terça-feira, 22 de abril de 2014

Augusto, poeta extremo


Augusto dos Anjos nasceu em 20 de abril de 1884 e não viveu mais de trinta anos. Sofreu a derrocada financeira da família, certamente, e também as agruras de seu corpo e espírito doentio, como querem alguns.
De qualquer modo, há que se confiar na descrição que fez dele o amigo e admirador Orris Soares: “Foi magro meu desventurado amigo, de magreza esquálida – faces reentrantes, olhos fundos, orelhas violáceas e testa descalvada. A boca fazia a catadura crescer de sofrimento, por contraste do olhar doente de tristura e, nos lábios, uma crispação de demônio torturado. [...] Foi sempre amparado por essa visão sofredora que o poeta viu e sentiu a vida. Teve da dor a compreensão flagrante, sendo o seu coração, por ultrassensível, uma fonte inesgotável de aflições, que ele nunca soube distrair ou enganar.”¹
Pode-se perguntar: essa percepção dolorida o conduziu à morte prematura? Ou a premonição da morte é que lhe deu essa dor, sem remédio, da vida que se sabe fadada à interrupção, ao corte antecipado?
Difícil responder. Mais fácil é encontrar a mesma sombra angustiante em sua poesia – que ora aspira e se lança a aventuras ideais e cósmicas, ora se entrega ao desespero de um viver que se reconhece de antemão perdido, pois conduz à deterioração e ao Nada.
É na linguagem objetiva e nos termos científicos que a poesia de Augusto dos Anjos encontra os meios de certificar e definir, com maior rigor, as limitações e finitude – o destino, enfim – da matéria humana e do mundo físico, rumo à dissolução. No entanto, a mesma criatura poética que, em certos momentos, se entrega à visão derrotista e destrutiva, em outros, decola em direção inversa; e, com o mesmo fervor, deseja alcançar a perenidade do Imaterial e do Infinito. O crítico Anatol Rosenfeld afirmou: “Entre todos os termos deste grande poeta não existe um: o termo médio.²
Transcrevo, a seguir, dois poemas, dois exemplos dessa oscilação vertiginosa entre opostos.
Em Psicologia de um vencido, o eu lírico se vê como simples composição orgânica e material, cujo destino final e inevitável é desagregar-se e servir de pasto aos vermes:

Psicologia de um vencido
Eu, filho do carbono e do amoníaco,
Monstro de escuridão e rutilância,
Sofro, desde a epigênesis da infância,
A influência má dos signos do zodíaco.
Profundissimamente hipocondríaco,
Este ambiente me causa repugnância...
Sobe-me à boca uma ânsia análoga à ânsia
Que se escapa da boca de um cardíaco.
Já o verme – este operário das ruínas –
Que o sangue podre das carnificinas
Come, e à vida em geral declara guerra,
Anda a espreitar meus olhos para roê-los,
E há de deixar-me apenas os cabelos,
Na frialdade inorgânica da terra!

Ao contrário, em Ao Luar, a matéria aparece sublimada; membros e sentidos se aguçam, e o eu lírico se vê alçando-se e tocando a grandeza do Cosmos:

Ao Luar
Quando, à noite, o Infinito se levanta
À luz do luar, pelos caminhos quedos
Minha tátil intensidade é tanta
Que eu sinto a alma do Cosmos nos meus dedos!
Quebro a custódia dos sentidos tredos
E a minha mão, dona, por fim, de quanta
Grandeza o Orbe estrangula em seus segredos,
Todas as coisas íntimas suplanta!
Penetro, agarro, ausculto, apreendo, invado,
Nos paroxismos da hiperestesia,
O Infinitésimo e o Indeterminado…
Transponho ousadamente o átomo rude
E, transmudado em rutilância fria,
Encho o Espaço com a minha plenitude!

¹ O depoimento de Orris Soares e todos os poemas registrados nesta matéria podem ser encontrados em: ANJOS, Augusto dos. Eu & Outras Poesias – 2 vols. Belo Horizonte: Ed. Itatiaia; Rio de Janeiro: Ed. Civilização Brasileira, 1982.
² ROSENFELD, Anatol. Texto/Contexto. São Paulo: Ed. Perspectiva, 1969.


A convivência dos opostos
Das duas faces de Augusto dos Anjos que pudemos ver, a mais conhecida é a que vem ligada ao pessimismo. Entretanto, a necessidade e inevitabilidade dos opostos – ou, mais ainda, sua coexistência e implicabilidade para o ser humano – é afirmada em diversos poemas, como neste soneto, que vem a seguir.
Percebam, nos quartetos, os pares opositivos e a comparação final (ver negrito), em que o poeta se serve de termos científicos para sustentar e comprovar sua argumentação de que o contraste “convém para o homem ser completo”.
Argumentos semelhantes aparecem nos tercetos, iniciados pelo verso em que o eu poético, além de tudo, assevera sua competência para dizer o que diz: “Eu sei tudo isto mais do que o Eclesiastes!”.

Contrastes
A antítese do novo e do obsoleto,
O Amor e a Paz, o Ódio e a Carnificina,
O que o homem ama e o que o homem abomina,
Tudo convém para o homem ser completo!

O ângulo obtuso, pois, e o ângulo reto,
Uma feição humana e outra divina
São como a eximenina e a endimenina³
Que servem ambas para o mesmo feto!

Eu sei tudo isto mais do que o Eclesiastes!
Por justaposição destes contrastes,
Junta-se um hemisfério a outro hemisfério,

Às alegrias juntam-se as tristezas,
E o carpinteiro que fabrica as mesas
Faz também os caixões do cemitério!...
³ Eximenina e endimenina: respectivamente, membranas externa e interna do pólen. Os termos valem como licença e metáfora poética, estendendo-se a “feto”.


O Vencedor
No embate de experiências (reais ou imaginárias) divergentes e radicais, surge a expressividade das palavras extremas, de cunho científico e “apoéticas”, que tantas vezes espantam e chocam, ainda hoje, os leitores. É a luta do poeta para fazer valer, na linguagem, sua verdade e intenção.
Dela, o homem Augusto, prisioneiro de seus sofrimentos, pode até sair machucado e derrotado. Mas o Augusto poeta, esse... (Leiam e ouçam o poema seguinte.)

Vencedor
Toma as espadas rútilas, guerreiro,
E à rutilância das espadas, toma
A adaga de aço, o gládio de aço, e doma
Meu coração — estranho carniceiro!
Não podes?! Chama então presto o primeiro
E o mais possante gladiador de Roma.
E qual mais pronto, e qual mais presto assoma,
Nenhum pode domar o prisioneiro.
Meu coração triunfava nas arenas.
Veio depois um domador de hienas
E outro mais, e, por fim, veio um atleta,
Vieram todos, por fim; ao todo, uns cem...
E não pôde domá-lo, enfim, ninguém,
Que ninguém doma um coração de poeta!

O poema Vencedor, na interpretação de Othon Bastos


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