi capaz de fabricar ferramentas que estenderam os limites das nossas mãos e pés. Agora, fomos ainda mais além e fabricamos ferramentas que estendem os limites do nosso cérebro. Não precisamos mais desperdiçá-lo, usando-o como um depósito de nomes, datas e fórmulas; hoje podemos aproveitar todo o potencial dele para analisar, criticar e refletir o mundo de informações que podemos acessar com um clique. A Internet é o teu HD, o cérebro é o teu processador.

Não deixe que a escola te ensine a te contentar com pouco.
Na escola do passado, as consequências de tirar nota 10 ou nota 7 são as mesmas. O aluno excelente passa de ano da mesma forma que o mediano, com, no máximo, um elogio da professora. Assim, aos poucos os alunos vão ficando satisfeitos em “passar por média”. Nunca fique contente com a média. Dê teu melhor sempre, em tudo o que fizer (inclusive nesses poucos anos que ainda te restam na escola do passado). No mundo, ao contrário da escola, a excelência faz muita diferença.

Não deixe que a escola te ensine a acreditar que ela é suficiente.
A escola do passado lamentavelmente abdicou da missão de preparar os alunos para o futuro e se limita a tentar prepará-los para o vestibular ou o ENEM. Mas a tua vida produtiva começa exatamente depois desse ponto e para ser bem sucedida nela você precisará de muito mais do que ciências, matemática, português, história e geografia. O futuro vai exigir que você tenha uma boa noção dos teus direitos e deveres para cumprir teu papel de cidadã, conheça um pouco de economia para saber gerenciar teu dinheiro, aprenda sobre empreendedorismo para fazer tuas ideias virarem realidade, tenha consciência global para compreender teu lugar no mundo, domine a Internet enquanto ferramenta de comunicação e muito mais. Há muitos conhecimentos que não estão na escola. Procure-os onde estiverem.

Não deixe que a escola te ensine que provas são capazes de medir a tua capacidade e inteligência.
A história está repleta de gênios que foram tidos como maus alunos. Eles eram considerados incapazes nas suas escolas porque estavam à frente delas e, portanto, não podiam ser medidos pelos seus testes. As provas da escola do passado servem para provar quem está mais adequado ao mundo do passado.

Não deixe que a escola te ensine que você não tem nada a ensinar.
Na escola do passado os alunos são separados em séries de acordo com suas faixas etárias e isso praticamente impede a interação entre idades diferentes. Colegas um pouco mais velhos têm muito a te ensinar e, o que é ainda mais importante, os mais novos têm muito a aprender contigo. E ensinar é a forma mais eficiente de aprender. Quando um professor detém o monopólio do ensino, ele te rouba inúmeras oportunidades de aprender ensinando e ensinar aprendendo.

Não deixe que a escola te ensine que errar é ruim.


Provas fazem isso o tempo todo, sem que os alunos percebam. Do jeito que são feitas, elas servem apenas para apontar e punir nossos erros e desperdiçam a oportunidade de nos ajudar a aprender com eles. O resultado é que aos poucos vamos nos acostumando a não arriscar e a evitar erros a todo custo. Não há nada pior para o aprendizado do que o medo de errar. Erre! Erre de novo! Erre à vontade. Erre quantas vezes forem necessárias até acertar.

Não deixe que a escola te ensine a ser apenas consumidora de ideias.
A escola do passado se limita a ruminar as ideias dos outros. Diariamente, aula após aula, os alunos mastigam, engolem e digerem um enorme cardápio de informações. Não há nenhum espaço para que eles gerem conhecimento, produzam pensamentos, criem ideias, somem. Os alunos são tratados como se fossem incapazes disso e logo se convencem dessa incapacidade. O mundo do futuro é o mundo da troca. Nele, os bem sucedidos não serão os que forem capazes de acumular mais ideias, mas os que forem capazes de distribuir mais. Escreva, desenhe, cante, dance, filme, blogue, fotografe, pinte e borde. Crie, produza, pense, gere, compartilhe.

E o mais importante de tudo, minha filha: não deixe que a escola te ensine que aprender é a mesma coisa que ser ensinado.
Toda criança nasce uma esponjinha de conhecimento ávida para absorver os comos e os porquês de tudo que vê. Essa curiosidade sem fim, essa fome de aprender costuma durar até o exato momento em que ela passa pela porta da sala de aula da primeira série da escola do passado. É nesse momento que as crianças são convencidas que aprender não é experimentar, sentir e sujar as mãos de terra ou tinta, como faziam até agora, mas sim sentar silenciosamente em cadeiras alinhadas e ser ensinado por um professor que é o dono de todo o saber e que decide sozinho a hora de começar e de parar de estudar cada assunto. O aprendizado não vem mais da interação da própria criança com o objeto que ela está conhecendo. Agora, ele é “transferido”. A criança não faz mais perguntas, ouve respostas. A busca do conhecimento não começa mais nas interrogações dos alunos, mas nas afirmações do professor; o estudo não mais se inicia na curiosidade, mas na autoridade. A criança não está mais no comando do seu aprendizado, ela não é mais um sujeito ativo no ato de aprender, é um sujeito passivo do ato de ensinar do professor. Em resumo, a criança não mais aprende, é ensinada. Não abra mão da direção da tua vida. Viver é aprender e você tem autonomia (ou seja, a liberdade e a responsabilidade) para decidir o que aprender e, portanto, como viver. Não a ceda a ninguém.
Se você conseguir impedir a escola de te ensinar essas coisas, vai acabar descobrindo que vida escolar é diferente de vida de aprendizado. E então, terá a vida inteira para desfrutar dessa incrível Era do Conhecimento que está apenas começando.
Te amo.
Teu pai
³ No site indicado – http://rescola.com.br/ –, o leitor encontrará links para conhecer essas experiências.

segunda-feira, 5 de maio de 2014

O velho eterno: Quintana



Em 5 de maio (1994), faleceu Mario Quintana. Para relembrá-lo, escolhi poemas nos quais o eu lírico volta-se para o próprio universo poético.
A partir dessa visão, e a ela acrescentando o sentido do tempo e espaço em que vivemos, nós, leitores, podemos concretizar e atualizar o olhar abrangente desse poeta de fala simples e lúcida. Nossa leitura, certamente, irá comprovar o quanto o “velho poeta” permanece presente e eterno; e poderá revelar os muitos significados de suas palavras.
Aos textos.

Velho poeta? Velha poesia?
Nos poemas a seguir, a poesia assume a tarefa de ressignificar e perenizar o habitual, o cotidiano, o nada, deixando um “gosto de nunca e de sempre”. A eternidade, assim, alcança o poema e se estende ao “velho poeta”. Notem a valoração de elementos desimportantes ao olhar desatento: alguns, como os grilos, têm pistas razoavelmente claras; outros, como o cavalo, o jornal, o lápis verde, o retrato, o ovo de costura, adquirem nitidez mediante ligações feitas a cada nova leitura.

Ah, sim, a velha poesia
Poesia, a minha velha amiga...
eu entrego-lhe tudo
a que os outros não dão importância nenhuma...
a saber:
o silêncio dos velhos corredores
uma esquina
uma lua
(porque há muitas, muitas luas...)
o primeiro olhar daquela primeira namorada
que ainda ilumina, ó alma,
como uma tênue luz de lamparina,
a tua câmara de horrores.
E os grilos?
Não estão ouvindo lá fora os grilos?
Sim, os grilos...
Os grilos são os poetas mortos.

Entrego-lhe grilos aos milhões um lápis verde  um retrato
amarelecido um velho ovo de costura, os teus pecados
as reivindicações as explicações – menos
o dar de ombros e os risos contidos
mas
todas as lágrimas que o orgulho estancou na fonte
as explosões de cólera
o ranger dos dentes
as alegrias agudas até o grito
a dança dos ossos...

Pois bem,
às vezes
de tudo quanto lhe entrego, a Poesia faz uma coisa que
parece nada tem a ver com os ingredientes mas que
tem por isso mesmo um sabor total: eternamente esse
gosto de nunca e de sempre.

O velho poeta
Um dia o meu cavalo voltará sozinho
E assumindo
Sem saber
A minha própria imagem e semelhança
Ele virá ler
Como sempre
Neste mesmo café
O nosso jornal de cada dia
inteiramente alheio ao murmurar das gentes...


Poesia em crise?
Crise da poesia? Ou do mundo?
Em “A árvore dos poemas”, fica a advertência para abrirmos os olhos e examinarmos nosso tempo, descuidado da poesia: ai da geração sem sensibilidade, porque “qual será o destino das almas?”... 
A “Epístola aos novos bárbaros” aprofunda a visão desse mundo apoético, da máscara das “almas supersticiosamente pintadas”; mas aponta, também, para sua redenção, por meio da missão do poeta: “Vim sacudir o que estava dormindo há tanto dentro de cada um de vós.”

A árvore dos poemas
Quando a árvore dos poemas não dá poemas,
Seus galhos se contorcem todos como mãos de
[enterrados vivos.
Os galhos desnudos, ressecos, sem o perdão de Deus!
E, depois, meu Deus, essa lenta procissão de almas
[retirantes...
De vez em quando uma tomba, exausta a beira do
[caminho,
Porque ninguém lhe chega ao lábio o frescor de
[cântaro, a doçura de fruto que poderia haver num
[poema.
Maldita a geração sem poetas que deixa as almas
[seguirem, seguirem como animais em estúpida
[migração!
Quando a árvore dos poemas não dá poemas,
Qual será o destino das almas?

Epístola aos novos bárbaros
Jamais compreendereis a terrível simplicidade das
[minhas palavras
porque elas não são palavras: são rios, pássaros,
[naves...
no rumo de vossas almas bárbaras.
Sim, vós tendes as vossas almas supersticiosamente
[pintadas.
e não apenas a cara e o corpo como os verdadeiros
[selvagens.
Sabeis somente dar ouvido a palavras que não
[compreendeis,
e todos os vossos deuses são nascidos do medo.
E eu na verdade não vos trago a mensagem de
[nenhum deus.
Nem a minha...
Vim sacudir o que estava dormindo há tanto dentro de
[cada um de vós
a limpar-vos de vossas tatuagens.
E o frêmito que sentireis, então, nas almas transfiguradas
não será do revoo dos anjos... Mas apenas
o beijo amoroso e invisível do vento
sobre a pele nua.


Então, o que esperar de um poema?
O poeta desvela a finalidade maior de sua obra: chamar o leitor a procurar e a recriar sentidos amplos e profundos – nos textos e na vida:

Projeto de prefácio
Sábias agudezas... refinamentos...
– não!
Nada disso encontrarás aqui.
Um poema não é para te distraíres
como com essas imagens mutantes dos caleidoscópios.
Um poema não é quando te deténs para apreciar um
[detalhe
Um poema não é também quando paras no fim
porque um verdadeiro poema continua sempre...
Um poema que não te ajude a viver e não saiba
[preparar-te para a morte
não tem sentido: é um pobre chocalho de palavras!

Nota bibliográfica

Os poemas registrados encontram-se em:
QUINTANA, Mário. Baú de espantos. São Paulo: Globo, 2006. Disponível em PDF: globolivros.globo.com (O velho poeta; Projeto de prefácio; O pobre poema; A árvore dos poemas; Epístola aos novos bárbaros).
___________. Os melhores poemas de Mário Quintana. São Paulo: Global, 1995 (Ah, sim, a velha poesia).