quinta-feira, 27 de fevereiro de 2014

Visões e linguagens do Carnaval

Portinari


Carnaval parece casar bem com o “espírito brasileiro”, que dizem ser festivo, beirando o libertário. De fato, a época é quase um convite ao descompromisso...
Para muitos, se compromisso existir, talvez seja mais com a própria liberdade – de soltar amarras, exteriorizar desejos, quebrar hierarquias e expressar contestações, pública e coletivamente. Daí a fustigar – de leve, ou não tanto – hábitos, acontecimentos e personalidades, por meio de palavras, vestes e máscaras, é um passo.
Em contrapartida, para os mais saudosistas e/ou românticos, pode ser a oportunidade de relembrar, refletir e até sonhar, em autêntica viagem interior, da qual invariavelmente irrompe confrontação de opostos – entre tempos diferentes (passado x presente; os dias de carnaval x o resto do ano), entre espaços diferentes (exterior feérico e ruidoso x interior silencioso); entre sentimentos diferentes (alegria x tristeza; amor x desamor).
Dessas duas vertentes – uma, irreverente, tendente à sátira e à paródia; outra, mais compenetrada e emotiva – quero deixar uma pequena amostra, em termos de literatura e música brasileira.
Começo pela voz poética de Manuel Bandeira.


O eu interior carnavalesco
Tudo cabe no Carnaval intimista de Bandeira, pois tudo é sonho. Inocência e permissividade, recolhimento e expansividade coexistem nos contrastes de luz e sombra, ruído e silêncio.
Pistas de leitura, para o poema a seguir: sobretudo, as partes coloridas e a terceira estrofe, em seu todo. A observar, ainda, como a repetição de palavras, frases e ideias ajuda a multiplicar sentidos e reforçar oposições.

Sonho de uma terça-feira gorda
Eu estava contigo. Os nossos dominós eram negros, e negras eram as nossas máscaras.
Íamos, por entre a turba, com solenidade,
Bem conscientes do nosso ar lúgubre
Tão contrastado pelo sentimento de felicidade
Que nos penetrava. Um lento, suave júbilo
Que nos penetrava... Que nos penetrava como uma espada de fogo...
Como a espada de fogo que apunhalava as santas extáticas.

E a impressão em meu sonho era que se estávamos
Assim de negro, assim por fora inteiramente de negro,
– Dentro de nós, ao contrário, era tudo tão claro e luminoso.

Era terça-feira gorda. A multidão inumerável
Burburinhava. Entre clangores de fanfarra
Passavam préstitos apoteóticos.
Eram alegorias ingênuas, ao gosto popular, em cores cruas.
Iam em cima, empoleiradas, mulheres de má vida,
De peitos enormes - Vênus para caixeiros.
Figuravam deusas - deusa disto, deusa daquilo, já tontas e seminuas.
A turba ávida de promiscuidade,
Acotovelava-se com algazarra,
Aclamava-as com alarido.
E, aqui e ali, virgens atiravam-lhe flores.

Nós caminhávamos de mãos dadas, com solenidade,
O ar lúgubre, negros, negros...
Mas dentro em nós era tudo claro e luminoso.
Nem a alegria estava ali, fora de nós.
A alegria estava em nós.
Era dentro de nós que estava a alegria,
– A profunda, a silenciosa alegria...
BANDEIRA, Manuel. Estrela da vida inteira. Rio de Janeiro: José Olympio, 1974.

Também de Manuel Bandeira, o poema seguinte traz oposições mais profundas, ou seja, o embate entre o querer (ser feliz) e o ser (feliz) e, ainda, a revelação, por meio da obra artística, de dois seres e obras contrastantes: Schumann, com seu Carnaval resplendente, e o triste eu poético de Bandeira, com o “Carnaval sem nenhuma alegria” (nem esperança de mudança, como sugere o título).

Epílogo
Eu quis um dia, como Schumann, compor
Um Carnaval todo subjetivo:
Um Carnaval em que o só motivo
Fosse o meu próprio ser interior...

Quando o acabei – a diferença que havia!
O de Schumann é um poema cheio de amor,
E de frescura, e de mocidade...
E o meu tinha a morta morta-cor
Da senilidade e da amargura...
– O meu Carnaval sem nenhuma alegria!...
BANDEIRA, Manuel. Estrela da vida inteira. Rio de Janeiro: José Olympio, 1974.


Irreverência e carnavalização
Na década de 1960, Stanislaw Ponte Preta (ou Sérgio Porto) criou o “Samba do Crioulo Doido”, como crítica à exigência oficial de que os enredos das escolas de samba tivessem como base fatos históricos.
Longe de desvelar emoções e sentimentos, como se vê em Bandeira, a letra, desde o título, caminha pela linha da pilhéria e do deboche. O resultado é uma paródia de samba-enredo que carnavaliza a própria história oficial do Brasil, na medida em que inverte, embaralha e empastela espaços, tempos e o próprio cotidiano popular, este representado pela linguagem coloquial, a gíria e a menção às estações de trem.
Igualmente, a “proclamação” final da escravidão aponta criticamente para o prolongamento das condições precárias do povo brasileiro, contrariando o discurso oficial, invariavelmente ufanista.

Samba do Crioulo Doido
Este é o samba do crioulo doido.
A história de um compositor que durante muitos anos obedeceu o regulamento,
E só fez samba sobre a História do Brasil.
E tome de Inconfidência, Abolição, Proclamação, Chica da Silva, e o coitado
Do crioulo tendo que aprender tudo isso para o enredo da escola.
Até que no ano passado escolheram um tema complicado: a atual conjuntura.
Aí o crioulo endoidou de vez, e saiu este samba:

Foi em Diamantina, onde nasceu JK,
Que a princesa Leopoldina arresorveu se casá.
Mas Chica da Silva tinha outros pretendentes
E obrigou a princesa a se casá com Tiradentes.
Laiá, laiá, laiá,
O bode que deu vou te contá,
Laiá, Laiá, laiá,
O bode que deu vou te contá.
Joaquim José, que também é da Silva Xavié,
Queria ser dono do mundo e se elegeu Pedro Segundo.
Das estradas de Minas, seguiu pra São Paulo e falou com Anchieta.
O vigário dos índios aliou-se a Dom Pedro e acabou com a falseta
Da união deles, ficou resolvida a questão
E foi proclamada a escravidão.
E foi proclamada a escravidão.
Assim se conta esta história
Que é dos dois a maior glória,
A Leopoldina virou trem
E Dom Pedro é uma estação também.
Ô, ô, ô, ô, ô, ô,
O trem tá atrasado ou já passou.
Ô, ô, ô, ô, ô, ô,
O trem tá atrasado ou já passou.
Stanislaw Ponte Preta

No vídeo a seguir, a gravação original (com o autor e o Quarteto em Cy) vem acompanhada de imagens clássicas e caricaturas, capas de livros, pinturas e fotos em democrática mistura, ilustrando e reproduzindo o nonsense do texto:




Impossível não relacionar: se voltarmos um pouco atrás, encontraremos essa mesma “irreverência carnavalesca” em Oswald de Andrade. Seu poema “Brasil” abre para o escracho rasgado, presentificando e subvertendo outros textos – o poema clássico I-Juca-Pirama, de Gonçalves Dias e a história oficial –, uma vez que a mistura de raças, línguas e religiões ali se fundem e se confundem para dar origem, não ao país, mas ao Carnaval. Do mesmo modo, a linguagem foge deliberadamente da norma culta, convencionalmente adotada para “grandes textos”, utiliza a fala popular e arremeda línguas para sugerir percussões rítmicas carnavalescas:

Brasil
O Zé Pereira chegou de caravela
E preguntou pro guarani da mata virgem
— Sois cristão?
— Não. Sou bravo, sou forte, sou filho da Morte
Teterê Tetê Quizá Quizá Quecê!
Lá longe a onça resmungava Uu! ua! uu!
O negro zonzo saído da fornalha
Tomou a palavra e respondeu
— Sim pela graça de Deus
Canhém Babá Canhém Babá Cum Cum!
E fizeram o Carnaval
ANDRADE, Oswald de. Obras completas – Poesias Reunidas. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 1972.


Além das duas vertentes
União de linguagens – visual, musical e verbal. Melodia e vozes intimistas; brincadeira leve, quase infantil, de rabiscar a lousa. Ao mesmo tempo, e no mesmo espaço, o traço negro, sombrio e até agressivo, criando e destruindo palavras e sentidos. Falo de Arnaldo Antunes e seu “Carnaval”, que combina o pseudo-romantismo ao viés crítico, apenas para radicalizar ainda mais a linguagem poética.
A desconstrução das palavras e de seus significados é máxima nessa pequena- grande obra. Nela, a pulverização da frase e as palavras em livre associação anulam os significados convencionais e chamam a atenção para a multissignificação do signo poético.
Há, mesmo, miúdas armadilhas para o leitor/ouvinte desatento, apenas com a troca de uma vogal: chamado x chamada. Além do sentido que nos vem logo à mente (ligado ao verbo chamar = nomear), considerem a possibilidade de chamada e chamado poderem se referir a chamamento e até a peça publicitária. Desse modo, árvore, pássaro e máquina acabam em carnaval e... acabam com o carnaval.
Há outros sentidos possíveis... Que tal descobri-los (com ou sem auxílio do dicionário)?







Carnaval
árvore
pode ser chamada de
pássaro
pode ser chamado de
máquina
pode ser chamada de
carnaval
carnaval
carnaval
carnaval
carnaval
carnaval
Arnaldo Antunes

Boas interpretações e bom Carnaval a todos.

quarta-feira, 12 de fevereiro de 2014

“Escrever bem” na escola



Além do mais, eu tenho certeza de que a professora nem quer saber de verdade como foram as nossas férias. Ela quer só saber como é a nossa letra e se a gente tem jeito para escrever redação. [Guilherme Pontes Pereira, narrador-personagem do conto Minhas férias, pula uma linha, parágrafo.]


Escrever bem é escrever gramaticalmente certo?
Convido meu leitor ou leitora a refletir: o que é considerado “escrever bem”, para o professor? E para o aluno? E para a sociedade?
Como na matéria anterior, volto a ilustrar o assunto com exemplos extraídos do conto Minhas férias, pula uma linha, parágrafo, de Chistiane Gribel, que traz as atribulações de um jovem estudante, com sua redação Minhas Férias.
No início que então transcrevi, a personagem constrói seu texto, após um sofrido processo para selecionar o que dizer e a melhor forma de dizê-lo, e o entrega à professora. Vejamos a continuação, em que o aluno recebe a redação corrigida.
(Peço, uma vez mais, que o leitor ou leitora observe os destaques: trechos em azul e comentários, entre colchetes.)





Minhas férias, pula uma linha, parágrafo (continuação)
Quatro
A semana passou bem rápido e quando a gente viu já era sexta-feira. [...] O pior foi colocado bem em cima da minha mesa. As minhas férias, que tinham sido perfeitas para mim, não chegaram nem perto de terem sido boas para a professora. Elas voltaram cheias de defeitos. Faltou um esse no passe de craque do Paulinho, um acento na minha tática e a minha comemoração eu escrevi com tanta empolgação que acabou saindo com dois esses em vez de cê-cedilha.
E o pior do que eu imaginava foi o que ela fez com o meu golaço que estilhaçou em mil pedaços a janela do vizinho. Ela disse que “em mil pedaços” é um adjunto adverbial e que tinha que ficar entre vírgulas.
Eu olhei na Gramática e lá estava explicado que um adjunto adverbial é um termo acessório e a gente pode eliminar aquela parte da frase que ela continua a fazer sentido. Eu queria ver a professora dizendo para o meu vizinho que aqueles mil pedacinhos da janela dele eram só um adjunto adverbial.
 [Correção de questões ortográficas e de pontuação tópica. Por outro lado, a empolgação e interesse em dizer, que fazem o autor cometer “erros” de ortografia e pontuação, também o levaram a redigir competentemente seu texto, desde as peripécias do jogo, que vão num crescendo de suspense, até o clímax e o desfecho – como é possível constatar na parte 2 do conto. Contudo, sua competência narrativa não é levada em conta pela professora.]
E tem mais uma coisa: eu estava de férias. Era muito mais importante marcar o gol do que as vírgulas, concorda?
[Portanto: os critérios de valor de aluno e professor são diferentes: para um, importa o que é dito; para outro, a forma como é dito.]
E as minhas férias ficaram assim:
Minhas férias
Eu sempre adoro as minhas férias na casa do meu avô.
Lá tem um campinho de futebol bem legal e uma turma de amigos bem grande. Por que não substituir um bem por muito?
Isso é perfeito porque um campinho sem uma turma grande não serve para nada. E uma turma grande sem campinho não cabe em lugar nenhum que não seja um campinho. A gente passa o dia todo jogando futebol e só para de jogar quando já está escuro e não dá mais para ver a bola. Então já é hora de jantar.Não se consegue mais ver a bola
Depois do jantar, os meus melhores amigos da turma vão para a casa do meu avô e a gente pode continuar jogando, só que futebol de botão que não dá indigestão. Aí, a gente pode jogar até tarde porque no dia seguinte não tem aula. É por isso que férias é bom. As férias são boas.
Teve Um dia que eu fiz um golaço. Não no futebol de botão, no de verdade.
O gol veio de um passe de craque do Paulinho que é o meu melhor amigo (entre os meus melhores amigos) da turma. Você sabe que para jogar futebol não adianta só ser bom de bola. Tem que ter tática.
O Paulinho driblou um, dois e eu vi que ele ia passar pelo terceiro. Ele também me viu. Eu me enfiei pela esquerda e recebi a bola.
Chutei direto. Eu fiz um golaço tão grande que furou a rede e estilhaçou, em mil pedaços, a janela do vizinho. Adjunto adverbial
Deu a maior confusão porque enquanto a turma pulava o vizinho apareceu bravo com bola embaixo do braço e a mulher dele veio atrás. Eu tive até que parar com a minha comemorassção. Mas a mulher do vizinho que veio atrás dele falou (para ele) que criança é assim mesmo e que a gente estava só se divertindo e que ninguém fez aquilo de propósito. E era verdade mesmo porque a culpa não foi nossa da rede ter furado. E aí acabou ficando tudo bem. O meu vizinho devolveu a bola, verificou a rede e disse que o meu gol foi mesmo um golaço, mas que era para a gente tomar mais cuidado com as janelas da casa do lado. Quanto e!
A professora não fez nenhum outro comentário sobre o que eu tinha escrito. Para ela tanto fazia se o meu gol tinha sido um golaço ou um frango do goleiro. Eu fiquei bem chateado. Ela tinha acabado com as minhas férias. Isso significava que era a terceira vez que as minhas férias acabavam numa semana só. Não podia existir nada pior do que isso na vida de um garoto de 11 anos.
Mas existia.

Cinco
No final da aula a professora me chamou na mesa dela. Eu tinha que fazer de lição para segunda-feira a análise sintática da frase: “Eu fiz um golaço tão grande que até furou a rede e estilhaçou, em mil pedaços, a janela do vizinho”.
Era o fim. As minhas férias já tinham virado redação e agora acabavam de virar lição de casa. E uma lição dificílima. Fazer análise sintática! Eu nem lembrava mais o que era isso.
[Uma simples frase para análise sintática substitui o verdadeiro trabalho com o texto, Isto é, a devolutiva do professor, com diretrizes para o aluno evoluir em sua competência por meio de reescritas.]
Do jeito que as coisas vão, quando chegarem as minhas próximas férias eu não vou saber se é para ficar feliz ou triste. Eu vou falar “ah, não, férias me lembram redação e lição de casa” e ninguém vai entender nada.
[...]
Na minha aula dupla de português da sexta-feira, a professora me entregou a análise sintática. Eu tirei zero e tive que escrever toda essa história contando tudo isso que aconteceu para você. Ela me disse que você é que ia decidir o que fazer comigo, porque você é o Diretor dessa escola e ela não sabia que atitude tomar. Foi isso.
Assinado
Guilherme Pontes Pereira
6a. série B – Manhã
[...]
GRIBEL, Christiane. Minhas Férias, pula linha, parágrafo. Rio de Janeiro: Salamandra, 1999.
[Aqui, quase ao final do conto, sabe-se: o interlocutor da narrativa é o diretor, que deverá avaliar e decidir o destino do aluno, “salvando” a professora.] 

Redação ou Produção textual?
Retorno a duas questões da matéria passada (06/02/2014).  Se você foi (ou é) um dos alunos que teve, como atividade escolar, escrever sobre suas férias, relembre:
- Houve correção, comentário, devolutiva de alguma espécie, durante ou após sua realização? Como?
- Qual o aprendizado que a atividade como um todo – desde a primeira escrita até a possível redação final – deixou? Qual o ganho para a classe e para si próprio, enquanto aprendiz?
Diz Ana Maria Machado Netto: No caso da aprendizagem escolar da escrita, o ideal toma a forma de modelos e regras, sendo o ensino da língua portuguesa trabalhado, predominantemente na perspectiva da norma culta¹. Esse ponto de vista, transformado em postura pedagógica e levado longe demais por muitas instituições, conduz à correção/avaliação quase essencialmente ortográfica e gramatical. Nesse caso, torna-se clara a intenção de avaliar o “escrever bem” = escrever gramaticalmente certo, como o faz a professora de nossa narrativa:
“Faltou um esse no passe de craque do Paulinho, um acento na minha tática e a minha comemoração eu escrevi com tanta empolgação que acabou saindo com dois esses em vez de cê-cedilha.
E, por aí, a única lição para o aluno é mesmo reforçar que a redação serve para verificar ortografia e gramática. O que significa dar importância mais à forma de dizer que, propriamente, ao que se diz; e essa forma, necessariamente, é aquela consagrada pelas gramáticas e por uma elite linguística.
A cobrança da obediência à norma culta da língua, se exclusiva, descola-se da realidade do aluno e das várias instâncias de vida cotidiana; e revela a postura autoritária de quem se coloca na posição de avaliador, mas não leitor-interlocutor do texto apresentado, uma vez que deixa de lado saberes e necessidades do estudante, tirando-lhe a possibilidade de evolução em sua escrita.
Magda Soares, em certo momento, faz a distinção entre “redação – o exercício de mostrar que se sabe ortografar, que se sabe construir frases, que se sabe preencher um esquema – e produção de texto – o estabelecimento de interlocução com um leitor.”² Um professor que se fixe em correções e posteriores exercícios de ortografia, análises e construções sintáticas estará usando o trabalho de escrita como redação, nunca como produção textual.
A tarefa da escola é conduzir o estudante ao exercício da interlocução, em várias circunstâncias, sob várias exigências linguísticas – desde a mais formal e culta de eventos oficiais e acadêmicos, até as informais, mas não menos necessárias, empregadas nas relações pessoais.
Para o aluno, não se trata de redigir textos para o professor ou para a escola, mas de produzir, na escola, textos que usa e usará em diversas instâncias de sua vida.  Daí a importância de se trabalhar com textos reais, o que inclui, evidentemente, a língua culta, mas não a torna absoluta. Ou seja, a escola deve procurar reproduzir, de certa forma, o funcionamento da escrita na sociedade. Aliás, ela é – ou deveria ser – parte e modelo vivo do organismo social.
Recordemos mais um trecho da narrativa:
A professora não fez nenhum outro comentário sobre o que eu tinha escrito. Para ela tanto fazia se o meu gol tinha sido um golaço ou um frango do goleiro. Eu fiquei bem chateado.”
Escrever é dialogar, o que pressupõe o outro que o acolhe e responde – seja concordando, discordando, complementando. Admitindo-se o professor como interlocutor privilegiado (porque primeiro, além de orientador), o mínimo que, dele, o aluno espera é uma indicação de que o que pensa e escreveu tem importância. Depois, também uma palavra que justifique seu esforço, acolha suas dúvidas, ou, ao menos, que o desperte para a necessidade de avanços e aperfeiçoamentos.
Diálogo inclui, é claro, uma escola aprendente e, portanto, dinâmica. Inclui um verdadeiro mestre – aquele que sabe o quanto tem a aprender com cada aprendiz e, humildemente, observa, ouve, interroga, comunga saberes. E exclui o professor travestido de interlocutor único, cuja ação principal é apontar falhas, ao mesmo tempo que não reconhece méritos do texto, escrito ou oral.
Ou que se aferra a correções e exercícios de gramática e ortografia, porque, “afinal, o que deve fazer com o texto do aluno? Se não se fixar nos desvios da norma culta, o que dirão os pais? E seus superiores?” Daí investigar erros, não ligar minimamente ao que o aluno tem a dizer e passar adiante a responsabilidade:
 “Ela me disse que você é que ia decidir o que fazer comigo, porque você é o Diretor dessa escola e ela não sabia que atitude tomar.
Tal procedimento, em vez de expandir e construir conhecimento, silencia o aluno, tornando-o simples repetidor de discurso uniforme, com finalidade imprecisa, inexpressiva ou inexistente. Em consequência, desaparece a possibilidade de escrita autoral, inexiste a interlocução/interação. Em seu lugar, surge a escrita descontextualizada, despregada da vida e distante de qualquer interesse para o aluno.
É possível atuar de maneira diferente e conquistar o aluno para a escola e para a escrita? É possível imaginar, para tal aprendizagem, um congraçamento de mestres e alunos “em busca da autoria”?
Eis a resposta de Ana Maria Machado Netto:
Mudar o quadro da educação brasileira no que se refere a escrever não seria difícil. Bastaria aumentar a liberdade, diminuir as ameaças, autorizar que a vida e a subjetividade, as histórias significativas para os pequenos ou grandes alunos entrem na sala de aula, para a fruição e deleite do compartilhar entre diferentes. Talvez a escola não seja capaz de abdicar de seus controles e poderes. Entretanto, outras vias, outros espaços vêm concorrendo com ela nessa seara. Provavelmente as gerações da Internet terão, na fase adulta, muito mais intimidade com a sua própria escrita do que hoje temos, pelo simples fato de praticá-la cotidiana e espontaneamente, pelo prazer de interagir com o outro.
¹ MACHADO, A. M. Netto. Para entender e superar o medo de escrever. Disponível em http://www.janehaddad.com.br/arquivos/folha_em_branco.pdf
² SOARES, Magda Becker. Aprender a Escrever, Ensinar a Escrever. Disponível em www.crmariocovas.sp.gov.br/pdf/ideias_28_p059-075_c.pdf‎

quinta-feira, 6 de fevereiro de 2014

Redação, para quê?



Discutindo objetivos e práticas
Depois das festas, depois das férias, é hora de voltar às aulas. Hora também, para muitos garotos, de escrever a redação Minhas Férias.
E quem dentre nós escapou de ter de encarar, vezes e vezes, essa eterna proposta? Leitor/a, se você foi (ou é) um dos alunos que passaram (ou passam) por essa experiência de escrita, peço que a recorde comigo:
- Ficou claro o objetivo do/a professor/a ao solicitar tal tema? Qual foi?
- Houve correção, comentário, devolutiva de alguma espécie? Como?
- Qual o aprendizado que a atividade como um todo – desde a primeira versão até a possível edição (redação final) – deixou? Qual o ganho para a classe e para si próprio, enquanto aprendiz da escrita?
São questões facilmente aplicáveis a outros tantos temas, semelhantes e recorrentes (pense em Minha Escola, Meu melhor amigo, Meu professor inesquecível,...), sempre ligados ao pretenso desenvolvimento da capacidade escritora dos estudantes.
Em que pesem as várias e modernas teorias contemporâneas do texto (leitura e escrita, produção e recepção) e os cursos de formação; em que pesem as várias discussões e políticas públicas, as avaliações institucionalizadas ou não, as semanas de planejamento pedagógico –, muitas escolas e professores ainda não conseguem se desapegar de velhas práticas e de atividades que, já ontem, não funcionavam.
Recorro a um conto infantil de Chistiane Gribel para concretizar e tornar mais visíveis alguns problemas da produção de textos que ainda subsistem nas salas de aula. (No primeiro momento, detenho-me, especialmente, na questão dos objetivos e finalidades.)
A seguir, o início da narrativa. A você que me lê, peço que note, com muito cuidado, os trechos reproduzidos em azul e os comentários (entre colchetes) que os seguem.


Minhas férias, pula uma linha, parágrafo
Um
O primeiro dia de aula é o dia que eu mais gosto em segundo lugar. O que eu mais gosto em primeiro é o último, porque no dia seguinte chegam as férias.
Os dois são os melhores dias na escola porque a gente nem tem aula. No primeiro dia não dá para ter aula porque o nosso corpo está na escola, mas a nossa cabeça ainda está de férias. E no último, também não dá para ter aula porque o nosso corpo está na escola, mas a nossa cabeça já está nas férias.
Era o primeiro dia e era para ser a aula de português, mas não era, porque todo mundo estava contando das férias. E como todo mundo queria contar mais do que ouvir, o barulho na classe estava mesmo ensurdecedor. O que explica o fato de ninguém ter escutado a professora gritando para a gente parar de gritar. Todo mundo estava bem surdo mesmo. Mas quando ela bateu com os livros em cima da mesa a nossa surdez passou e todo mundo olhou para ela.
[Notar: todo mundo tem o que contar e quer contar das férias.]
Ela estava em pé, na frente do quadro-negro e ficou em silêncio, com uma cara bem brava, olhando para a gente.
Quando um professor está em silêncio com uma cara bem brava olhando para você, é melhor também ficar em silêncio com uma cara de sem graça olhando para um ponto qualquer que não seja a cara brava do professor.
A professora puxou a cadeira dela e se sentou.
Atrás dela, no quadro-negro, eu vi decretado o fim das nossas férias e o fim do nosso primeiro dia de aula sem aula. Estava escrito:
Redação: escrever trinta linhas sobre as férias.
Eu sabia que as férias de ninguém iam ser mais as mesmas na hora que virassem redação. É simples: férias é legal, redação é chato. Quando a gente transforma as nossas férias numa redação, elas não são mais as nossas férias, são a nossa redação. Perdem toda a graça.
[O problema: mesmo tendo o que dizer das férias, “férias é legal, redação é chato”.]
Todo mundo tirou o caderno de dentro da mochila. Menos eu.
Eu fiquei olhando para aquela frase no quadro enquanto os zíperes e velcros das mochilas eram os únicos barulhos na sala. De repente as nossas férias ficaram silenciosas. Onde já se viu férias sem barulho?
Além do mais, eu tenho certeza de que a professora nem quer saber de verdade como foram as nossas férias. Ela quer só saber como é a nossa letra e se a gente tem jeito para escrever redação. Aqueles dois meses inteirinhos de despreocupações estavam prestes a virar trinta linhas de preocupações com acentos, vírgulas, parágrafos e ainda por cima com a letra ilegível depois de tanto tempo sem treino.
[Objetivo: redação... para quê? Para avaliar a clareza da letra e o “jeito” para redação – o dom, ou, na interpretação da personagem, conhecimentos de ortografia e pontuação.]

Dois
A turma inteira já estava escrevendo quando eu percebi que a professora estava só olhando para mim.
Quando um professor fica parado só olhando para você é porque você tinha estar fazendo outra coisa que não era o que você estava fazendo.
A outra coisa que eu tinha que estar fazendo era minha redação. Então eu puxei a minha mochila e peguei o caderno. É claro que minha mochila tem o fecho de velcro e que todo mundo olhou para mim quando eu abri. Só a professora que não olhou de novo porque ela já estava olhando antes mesmo.
Peguei a caneta. Eu nem sabia mais segurar direito a caneta. Escrevi:
Minhas Férias
Mas a letra ficou péssima e eu resolvi arrancar a folha para começar bem o meu caderno. E todo mundo olhou de novo para mim, até a professora que já tinha parado de me olhar.
Troquei a caneta por um lápis, porque se a letra ficasse horrível era só apagar em vez de ter que arrancar outra folha.
Coloquei as minhas férias lá no alto e bem no meio da página. Pulei uma linha. Parágrafo.
Minhas férias
[A submissão às regras prescritas: a letra e a diagramação: título, linha, parágrafo.]
Outro problema de transformar as nossas férias em redação é fazer os dois meses caberem nas tais trinta linhas. Porque se a gente fosse contar mesmo tudo o que aconteceu, as trinta linhas iam servir só para um dia de férias e olhe lá.
[Ainda que se tenha o que dizer e se queira fazê-lo, a vida não cabe em limitado número de linhas...]
E aí você olha para o seu relógio e descobre que as trinta linhas, que pareciam poucas para contar todas as suas férias, viram muitas porque você só tem mais 15 minutos de aula para fazer a redação.
Começar as férias é a coisa mais fácil do mundo. Em compensação, começar redação sobre as férias é tão difícil quanto começar as aulas.
Fiquei me lembrando como é que eu tinha começado as minhas férias de verdade. Assim eu podia começar a redação do mesmo jeito. Mas eu comecei as minhas férias de verdade arrumando a mala para ir para a casa do meu avô. E agora só faltavam 12 minutos para terminar a aula. Em 12 minutos eu não ia conseguir arrumar a mala. Pelo menos não do jeito que a minha mãe gosta que eu arrume. Então decidi começar as férias de minha redação direto da casa do meu avô.
Minhas férias
Eu sempre adoro as minhas férias na casa do meu avô. Principalmente porque não tem aula.
Não. Talvez seja um começo de redação muito pesado para o começo das aulas.
[A escolha do que dizer, segundo o tempo, o número de linhas e, sobretudo, segundo o que é esperado que se diga.]
Minhas férias
Eu sempre adoro as minhas férias na casa do meu avô.
Lá tem um campinho de futebol bem legal e uma turma de amigos bem grande.
Isso é perfeito porque um campinho sem uma turma grande não serve para nada. E uma turma grande sem campinho não cabe em lugar nenhum que não seja um campinho. A gente passa o dia todo jogando futebol e só para de jogar quando já está escuro e não dá mais para ver a bola. Então já é hora de jantar.
Depois do jantar, os meus melhores amigos da turma vão para a casa do meu avô e a gente pode continuar jogando, só que futebol de botão que não dá indigestão. Aí, a gente pode jogar até tarde porque no dia seguinte não tem aula. É por isso que férias é bom.
Achei que desse jeito a minha observação a respeito das aulas ficava mais sutil. Continuei.
[Modo criativo de deixar subentendida a própria verdade (férias são boas, aulas não são), sem contrariar muito o que é esperado que se escreva.]
Teve um dia que eu fiz um golaço. Não no futebol de botão, no de verdade.
O gol veio de um pase de craque do Paulinho que é o meu melhor amigo entre os meus melhores amigos da turma. Você sabe que para jogar futebol não adianta só ser bom de bola. Tem que ter tatica.
O Paulinho driblou um, dois e eu vi que ele ia passar pelo terceiro. Ele também me viu. Aí eu me enfiei pela esquerda e recebi a bola. Chutei direto. Eu fiz um golaço tão grande que furou a rede e estilhaçou em mil pedaços a janela do vizinho.
Deu a maior confusão porque enquanto a turma pulava o vizinho apareceu bravo com abola em baixo do braço e a mulher dele veio atrás. Eu tive até que parar com a minha comemorassão. Mas a mulher do vizinho que veio atrás dele falou para ele que criança é assim mesmo e que a gente estava só se divertindo e que ninguém fez aquilo de propósito. E era verdade mesmo porque não foi culpa nossa da rede ter furado. E aí acabou ficando tudo bem. O meu vizinho devolveu a bola, verificou a rede e disse que o meu gol foi mesmo um golaço mas que era para a gente tomar mais cuidado com as janelas da casa do lado.
O sinal tocou bem nessa hora. Eu nem contei quantas linhas eu tinha escrito porque não ia dar tempo de mudar nada mesmo.
Arranquei a folha e dei as minhas férias para a professora.

Três
[...]
A semana passou bem rápido e quando a gente viu já era sexta-feira. [...] O pior foi colocado bem em cima da minha mesa. As minhas férias, que tinham sido perfeitas para mim, não chegaram nem perto de terem sido boas para a professora. Elas voltaram cheias de defeitos.
[A correção centrada em erros. Os acertos não são notados.]
GRIBEL, Christiane. Minhas Férias, pula linha, parágrafo. Rio de Janeiro: Salamandra, 1999.

“Férias é legal, redação é chato”
O “drama escolar” da personagem é o de muitos alunos, o que autoriza a tirar certas conclusões a respeito da prática de escrita e da interlocução geral em sala de aula.
Por exemplo, quanto aos objetivos, podemos formular algumas hipóteses. Sendo, pelo tema, redação de início de ano ou semestre, poderia ser forma de integração e acolhimento: a troca de experiências agradáveis favoreceria a disseminação de conhecimentos, a ampliação de horizontes e o estreitamento de laços de camaradagem e cooperação. Nesse caso, no entanto, seria bem mais aproveitável a interação oral, em forma de roda de trocas (de relatos, fotos, vídeos). Afinal, a escrita não é a única – e, às vezes, nem a ideal – forma de interação entre pares...
De todo modo, é preciso reconhecer que este tipo de proposta tem seu valor: temas que solicitam visões pessoais podem carregar a louvável intenção de ouvir e conhecer o aluno, de acolher sua história, sua visão, sua subjetividade. Assim sendo, podem se constituir em excelente forma de cumprir uma das missões da escola, que é a de inserir o singular e particular (aqui, o aluno) no coletivo e público (a comunidade classe e escola).
No entanto...
Com frequência se destaca a falta de ter o que dizer, por parte do aluno, como causa do “mau texto”. Se isso é verdade, não o é menos que, se tem o que dizer, nem sempre lhe é dada a oportunidade de fazê-lo. Ouçamos o jovem estudante do conto de Gribel: “todo mundo estava contando das férias. E como todo mundo queria contar mais do que ouvir, o barulho na classe estava mesmo ensurdecedor”. Até que... a professora “bateu com os livros em cima da mesa, a nossa surdez passou e todo mundo olhou para ela”.
Quem acompanha as redes sociais, sabe o quanto a população estudantil tem, realmente, a dizer – e como o faz com prazer e originalidade. Se o professor se mantiver surdo aos anseios e não acolher a espontaneidade do estudante, artificializará e engessará sua prática. Mesmo porque, como argumenta a lúcida personagem: “...se a gente fosse contar mesmo tudo o que aconteceu, as trinta linhas iam servir só para um dia de férias e olhe lá”. E a alegria da vivência corre o risco de se perder: “Quando a gente transforma as nossas férias numa redação, elas não são mais as nossas férias, são a nossa redação. Perdem toda a graça.”
Então, fica explicado por que “férias é legal, redação é chato”!
Pelo crescente dialogar nas redes virtuais, é possível observar o valor da interação verbal e o quanto a linguagem pode, deve e é usada para ações sociais. Essa, de resto, é sua função. O escrever por escrever não existe no macrouniverso da sociedade e, portanto, não deveria existir no microuniverso da escola. O escrever burocrático e imitativo, sem intenção e interlocução, não “funciona”, isto é, não move o indivíduo e o grupo, não promove transformações na história de vida individual e coletiva.
É na palavra transformadora – e não imitadora – que a escola deve investir. Naquela que promove diálogo, ir e vir de ideias. Que é comunicação plurilateral, cruzada e transformada em “comum-ação” entre mestres e estudantes, para o aprendizado das várias linguagens concretizadas em textos com os quais o cidadão se depara nas várias esferas de atuação social.
O reverso é vivido pela personagem, que precisa usar de sutileza para conseguir expressar sua verdade, medir as palavras para não desagradar à todo-poderosa professora.
Professora que exige número de linhas e registra erros (“As minhas férias [...] voltaram cheias de defeitos”), mas não reconhece, por exemplo, a adequada estruturação do relato do jogo de futebol. (Reveja: há uma situação inicial claramente definida – as férias na casa do avô e o campinho onde os garotos jogam sempre futebol; sucede-se um jogo movimentado, com ações/lances rápidos bem narrados, até o clímax (a bola na janela); depois, a solução final, por meio de uma personagem pacificadora: a mulher do vizinho, e o desfecho: a reconciliação).
Faz pensar naquele jovem aluno, cheio de sonhos e desejos, que se sente enquadrado pela rotina escolar. Dele, exige-se esforço concentrado em conteúdos que a escola considera importantes – e que o são, muitas vezes –, mas sem ponte para seus próprios interesses e motivações. Nesse contexto, é o professor (com aval ou não da escola) que se arvora em detentor absoluto do conhecimento, responsável por transmiti-lo ao aluno, “esse mero receptor e reprodutor” de tudo o que vê e ouve...
E o objetivo? Fica sendo, em última análise, fazer valer sua autoridade e poder.
...Bem, a história da “redação” – de Gribel e da escola – é longa e... continua no próximo capítulo.