quinta-feira, 27 de fevereiro de 2014

Visões e linguagens do Carnaval

Portinari


Carnaval parece casar bem com o “espírito brasileiro”, que dizem ser festivo, beirando o libertário. De fato, a época é quase um convite ao descompromisso...
Para muitos, se compromisso existir, talvez seja mais com a própria liberdade – de soltar amarras, exteriorizar desejos, quebrar hierarquias e expressar contestações, pública e coletivamente. Daí a fustigar – de leve, ou não tanto – hábitos, acontecimentos e personalidades, por meio de palavras, vestes e máscaras, é um passo.
Em contrapartida, para os mais saudosistas e/ou românticos, pode ser a oportunidade de relembrar, refletir e até sonhar, em autêntica viagem interior, da qual invariavelmente irrompe confrontação de opostos – entre tempos diferentes (passado x presente; os dias de carnaval x o resto do ano), entre espaços diferentes (exterior feérico e ruidoso x interior silencioso, ou vice-versa); entre sentimentos diferentes (alegria x tristeza; amor x desamor).
Dessas duas vertentes – uma, irreverente, tendente à sátira e à paródia; outra, mais compenetrada e emotiva – quero deixar uma pequena amostra, em termos de literatura e música brasileira.
Começo pela voz poética de Manuel Bandeira.


O eu interior carnavalesco
Tudo cabe no Carnaval intimista de Bandeira, pois tudo é sonho. Inocência e permissividade, recolhimento e expansividade coexistem nos contrastes de luz e sombra, ruído e silêncio.
Pistas de leitura, para o poema a seguir: sobretudo, as partes coloridas e a terceira estrofe, em seu todo. A observar, ainda, como a repetição de palavras, frases e ideias ajuda a multiplicar sentidos e a reforçar oposições.

Sonho de uma terça-feira gorda
Eu estava contigo. Os nossos dominós eram negros, e negras eram as nossas máscaras.
Íamos, por entre a turba, com solenidade,
Bem conscientes do nosso ar lúgubre
Tão contrastado pelo sentimento de felicidade
Que nos penetrava. Um lento, suave júbilo
Que nos penetrava... Que nos penetrava como uma espada de fogo...
Como a espada de fogo que apunhalava as santas extáticas.

E a impressão em meu sonho era que se estávamos
Assim de negro, assim por fora inteiramente de negro,
– Dentro de nós, ao contrário, era tudo tão claro e luminoso.

Era terça-feira gorda. A multidão inumerável
Burburinhava. Entre clangores de fanfarra
Passavam préstitos apoteóticos.
Eram alegorias ingênuas, ao gosto popular, em cores cruas.
Iam em cima, empoleiradas, mulheres de má vida,
De peitos enormes - Vênus para caixeiros.
Figuravam deusas - deusa disto, deusa daquilo, já tontas e seminuas.
A turba ávida de promiscuidade,
Acotovelava-se com algazarra,
Aclamava-as com alarido.
E, aqui e ali, virgens atiravam-lhe flores.

Nós caminhávamos de mãos dadas, com solenidade,
O ar lúgubre, negros, negros...
Mas dentro em nós era tudo claro e luminoso.
Nem a alegria estava ali, fora de nós.
A alegria estava em nós.
Era dentro de nós que estava a alegria,
– A profunda, a silenciosa alegria...
BANDEIRA, Manuel. Estrela da vida inteira. Rio de Janeiro: José Olympio, 1974.

Também de Manuel Bandeira, o poema seguinte traz oposições mais profundas, ou seja, o embate entre o querer (ser feliz) e o ser (feliz) e, ainda, a revelação, por meio da obra artística, de dois seres e obras contrastantes: Schumann, com seu Carnaval resplendente, e o triste eu poético de Bandeira, com o “Carnaval sem nenhuma alegria” (nem esperança de mudança, como sugere o título).

Epílogo
Eu quis um dia, como Schumann, compor
Um Carnaval todo subjetivo:
Um Carnaval em que o só motivo
Fosse o meu próprio ser interior...

Quando o acabei – a diferença que havia!
O de Schumann é um poema cheio de amor,
E de frescura, e de mocidade...
E o meu tinha a morta morta-cor
Da senilidade e da amargura...
– O meu Carnaval sem nenhuma alegria!...
BANDEIRA, Manuel. Estrela da vida inteira. Rio de Janeiro: José Olympio, 1974.


Irreverência e carnavalização
Na década de 1960, Stanislaw Ponte Preta (ou Sérgio Porto) criou o “Samba do Crioulo Doido”, como crítica à exigência oficial de que os enredos das escolas de samba tivessem como base fatos históricos.
Longe de desvelar emoções e sentimentos, como se vê em Bandeira, a letra, desde o título, caminha pela linha da pilhéria e do deboche. O resultado é uma paródia de samba-enredo que carnavaliza a própria história oficial do Brasil, na medida em que inverte, embaralha e empastela espaços, tempos e o próprio cotidiano popular, este representado pela linguagem coloquial, a gíria e a menção às estações de trem.
Igualmente, a “proclamação” final da escravidão aponta criticamente para o prolongamento das condições precárias do povo brasileiro, contrariando o discurso oficial, invariavelmente ufanista.

Samba do Crioulo Doido
Este é o samba do crioulo doido.
A história de um compositor que durante muitos anos obedeceu o regulamento,
E só fez samba sobre a História do Brasil.
E tome de Inconfidência, Abolição, Proclamação, Chica da Silva, e o coitado
Do crioulo tendo que aprender tudo isso para o enredo da escola.
Até que no ano passado escolheram um tema complicado: a atual conjuntura.
Aí o crioulo endoidou de vez, e saiu este samba:

Foi em Diamantina, onde nasceu JK,
Que a princesa Leopoldina arresorveu se casá.
Mas Chica da Silva tinha outros pretendentes
E obrigou a princesa a se casá com Tiradentes.
Laiá, laiá, laiá,
O bode que deu vou te contá,
Laiá, Laiá, laiá,
O bode que deu vou te contá.
Joaquim José, que também é da Silva Xavié,
Queria ser dono do mundo e se elegeu Pedro Segundo.
Das estradas de Minas, seguiu pra São Paulo e falou com Anchieta.
O vigário dos índios aliou-se a Dom Pedro e acabou com a falseta
Da união deles, ficou resolvida a questão
E foi proclamada a escravidão.
E foi proclamada a escravidão.
Assim se conta esta história
Que é dos dois a maior glória,
A Leopoldina virou trem
E Dom Pedro é uma estação também.
Ô, ô, ô, ô, ô, ô,
O trem tá atrasado ou já passou.
Ô, ô, ô, ô, ô, ô,
O trem tá atrasado ou já passou.
Stanislaw Ponte Preta

No vídeo a seguir, a gravação original (com o autor e o Quarteto em Cy) vem acompanhada de imagens clássicas e caricaturas, capas de livros, pinturas e fotos em democrática mistura, ilustrando e reproduzindo o nonsense do texto:




Impossível não relacionar: se voltarmos um pouco atrás, encontraremos essa mesma “irreverência carnavalesca” em Oswald de Andrade. Seu poema “Brasil” abre para o escracho rasgado, presentificando e subvertendo outros textos – o poema clássico I-Juca-Pirama, de Gonçalves Dias e a história oficial –, uma vez que a mistura de raças, línguas e religiões ali se fundem e se confundem para dar origem, não ao país, mas ao Carnaval. Do mesmo modo, a linguagem foge deliberadamente da norma culta, convencionalmente adotada para “grandes textos”, utiliza a fala popular e arremeda línguas para sugerir percussões rítmicas carnavalescas:

Brasil
O Zé Pereira chegou de caravela
E preguntou pro guarani da mata virgem
— Sois cristão?
— Não. Sou bravo, sou forte, sou filho da Morte
Teterê Tetê Quizá Quizá Quecê!
Lá longe a onça resmungava Uu! ua! uu!
O negro zonzo saído da fornalha
Tomou a palavra e respondeu
— Sim pela graça de Deus
Canhém Babá Canhém Babá Cum Cum!
E fizeram o Carnaval
ANDRADE, Oswald de. Obras completas – Poesias Reunidas. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 1972.


Além das duas vertentes
União de linguagens – visual, musical e verbal. Melodia e vozes intimistas; brincadeira leve, quase infantil, de rabiscar a lousa. Ao mesmo tempo, e no mesmo espaço, o traço negro, sombrio e até agressivo, criando e destruindo palavras e sentidos. Falo de Arnaldo Antunes e seu “Carnaval”, que combina o pseudo-romantismo ao viés crítico, apenas para radicalizar ainda mais a linguagem poética.
A desconstrução das palavras e de seus significados é máxima nessa pequena- grande obra. Nela, a pulverização da frase e as palavras em livre associação anulam os significados convencionais e chamam a atenção para a multissignificação do signo poético.
Há, mesmo, miúdas armadilhas para o leitor/ouvinte desatento, apenas com a troca de uma vogal: chamado x chamada. Além do sentido que nos vem logo à mente (ligado ao verbo chamar = nomear), considerem a possibilidade de chamada e chamado poderem se referir a chamamento e até a peça publicitária. Desse modo, árvore, pássaro e máquina acabam em carnaval e... acabam com o carnaval.
Há outros sentidos possíveis... Que tal descobri-los (com ou sem auxílio do dicionário)?







Carnaval
árvore
pode ser chamada de
pássaro
pode ser chamado de
máquina
pode ser chamada de
carnaval
carnaval
carnaval
carnaval
carnaval
carnaval
Arnaldo Antunes

Boas interpretações e bom Carnaval a todos.

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