quarta-feira, 9 de abril de 2014

As muitas faces de Gregório de Matos

Gregório de Matos nasceu na Bahia, no dia 7 de abril de 1633. Não, não, em 1636. Ou foi em 23 de dezembro de 1623?


Até nesses dados simples, nós nos deparamos com suas contradições...
Gregório de Matos Guerra: o filho de fidalgo, advogado formado pela Universidade de Coimbra, intelectual e poeta que chegou a escrever suas argumentações em versos. Mas, também, o irrequieto boêmio, crítico feroz da nobreza e do clero, da política e da corrupção de seu tempo, o que lhe valeu a deportação para Angola.
Foi o lírico, a derramar sentimentos, ideais e religiosidade; porém, do mesmo modo, foi o autor de versos que vão da crítica social ao deboche e à obscenidade.
Alguns historiadores, inclusive, citam-no como criador de modinhas e lundus, o que lhe daria direito ao título de primeiro compositor popular brasileiro.
Para nós, aqui e agora, Gregório de Matos é, sobretudo, o responsável pela urdidura cambiante dessas múltiplas faces, que se revelam nos poemas que se seguem. Neles, vislumbra-se o escritor “maldito”, apelidado de “Boca do Inferno” por sua contundência e mordacidade (em criações que fazem lembrar, até, as cantigas de escárnio dos trovadores da Idade Média), bem como o poeta sério e introspectivo, com versos carregados de expressões, antíteses e conflitos próprios da poesia (barroca) de seu tempo.


O poeta idílico
Aqui, estão claramente presentes elementos próprios da poesia barroca, como as indagações, os termos contrastantes e opositivos (nascimento e morte, luz e sombra, tristeza e alegria) e o paradoxo final: a constância... da inconstância:
Soneto
Nasce o Sol, e não dura mais que um dia,
Depois da Luz se segue a noite escura,
Em tristes sombras morre a formosura,
Em contínuas tristezas a alegria.

Porém se acaba o Sol, por que nascia?
Se formosa a Luz é, por que não dura?
Como a beleza assim se transfigura?
Como o gosto da pena assim se fia?

Mas no Sol, e na Luz, falte a firmeza,
Na formosura não se dê constância,
E na alegria sinta-se tristeza.

Começa o mundo enfim pela ignorância,
E tem qualquer dos bens por natureza
A firmeza somente na inconstância.


O poeta devoto
Ainda e sempre, as antíteses. Entre as tantas que o leitor cuidadoso irá descobrir, enumero estas: no desamparo do Cristo, o eu poético percebe a sua própria proteção; no sofrimento da crucificação, a felicidade de sua salvação. Por fim, e para fechar o soneto, as oposições se resolvem no desejo da criatura pecadora de unir-se ao crucificado que a resgata.
Buscando a Cristo
A vós correndo vou, braços sagrados,
Nessa cruz sacrossanta descobertos
Que, para receber-me, estais abertos,
E, por não castigar-me, estais cravados.

A vós, divinos olhos, eclipsados
De tanto sangue e lágrimas abertos,
Pois, para perdoar-me, estais despertos,
E, por não condenar-me, estais fechados.

A vós, pregados pés, por não deixar-me,
A vós, sangue vertido, para ungir-me,
A vós, cabeça baixa, p'ra chamar-me

A vós, lado patente, quero unir-me,
A vós, cravos preciosos, quero atar-me,
Para ficar unido, atado e firme.


Devoto, mas...
No poema a seguir, além das antíteses sempre presentes e do tom de religiosidade, notem a espécie de rebeldia que aflora na argumentação (quase chantagem...) do eu poético – o não resgate da ovelha desgarrada seria a perda de glória por parte do Pastor Divino:
A Jesus Cristo Nosso Senhor
Pequei, Senhor; mas não porque hei pecado,
Da vossa alta clemência me despido;
Antes, quanto mais tenho delinquido,
Vos tenho a perdoar mais empenhado.

Se basta a vos irar tanto pecado,
A abrandar-vos sobeja um só gemido:
Que a mesma culpa, que vos há ofendido,
Vos tem para o perdão lisonjeado.

Se uma ovelha perdida já cobrada,
Glória tal e prazer tão repentino
Vos deu, como afirmais na Sacra História:

Eu sou, Senhor, a ovelha desgarrada,
Cobrai-a; e não queirais, Pastor Divino,
Perder na vossa ovelha a vossa glória.


O poeta crítico e satírico
Confiram o uso da ironia, do deboche e da sonoridade para reforçar a censura e a denúncia. Observem, especialmente, o “trava-línguas” e a brincadeira com as terminações do último terceto:
Soneto
Neste mundo é mais rico, o que mais rapa:
Quem mais limpo se faz, tem mais carepa:
Com sua língua ao nobre o vil decepa:
O Velhaco maior sempre tem capa.

Mostra o patife da nobreza o mapa:
Quem tem mão de agarrar, ligeiro trepa;
Quem menos falar pode, mais increpa:
Quem dinheiro tiver, pode ser Papa.

A flor baixa se inculca por Tulipa;
Bengala hoje na mão, ontem garlopa:
Mais isento se mostra, o que mais chupa.

Para a tropa do trapo vazio a tripa,
E mais não digo, porque a Musa topa
Em apa, epa, ipa, opa, upa.


Um epílogo, ainda crítico
Embora mais conhecido, merece registro o poema que se segue – modelarmente crítico, ferino, irreverente e, em vários aspectos, particularmente atual:

Epílogos (Juízo anatômico dos achaques que padecia o corpo da república)

Que falta nesta cidade?... Verdade.
Que mais por sua desonra?... Honra.
Falta mais que se lhe ponha?... Vergonha.

O demo a viver se exponha,
Por mais que a fama a exalta,
Numa cidade onde falta
Verdade, honra, vergonha.

Quem a pôs neste rocrócio?... Negócio.
Quem causa tal perdição?... Ambição.
E no meio desta loucura?... Usura.

Notável desaventura
De um povo néscio e sandeu,
Que não sabe que perdeu
Negócio, ambição, usura.

Quais são seus doces objetos?... Pretos.
Tem outros bens mais maciços?... Mestiços.
Quais destes lhe são mais gratos?... Mulatos.

Dou ao Demo os insensatos,
Dou ao Demo o povo asnal,
Que estima por cabedal,
Pretos, mestiços, mulatos.

Quem faz os círios mesquinhos?... Meirinhos.
Quem faz as farinhas tardas?... Guardas.
Quem as tem nos aposentos?... Sargentos.

Os círios lá vêm aos centos,
E a terra fica esfaimando,
Porque os vão atravessando
Meirinhos, guardas, sargentos.

E que justiça a resguarda?... Bastarda.
É grátis distribuída?... Vendida.
Que tem, que a todos assusta?... Injusta.

Valha-nos Deus, o que custa
O que El-Rei nos dá de graça.
Que anda a Justiça na praça
Bastarda, vendida, injusta.

...........................................

O açúcar já acabou?... Baixou.
E o dinheiro se extinguiu?... Subiu.
Logo já convalesceu?... Morreu.

À Bahia aconteceu
O que a um doente acontece:
Cai na cama, o mal lhe cresce,
Baixou, subiu, morreu.

A Câmara não acode?... Não pode.
Pois não tem todo o poder?... Não quer.
É que o Governo a convence?... Não vence.

Quem haverá que tal pense,
Que uma câmara tão nobre,
Por ver-se mísera e pobre,
Não pode, não quer, não vence.

Fonte:
http://www.poesiaspoemaseversos.com.br/
http://www.jornaldepoesia.jor.br/

Nenhum comentário:

Postar um comentário