quinta-feira, 6 de fevereiro de 2014

Redação, para quê?



Discutindo objetivos e práticas
Depois das festas, depois das férias, é hora de voltar às aulas. Hora também, para muitos garotos, de escrever a redação Minhas Férias.
E quem dentre nós escapou de ter de encarar, vezes e vezes, essa eterna proposta? Leitor/a, se você foi (ou é) um dos alunos que passaram (ou passam) por essa experiência de escrita, peço que a recorde comigo:
- Ficou claro o objetivo do/a professor/a ao solicitar tal tema? Qual foi?
- Houve correção, comentário, devolutiva de alguma espécie? Como?
- Qual o aprendizado que a atividade como um todo – desde a primeira versão até a possível edição (redação final) – deixou? Qual o ganho para a classe e para si próprio, enquanto aprendiz da escrita?
São questões facilmente aplicáveis a outros tantos temas, semelhantes e recorrentes (pense em Minha Escola, Meu melhor amigo, Meu professor inesquecível,...), sempre ligados ao pretenso desenvolvimento da capacidade escritora dos estudantes.
Em que pesem as várias e modernas teorias contemporâneas do texto (leitura e escrita, produção e recepção) e os cursos de formação; em que pesem as várias discussões e políticas públicas, as avaliações institucionalizadas ou não, as semanas de planejamento pedagógico –, muitas escolas e professores ainda não conseguem se desapegar de velhas práticas e de atividades que, já ontem, não funcionavam.
Recorro a um conto infantil de Chistiane Gribel para concretizar e tornar mais visíveis alguns problemas da produção de textos que ainda subsistem nas salas de aula. (No primeiro momento, detenho-me, especialmente, na questão dos objetivos e finalidades.)
A seguir, o início da narrativa. A você que me lê, peço que note, com muito cuidado, os trechos reproduzidos em azul e os comentários (entre colchetes) que os seguem.


Minhas férias, pula uma linha, parágrafo
Um
O primeiro dia de aula é o dia que eu mais gosto em segundo lugar. O que eu mais gosto em primeiro é o último, porque no dia seguinte chegam as férias.
Os dois são os melhores dias na escola porque a gente nem tem aula. No primeiro dia não dá para ter aula porque o nosso corpo está na escola, mas a nossa cabeça ainda está de férias. E no último, também não dá para ter aula porque o nosso corpo está na escola, mas a nossa cabeça já está nas férias.
Era o primeiro dia e era para ser a aula de português, mas não era, porque todo mundo estava contando das férias. E como todo mundo queria contar mais do que ouvir, o barulho na classe estava mesmo ensurdecedor. O que explica o fato de ninguém ter escutado a professora gritando para a gente parar de gritar. Todo mundo estava bem surdo mesmo. Mas quando ela bateu com os livros em cima da mesa a nossa surdez passou e todo mundo olhou para ela.
[Notar: todo mundo tem o que contar e quer contar das férias.]
Ela estava em pé, na frente do quadro-negro e ficou em silêncio, com uma cara bem brava, olhando para a gente.
Quando um professor está em silêncio com uma cara bem brava olhando para você, é melhor também ficar em silêncio com uma cara de sem graça olhando para um ponto qualquer que não seja a cara brava do professor.
A professora puxou a cadeira dela e se sentou.
Atrás dela, no quadro-negro, eu vi decretado o fim das nossas férias e o fim do nosso primeiro dia de aula sem aula. Estava escrito:
Redação: escrever trinta linhas sobre as férias.
Eu sabia que as férias de ninguém iam ser mais as mesmas na hora que virassem redação. É simples: férias é legal, redação é chato. Quando a gente transforma as nossas férias numa redação, elas não são mais as nossas férias, são a nossa redação. Perdem toda a graça.
[O problema: mesmo tendo o que dizer das férias, “férias é legal, redação é chato”.]
Todo mundo tirou o caderno de dentro da mochila. Menos eu.
Eu fiquei olhando para aquela frase no quadro enquanto os zíperes e velcros das mochilas eram os únicos barulhos na sala. De repente as nossas férias ficaram silenciosas. Onde já se viu férias sem barulho?
Além do mais, eu tenho certeza de que a professora nem quer saber de verdade como foram as nossas férias. Ela quer só saber como é a nossa letra e se a gente tem jeito para escrever redação. Aqueles dois meses inteirinhos de despreocupações estavam prestes a virar trinta linhas de preocupações com acentos, vírgulas, parágrafos e ainda por cima com a letra ilegível depois de tanto tempo sem treino.
[Objetivo: redação... para quê? Para avaliar a clareza da letra e o “jeito” para redação – o dom, ou, na interpretação da personagem, conhecimentos de ortografia e pontuação.]

Dois
A turma inteira já estava escrevendo quando eu percebi que a professora estava só olhando para mim.
Quando um professor fica parado só olhando para você é porque você tinha estar fazendo outra coisa que não era o que você estava fazendo.
A outra coisa que eu tinha que estar fazendo era minha redação. Então eu puxei a minha mochila e peguei o caderno. É claro que minha mochila tem o fecho de velcro e que todo mundo olhou para mim quando eu abri. Só a professora que não olhou de novo porque ela já estava olhando antes mesmo.
Peguei a caneta. Eu nem sabia mais segurar direito a caneta. Escrevi:
Minhas Férias
Mas a letra ficou péssima e eu resolvi arrancar a folha para começar bem o meu caderno. E todo mundo olhou de novo para mim, até a professora que já tinha parado de me olhar.
Troquei a caneta por um lápis, porque se a letra ficasse horrível era só apagar em vez de ter que arrancar outra folha.
Coloquei as minhas férias lá no alto e bem no meio da página. Pulei uma linha. Parágrafo.
Minhas férias
[A submissão às regras prescritas: a letra e a diagramação: título, linha, parágrafo.]
Outro problema de transformar as nossas férias em redação é fazer os dois meses caberem nas tais trinta linhas. Porque se a gente fosse contar mesmo tudo o que aconteceu, as trinta linhas iam servir só para um dia de férias e olhe lá.
[Ainda que se tenha o que dizer e se queira fazê-lo, a vida não cabe em limitado número de linhas...]
E aí você olha para o seu relógio e descobre que as trinta linhas, que pareciam poucas para contar todas as suas férias, viram muitas porque você só tem mais 15 minutos de aula para fazer a redação.
Começar as férias é a coisa mais fácil do mundo. Em compensação, começar redação sobre as férias é tão difícil quanto começar as aulas.
Fiquei me lembrando como é que eu tinha começado as minhas férias de verdade. Assim eu podia começar a redação do mesmo jeito. Mas eu comecei as minhas férias de verdade arrumando a mala para ir para a casa do meu avô. E agora só faltavam 12 minutos para terminar a aula. Em 12 minutos eu não ia conseguir arrumar a mala. Pelo menos não do jeito que a minha mãe gosta que eu arrume. Então decidi começar as férias de minha redação direto da casa do meu avô.
Minhas férias
Eu sempre adoro as minhas férias na casa do meu avô. Principalmente porque não tem aula.
Não. Talvez seja um começo de redação muito pesado para o começo das aulas.
[A escolha do que dizer, segundo o tempo, o número de linhas e, sobretudo, segundo o que é esperado que se diga.]
Minhas férias
Eu sempre adoro as minhas férias na casa do meu avô.
Lá tem um campinho de futebol bem legal e uma turma de amigos bem grande.
Isso é perfeito porque um campinho sem uma turma grande não serve para nada. E uma turma grande sem campinho não cabe em lugar nenhum que não seja um campinho. A gente passa o dia todo jogando futebol e só para de jogar quando já está escuro e não dá mais para ver a bola. Então já é hora de jantar.
Depois do jantar, os meus melhores amigos da turma vão para a casa do meu avô e a gente pode continuar jogando, só que futebol de botão que não dá indigestão. Aí, a gente pode jogar até tarde porque no dia seguinte não tem aula. É por isso que férias é bom.
Achei que desse jeito a minha observação a respeito das aulas ficava mais sutil. Continuei.
[Modo criativo de deixar subentendida a própria verdade (férias são boas, aulas não são), sem contrariar muito o que é esperado que se escreva.]
Teve um dia que eu fiz um golaço. Não no futebol de botão, no de verdade.
O gol veio de um pase de craque do Paulinho que é o meu melhor amigo entre os meus melhores amigos da turma. Você sabe que para jogar futebol não adianta só ser bom de bola. Tem que ter tatica.
O Paulinho driblou um, dois e eu vi que ele ia passar pelo terceiro. Ele também me viu. Aí eu me enfiei pela esquerda e recebi a bola. Chutei direto. Eu fiz um golaço tão grande que furou a rede e estilhaçou em mil pedaços a janela do vizinho.
Deu a maior confusão porque enquanto a turma pulava o vizinho apareceu bravo com abola em baixo do braço e a mulher dele veio atrás. Eu tive até que parar com a minha comemorassão. Mas a mulher do vizinho que veio atrás dele falou para ele que criança é assim mesmo e que a gente estava só se divertindo e que ninguém fez aquilo de propósito. E era verdade mesmo porque a culpa nossa da rede ter furado. E aí acabou ficando tudo bem. O meu vizinho devolveu a bola, verificou a rede e disse que o meu gol foi mesmo um golaço mas que era para a gente tomar mais cuidado com as janelas da casa do lado.
O sinal tocou bem nessa hora. Eu nem contei quantas linhas eu tinha escrito porque não ia dar tempo de mudar nada mesmo.
Arranquei a folha e dei as minhas férias para a professora.

Três
[...]
A semana passou bem rápido e quando a gente viu já era sexta-feira. [...] O pior foi colocado bem em cima da minha mesa. As minhas férias, que tinham sido perfeitas para mim, não chegaram nem perto de terem sido boas para a professora. Elas voltaram cheias de defeitos.
[A correção centrada em erros. Os acertos não são notados.]
GRIBEL, Christiane. Minhas Férias, pula linha, parágrafo. Rio de Janeiro: Salamandra, 1999.

“Férias é legal, redação é chato”
O “drama escolar” da personagem é o de muitos alunos, o que autoriza a tirar certas conclusões a respeito da prática de escrita e da interlocução geral em sala de aula.
Por exemplo, quanto aos objetivos, podemos formular algumas hipóteses. Sendo, pelo tema, redação de início de ano ou semestre, poderia ser forma de integração e acolhimento: a troca de experiências agradáveis favoreceria a disseminação de conhecimentos, a ampliação de horizontes e o estreitamento de laços de camaradagem e cooperação. Nesse caso, no entanto, seria bem mais aproveitável a interação oral, em forma de roda de trocas (de relatos, fotos, vídeos). Afinal, a escrita não é a única – e, às vezes, nem a ideal – forma de interação entre pares...
De todo modo, é preciso reconhecer que este tipo de proposta tem seu valor: temas que solicitam visões pessoais podem carregar a louvável intenção de ouvir e conhecer o aluno, de acolher sua história, sua visão, sua subjetividade. Assim sendo, podem se constituir em excelente forma de cumprir uma das missões da escola, que é a de inserir o singular e particular (aqui, o aluno) no coletivo e público (a comunidade classe e escola).
No entanto...
Com frequência se destaca a falta de ter o que dizer, por parte do aluno, como causa do “mau texto”. Se isso é verdade, não o é menos que, se tem o que dizer, nem sempre lhe é dada a oportunidade de fazê-lo. Ouçamos o jovem estudante do conto de Gribel: “todo mundo estava contando das férias. E como todo mundo queria contar mais do que ouvir, o barulho na classe estava mesmo ensurdecedor”. Até que... a professora “bateu com os livros em cima da mesa, a nossa surdez passou e todo mundo olhou para ela”.
Quem acompanha as redes sociais, sabe o quanto a população estudantil tem, realmente, a dizer – e como o faz com prazer e originalidade. Se o professor se mantiver surdo aos anseios e não acolher a espontaneidade do estudante, artificializará e engessará sua prática. Mesmo porque, como argumenta a lúcida personagem: “...se a gente fosse contar mesmo tudo o que aconteceu, as trinta linhas iam servir só para um dia de férias e olhe lá”. E a alegria da vivência corre o risco de se perder: “Quando a gente transforma as nossas férias numa redação, elas não são mais as nossas férias, são a nossa redação. Perdem toda a graça.”
Então, fica explicado por que “férias é legal, redação é chato”!
Pelo crescente dialogar nas redes virtuais, é possível observar o valor da interação verbal e o quanto a linguagem pode, deve e é usada para ações sociais. Essa, de resto, é sua função. O escrever por escrever não existe no macrouniverso da sociedade e, portanto, não deveria existir no microuniverso da escola. O escrever burocrático e imitativo, sem intenção e interlocução, não “funciona”, isto é, não move o indivíduo e o grupo, não promove transformações na história de vida individual e coletiva.
É na palavra transformadora – e não imitadora – que a escola deve investir. Naquela que promove diálogo, ir e vir de ideias. Que é comunicação plurilateral, cruzada e transformada em “comum-ação” entre mestres e estudantes, para o aprendizado das várias linguagens concretizadas em textos com os quais o cidadão se depara nas várias esferas de atuação social.
O reverso é vivido pela personagem, que precisa usar de sutileza para conseguir expressar sua verdade, medir as palavras para não desagradar à toda poderosa professora.
Professora que exige número de linhas e registra erros (“As minhas férias [...] voltaram cheias de defeitos”), mas não reconhece, por exemplo, a adequada estruturação do relato do jogo de futebol. (Reveja: há uma situação inicial claramente definida – as férias na casa do avô e o campinho onde os garotos jogam sempre futebol; sucede-se um jogo movimentado, com ações/lances rápidos bem narrados, até o clímax (a bola na janela); depois, a solução final, por meio de uma personagem pacificadora: a mulher do vizinho, e o desfecho: a reconciliação).
Faz pensar naquele jovem aluno, cheio de sonhos e desejos, que se sente enquadrado pela rotina escolar. Dele, exige-se esforço concentrado em conteúdos que a escola considera importantes – e que o são, muitas vezes –, mas sem ponte para seus próprios interesses e motivações. Nesse contexto, é o professor (com aval ou não da escola) que se arvora em detentor absoluto do conhecimento, responsável por transmiti-lo ao aluno, “esse mero receptor e reprodutor” de tudo o que vê e ouve...
E o objetivo? Fica sendo, em última análise, fazer valer sua autoridade e poder.
...Bem, a história da “redação” – de Gribel e da escola – é longa e... continua no próximo capítulo.

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