terça-feira, 25 de março de 2014

Pistas de um cronista



O que faz com que alguém seja escritor? O que faz com que um escritor opte por determinada linha de pensamento, ao escrever? E por que seus escritos parecem se “encaixar” tão bem em determinado gênero? Enfim, há como explicar seu estilo e suas características?
Penso essas questões em relação a Moacyr Scliar (contista, romancista, cronista, ensaísta), neste mês de seu aniversário (nasceu em 23/03/1937). Em Memórias de um aprendiz de escritor¹, texto autobiográfico, há pistas para entender sua vocação literária, em geral, e suas qualidades de cronista, em particular. Vamos a elas.

A precocidade
Parece que Scliar já nasceu escritor:
Nasci, sim. ‘Logo depois que nasci correu pela vizinhança que eu me chamava Mico...’
Estas linhas, se bem as lembro – e bem as lembro, sim! – faziam parte de meu primeiro texto, escrito em papel de embrulho: uma autobiografia, muito precoce e necessariamente curta, pois eu não teria mais de seis anos. Alfabetizado precocemente por minha mãe, que era professora primária, eu optara por escrever, ao invés de jogar futebol (também jogava futebol, na calçada da minha rua; longas partidas, em que eram marcadas dezenas de gols; mas o futebol era – é – realidade, uma realidade terrivelmente importante neste país; e à realidade eu preferia a ficção. A narrativa).

O gosto pela ficção e pelo relato
Um ambiente recheado de narrativas, personagens e experiências dos antepassados povoa a imaginação da criança:
Na verdade, todas as minhas recordações estão ligadas a isso, a ouvir e contar histórias. Não só histórias dos personagens que me encantaram, o Saci-Pererê, o Negrinho do Pastoreio, a Cuca, Hércules, Teseu, os Argonautas, Mickey Mouse, Tarzan, os Macabeus, os piratas, Tom Sawyer, Sacco e Vanzetti. Mas também as minhas próprias histórias, as histórias de meus personagens, estas criaturas reais ou imaginárias com quem convivi desde a infância.
[...]
Cresci ouvindo histórias. Porque tinham histórias a contar, eles: meus pais, meus tios, nossos vizinhos. Eram, na maioria, emigrantes. Da Rússia. Lá tinham vivido, como seus antepassados, em pequenas aldeias, em meio a uma lírica miséria, lendo a Bíblia, praticando a religião, e trabalhando como artesãos e pequenos comerciantes.  [...]
Contar histórias. Eis uma coisa que meus pais sabiam fazer particularmente bem, com graça e humor; sabiam transformar pessoas em personagens, acontecimentos em situações ou cenas.

O hábito da leitura e da escrita
A convivência com os livros; o valor da casa como primeira escola; o papel significativo de uma aprendizagem com o afeto e estímulo de pais e mestres:
De minha mãe adquiri o gosto pela leitura. Éramos pobres; não indigentes; não chegávamos a passar fome, mas tínhamos de economizar. Apesar disto nunca me faltou dinheiro para livros. Minha mãe me levava à tradicional Livraria do Globo e eu podia escolher à vontade. Desde pequeno estava lendo. De tudo, como até hoje: Monteiro Lobato e revistas em quadrinhos, divulgação científica e romances.
[...]
Meus pais orgulhavam-se do que eu escrevia. Não eram ricos, como eu disse antes, mas um dos primeiros presentes que me deram foi uma máquina de escrever. Usada, claro, mas excelente – Royal, importada.
[...]
Muitas outras pessoas me estimularam a escrever. Professores, por exemplo: Lourenço, irmão marista, meu professor de português no ginásio, que me fez publicar contos e artigos no jornal mural da escola.

O que está por trás das palavras
Memória e sentimentos do vivido, na raiz da construção do texto:
Palavras. São tudo, para quem escreve. Ou quase tudo. Como a serra, o martelo, a plaina, a madeira, a cola e os pregos para o marceneiro; como a colher, o prumo, os tijolos e a argamassa para o pedreiro; como a fazenda, a linha, a tesoura e a agulha para o alfaiate. Estou falando em instrumentos de trabalho, porque literatura nem sempre parece trabalho.
[...]
As palavras são tudo, você disse, Moacyr? Você mentiu, Moacyr. Mais uma vez você mentiu. As palavras não são tudo, e disso você bem sabe. A emoção conta, caro Moacyr. A emoção, as ideias, as lembranças.

Consciência crítica
A relativização do valor pessoal e, em contrapartida, a preocupação e valorização do outro e do coletivo, resultantes de vivências pessoais, acadêmicas e profissionais:
Mico. Este apelido me marcou, pois os nomes marcam as pessoas. Todos os Brunos são fortes, todos os Betos são irrequietos – tenho um filho chamado Beto, sei disto. Mico – o que é que eu podia esperar da vida? Mico. Nunca conheci ninguém com este apelido. Na minha rua havia um Mike, e depois tive um amigo chamado Micão, mas Mico, de macaco, era só eu. Por causa deste apelido, acho, nunca pude me levar a sério. Felizmente. Nada mais chato que um sujeito que se leva inteiramente a sério. Cada vez que me julgo importante, por ser escritor, ou por ser médico, ou por escrever no jornal, uma vozinha debochada me chama à realidade – que besteiras são essas que andas escrevendo, Mico? – e me faz lembrar que é preciso ser humilde.
[...]
Fiz o vestibular para a Faculdade de Medicina. [...] Na Santa Casa, onde tínhamos aulas, e depois, como interno da Previdência Social, trabalhando em vilas populares da Grande Porto Alegre, eu entrava em contato com uma realidade para mim quase desconhecida – a da miséria. Dez, doze pessoas confinadas num casebre imundo, cheio de pulgas (nunca tive tanta pulga em minha vida), crianças famélicas – um quadro para mim dantesco. E o país voltava a se agitar. Em 1961 o Rio Grande do Sul viveu o episódio da Legalidade [...] A mobilização popular no Rio Grande do Sul foi impressionante; nos três anos seguintes, o clima político tornou-se conturbado. Reformas de base era a palavra de ordem. Nas assembleias do Centro Acadêmico da Faculdade de Medicina sucediam-se os discursos inflamados.
¹ SCLIAR, Moacyr. Memórias de um aprendiz de escritor. Apresentação do livro de crônicas Minha mãe não dorme enquanto eu não chegar. Disponível em Portugues.Free-eBooks.net

As marcas do cronista
Vocação para escrever, gosto pela palavra e pela contação de histórias, olhar voltado para o problema social. O cuidado humanista do cidadão perpassa sua obra literária. Marcas da vida, marcas do escritor em suas múltiplas manifestações, mas, principalmente: marcas que definem o cronista, curioso e atento ao que se passa em redor.
Scliar desenvolve muitas de suas crônicas a partir de notícias de jornal, focalizando toda e qualquer realidade: o roubo de quadros, a greve de trabalhadores, os cartões de plástico, as fraudes públicas. Nelas, não faltam a linguagem simples, a leveza e o humor irônico, mas denunciador, característicos do gênero.
Muitas vezes, toma como matéria uma realidade mais crua: a menina grávida, o estudante sem sapatos, o trabalho escravo e tantos outros temas. Mesmo aí, não faz discursos incriminatórios, não “declama” o sofrimento; apenas mostra, em forma de narrativa, como quem conta um caso,  a situação de miséria, dor, perda (da dignidade, da humanidade, dos direitos).
Assim fazendo, erige o leitor em cúmplice e deixa que ele complete os sentidos, relacionando fatos narrados a seus conhecimentos de vida. Resultado: embora o texto pareça leve e a leitura possa começar desatenta, o drama, aos poucos, chama o leitor a tomar posição e ser juiz.
Confiram o que digo na crônica abaixo. Notem que o título parece o de uma “historinha romântica”, e o início da narrativa parece repetir um episódio banal.
Mas não se iludam...

A casa das ilusões perdidas
Quando ela anunciou que estava grávida, a primeira reação dele foi de desagrado, logo seguida de franca irritação. Que coisa, disse, você não podia tomar cuidado, engravidar logo agora que estou desempregado, numa pior, você não tem cabeça mesmo, não sei o que vi em você, já deveria ter trocado de mulher havia muito tempo. Ela, naturalmente, chorou, chorou muito. Disse que ele tinha razão, que aquilo fora uma irresponsabilidade, mas mesmo assim queria ter o filho. Sempre sonhara com isso, com a maternidade – e agora que o sonho estava prestes a se realizar, não deixaria que ele se desfizesse.
– Por favor, suplicou. – Eu faço tudo que você quiser, eu dou um jeito de arranjar trabalho, eu sustento o nenê, mas, por favor, me deixe ser mãe.
Ele disse que ia pensar. Ao fim de três dias daria a resposta. E sumiu.
Voltou, não ao cabo de três dias, mas de três meses. Àquela altura ela já estava com uma barriga avançada que tornava impossível o aborto; ao vê-lo, esqueceu a desconsideração, esqueceu tudo – estava certa de que ele vinha com a mensagem que tanto esperava, você pode ter o nenê, eu ajudo você a criá-lo.
Estava errada. Ele vinha, sim, dizer-lhe que podia dar à luz a criança; mas não para ficar com ela. Já tinha feito o negócio: trocariam o recém-nascido por uma casa. A casa que não tinham e que agora seria o lar deles, o lar onde – agora ele prometia – ficariam para sempre.
Ela ficou desesperada. De novo caiu em prantos, de novo implorou. Ele se mostrou irredutível. E ela, como sempre, cedeu.
Entregue a criança, foram visitar a casa. Era uma modesta construção num bairro popular. Mas era o lar prometido e ela ficou extasiada. Ali mesmo, contudo, fez uma declaração.
– Nós vamos encher esta casa de crianças. Quatro ou cinco, no mínimo.
Ele não disse nada, mas ficou pensando. Quatro ou cinco casas, aquilo era um bom começo.

SCLIAR, Moacyr. O imaginário cotidiano. São Paulo: Global, 2002.  Crônica baseada em notícia da Folha São Paulo – Cotidiano; 10 jun. 1999: “Polícia investiga troca de bebê por casa.”

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