sábado, 19 de abril de 2014

Bandeira, crônica e poema


Estamos em abril, e o dia 19 marca o nascimento de Manuel Bandeira. Nessa oportunidade, muito se vai falar, assim como tanto já se disse, a respeito do poeta. E muito ficará por dizer...
Do homem Bandeira, conta-se de seu caráter ameno e simpático – sofrido, mas não mórbido; recolhido e caseiro (até por conta da saúde frágil), mas não misantropo; carente de familiares, que foi perdendo ao longo da vida, mas não de amigos.
Teve movimentada vida intelectual: não podendo formar-se engenheiro, foi professor de literatura, por bom tempo, e escritor, o tempo todo. Além de poemas e crônicas, fez crítica literária e musical, traduziu peças teatrais (de Schiller, Cocteau e Shakespeare, entre outros), escreveu biografias de escritores românticos brasileiros. Aproveitando os constantes deslocamentos para tratamento da tuberculose, estudou, conheceu países e artistas.
Esse homem afável e cidadão intelectualizado praticava uma poesia simples, talvez – mas não tão fácil, como querem alguns.
Dele, enquanto poeta, costumam ser mais explorados a face lírica, às vezes melancólica, às vezes autoirônica, e os temas intimistas, “caseiros” e até banais, que dão à sua obra aquele aspecto de “fácil”. No entanto, sua experiência de mundo, conhecimento da língua e da linguagem, competência técnica e autoconsciência transformavam construções linguísticas aparentemente simples, em lúcidas reflexões sobre si mesmo, a vida e o outro.
É o que me faz pinçar um outro lado de sua obra poética, para vê-lo como um “cronista-poeta” – aquele que parte de  situações corriqueiras  e as valoriza, a fim de desvelar, em vários de seus poemas, outros e mais profundos sentidos da realidade.
Age assim o cronista, sabemos: destaca um aspecto do cotidiano – seu, da sociedade, da natureza, da razão, da emoção – para, mediante linguagem informal, dialogar com o leitor, fazendo-o perceber detalhes escondidos e/ou avaliar criticamente a realidade.
No caso de Bandeira, colaboram, para isso: de uma parte, o olhar observador de homem e poeta que, acostumado à interiorização, alonga-se e se volta criticamente para o entorno; por outra, a arquitetura de seus textos, construídos com palavras simples e cotidianas.
Estão aí indícios de um belo cronista-poeta... Vejamos nos textos a seguir.

  
Preparando o terreno: o cronista do fazer poético
No poema a seguir, o eu poético prepara o terreno para um caminho mais crítico e anuncia, ao leitor, o ponto de vista do “poeta sórdido” – aquele que rejeita a visão lírica (a “poesia orvalho”) e proclama a verdadeira natureza de seu fazer: revelar o lado verdadeiro (ainda que “sujo”) da vida.
Reparem nos versos de comprimento irregular; reparem, sobretudo, na longa frase que constitui uma pequena narrativa, aproximando-se da prosa; e na intenção do poema de sacudir o “leitor satisfeito”, como é habitual na crônica. 

Nova poética
Vou lançar a teoria do poeta sórdido.
Poeta sórdido:
Aquele em cuja poesia há a marca suja da vida.
Vai um sujeito,
Sai um sujeito de casa com a roupa de brim branco muito bem engomada, e
                                     [na primeira esquina passa um caminhão, salpica-lhe
                                     [o paletó ou a calça de uma nódoa de lama:
É a vida.
O poema deve ser como a nódoa no brim:
Fazer o leitor satisfeito de si dar o desespero.
Sei que a poesia é também orvalho.
Mas este fica para as menininhas, as estrelas alfas, as virgens cem por cento e
                                                       [as amadas que envelheceram sem maldade.
Belo Belo. In Estrela da vida inteira. Rio de Janeiro: José Olympio, 1974.


Olhando para dentro: o cronista da infância
Muitos escreveram crônicas sobre a infância, na primeira pessoa. Cito apenas alguns: Cecília Meireles (Brinquedos Incendiados), Rubem Braga (Os Teixeiras), Paulo Mendes Campos (Maria José). Assim, também, Manuel Bandeira torna-se cronista de sua (verdadeira ou poética) infância, em Porquinho-da-Índia.
Notem a banalidade do assunto, da narrativa, dos diminutivos. Mas, notem, para além disso, o espaço antes da última frase e, nesta, o travessão que anuncia a fala interpretativa que aprofunda e confere sensibilidade ao conjunto do texto.

Porquinho-da-índia
Quando eu tinha seis anos
Ganhei um porquinho-da-índia.
Que dor de coração me dava
Porque o bichinho só queria estar debaixo do fogão!
Levava ele prá sala
Pra os lugares mais bonitos mais limpinhos
Ele não gostava:
Queria era estar debaixo do fogão.
Não fazia caso nenhum das minhas ternurinhas…
– O meu porquinho-da-índia foi minha primeira namorada.
Libertinagem. In Estrela da vida inteira. Rio de Janeiro: José Olympio, 1974.

  
O homem, os homens: o cronista do drama humano
Nos dois poemas a seguir, o olhar do cronista-poeta volta-se para os homens, à volta.
No primeiro – O bicho –, o leitor percorre as linhas do poema, quando muito, preparando-se para ser docemente piedoso com o animalzinho faminto... A terceira estrofe simula, mesmo, um jogo de adivinha: não era isso, não era aquilo.
Contudo, a repetição (“não era”) conduz à revelação final: de fato, o arremate com uma linha solitária (ver negrito, no texto) rompe com qualquer amenidade e sacode violentamente o leitor, com sua denúncia da degradação do ser humano, esquecido pelo organismo social.
A primeira pessoa e a invocação “Meu Deus” mostram a angústia do eu poético; é ela que contamina, por fim, o leitor.

O bicho
Vi ontem um bicho
Na imundície do pátio,
Catando comida entre os detritos.
Quando achava alguma coisa,
Não examinava nem cheirava:
Engolia com voracidade.
O bicho não era um cão.
Não era um gato.
Não era um rato.
O bicho, meu Deus, era um homem.
Belo Belo. In Estrela da vida inteira. Rio de Janeiro: José Olympio, 1974.

No segundo – Momento num café –, o olhar objetivo (da terceira pessoa) descreve uma cena comum do cotidiano: o enterro que passa, os homens que tiram o chapéu (é o início do século XX), em sinal de respeito. Entretanto, aqui, também, acusa-se a insensibilidade humana, agora camuflada pelo verniz social.
De duas formas principais se organiza essa crítica:
- por termos (adjetivos e advérbios) caracterizadores dessa indiferença ante o drama da morte (alguns deles em negrito, no texto);
- pelo contraste entre dois comportamentos: o primeiro, dos indiferentes que se voltam apenas para a vida (primeira estrofe); o segundo (segunda estrofe), do único que dá à vida seu sentido verdadeiro, ou, se quiserem, seu não sentido. Outra vez, notem os negritos, agora a indicar a mudança: a conjunção “no entanto”; o verso mais longo, aliado aos advérbios que realçam o gesto respeitoso.

Momento num café
Quando o enterro passou
Os homens que se achavam no café
Tiraram o chapéu maquinalmente
Saudavam o morto distraídos
Estavam todos voltados para a vida
Absortos na vida
Confiantes na vida
.
Um no entanto se descobriu num gesto largo e demorado
Olhando o esquife longamente
Este sabia que a vida é uma agitação feroz e sem finalidade
Que a vida é traição
E saudava a matéria que passava
Liberta para sempre da alma extinta.
Estrela da Manhã. In Estrela da vida inteira. Rio de Janeiro: José Olympio, 1974.

  
Poema-crônica ou crônica poética?
Antes de comentar, peço que leiam o texto seguinte.
Tragédia brasileira
Misael, funcionário da Fazenda, com 63 anos de idade.
Conheceu Maria Elvira na Lapa — prostituída, com sífilis, dermite nos dedos, uma aliança empenhada e os dentes em petição de miséria.
Misael tirou Maria Elvira da vida, instalou-a num sobrado no Estácio, pagou médico, dentista, manicura... Dava tudo quanto ela queria.
Quando Maria Elvira se apanhou de boca bonita, arranjou logo um namorado.
Misael não queria escândalo. Podia dar uma surra, um tiro, uma facada. Não fez nada disso: mudou de casa.
Viveram três anos assim.
Toda vez que Maria Elvira arranjava namorado, Misael mudava de casa.
Os amantes moraram no Estácio, Rocha, Catete, Rua General Pedra, Olaria, Ramos, Bonsucesso, Vila Isabel, Rua Marquês de Sapucaí, Niterói, Encantado, Rua Clapp, outra vez no Estácio, Todos os Santos, Catumbi, Lavradio, Boca do Mato, Inválidos...
Por fim na Rua da Constituição, onde Misael, privado de sentidos e de inteligência, matou-a com seis tiros, e a polícia foi encontrá-la caída em decúbito dorsal, vestida de organdi azul.
Estrela da Manhã. In Estrela da vida inteira. Rio de Janeiro: José Olympio, 1974.

Prosa? Poesia? Crônica em linhas, a modo de versos? Poema com aparência de crônica? Vejamos.
O texto é aparentemente simples. Como alguém já comentou, seu esqueleto narrativo pode ser resumido no trinômio verbal: “conheceu-mudou-matou”, repetição de cena tantas vezes já vista.
Mas essa “historinha” se transforma, com a multiplicação de sentidos produzida pelo trabalho com a palavra. Pistas desse trabalho:
1. O nome Maria Elvira contém, em si, toda a palavra miséria. E notem o jogo sonoro: Maria, Elvira e miséria têm as mesmas três letras, os mesmos três sons finais; a identidade de letras faz com que, sonora e visualmente, as três palavras se espelhem / se reflitam mutuamente.
2. Por meio das vogais e do /M/, a sonoridade acima espraia-se para as palavras Misael e amantes, incluindo-as no mesmo universo de sentido: a atmosfera contínua da miséria moral de Maria Elvira.
3. A Rua dos Inválidos, que fecha o terceiro parágrafo, parece um prenúncio da inutilidade dos esforços de Misael. Por outro lado, a rua do desfecho sangrento é, ironicamente, a Rua Da Constituição, indiciando a Lei.
4. Finalmente, a derradeira ironia: o organdi azul do vestido da morta sugere beleza e festa – inexistentes, tanto na morte, quanto o fora na vida do casal. Mais: a transparência característica do tecido não esconde a miséria do corpo ferido; em paralelo, a “maquiagem” e embelezamento promovidos por Misael (casa, dentista, médico) não encobriram a miséria da alma deteriorada de Maria Elvira.
Conclusão? Um belo poema, disfarçado de prosa/crônica do cotidiano.

  
Um gancho, a partir de Maria Elvira
Para terminar, tomo Maria Elvira e uso seu vestido como um gancho para Manuel Bandeira. Sua obra poética – “fácil”, simples, ingênua, ou o que quer que se queira – é o vestido transparente com que o poeta encobre um universo rico em significados e sempre mais denso, à medida que o relemos.
Experimentem reler, por exemplo, os poemas acima. Experimentem e descubram...

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