terça-feira, 25 de março de 2014

Pistas de um cronista



O que faz com que alguém seja escritor? O que faz com que um escritor opte por determinada linha de pensamento, ao escrever? E por que seus escritos parecem se “encaixar” tão bem em determinado gênero? Enfim, há como explicar seu estilo e suas características?
Penso essas questões em relação a Moacyr Scliar (contista, romancista, cronista, ensaísta), neste mês de seu aniversário (nasceu em 23/03/1937). Em Memórias de um aprendiz de escritor¹, texto autobiográfico, há pistas para entender sua vocação literária, em geral, e suas qualidades de cronista, em particular. Vamos a elas.

A precocidade
Parece que Scliar já nasceu escritor:
Nasci, sim. ‘Logo depois que nasci correu pela vizinhança que eu me chamava Mico...’
Estas linhas, se bem as lembro – e bem as lembro, sim! – faziam parte de meu primeiro texto, escrito em papel de embrulho: uma autobiografia, muito precoce e necessariamente curta, pois eu não teria mais de seis anos. Alfabetizado precocemente por minha mãe, que era professora primária, eu optara por escrever, ao invés de jogar futebol (também jogava futebol, na calçada da minha rua; longas partidas, em que eram marcadas dezenas de gols; mas o futebol era – é – realidade, uma realidade terrivelmente importante neste país; e à realidade eu preferia a ficção. A narrativa).

O gosto pela ficção e pelo relato
Um ambiente recheado de narrativas, personagens e experiências dos antepassados povoa a imaginação da criança:
Na verdade, todas as minhas recordações estão ligadas a isso, a ouvir e contar histórias. Não só histórias dos personagens que me encantaram, o Saci-Pererê, o Negrinho do Pastoreio, a Cuca, Hércules, Teseu, os Argonautas, Mickey Mouse, Tarzan, os Macabeus, os piratas, Tom Sawyer, Sacco e Vanzetti. Mas também as minhas próprias histórias, as histórias de meus personagens, estas criaturas reais ou imaginárias com quem convivi desde a infância.
[...]
Cresci ouvindo histórias. Porque tinham histórias a contar, eles: meus pais, meus tios, nossos vizinhos. Eram, na maioria, emigrantes. Da Rússia. Lá tinham vivido, como seus antepassados, em pequenas aldeias, em meio a uma lírica miséria, lendo a Bíblia, praticando a religião, e trabalhando como artesãos e pequenos comerciantes.  [...]
Contar histórias. Eis uma coisa que meus pais sabiam fazer particularmente bem, com graça e humor; sabiam transformar pessoas em personagens, acontecimentos em situações ou cenas.

O hábito da leitura e da escrita
A convivência com os livros; o valor da casa como primeira escola; o papel significativo de uma aprendizagem com o afeto e estímulo de pais e mestres:
De minha mãe adquiri o gosto pela leitura. Éramos pobres; não indigentes; não chegávamos a passar fome, mas tínhamos de economizar. Apesar disto nunca me faltou dinheiro para livros. Minha mãe me levava à tradicional Livraria do Globo e eu podia escolher à vontade. Desde pequeno estava lendo. De tudo, como até hoje: Monteiro Lobato e revistas em quadrinhos, divulgação científica e romances.
[...]
Meus pais orgulhavam-se do que eu escrevia. Não eram ricos, como eu disse antes, mas um dos primeiros presentes que me deram foi uma máquina de escrever. Usada, claro, mas excelente – Royal, importada.
[...]
Muitas outras pessoas me estimularam a escrever. Professores, por exemplo: Lourenço, irmão marista, meu professor de português no ginásio, que me fez publicar contos e artigos no jornal mural da escola.

O que está por trás das palavras
Memória e sentimentos do vivido, na raiz da construção do texto:
Palavras. São tudo, para quem escreve. Ou quase tudo. Como a serra, o martelo, a plaina, a madeira, a cola e os pregos para o marceneiro; como a colher, o prumo, os tijolos e a argamassa para o pedreiro; como a fazenda, a linha, a tesoura e a agulha para o alfaiate. Estou falando em instrumentos de trabalho, porque literatura nem sempre parece trabalho.
[...]
As palavras são tudo, você disse, Moacyr? Você mentiu, Moacyr. Mais uma vez você mentiu. As palavras não são tudo, e disso você bem sabe. A emoção conta, caro Moacyr. A emoção, as ideias, as lembranças.

Consciência crítica
A relativização do valor pessoal e, em contrapartida, a preocupação e valorização do outro e do coletivo, resultantes de vivências pessoais, acadêmicas e profissionais:
Mico. Este apelido me marcou, pois os nomes marcam as pessoas. Todos os Brunos são fortes, todos os Betos são irrequietos – tenho um filho chamado Beto, sei disto. Mico – o que é que eu podia esperar da vida? Mico. Nunca conheci ninguém com este apelido. Na minha rua havia um Mike, e depois tive um amigo chamado Micão, mas Mico, de macaco, era só eu. Por causa deste apelido, acho, nunca pude me levar a sério. Felizmente. Nada mais chato que um sujeito que se leva inteiramente a sério. Cada vez que me julgo importante, por ser escritor, ou por ser médico, ou por escrever no jornal, uma vozinha debochada me chama à realidade – que besteiras são essas que andas escrevendo, Mico? – e me faz lembrar que é preciso ser humilde.
[...]
Fiz o vestibular para a Faculdade de Medicina. [...] Na Santa Casa, onde tínhamos aulas, e depois, como interno da Previdência Social, trabalhando em vilas populares da Grande Porto Alegre, eu entrava em contato com uma realidade para mim quase desconhecida – a da miséria. Dez, doze pessoas confinadas num casebre imundo, cheio de pulgas (nunca tive tanta pulga em minha vida), crianças famélicas – um quadro para mim dantesco. E o país voltava a se agitar. Em 1961 o Rio Grande do Sul viveu o episódio da Legalidade [...] A mobilização popular no Rio Grande do Sul foi impressionante; nos três anos seguintes, o clima político tornou-se conturbado. Reformas de base era a palavra de ordem. Nas assembleias do Centro Acadêmico da Faculdade de Medicina sucediam-se os discursos inflamados.
¹ SCLIAR, Moacyr. Memórias de um aprendiz de escritor. Apresentação do livro de crônicas Minha mãe não dorme enquanto eu não chegar. Disponível em Portugues.Free-eBooks.net

As marcas do cronista
Vocação para escrever, gosto pela palavra e pela contação de histórias, olhar voltado para o problema social. O cuidado humanista do cidadão perpassa sua obra literária. Marcas da vida, marcas do escritor em suas múltiplas manifestações, mas, principalmente: marcas que definem o cronista, curioso e atento ao que se passa em redor.
Scliar desenvolve muitas de suas crônicas a partir de notícias de jornal, focalizando toda e qualquer realidade: o roubo de quadros, a greve de trabalhadores, os cartões de plástico, as fraudes públicas. Nelas, não faltam a linguagem simples, a leveza e o humor irônico, mas denunciador, característicos do gênero.
Muitas vezes, toma como matéria uma realidade mais crua: a menina grávida, o estudante sem sapatos, o trabalho escravo e tantos outros temas. Mesmo aí, não faz discursos incriminatórios, não “declama” o sofrimento; apenas mostra, em forma de narrativa, como quem conta um caso,  a situação de miséria, dor, perda (da dignidade, da humanidade, dos direitos).
Assim fazendo, erige o leitor em cúmplice e deixa que ele complete os sentidos, relacionando fatos narrados a seus conhecimentos de vida. Resultado: embora o texto pareça leve e a leitura possa começar desatenta, o drama, aos poucos, chama o leitor a tomar posição e ser juiz.
Confiram o que digo na crônica abaixo. Notem que o título parece o de uma “historinha romântica”, e o início da narrativa parece repetir um episódio banal.
Mas não se iludam...

A casa das ilusões perdidas
Quando ela anunciou que estava grávida, a primeira reação dele foi de desagrado, logo seguida de franca irritação. Que coisa, disse, você não podia tomar cuidado, engravidar logo agora que estou desempregado, numa pior, você não tem cabeça mesmo, não sei o que vi em você, já deveria ter trocado de mulher havia muito tempo. Ela, naturalmente, chorou, chorou muito. Disse que ele tinha razão, que aquilo fora uma irresponsabilidade, mas mesmo assim queria ter o filho. Sempre sonhara com isso, com a maternidade – e agora que o sonho estava prestes a se realizar, não deixaria que ele se desfizesse.
– Por favor, suplicou. – Eu faço tudo que você quiser, eu dou um jeito de arranjar trabalho, eu sustento o nenê, mas, por favor, me deixe ser mãe.
Ele disse que ia pensar. Ao fim de três dias daria a resposta. E sumiu.
Voltou, não ao cabo de três dias, mas de três meses. Àquela altura ela já estava com uma barriga avançada que tornava impossível o aborto; ao vê-lo, esqueceu a desconsideração, esqueceu tudo – estava certa de que ele vinha com a mensagem que tanto esperava, você pode ter o nenê, eu ajudo você a criá-lo.
Estava errada. Ele vinha, sim, dizer-lhe que podia dar à luz a criança; mas não para ficar com ela. Já tinha feito o negócio: trocariam o recém-nascido por uma casa. A casa que não tinham e que agora seria o lar deles, o lar onde – agora ele prometia – ficariam para sempre.
Ela ficou desesperada. De novo caiu em prantos, de novo implorou. Ele se mostrou irredutível. E ela, como sempre, cedeu.
Entregue a criança, foram visitar a casa. Era uma modesta construção num bairro popular. Mas era o lar prometido e ela ficou extasiada. Ali mesmo, contudo, fez uma declaração.
– Nós vamos encher esta casa de crianças. Quatro ou cinco, no mínimo.
Ele não disse nada, mas ficou pensando. Quatro ou cinco casas, aquilo era um bom começo.

SCLIAR, Moacyr. O imaginário cotidiano. São Paulo: Global, 2002.  Crônica baseada em notícia da Folha São Paulo – Cotidiano; 10 jun. 1999: “Polícia investiga troca de bebê por casa.”

sexta-feira, 21 de março de 2014

Mestre Graça e a infância sem graça



Tímido, calado, ansioso, com medo da palmatória: esse é o retrato de uma criança fadada a fracassar na vida escolar e até na vida. Certo? Nem sempre. Pode ser o retrato do menino Graciliano Ramos, mais tarde escritor.

Em uma de suas obras autobiográficas – Infância¹ –, Graciliano relata sua iniciação às letras e sua formação como leitor: se a abertura para a aprendizagem vem, antes de mais nada, pelo afeto, o que esperar de uma criança a quem se avalia como preguiçosa e incompetente? Eis suas primeiras experiências de alfabetização, tendo o pai como primeiro professor:

Meu pai não tinha vocação para o ensino, mas quis meter-me o alfabeto na cabeça. Resisti, ele teimou — e o resultado foi um desastre. Cedo revelou impaciência e assustou-me. Atirava rápido meia dúzia de letras, ia jogar solo. À tarde pegava um côvado, levava-me para a sala de visitas — e a lição era tempestuosa. Se não visse o côvado, eu ainda poderia dizer qualquer coisa. Vendo-o, calava-me. Um pedaço de madeira, negro, pesado, da largura de quatro dedos.
[...]
Enfim consegui familiarizar-me com as letras quase todas. Aí me exibiram outras vinte e cinco, diferentes das primeiras e com os mesmos nomes delas. Atordoamento, preguiça, desespero, vontade de acabar-me. Veio terceiro alfabeto, veio quarto, e a confusão se estabeleceu, um horror de quiproquós. Quatro sinais com uma só denominação. Se me habituassem às maiúsculas, deixando as minúsculas para mais tarde, talvez não me embrutecesse. Jogaram-me simultaneamente maldades grandes e pequenas, impressas e manuscritas. Um inferno. Resignei-me – e venci as malvadas. Duas, porém, se defenderam: as miseráveis dentais que ainda hoje me causam dissabores quando escrevo.

Sozinho não me embaraçava, mas na presença de meu pai emudecia. Ele endureceu algumas semanas, antes de concluir que não valia a pena tentar esclarecer-me. Uma vez por dia o grito severo me chamava à lição. Levantava-me, com um baque por dentro, dirigia-me à sala, gelado. E emburrava: a língua fugia dos dentes, engrolava ruídos confusos.

Ao menino carente de aplausos e afetos, estavam reservados poucos momentos de aprendizado suave. Um deles está ligado à primeira professora, dona Maria – quem sabe a primeira responsável pela substituição do terror por futuro amor à palavra:

Aquela brandura, a voz mansa, a consertar-me as barbaridades, a mão curta, a virar a folha, apontar a linha, o vestido claro e limpo, tudo me seduzia. Além disso a extraordinária criatura tinha um cheiro agradável. As pessoas comuns exalavam odores fortes e excitantes, de fumo, suor, banha de porco, mofo, sangue. E bafos nauseabundos. Os dentes de Rosenda eram pretos de sarro de cachimbo; André Laerte usava um avental imundo; por detrás dos baús de couro, brilhantes de tachas amarelas, escondiam-se camisas ensanguentadas.

Agora, livre das emanações ásperas, eu me tranquilizava. Mas não estava bem tranquilo: tinha a calma precisa para arrumar, sem muitos despropósitos, as sílabas que se combinavam em períodos concisos. Dominava os receios e a tremura, desejava findar a obrigação antes que estalasse a cólera da professora. Com certeza ia estalar: impossível manter-se um vivente naquela serenidade, falando baixo.

A cólera não se manifestou — e explorei diversas páginas. Então D. Maria me interrompeu, fez-me alguns elogios moderados. Pedi-lhe que marcasse a lição. Indicou vagamente o meio do livro.
[...]
Felizmente D. Maria encerrava uma alma infantil. O mundo dela era o nosso mundo, aí vivia farejando pequenos mistérios nas cartilhas. Tinha dúvidas numerosas, admitia a cooperação dos alunos, e cavaqueiras democráticas animavam a sala. [...] A escola exigia palmatória, mas não consta que o modesto emblema de autoridade e saber haja trazido lágrimas a alguém. D. Maria nunca o manejou. Nem sequer recorria às ameaças. Quando se aperreava, erguia o dedinho, uma nota desafinava na voz carinhosa — e nós nos alarmávamos. As manifestações de desagrado eram raras e breves. A excelente criatura logo se fatigava da severidade, restabelecia a camaradagem, rascunhava palavras e algarismos, que reproduzíamos.

Aos nove anos e depois de passar por alguns outros professores, Graciliano lembra que ainda não sabia ler. O autoritarismo do pai continuava a aterrorizá-lo e contribuía para bloquear seus esforços. Em compensação, bastava um pequeno gesto paterno mais brando, para que se entusiasmasse; mas tais momentos não duravam. Então, outro anjo bom entrava em cena – a prima Emília –, para devolver-lhe o ânimo e inspirá-lo na busca do conhecimento.

Esses acontecimentos compõem o capítulo Os Astrônomos, no qual Graciliano mostra toda sua maestria em construir um texto sensível, entrelaçado de sentimentos, sem, porém, cair no sentimentalismo.  Especialmente, reparem no uso parcimonioso – e por isso mesmo tão contundente – dos adjetivos. Transcrevo-o em grande parte:

...Ora, uma noite, depois do café, meu pai me mandou buscar um livro que deixara na cabeceira da cama. Novidade: meu velho nunca se dirigia a mim. E eu, engolido o café, beijava-lhe a mão, porque isto era praxe, mergulhava na rede e adormecia. Espantado, entrei no quarto, peguei com repugnância o antipático objeto e voltei à sala de jantar. Aí recebi ordem para me sentar e abrir o volume. Obedeci engulhando, com a vaga esperança de que uma visita me interrompesse. Ninguém nos visitou naquela noite extraordinária.

Meu pai determinou que eu principiasse a leitura. Principiei. Mastigando as palavras, gaguejando, gemendo uma cantilena medonha, indiferente à pontuação, saltando linhas e repisando linhas, alcancei o fim da página, sem ouvir gritos. Parei surpreendido, virei a folha, continuei a arrastar-me na gemedeira, como um carro em estrada cheia de buracos.

Com certeza o negociante recebera alguma dívida perdida: no meio do capítulo pôs-se a conversar comigo, perguntou-me se eu estava compreendendo o que lia. Explicou-me que se tratava de uma história, um romance, exigiu atenção e resumiu a parte já lida. Um casal com filhos andava numa floresta, em noite de inverno, perseguido por lobos, cachorros selvagens. Depois de muito correr, essas criaturas chegavam à cabana de um lenhador. Era ou não era? Traduziu-me em linguagem de cozinha diversas expressões literárias. Animei-me a parolar. Sim, realmente havia alguma coisa no livro, mas era difícil conhecer tudo.

Alinhavei o resto do capítulo, diligenciando penetrar o sentido da prosa confusa, aventurando-me às vezes a inquirir. E uma luzinha quase imperceptível surgia longe, apagava-se, ressurgia, vacilante, nas trevas do meu espírito.
[...]
Na terceira noite fui buscar o livro espontaneamente, mas o velho estava sombrio e silencioso.

E no dia seguinte, quando me preparei para moer a narrativa, afastou-me com um gesto, carrancudo. Nunca experimentei decepção tão grande. Era como se tivesse descoberto uma coisa muito preciosa e de repente a maravilha se quebrasse. E o homem que a reduziu a cacos, depois de me haver ajudado a encontrá-la, não imaginou a minha desgraça. A princípio foi desespero, sensação de perda e ruína, em seguida uma longa covardia, a certeza de que as horas de encanto eram boas demais para mim e não podiam durar.

Findas, porém, as manifestações secretas de mágoa, refleti, achei que o mal tinha remédio e expliquei o negócio a Emília, minha excelente prima. O rosto sereno, largos olhos pretos, um ar de seriedade – linda moça. A irmã, brincalhona e rabugenta, ora pelos pés, ora pela cabeça, ria como doida e logo explodia em acessos de cólera. Mas Emília não era deste mundo. Só se zangou comigo uma vez, no dia em que, tuberculosa, me viu beber água no copo dela. Um anjo.

Confessei, pois, a Emília o meu desgosto e propus-lhe que me dirigisse a leitura. [...] Emília respondeu com uma pergunta que me espantou. Por que não me arriscava a tentar a leitura sozinho?

Longamente lhe expus a minha fraqueza mental, a impossibilidade de compreender as palavras difíceis, sobretudo na ordem terrível em que se juntavam. Se eu fosse como os outros, bem; mas era bruto em demasia, todos me achavam bruto em demasia.

Emília combateu a minha convicção, falou-me dos astrônomos, indivíduos que liam no céu, percebiam tudo quanto há no céu. Não no céu onde moram Deus Nosso Senhor e a Virgem Maria. Esse ninguém tinha visto. Mas o outro, o que fica por baixo, o do Sol, da Lua e das estrelas, os astrônomos conheciam perfeitamente. Ora, se eles enxergavam coisas tão distantes, porque não conseguiria eu adivinhar a página aberta diante dos meus olhos? Não distinguia as letras? Não sabia reuni-las e formar palavras?

Matutei na lembrança de Emília. Eu, os astrônomos, que doidice! Ler as coisas do céu, quem havia de supor?

E tomei coragem, fui esconder-me no quintal, com os lobos, o homem, a mulher, os pequenos, a tempestade na floresta, a cabana do lenhador. Reli as folhas já percorridas. E as partes que se esclareciam derramavam escassa luz sobre os pontos obscuros. Personagens diminutas cresciam, vagarosamente me penetravam a inteligência espessa. Vagarosamente.

Os astrônomos eram formidáveis. Eu, pobre de mim, não desvendaria os segredos do céu. Preso à terra, sensibilizar-me-ia com histórias tristes, em que há homens perseguidos, mulheres e crianças abandonadas, escuridão e animais ferozes.

Por fim, a literatura entranha sua vida, e o universo da ficção, provavelmente, equilibra a dor de uma infância salpicada de rejeições e desamparo. A nova paixão o toma e dá-lhe coragem para superar as próprias limitações, tomar iniciativas e mudar a direção de seu mundinho; e o menino aproxima-se de Jerônimo Barreto, o homem capaz de lhe franquear o vasto universo de uma biblioteca e de possibilitar escapar dos tediosos livros escolares:

Apareceu uma dificuldade, insolúvel durante meses. Como adquirir livros? No fim da história do lenhador, dos fugitivos e dos lobos havia um pequeno catálogo. Cinco, seis tostões o volume. Tencionei comprar alguns, mas José Batista me afirmou que aquilo era preço de Lisboa, em moeda forte. E Lisboa ficava longe.

Invoquei, num desespero, o socorro de Emília. Eu precisava ler, não os compêndios escolares, insossos, mas aventuras, justiça, amor, vinganças, coisas até então desconhecidas. Em falta disso, agarrava-me a jornais e almanaques, decifrava as efemérides e anedotas das folhinhas. Esses retalhos me excitavam o desejo, que se ia transformando em ideia fixa.
[...]
Mais próximo, havia o tabelião Jerônimo Barreto [...] Impossível entender-me com o homem sabido, conhecedor de Marat, Robespierre, outros que me fugiam da memória e da língua. Essas personagens me acovardavam. E o proprietário delas guardava-as com certeza ciumento, não deixaria mãos bisonhas manchá-las de suor. Afirmei, repeti mentalmente que não me avizinharia de Jerônimo Barreto.

Dirigi-me a casa, subi a calçada, retardei o passo, como de costume, diante das procurações e públicas-formas. E bati à porta. Um minuto depois estava na sala, explicando meu infortúnio, solicitando o empréstimo de uma daquelas maravilhas. Mais tarde me assombrou o arranco de energia, que em horas de tormento se reproduziu. Como veio semelhante desígnio? De fato não houve desígnio. Foi uma inexplicável desaparição da timidez, quase a desaparição de mim mesmo. Expressei-me claro, exibi os gadanhos limpos, assegurei que não dobraria as folhas, não as estragaria com saliva. Jerônimo abriu a estante, entregou-me sorrindo O Guarani, convidou-me a voltar, franqueou-me as coleções todas.

Retirei-me enlevado, vesti em papel de embrulho a percalina vermelha, entretive-me com D. Antônio de Mariz, Cecília, Peri, fidalgos, aventureiros, o Paquequer.
[...]
Jerônimo Barreto me desviou para as obras de carregação. Viajei bastante,
abeirei-me de condessas. Mas permaneci no desalinho, esgueirando-me pelos
cantos, e o juízo severo da família se agravava.
[...]
A existência comum se distanciava e deformava; conhecidos e transeuntes
ganhavam caracteres das personagens do folhetim. Descurei as obrigações da
escola e os deveres que me impunham na loja. Algumas disciplinas, porém, me
ajudavam a compreensão do romance e tolerei-as – bocejei e cochilei buscando
penetrá-las.
Em poucos meses li a biblioteca de Jerônimo Barreto. Mudei hábitos e linguagem.
¹ RAMOS, Graciliano. Infância. Rio de Janeiro: Record, 1981.
 Disponível em: 
https://groups.google.com.br/group/digitalsource
‎.


A leitura do mundo precede a leitura da palavra, diz Paulo Freire
 
O que o menino Graciliano leu foram experiências doloridas e amadurecimento às custas de opressão. Relações (pouco) afetivas carimbaram seu aprendizado com o selo da baixa autoestima e da desvalorização, que o homem Graciliano superou valentemente, com sua militância, enquanto cidadão (foi jornalista, prefeito, militante político) e escritor.

Desse modo, o que seria apenas desordem emocional transformou-se em (re)conhecimento e redimensionamento crítico de vida, vindo a impulsionar sua literatura. Nela, o apuro formal é garantido pela relação entre economia de palavras e máxima precisão de sentido – correspondendo à realidade severa que retratou e interpretou em suas obras, de maneira magistral.




sábado, 8 de março de 2014

Mulheres escritoras



"Eu diria à mulher inteligente, molha a pena no sangue do teu coração e insufla nas tuas criações a alma enamorada que te anima. Assim, deixarás como vestígio a ressonância em todos os sentidos". Narcisa Amália

Nas comemorações do Dia Internacional da Mulher entre nós, escritoras como Clarice Lispector, Cecília Meireles, Lygia Fagundes Telles e Raquel de Queiroz são fatalmente lembradas. No entanto, a literatura brasileira não se limita a poucos nomes, sabemos disso: há Tatiana Belinky, Henriqueta Lisboa, Hilda Hilst, Cora Coralina, Ruth Rocha, Marina Colasanti, Adélia Prado, Lya Luft... Quantas mais? A lista é imensa.
E há as esquecidas, ou quase: principalmente as desbravadoras dos caminhos literários, de início, predominantemente masculinos. Visando ampliar o espectro, trago algumas vozes semiencobertas, ou que nossa memória injustamente empurrou para segundo plano. Fazendo um recorte necessariamente limitador (e inspirada pela data), centro-me em textos poéticos, de diferentes épocas, nos quais o olhar feminino se volta para a própria essência e/ou condição de ser mulher.
Aos textos, pois, e suas criadoras. 

Narcisa Amália nasceu em 1852. Embora a época não abrisse portas largas à mulher intelectual, atuou como professora, poeta e jornalista profissional (a primeira mulher no Brasil). Voltou seu olhar às causas sociais, entre elas, a abolição da escravidão e os direitos da mulher. Sofreu preconceitos e desconfianças, até quanto à autoria de seus textos.
No poema Por que sou forte, o eu lírico revela a força feminina que se alimenta precisamente do que poderia ser sua fraqueza: emoção e sensibilidade. 

Por que sou forte
Narcisa Amália 
Dirás que é falso. Não. É certo. Desço
Ao fundo d’alma toda vez que hesito...
Cada vez que uma lágrima ou que um grito
Trai-me a angústia – ao sentir que desfaleço...
E toda assombro, toda amor, confesso,
O limiar desse país bendito
Cruzo: -– aguardam-me as festas do infinito!
O horror da vida, deslumbrada, esqueço!
É que há dentro vales, céus, alturas,
Que o olhar do mundo não macula, a terna
Lua, flores, queridas criaturas,
E soa em cada moita, em cada gruta,
A sinfonia da paixão eterna!...
– E eis-me de novo forte para a luta.
Disponível em: http://sociedadedospoetasamigos.blogspot.com.br/2014/01/as-mulheres-poetas-na-literatura.html. 

Gilka Machado, nascida em 1893, atuou em momento social e literário razoavelmente confortável: o século XX. No entanto, mulher considerada avançada em relação ao tempo, além dos aplausos de crítica, colegas e público, principalmente feminino, foi censurada por alguns escritores (Mário de Andrade, por exemplo) e parte da sociedade, pela ousadia e erotismo dos poemas.
No texto a seguir, note-se o contraste entre fechamento e abertura: o apuro da linguagem e a forma tradicional do soneto, a serviço do anseio de libertação da mulher em face do poderio masculino e das pressões sociais.

Ser mulher...
Gilka Machado 
Ser mulher, vir à luz trazendo a alma talhada
para os gozos da vida, a liberdade e o amor;
tentar da glória a etérea e altívola escalada,
na eterna aspiração de um sonho superior...

Ser mulher, desejar outra alma pura e alada
para poder, com ela, o infinito transpor;
sentir a vida triste, insípida, isolada,
buscar um companheiro e encontrar um senhor...

Ser mulher, calcular todo o infinito curto
para a larga expansão do desejado surto,
ascenso espiritual aos perfeitos ideais...

Ser mulher, e, oh! atroz, tentálica tristeza!
ficar na vida qual uma águia inerte, presa
nos pesados grilhões dos preceitos sociais!
Disponível em: http://sociedadedospoetasamigos.blogspot.com.br/2014/01/as-mulheres-poetas-na-literatura.html. 

Henriqueta Lisboa, nascida em 1901, foi poeta, tradutora, ensaísta e teve sua obra traduzida para várias línguas. Contudo, parece mais ou menos esquecida em seu próprio país. No belo poema a seguir, é o título que explicita a natureza feminina do objeto subserviente e dá pistas ao leitor para a interpretação do texto como denúncia da histórica condição servil da mulher. (Destaquei algumas dessas pistas em negrito.)

Modelagem / Mulher
Henriqueta Lisboa 
Assim foi modelado o objeto:
para subserviência.
Tem olhos de ver e apenas
entrevê. Não vai longe
seu pensamento cortado
ao meio pela ferrugem
das tesouras. É um mito
sem asas, condicionado
às fainas da lareira
Seria uma cântaro de barro afeito
a movimentos incipientes
sob tutela.
Ergue a cabeça por instantes
e logo esmorece por força
de séculos pendentes.
Ao remover entulhos
leva espinhos na carne.
Será talvez escasso um milênio
para que de justiça
tenha vida integral.
Pois o modelo deve ser
indefectível segundo
as leis da própria modelagem.
Disponível em http://www.jornaldepoesia.jor.br/hlisbo00.html. 

Adélia Prado (nascida em 1935) nem sempre é lembrada como merece. Professora por muitos anos, assumiu de vez a carreira literária quando já casada e com cinco filhos. Em sua vida e obra, revela-se a mulher multifacetada: mãe de família, prosadora, poeta, diretora de teatro.
Teve seu primeiro livro solo – Bagagem – publicado por indicação de Carlos Drummond de Andrade. No poema de abertura, Com licença poética, Adélia dialoga justamente com o “Poema das sete faces” do poeta, não tanto para contestá-lo ou afirmar superioridade, mas para fixar uma diferença entre atribuições do homem e da mulher, reivindicando, para esta, a versatilidade (“mulher é desdobrável”) e a capacidade vivencial e poética de renovação e criação (“inauguro linhagens, fundo reinos”).

Com licença poética
Adélia Prado 
Quando nasci um anjo esbelto,
desses que tocam trombeta, anunciou:
vai carregar bandeira.
Cargo muito pesado pra mulher,
esta espécie ainda envergonhada.
Aceito os subterfúgios que me cabem,
sem precisar mentir.
Não sou tão feia que não possa casar,
acho o Rio de Janeiro uma beleza e
ora sim, ora não, creio em parto sem dor.
Mas o que sinto escrevo. Cumpro a sina.
Inauguro linhagens, fundo reinos
-- dor não é amargura.
Minha tristeza não tem pedigree,
já a minha vontade de alegria,
sua raiz vai ao meu mil avô.
Vai ser coxo na vida é maldição pra homem.
Mulher é desdobrável. Eu sou.
Em Bagagem. São Paulo: Siciliano, 1993. 

Ana Cristina César nasceu em 1952 e já não está entre nós. De sua produção poética, de linguagem por vezes esfacelada, por vezes quase prosa, brotam a ironia, a crítica e a autocrítica.  Pincei esta pequena pérola, em que o eu lírico se mostra consciente de suas amarras:

Como chapeuzinho
Ana Cristina Cesar 
Corro de mamãe para vovó
carregada de sacolas.
Mas é no caminho que exclamo:
– Agora posso tudo!
Para essa figura obstinada vou até a
exaustão,
valente,

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Sou uma mulher do século XIX
Disfarçada em século XX
Em Inéditos e Dispersos. São Paulo: Brasiliense, 1985.

São mundos...
Mundos de poesia e sensibilidade, que se ampliam a cada nova leitura dos textos. Que tal viajar pelo universo desses poemas e desvelar novos sentidos?
E que tal desbravar outros mundos, em outros textos, de outras mulheres escritoras?
Boas descobertas, minha leitora, meu leitor.