terça-feira, 22 de abril de 2014

Augusto, poeta extremo


Augusto dos Anjos nasceu em 20 de abril de 1884 e não viveu mais de trinta anos. Sofreu a derrocada financeira da família, certamente, e também as agruras de seu corpo e espírito doentio, como querem alguns.
De qualquer modo, há que se confiar na descrição que fez dele o amigo e admirador Orris Soares: “Foi magro meu desventurado amigo, de magreza esquálida – faces reentrantes, olhos fundos, orelhas violáceas e testa descalvada. A boca fazia a catadura crescer de sofrimento, por contraste do olhar doente de tristura e, nos lábios, uma crispação de demônio torturado. [...] Foi sempre amparado por essa visão sofredora que o poeta viu e sentiu a vida. Teve da dor a compreensão flagrante, sendo o seu coração, por ultrassensível, uma fonte inesgotável de aflições, que ele nunca soube distrair ou enganar.”¹
Pode-se perguntar: essa percepção dolorida o conduziu à morte prematura? Ou a premonição da morte é que lhe deu essa dor, sem remédio, da vida que se sabe fadada à interrupção, ao corte antecipado?
Difícil responder. Mais fácil é encontrar a mesma sombra angustiante em sua poesia – que ora aspira e se lança a aventuras ideais e cósmicas, ora se entrega ao desespero de um viver que se reconhece de antemão perdido, pois conduz à deterioração e ao Nada.
É na linguagem objetiva e nos termos científicos que a poesia de Augusto dos Anjos encontra os meios de certificar e definir, com maior rigor, as limitações e finitude – o destino, enfim – da matéria humana e do mundo físico, rumo à dissolução. No entanto, a mesma criatura poética que, em certos momentos, se entrega à visão derrotista e destrutiva, em outros, decola em direção inversa; e, com o mesmo fervor, deseja alcançar a perenidade do Imaterial e do Infinito. O crítico Anatol Rosenfeld afirmou: “Entre todos os termos deste grande poeta não existe um: o termo médio.²
Transcrevo, a seguir, dois poemas, dois exemplos dessa oscilação vertiginosa entre opostos.
Em Psicologia de um vencido, o eu lírico se vê como simples composição orgânica e material, cujo destino final e inevitável é desagregar-se e servir de pasto aos vermes:

Psicologia de um vencido
Eu, filho do carbono e do amoníaco,
Monstro de escuridão e rutilância,
Sofro, desde a epigênesis da infância,
A influência má dos signos do zodíaco.
Profundissimamente hipocondríaco,
Este ambiente me causa repugnância...
Sobe-me à boca uma ânsia análoga à ânsia
Que se escapa da boca de um cardíaco.
Já o verme – este operário das ruínas –
Que o sangue podre das carnificinas
Come, e à vida em geral declara guerra,
Anda a espreitar meus olhos para roê-los,
E há de deixar-me apenas os cabelos,
Na frialdade inorgânica da terra!

Ao contrário, em Ao Luar, a matéria aparece sublimada; membros e sentidos se aguçam, e o eu lírico se vê alçando-se e tocando a grandeza do Cosmos:

Ao Luar
Quando, à noite, o Infinito se levanta
À luz do luar, pelos caminhos quedos
Minha tátil intensidade é tanta
Que eu sinto a alma do Cosmos nos meus dedos!
Quebro a custódia dos sentidos tredos
E a minha mão, dona, por fim, de quanta
Grandeza o Orbe estrangula em seus segredos,
Todas as coisas íntimas suplanta!
Penetro, agarro, ausculto, apreendo, invado,
Nos paroxismos da hiperestesia,
O Infinitésimo e o Indeterminado…
Transponho ousadamente o átomo rude
E, transmudado em rutilância fria,
Encho o Espaço com a minha plenitude!

¹ O depoimento de Orris Soares e todos os poemas registrados nesta matéria podem ser encontrados em: ANJOS, Augusto dos. Eu & Outras Poesias – 2 vols. Belo Horizonte: Ed. Itatiaia; Rio de Janeiro: Ed. Civilização Brasileira, 1982.
² ROSENFELD, Anatol. Texto/Contexto. São Paulo: Ed. Perspectiva, 1969.


A convivência dos opostos
Das duas faces de Augusto dos Anjos que pudemos ver, a mais conhecida é a que vem ligada ao pessimismo. Entretanto, a necessidade e inevitabilidade dos opostos – ou, mais ainda, sua coexistência e implicabilidade para o ser humano – é afirmada em diversos poemas, como neste soneto, que vem a seguir.
Percebam, nos quartetos, os pares opositivos e a comparação final (ver negrito), em que o poeta se serve de termos científicos para sustentar e comprovar sua argumentação de que o contraste “convém para o homem ser completo”.
Argumentos semelhantes aparecem nos tercetos, iniciados pelo verso em que o eu poético, além de tudo, assevera sua competência para dizer o que diz: “Eu sei tudo isto mais do que o Eclesiastes!”.

Contrastes
A antítese do novo e do obsoleto,
O Amor e a Paz, o Ódio e a Carnificina,
O que o homem ama e o que o homem abomina,
Tudo convém para o homem ser completo!

O ângulo obtuso, pois, e o ângulo reto,
Uma feição humana e outra divina
São como a eximenina e a endimenina³
Que servem ambas para o mesmo feto!

Eu sei tudo isto mais do que o Eclesiastes!
Por justaposição destes contrastes,
Junta-se um hemisfério a outro hemisfério,

Às alegrias juntam-se as tristezas,
E o carpinteiro que fabrica as mesas
Faz também os caixões do cemitério!...
³ Eximenina e endimenina: respectivamente, membranas externa e interna do pólen. Os termos valem como licença e metáfora poética, estendendo-se a “feto”.


O Vencedor
No embate de experiências (reais ou imaginárias) divergentes e radicais, surge a expressividade das palavras extremas, de cunho científico e “apoéticas”, que tantas vezes espantam e chocam, ainda hoje, os leitores. É a luta do poeta para fazer valer, na linguagem, sua verdade e intenção.
Dela, o homem Augusto, prisioneiro de seus sofrimentos, pode até sair machucado e derrotado. Mas o Augusto poeta, esse... (Leiam e ouçam o poema seguinte.)

Vencedor
Toma as espadas rútilas, guerreiro,
E à rutilância das espadas, toma
A adaga de aço, o gládio de aço, e doma
Meu coração — estranho carniceiro!
Não podes?! Chama então presto o primeiro
E o mais possante gladiador de Roma.
E qual mais pronto, e qual mais presto assoma,
Nenhum pode domar o prisioneiro.
Meu coração triunfava nas arenas.
Veio depois um domador de hienas
E outro mais, e, por fim, veio um atleta,
Vieram todos, por fim; ao todo, uns cem...
E não pôde domá-lo, enfim, ninguém,
Que ninguém doma um coração de poeta!

O poema Vencedor, na interpretação de Othon Bastos


sábado, 19 de abril de 2014

Bandeira, crônica e poema


Estamos em abril, e o dia 19 marca o nascimento de Manuel Bandeira. Nessa oportunidade, muito se vai falar, assim como tanto já se disse, a respeito do poeta. E muito ficará por dizer...
Do homem Bandeira, conta-se de seu caráter ameno e simpático – sofrido, mas não mórbido; recolhido e caseiro (até por conta da saúde frágil), mas não misantropo; carente de familiares, que foi perdendo ao longo da vida, mas não de amigos.
Teve movimentada vida intelectual: não podendo formar-se engenheiro, foi professor de literatura, por bom tempo, e escritor, o tempo todo. Além de poemas e crônicas, fez crítica literária e musical, traduziu peças teatrais (de Schiller, Cocteau e Shakespeare, entre outros), escreveu biografias de escritores românticos brasileiros. Aproveitando os constantes deslocamentos para tratamento da tuberculose, estudou, conheceu países e artistas.
Esse homem afável e cidadão intelectualizado praticava uma poesia simples, talvez – mas não tão fácil, como querem alguns.
Dele, enquanto poeta, costumam ser mais explorados a face lírica, às vezes melancólica, às vezes autoirônica, e os temas intimistas, “caseiros” e até banais, que dão à sua obra aquele aspecto de “fácil”. No entanto, sua experiência de mundo, conhecimento da língua e da linguagem, competência técnica e autoconsciência transformavam construções linguísticas aparentemente simples, em lúcidas reflexões sobre si mesmo, a vida e o outro.
É o que me faz pinçar um outro lado de sua obra poética, para vê-lo como um “cronista-poeta” – aquele que parte de  situações corriqueiras  e as valoriza, a fim de desvelar, em vários de seus poemas, outros e mais profundos sentidos da realidade.
Age assim o cronista, sabemos: destaca um aspecto do cotidiano – seu, da sociedade, da natureza, da razão, da emoção – para, mediante linguagem informal, dialogar com o leitor, fazendo-o perceber detalhes escondidos e/ou avaliar criticamente a realidade.
No caso de Bandeira, colaboram, para isso: de uma parte, o olhar observador de homem e poeta que, acostumado à interiorização, alonga-se e se volta criticamente para o entorno; por outra, a arquitetura de seus textos, construídos com palavras simples e cotidianas.
Estão aí indícios de um belo cronista-poeta... Vejamos nos textos a seguir.

  
Preparando o terreno: o cronista do fazer poético
No poema a seguir, o eu poético prepara o terreno para um caminho mais crítico e anuncia, ao leitor, o ponto de vista do “poeta sórdido” – aquele que rejeita a visão lírica (a “poesia orvalho”) e proclama a verdadeira natureza de seu fazer: revelar o lado verdadeiro (ainda que “sujo”) da vida.
Reparem nos versos de comprimento irregular; reparem, sobretudo, na longa frase que constitui uma pequena narrativa, aproximando-se da prosa; e na intenção do poema de sacudir o “leitor satisfeito”, como é habitual na crônica. 

Nova poética
Vou lançar a teoria do poeta sórdido.
Poeta sórdido:
Aquele em cuja poesia há a marca suja da vida.
Vai um sujeito,
Sai um sujeito de casa com a roupa de brim branco muito bem engomada, e
                                     [na primeira esquina passa um caminhão, salpica-lhe
                                     [o paletó ou a calça de uma nódoa de lama:
É a vida.
O poema deve ser como a nódoa no brim:
Fazer o leitor satisfeito de si dar o desespero.
Sei que a poesia é também orvalho.
Mas este fica para as menininhas, as estrelas alfas, as virgens cem por cento e
                                                       [as amadas que envelheceram sem maldade.
Belo Belo. In Estrela da vida inteira. Rio de Janeiro: José Olympio, 1974.


Olhando para dentro: o cronista da infância
Muitos escreveram crônicas sobre a infância, na primeira pessoa. Cito apenas alguns: Cecília Meireles (Brinquedos Incendiados), Rubem Braga (Os Teixeiras), Paulo Mendes Campos (Maria José). Assim, também, Manuel Bandeira torna-se cronista de sua (verdadeira ou poética) infância, em Porquinho-da-Índia.
Notem a banalidade do assunto, da narrativa, dos diminutivos. Mas, notem, para além disso, o espaço antes da última frase e, nesta, o travessão que anuncia a fala interpretativa que aprofunda e confere sensibilidade ao conjunto do texto.

Porquinho-da-índia
Quando eu tinha seis anos
Ganhei um porquinho-da-índia.
Que dor de coração me dava
Porque o bichinho só queria estar debaixo do fogão!
Levava ele prá sala
Pra os lugares mais bonitos mais limpinhos
Ele não gostava:
Queria era estar debaixo do fogão.
Não fazia caso nenhum das minhas ternurinhas…


– O meu porquinho-da-índia foi minha primeira namorada.
Libertinagem. In Estrela da vida inteira. Rio de Janeiro: José Olympio, 1974.

  
O homem, os homens: o cronista do drama humano
Nos dois poemas a seguir, o olhar do cronista-poeta volta-se para os homens, à volta.
No primeiro – O bicho –, o leitor percorre as linhas do poema, quando muito, preparando-se para ser docemente piedoso com o animalzinho faminto... A terceira estrofe simula, mesmo, um jogo de adivinha: não era isso, não era aquilo.
Contudo, a repetição (“não era”) conduz à revelação final: de fato, o arremate com uma linha solitária (ver negrito, no texto) rompe com qualquer amenidade e sacode violentamente o leitor, com sua denúncia da degradação do ser humano, esquecido pelo organismo social.
A primeira pessoa e a invocação “Meu Deus” mostram a angústia do eu poético; é ela que contamina, por fim, o leitor.

O bicho
Vi ontem um bicho
Na imundície do pátio,
Catando comida entre os detritos.
Quando achava alguma coisa,
Não examinava nem cheirava:
Engolia com voracidade.
O bicho não era um cão.
Não era um gato.
Não era um rato.
O bicho, meu Deus, era um homem.
Belo Belo. In Estrela da vida inteira. Rio de Janeiro: José Olympio, 1974.

No segundo – Momento num café –, o olhar objetivo (da terceira pessoa) descreve uma cena comum do cotidiano: o enterro que passa, os homens que tiram o chapéu (é o início do século XX), em sinal de respeito. Entretanto, aqui, também, acusa-se a insensibilidade humana, agora camuflada pelo verniz social.
De duas formas principais se organiza essa crítica:
- por termos (adjetivos e advérbios) caracterizadores dessa indiferença ante o drama da morte (alguns deles em negrito, no texto);
- pelo contraste entre dois comportamentos: o primeiro, dos indiferentes que se voltam apenas para a vida (primeira estrofe); o segundo (segunda estrofe), do único que dá à vida seu sentido verdadeiro, ou, se quiserem, seu não sentido. Outra vez, notem os negritos, agora a indicar a mudança: a conjunção “no entanto”; o verso mais longo, aliado aos advérbios que realçam o gesto respeitoso.

Momento num café
Quando o enterro passou
Os homens que se achavam no café
Tiraram o chapéu maquinalmente
Saudavam o morto distraídos
Estavam todos voltados para a vida
Absortos na vida
Confiantes na vida
.
Um no entanto se descobriu num gesto largo e demorado
Olhando o esquife longamente
Este sabia que a vida é uma agitação feroz e sem finalidade
Que a vida é traição
E saudava a matéria que passava
Liberta para sempre da alma extinta.
Estrela da Manhã. In Estrela da vida inteira. Rio de Janeiro: José Olympio, 1974.

  
Poema-crônica ou crônica poética?
Antes de comentar, peço que leiam o texto seguinte.
Tragédia brasileira
Misael, funcionário da Fazenda, com 63 anos de idade.
Conheceu Maria Elvira na Lapa — prostituída, com sífilis, dermite nos dedos, uma aliança empenhada e os dentes em petição de miséria.
Misael tirou Maria Elvira da vida, instalou-a num sobrado no Estácio, pagou médico, dentista, manicura... Dava tudo quanto ela queria.
Quando Maria Elvira se apanhou de boca bonita, arranjou logo um namorado.
Misael não queria escândalo. Podia dar uma surra, um tiro, uma facada. Não fez nada disso: mudou de casa.
Viveram três anos assim.
Toda vez que Maria Elvira arranjava namorado, Misael mudava de casa.
Os amantes moraram no Estácio, Rocha, Catete, Rua General Pedra, Olaria, Ramos, Bonsucesso, Vila Isabel, Rua Marquês de Sapucaí, Niterói, Encantado, Rua Clapp, outra vez no Estácio, Todos os Santos, Catumbi, Lavradio, Boca do Mato, Inválidos...
Por fim na Rua da Constituição, onde Misael, privado de sentidos e de inteligência, matou-a com seis tiros, e a polícia foi encontrá-la caída em decúbito dorsal, vestida de organdi azul.
Estrela da Manhã. In Estrela da vida inteira. Rio de Janeiro: José Olympio, 1974.

Prosa? Poesia? Crônica em linhas, a modo de versos? Poema com aparência de crônica? Vejamos.
O texto é aparentemente simples. Como alguém já comentou, seu esqueleto narrativo pode ser resumido no trinômio verbal: “conheceu-mudou-matou”, repetição de cena tantas vezes já vista.
Mas essa “historinha” se transforma, com a multiplicação de sentidos produzida pelo trabalho com a palavra. Pistas desse trabalho:
1. O nome Maria Elvira contém, em si, quase toda a palavra miséria. E notem o jogo sonoro: Maria, Elvira e miséria têm as mesmas três letras, os mesmos três sons finais; a identidade de letras faz com que, sonora e visualmente, as três palavras se espelhem / se reflitam mutuamente.
2. Por meio das vogais e do /M/, a sonoridade acima espraia-se para as palavras Misael e amantes, incluindo-as no mesmo universo de sentido: a atmosfera contínua da miséria moral de Maria Elvira.
3. A Rua dos Inválidos, que fecha o terceiro parágrafo, parece um prenúncio da inutilidade dos esforços de Misael. Por outro lado, a rua do desfecho sangrento é, ironicamente, a Rua Da Constituição, indiciando a Lei.
4. Finalmente, a derradeira ironia: o organdi azul do vestido da morta sugere beleza e festa – inexistentes, tanto na morte, quanto o fora na vida do casal. Mais: a transparência característica do tecido não esconde a miséria do corpo ferido; em paralelo, a “maquiagem” e embelezamento promovidos por Misael (casa, dentista, médico) não encobriram a miséria da alma deteriorada de Maria Elvira.
Conclusão? Um belo poema, disfarçado de prosa/crônica do cotidiano.

  
Um gancho, a partir de Maria Elvira
Para terminar, tomo Maria Elvira e uso seu vestido como um gancho para Manuel Bandeira. Sua obra poética – “fácil”, simples, ingênua, ou o que quer que se queira – é o vestido transparente com que o poeta encobre um universo rico em significados e sempre mais denso, à medida que o relemos.
Experimentem reler, por exemplo, os poemas acima. Experimentem e descubram...

quarta-feira, 16 de abril de 2014

Redação e produção de textos: entre isto e aquilo



As declarações abaixo são de estudantes:
As professoras falam redação mesmo, produção de texto era o nome da minha disciplina em que fazíamos redações.”
“Na escola os professores falam produção de texto, mas em provas, avaliações, etc., falam redação.”
Entendamos: embora, oficialmente, os professores usem a terminologia moderna –“produção de textos” –, deixam escapar a antiga, “redação”, por hábito. A confusão até permite lembrar o final de Ou isto ou aquilo, de Cecília Meireles:
“ Mas não consegui entender ainda
qual é melhor: se é isto ou aquilo.”
¹
Afinal, isto ou aquilo? Ou seria isto e aquilo? Existe diferença? Se existe, é diferença importante?
¹ MEIRELES, Cecília. Ou isto ou aquilo. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 1987.


Apenas um nome?
Na verdade, o nome, em si, não teria tanta importância, se não viesse associado a posturas diferentes ante o ensino da língua. Mas proponho chegarmos, juntos, a algumas conclusões.
Na aprendizagem da escrita (também da leitura, mas aqui trato mais da primeira), não é difícil reconhecer o protagonismo do professor. Alunos que somos ou fomos, se rememorarmos o transcorrer de uma aula de redação/produção de texto e analisarmos facilidades, dificuldades e sentimentos decorrentes, provavelmente concluiremos que muito de nossa experiência – positiva ou negativa – tem a marca da postura e das estratégias adotadas por ele.
Escrever é uma conquista que o aluno dificilmente obtém sem o apoio de um mestre dedicado, pois envolve procedimentos que precisam ser paulatinamente aprendidos e exercitados. O linguista Marcuschi explica que o homem é “ser que fala”, não “ser que escreve”. Nascemos para falar, e a criança cedo adquire a oralidade, em contato com o meio; em compensação, escrever demanda um bom esforço, tanto de quem ensina quanto de quem aprende.
Se queremos comunicar algo por meio da escrita, queremos, evidentemente, ser compreendidos, queremos fazer chegar a alguém nosso “recado”. Afinal (mesmo se não nos damos conta), escrevemos tendo em mente um interlocutor que, ausente fisicamente no momento da escrita, não tem nossos gestos e entonação, nem a possibilidade imediata de indagar e pedir explicações, no caso de não compreensão. Assim sendo, para que o entendimento se faça de modo adequado, nossas ideias têm de aparecer “redondinhas” no texto escrito; ou seja, a linguagem que usamos precisa ser clara, coerente, coesa e ter sempre em vista o repertório linguístico e os conhecimentos de quem lê.
Essas são habilidades a serem desenvolvidas prioritariamente pela escola, responsabilidade de todos os professores, mas função primordial do professor de língua materna, pois sua mediação se faz sentir desde a alfabetização até o fim do ciclo acadêmico. Compreende-se, portanto, o quanto é determinante o modo como entende seu objeto de ensino – a linguagem – e, dentro dela (que é o que nos interessa agora), se assume a atividade de escrita de seu aluno como redação ou como produção de textos – o que, já antecipo, irá se refletir na forma como encara a relação mestre-aprendiz e como organiza propostas e atividades em suas aulas.
Então, volto à pergunta do início: qual a diferença entre uma coisa e outra?


Partindo de um mestre
Para nos ajudar, antes uma pista, extraída do mestre linguista Geraldi: na redação, produzem-se textos para a escola; na produção de textos, produzem-se textos na escola.
Subentende-se: “para a escola” é para o professor, para obter boa nota, para passar de ano, para ter sucesso no vestibular; é para obedecer ao currículo, às regras da língua; provavelmente, para aprender a “escrever bonito” e usar uma linguagem mais “aprimorada”, independente do que se quer comunicar.
 Escrever “na escola” é mais que isso e põe em relevo a função primordial de promover a aprendizagem para a vida: ao olhar sensível do professor-mediador não escapam os interesses, as preocupações de seus alunos e, ainda que estes não as privilegiem, também as necessidades presentes e futuras – deles próprios e da sociedade na qual vivem e devem atuar. Suas propostas em relação às aulas de língua irão se beneficiar desse cuidado.
Resumo, relembrando trecho da matéria de 12/02/14: “Para o aluno, não se trata de redigir textos para o professor ou para a escola, mas de produzir, na escola, textos que usa e usará em diversas instâncias de sua vida. [...] A escola deve procurar reproduzir, de certa forma, o funcionamento da escrita na sociedade. Aliás, ela é – ou deveria ser – parte e modelo vivo do organismo social.


Redação x produção: ilustrando
Para ilustrar a diferença entre redação e produção de texto, suponhamos que, segundo o planejamento do professor, é o momento da aprendizagem de produção de carta e crônica.
De início, visualizemos um professor que considera prioritário e urgente ensinar ao aluno a “composição”, a estrutura do texto. Em decorrência, escolhe algum assunto para servir de “conteúdo” ao ensino pretendido e propõe: carta às autoridades para reclamar da sujeira das ruas; ou, quem sabe, carta a um amigo, convidando-o a visitá-lo na Páscoa; ou... Enfim, qualquer que seja o assunto, o essencial é que não faltem: local e data, saudação, assinatura; além, é claro, do corpo do texto organizado em introdução, desenvolvimento e conclusão.
Em relação à crônica, a proposta poderá ser a de escrever sobre um personagem folclórico do bairro em que mora (tão comum de existir...); ou sobre um aniversário diferente (aproveitando que o livro didático traz um texto de Luís Fernando Veríssimo com o tema); ou...
Sua intenção é a melhor possível: fazer os alunos conhecerem e exercitarem gêneros previstos no currículo e que serão objeto da avaliação do bimestre. Entretanto, reparem: a diretriz sobre o que escrever, vinda apenas do professor, dificilmente terá a adesão de toda a classe. (Alguém, mais inconformado, até poderá questionar: “para que preciso saber isso”?) É proposição de uma tarefa a mais, sem a preocupação de se conectar à realidade do aluno, que a cumprirá simplesmente “porque o professor pediu”.
Ainda que trabalhe gêneros, conforme pedem as teorias mais atuais, e qualquer que seja a denominação dada, na prática resulta em simples exercício de redação, com o principal escopo de fixar certas normas formais e estruturais, ou seja, a aprendizagem de regras – do gênero proposto, do encadeamento das frases, da organização dos parágrafos, de fatos gramaticais e ortográficos... Repetindo: aprendizagem para a escola, para o planejamento curricular, para a avaliação traduzida em nota.
Agora, simulemos outra postura. O professor está atento ao movimento intraclasse, percebe um bom número de alunos interessados em música e em postar vídeos com suas vozes e conjuntos na internet; assim, sugere a escrita de uma carta de solicitação à coordenação do curso, em que a classe, em conjunto, exporá argumentos para a realização de saraus musicais, ao final dos períodos de aula. Sua proposta vem ao encontro de algo de interesse coletivo, ao mesmo tempo em que leva avante a aprendizagem de gênero valioso para a expressão e atuação do cidadão.
De igual modo, diante da preocupação evidente dos alunos com o avião da Malásia recentemente desaparecido, direciona a aula para a produção de uma reportagem sobre o assunto, orientando a leitura e a coleta de informações em órgãos de imprensa, a pesquisa sobre a situação geográfica e política do país e o contato e entrevista com especialista em segurança aérea. A matéria será publicada no jornal semanal da classe, ou exposta no grande mural do pátio da escola. (A crônica, objetivo preferencial do bimestre, esperará outra ocasião, ou tratará de tema correlato, podendo representar as visões particulares dos estudantes sobre os fatos da reportagem.) Observem que ações reais – de leitura e pesquisa em periódicos, comunicação oral e/ou escrita com órgãos e pessoas conhecedoras do assunto, partilha de informações pelo grupo – devem ser empreendidas, até chegar à confecção da reportagem.
Em todos os gêneros propostos pelo segundo professor, e percorrendo todo o processo, necessariamente figuram a abordagem da estruturação de texto e outros aspectos linguísticos e gramaticais relativos ao gênero proposto e aos leitores visados.
Assim, desta vez, a aprendizagem conecta-se à realidade. É produção de texto, é escrita na escola, para a vida. Nessas condições, o aluno encontra um motivo para escrever; é mais fácil mergulhar, tomar partido, expressar opiniões, hipóteses e soluções, porque ele vê seu universo valorizado. Como ensina Geraldi, trata-se de tomar a palavra do aluno enquanto indicador dos caminhos a serem seguidos. O professor, longe de ser mero censor e avaliador, é aí interlocutor privilegiado, que põe sua bagagem especializada a serviço de aprendizagens mútuas.
O gênero de texto a ser produzido também não é aleatório; ao contrário, é priorizado por ser adequado à circunstância da interlocução, ao assunto tratado e ao que se quer dizer. O professor, flexível o suficiente para não se aferrar ao programa pré-fixado, em vez de julgar sua determinação soberana, contempla o interesse e vivência do grupo e os acontecimentos do cotidiano e da vida em sociedade, garantindo de modo eficaz a possibilidade de envolvimento de cada aluno-escritor.
De seu lado, o aluno sabe que o que escreve não irá parar na simples avaliação: há pessoas concretas, não imaginárias, com quem dialogar, há leitores na outra ponta (o professor é, inevitavelmente, um deles; e, nos exemplos, também os colegas, a coordenação escolar, os leitores do jornal). Percebe a língua como forma de atuação social, e a si próprio, como ser de linguagem – comprometido e responsável por sua palavra, organizada nos textos de sua autoria.
Fica mais fácil, assim, entender por que precisa aprender a escrever; e por que escrever tantos gêneros: carta de reclamação ou solicitação, reportagem, conto, crônica, relatório, etc. – textos com características e funções diferentes, para serem efetivamente usados nas múltiplas situações vividas, e não encostados num canto da memória dos tempos escolares.
Esta é, verdadeiramente, a produção de textos: a que toma a língua enquanto fato social, envolve cada situação de vida e considera o ser na integralidade de seus muitos momentos, de sua história – com seu passado e o passado de sua gente; com seu futuro e o futuro de outros que virão; com seu presente e os espaços, pessoas, conhecimentos e vivências que o constituem.
Em síntese, é a proposta de produção de textos (escritos e orais) na escola, mas não para a (avaliação da) escola, de que fala Geraldi.


Assumir a utopia
Ideal distante?
Respondo, mais uma vez, com recortes da lição do mestre:
“Possivelmente, uma proposta como a aqui esboçada exigirá que o professor [...] abandone a posição de guardar para si o território de detentor/transmissor de um saber para se colocar, com os alunos, em outro território: o da construção de conhecimentos a propósito da linguagem. [...] Para mim, estes estudos do professor e dos alunos, como quaisquer outros, só serão significativos se inspirados na utopia compartilhada que faz do homem companheiro do homem.”²
Assumamos a utopia”... porém, que ela não seja apenas uma fachada discutida por autoridades, e que assuma sua verdadeira feição democrática de ser reivindicada, discutida e vivida por toda a comunidade escolar: todos os funcionários, não só o professor; toda a família, não só o aluno.
² GERALDI, João Wanderlei. Portos de passagem. São Paulo: WMF Martins Fontes, 2013.

quarta-feira, 9 de abril de 2014

As muitas faces de Gregório de Matos

Gregório de Matos nasceu na Bahia, no dia 7 de abril de 1633. Não, não, em 1636. Ou foi em 23 de dezembro de 1623?


Até nesses dados simples, nós nos deparamos com suas contradições...
Gregório de Matos Guerra: o filho de fidalgo, advogado formado pela Universidade de Coimbra, intelectual e poeta que chegou a escrever suas argumentações em versos. Mas, também, o irrequieto boêmio, crítico feroz da nobreza e do clero, da política e da corrupção de seu tempo, o que lhe valeu a deportação para Angola.
Foi o lírico, a derramar sentimentos, ideais e religiosidade; porém, do mesmo modo, foi o autor de versos que vão da crítica social ao deboche e à obscenidade.
Alguns historiadores, inclusive, citam-no como criador de modinhas e lundus, o que lhe daria direito ao título de primeiro compositor popular brasileiro.
Para nós, aqui e agora, Gregório de Matos é, sobretudo, o responsável pela urdidura cambiante dessas múltiplas faces, que se revelam nos poemas que se seguem. Neles, vislumbra-se o escritor “maldito”, apelidado de “Boca do Inferno” por sua contundência e mordacidade (em criações que fazem lembrar, até, as cantigas de escárnio dos trovadores da Idade Média), bem como o poeta sério e introspectivo, com versos carregados de expressões, antíteses e conflitos próprios da poesia (barroca) de seu tempo.


O poeta idílico
Aqui, estão claramente presentes elementos próprios da poesia barroca, como as indagações, os termos contrastantes e opositivos (nascimento e morte, luz e sombra, tristeza e alegria) e o paradoxo final: a constância... da inconstância:
Soneto
Nasce o Sol, e não dura mais que um dia,
Depois da Luz se segue a noite escura,
Em tristes sombras morre a formosura,
Em contínuas tristezas a alegria.

Porém se acaba o Sol, por que nascia?
Se formosa a Luz é, por que não dura?
Como a beleza assim se transfigura?
Como o gosto da pena assim se fia?

Mas no Sol, e na Luz, falte a firmeza,
Na formosura não se dê constância,
E na alegria sinta-se tristeza.

Começa o mundo enfim pela ignorância,
E tem qualquer dos bens por natureza
A firmeza somente na inconstância.


O poeta devoto
Ainda e sempre, as antíteses. Entre as tantas que o leitor cuidadoso irá descobrir, enumero estas: no desamparo do Cristo, o eu poético percebe a sua própria proteção; no sofrimento da crucificação, a felicidade de sua salvação. Por fim, e para fechar o soneto, as oposições se resolvem no desejo da criatura pecadora de unir-se ao crucificado que a resgata.
Buscando a Cristo
A vós correndo vou, braços sagrados,
Nessa cruz sacrossanta descobertos
Que, para receber-me, estais abertos,
E, por não castigar-me, estais cravados.

A vós, divinos olhos, eclipsados
De tanto sangue e lágrimas abertos,
Pois, para perdoar-me, estais despertos,
E, por não condenar-me, estais fechados.

A vós, pregados pés, por não deixar-me,
A vós, sangue vertido, para ungir-me,
A vós, cabeça baixa, p'ra chamar-me

A vós, lado patente, quero unir-me,
A vós, cravos preciosos, quero atar-me,
Para ficar unido, atado e firme.


Devoto, mas...
No poema a seguir, além das antíteses sempre presentes e do tom de religiosidade, notem a espécie de rebeldia que aflora na argumentação (quase chantagem...) do eu poético – o não resgate da ovelha desgarrada seria a perda de glória por parte do Pastor Divino:
A Jesus Cristo Nosso Senhor
Pequei, Senhor; mas não porque hei pecado,
Da vossa alta clemência me despido;
Antes, quanto mais tenho delinquido,
Vos tenho a perdoar mais empenhado.

Se basta a vos irar tanto pecado,
A abrandar-vos sobeja um só gemido:
Que a mesma culpa, que vos há ofendido,
Vos tem para o perdão lisonjeado.

Se uma ovelha perdida já cobrada,
Glória tal e prazer tão repentino
Vos deu, como afirmais na Sacra História:

Eu sou, Senhor, a ovelha desgarrada,
Cobrai-a; e não queirais, Pastor Divino,
Perder na vossa ovelha a vossa glória.


O poeta crítico e satírico
Confiram o uso da ironia, do deboche e da sonoridade para reforçar a censura e a denúncia. Observem, especialmente, o “trava-línguas” e a brincadeira com as terminações do último terceto:
Soneto
Neste mundo é mais rico, o que mais rapa:
Quem mais limpo se faz, tem mais carepa:
Com sua língua ao nobre o vil decepa:
O Velhaco maior sempre tem capa.

Mostra o patife da nobreza o mapa:
Quem tem mão de agarrar, ligeiro trepa;
Quem menos falar pode, mais increpa:
Quem dinheiro tiver, pode ser Papa.

A flor baixa se inculca por Tulipa;
Bengala hoje na mão, ontem garlopa:
Mais isento se mostra, o que mais chupa.

Para a tropa do trapo vazio a tripa,
E mais não digo, porque a Musa topa
Em apa, epa, ipa, opa, upa.


Um epílogo, ainda crítico
Embora mais conhecido, merece registro o poema que se segue – modelarmente crítico, ferino, irreverente e, em vários aspectos, particularmente atual:

Epílogos (Juízo anatômico dos achaques que padecia o corpo da república)

Que falta nesta cidade?... Verdade.
Que mais por sua desonra?... Honra.
Falta mais que se lhe ponha?... Vergonha.

O demo a viver se exponha,
Por mais que a fama a exalta,
Numa cidade onde falta
Verdade, honra, vergonha.

Quem a pôs neste rocrócio?... Negócio.
Quem causa tal perdição?... Ambição.
E no meio desta loucura?... Usura.

Notável desaventura
De um povo néscio e sandeu,
Que não sabe que perdeu
Negócio, ambição, usura.

Quais são seus doces objetos?... Pretos.
Tem outros bens mais maciços?... Mestiços.
Quais destes lhe são mais gratos?... Mulatos.

Dou ao Demo os insensatos,
Dou ao Demo o povo asnal,
Que estima por cabedal,
Pretos, mestiços, mulatos.

Quem faz os círios mesquinhos?... Meirinhos.
Quem faz as farinhas tardas?... Guardas.
Quem as tem nos aposentos?... Sargentos.

Os círios lá vêm aos centos,
E a terra fica esfaimando,
Porque os vão atravessando
Meirinhos, guardas, sargentos.

E que justiça a resguarda?... Bastarda.
É grátis distribuída?... Vendida.
Que tem, que a todos assusta?... Injusta.

Valha-nos Deus, o que custa
O que El-Rei nos dá de graça.
Que anda a Justiça na praça
Bastarda, vendida, injusta.

...........................................

O açúcar já acabou?... Baixou.
E o dinheiro se extinguiu?... Subiu.
Logo já convalesceu?... Morreu.

À Bahia aconteceu
O que a um doente acontece:
Cai na cama, o mal lhe cresce,
Baixou, subiu, morreu.

A Câmara não acode?... Não pode.
Pois não tem todo o poder?... Não quer.
É que o Governo a convence?... Não vence.

Quem haverá que tal pense,
Que uma câmara tão nobre,
Por ver-se mísera e pobre,
Não pode, não quer, não vence.

Fonte:
http://www.poesiaspoemaseversos.com.br/
http://www.jornaldepoesia.jor.br/