sábado, 8 de março de 2014

Mulheres escritoras



"Eu diria à mulher inteligente, molha a pena no sangue do teu coração e insufla nas tuas criações a alma enamorada que te anima. Assim, deixarás como vestígio a ressonância em todos os sentidos". Narcisa Amália

Nas comemorações do Dia Internacional da Mulher entre nós, escritoras como Clarice Lispector, Cecília Meireles, Lygia Fagundes Telles e Raquel de Queiroz são fatalmente lembradas. No entanto, a literatura brasileira não se limita a poucos nomes, sabemos disso: há Tatiana Belinky, Henriqueta Lisboa, Hilda Hilst, Cora Coralina, Ruth Rocha, Marina Colasanti, Adélia Prado, Lya Luft... Quantas mais? A lista é imensa.
E há as esquecidas, ou quase: principalmente as desbravadoras dos caminhos literários, de início, predominantemente masculinos. Visando ampliar o espectro, trago algumas vozes semiencobertas, ou que nossa memória injustamente empurrou para segundo plano. Fazendo um recorte necessariamente limitador (e inspirada pela data), centro-me em textos poéticos, de diferentes épocas, nos quais o olhar feminino se volta para a própria essência e/ou condição de ser mulher.
Aos textos, pois, e suas criadoras. 

Narcisa Amália nasceu em 1852. Embora a época não abrisse portas largas à mulher intelectual, atuou como professora, poeta e jornalista profissional (a primeira mulher no Brasil). Voltou seu olhar às causas sociais, entre elas, a abolição da escravidão e os direitos da mulher. Sofreu preconceitos e desconfianças, até quanto à autoria de seus textos.
No poema Por que sou forte, o eu lírico revela a força feminina que se alimenta precisamente do que poderia ser sua fraqueza: emoção e sensibilidade. 

Por que sou forte
Narcisa Amália 
Dirás que é falso. Não. É certo. Desço
Ao fundo d’alma toda vez que hesito...
Cada vez que uma lágrima ou que um grito
Trai-me a angústia – ao sentir que desfaleço...
E toda assombro, toda amor, confesso,
O limiar desse país bendito
Cruzo: -– aguardam-me as festas do infinito!
O horror da vida, deslumbrada, esqueço!
É que há dentro vales, céus, alturas,
Que o olhar do mundo não macula, a terna
Lua, flores, queridas criaturas,
E soa em cada moita, em cada gruta,
A sinfonia da paixão eterna!...
– E eis-me de novo forte para a luta.
Disponível em: http://sociedadedospoetasamigos.blogspot.com.br/2014/01/as-mulheres-poetas-na-literatura.html. 

Gilka Machado, nascida em 1893, atuou em momento social e literário razoavelmente confortável: o século XX. No entanto, mulher considerada avançada em relação ao tempo, além dos aplausos de crítica, colegas e público, principalmente feminino, foi censurada por alguns escritores (Mário de Andrade, por exemplo) e parte da sociedade, pela ousadia e erotismo dos poemas.
No texto a seguir, note-se o contraste entre fechamento e abertura: o apuro da linguagem e a forma tradicional do soneto, a serviço do anseio de libertação da mulher em face do poderio masculino e das pressões sociais.

Ser mulher...
Gilka Machado 
Ser mulher, vir à luz trazendo a alma talhada
para os gozos da vida, a liberdade e o amor;
tentar da glória a etérea e altívola escalada,
na eterna aspiração de um sonho superior...

Ser mulher, desejar outra alma pura e alada
para poder, com ela, o infinito transpor;
sentir a vida triste, insípida, isolada,
buscar um companheiro e encontrar um senhor...

Ser mulher, calcular todo o infinito curto
para a larga expansão do desejado surto,
ascenso espiritual aos perfeitos ideais...

Ser mulher, e, oh! atroz, tentálica tristeza!
ficar na vida qual uma águia inerte, presa
nos pesados grilhões dos preceitos sociais!
Disponível em: http://sociedadedospoetasamigos.blogspot.com.br/2014/01/as-mulheres-poetas-na-literatura.html. 

Henriqueta Lisboa, nascida em 1901, foi poeta, tradutora, ensaísta e teve sua obra traduzida para várias línguas. Contudo, parece mais ou menos esquecida em seu próprio país. No belo poema a seguir, é o título que explicita a natureza feminina do objeto subserviente e dá pistas ao leitor para a interpretação do texto como denúncia da histórica condição servil da mulher. (Destaquei algumas dessas pistas em negrito.)

Modelagem / Mulher
Henriqueta Lisboa 
Assim foi modelado o objeto:
para subserviência.
Tem olhos de ver e apenas
entrevê. Não vai longe
seu pensamento cortado
ao meio pela ferrugem
das tesouras. É um mito
sem asas, condicionado
às fainas da lareira
Seria uma cântaro de barro afeito
a movimentos incipientes
sob tutela.
Ergue a cabeça por instantes
e logo esmorece por força
de séculos pendentes.
Ao remover entulhos
leva espinhos na carne.
Será talvez escasso um milênio
para que de justiça
tenha vida integral.
Pois o modelo deve ser
indefectível segundo
as leis da própria modelagem.
Disponível em http://www.jornaldepoesia.jor.br/hlisbo00.html. 

Adélia Prado (nascida em 1935) nem sempre é lembrada como merece. Professora por muitos anos, assumiu de vez a carreira literária quando já casada e com cinco filhos. Em sua vida e obra, revela-se a mulher multifacetada: mãe de família, prosadora, poeta, diretora de teatro.
Teve seu primeiro livro solo – Bagagem – publicado por indicação de Carlos Drummond de Andrade. No poema de abertura, Com licença poética, Adélia dialoga justamente com o “Poema das sete faces” do poeta, não tanto para contestá-lo ou afirmar superioridade, mas para fixar uma diferença entre atribuições do homem e da mulher, reivindicando, para esta, a versatilidade (“mulher é desdobrável”) e a capacidade vivencial e poética de renovação e criação (“inauguro linhagens, fundo reinos”).

Com licença poética
Adélia Prado 
Quando nasci um anjo esbelto,
desses que tocam trombeta, anunciou:
vai carregar bandeira.
Cargo muito pesado pra mulher,
esta espécie ainda envergonhada.
Aceito os subterfúgios que me cabem,
sem precisar mentir.
Não sou tão feia que não possa casar,
acho o Rio de Janeiro uma beleza e
ora sim, ora não, creio em parto sem dor.
Mas o que sinto escrevo. Cumpro a sina.
Inauguro linhagens, fundo reinos
-- dor não é amargura.
Minha tristeza não tem pedigree,
já a minha vontade de alegria,
sua raiz vai ao meu mil avô.
Vai ser coxo na vida é maldição pra homem.
Mulher é desdobrável. Eu sou.
Em Bagagem. São Paulo: Siciliano, 1993. 

Ana Cristina César nasceu em 1952 e já não está entre nós. De sua produção poética, de linguagem por vezes esfacelada, por vezes quase prosa, brotam a ironia, a crítica e a autocrítica.  Pincei esta pequena pérola, em que o eu lírico se mostra consciente de suas amarras:

Como chapeuzinho
Ana Cristina Cesar 
Corro de mamãe para vovó
carregada de sacolas.
Mas é no caminho que exclamo:
– Agora posso tudo!
Para essa figura obstinada vou até a
exaustão,
valente,

--------------------------------
--------------------------------

Sou uma mulher do século XIX
Disfarçada em século XX
Em Inéditos e Dispersos. São Paulo: Brasiliense, 1985.

São mundos...
Mundos de poesia e sensibilidade, que se ampliam a cada nova leitura dos textos. Que tal viajar pelo universo desses poemas e desvelar novos sentidos?
E que tal desbravar outros mundos, em outros textos, de outras mulheres escritoras?
Boas descobertas, minha leitora, meu leitor.

Nenhum comentário:

Postar um comentário