terça-feira, 21 de janeiro de 2014

A palavra persegue a vida

A Literatura tem o poder de dizer a Vida, comentava eu, em matéria anterior (17 de Janeiro de 2014). Resultado e prova disso é a estreita sintonia que se estabelece entre escritor e leitor: partindo da mesma fonte – a vida –, o primeiro busca expressar seus variados sentidos; o outro ressignifica e reorganiza vivências ao mergulhar no universo do texto criado. Escrita e leitura tornam-se, assim, oportunidades de compreensão intra e interpessoal, conquanto instauram um enriquecedor diálogo autor- leitor, responsável por manter vivos os textos e a própria Literatura.
Ana Miranda, ao descrever o espaço onde escreve, comprova: “... parece que aqui está o caminho para ver o mundo, encontrar pessoas, descobrir como elas pensam, o que sentem. Estabeleço uma conexão profunda com as pessoas. Nesse espaço, encontro as portas.”¹
E essas “portas” são também desejadas pelo leitor que lê textos e obras “para nelas encontrar um sentido que lhe permita compreender melhor o homem e o mundo, para nelas descobrir uma beleza que enriqueça sua existência; ao fazê-lo, ele compreende melhor a si mesmo.”²
O texto, a palavra, a obra não existem fora do mundo; ao contrário, só existem porque o mundo existe. Ora, se o mundo (e nós, que o compomos) é prismático, a sua expressão também o é: daí as várias interpretações de um mesmo fenômeno ou evento, como mostrado em textos sobre o Ano Novo da publicação passada (17 de Janeiro de 2014). Daí as diferentes inclinações dos leitores, que elegem este ou aquele autor, obra, texto, como o que melhor “pinta o mundo da cor de seu sonho”. Pois que, nessa troca de impressões (pense, leitor/a, nos vários sentidos do termo), quem escreve e quem lê procuram marcas e pegadas um do outro e de si próprio.
A palavra persegue a vida. Por isso mesmo, proponho ao leitor e à leitora, sobretudo aos que vivem os problemas desta época no meio urbano, alguns textos que realçam o embate entre sonho e realidade, tão próprios do momento que ainda vivemos, de transição entre um ano e outro.
¹CHIODETTO, Eder. O lugar do escritor. São Paulo: Cosac & Naify, 2002.
² TODOROV, Tzvetan. A literatura em perigo. Rio de Janeiro: DIFEL, 2009.




Fernando Pessoa
Viver sem raízes e compromissos: é esta, em última análise, a proposta por trás do desejo de viagem do eu poético, neste poema. E não é o de muitos de nós, principalmente ao findar um ano laborioso e cansativo?

Viajar! Perder países!
Ser outro constantemente,
Por a alma não ter raízes
De viver de ver somente!

Não pertencer nem a mim!
Ir em frente, ir a seguir
A ausência de ter um fim,
E a ânsia de o conseguir!

Viajar assim é viagem.
Mas faço-o sem ter de meu
Mais que o sonho da passagem.
O resto é só terra e céu.
PESSOA, Fernando. Cancioneiro. In Fernando Pessoa – Obra poética. Rio de Janeiro: Nova Aguilar, 1977.


Rubem Braga
Sua bela crônica parece interpretar os melhores anseios e as oscilações emocionais de quem se envolve no turbilhão da vida moderna e tem, na pausa de fim de ano, oportunidade para repensar  seu modo de vida.

Um sonho de simplicidade
Então, de repente, no meio dessa desarrumação feroz da vida urbana, dá na gente um sonho de simplicidade. Será um sonho vão? Detenho-me um instante, entre duas providências a tomar, para me fazer essa pergunta. Por que fumar tantos cigarros? Eles não me dão prazer nenhum; apenas me fazem falta. São uma necessidade que inventei. Por que beber uísque, por que procurar a voz de mulher na penumbra ou os amigos no bar para dizer coisas vãs, brilhar um pouco, saber intrigas?
Uma vez, entrando numa loja para comprar uma gravata, tive de repente um ataque de pudor, me surpreendendo, assim, a escolher um pano colorido para amarrar ao pescoço.
A vida bem poderia ser mais simples. Precisamos de uma casa, comida, uma simples mulher, que mais? Que se possa andar limpo e não ter fome, nem sede, nem frio. Para que beber tanta coisa gelada? Antes eu tomava a água fresca da talha, e a água era boa. E quando precisava de um pouco de evasão, meu trago de cachaça.
Que restaurante ou boate me deu o prazer que tive na choupana daquele velho caboclo do Acre? A gente tinha ido pescar no rio, de noite. Puxamos a rede afundando os pés na lama, na noite escura, e isso era bom. Quando ficamos cansados, meio molhados, com frio, subimos a barranca, no meio do mato, e chegamos à choça de um velho seringueiro. Ele acendeu um fogo, esquentamos um pouco junto do fogo, depois me deitei numa rede branca – foi o carinho ao longo de todos os músculos cansados. E então ele me deu um pedaço de peixe moqueado e meia caneca de cachaça. Que prazer em comer aquele peixe, que calor bom em tomar aquela cachaça e ficar algum tempo a conversar, entre grilos e vozes distantes de animais noturnos.
Seria possível deixar essa eterna inquietação das madrugadas urbanas, inaugurar de repente uma vida de acordar bem cedo? Outro dia vi uma linda mulher, e senti um entusiasmo grande, uma vontade de conhecer mais aquela bela estrangeira; conversamos muito, essa primeira conversa longa em que a gente vai jogando um baralho marcado, e anda devagar, como a patrulha que faz um reconhecimento. Mas por que, para que, essa eterna curiosidade, essa fome de outros corpos e outras almas?
Mas para instaurar uma vida mais simples e sábia, então seria preciso ganhar a vida de outro jeito, não assim, nesse comércio de pequenas pilhas de palavras, esse ofício absurdo e vão de dizer coisas, dizer coisas... Seria preciso fazer algo de sólido e de singelo; tirar areia do rio, cortar lenha, lavrar a terra, algo de útil e concreto, que me fatigasse o corpo, mas deixasse a alma sossegada e limpa.
Todo mundo, com certeza, tem de repente um sonho assim. É apenas um instante. O telefone toca. Um momento! Tiramos um lápis do bolso para tomar nota de um nome, um número... Para que tomar nota? Não precisamos tomar nota de nada, precisamos apenas viver – sem nome, sem número, fortes, doces, distraídos, bons, como os bois, as mangueiras e o ribeirão.
BRAGA, Rubem. Quadrante 1. Rio de Janeiro: Editora do Autor, 1968.


Ferreira Gullar
Ao destacar inúmeras siglas e problemas do homem urbano, esta crônica bem-humorada indica o contraste entre o romantismo festeiro e a queda sem remissão na realidade. Desse modo, chama o leitor a aguçar seu senso crítico com relação à vida moderna. (O poema ao qual o escritor se refere está registrado na matéria anterior: confira.)

Melhor seria se não começasse
Estou começando a ficar grilado com os inícios de ano. Até recentemente, não me preocupava com isso. Cheguei mesmo a escrever um poema em que dizia não ver, nas estrelas do céu nem nas coisas do chão, qualquer sinal de que um ano novo começa. E concluía: "Começa como a esperança de vida melhor / que entre os astros não se escuta nem se vê / nem pode haver: / que isso é coisa de homem / esse bicho estelar / que sonha e luta". Coisa de poeta, porque, na verdade, como vim a perceber depois, todos os anos, passado o Réveillon e o Carnaval, começam brabos: é IPTU, é IPVA, é declaração de Imposto de Renda, é aumento de mensalidade do plano de saúde e o mais que nem se espera!
Este ano, além de tudo o mais, decidiram atormentar-me com o plano de saúde conhecido por Geap. Uma tortura! Por isso, embora ainda estejamos em abril, penso que, findo este, outro ano começará – e entro em pânico. Vou ter que enfrentar tudo isso de novo?
Vejam como as coisas mudam para pior. Antigamente, ao ver terminar o ano, enchia-me de otimismo. E não só eu, tanto que desde que me entendo, ouço dizerem: "Ano novo, vida nova". Pode até ser, mas, antes de começar a vida nova, caem-me na cabeça as mesmas velhas aporrinhações.
Devo admitir que os problemas se tornam piores por culpa minha. Não sou um bom exemplo de organização, além do mais, confio na lógica, uma lógica que seria favorável a pessoas como eu, não muito afeitas à burocracia.
E assim é que, de repente, recebo uma intimação da Receita Federal para ir lá comprovar o que declarei no Imposto de Renda. Os carnês do plano de saúde estão no envelope, não tenho que me preocupar, mas há duas outras exigências, relativas a dependentes, cujos documentos sumiram. Depois de buscá-los, inutilmente, no envelope onde guardei a declaração, decidi procurá-los em outros envelopes, depois em outras gavetas, depois pela casa inteira. Nada. Estou frito, concluí.
Bem, esse problema está em aberto, espero que não me metam no xadrez. Minha sorte é que conto com a boa vontade das pessoas que me atendem. Não obstante, o estresse me domina.
E me domina porque, como se não bastasse, sumiu também o boleto do IPTU da garagem (como meu edifício não tem garagem, comprei uma vaga na garagem mecânica, aqui perto). E o boleto sumiu. Dano-me a procurá-lo, resmungando, por todas as gavetas. Pergunto à faxineira, que me olha espantada. IPTU? Que diabo é isso?
Deito-me no sofá para relaxar. E eu recebi mesmo esse boleto? Vou até a garagem: o boleto estava lá, à minha espera. Coisa que só acontece no começo do ano, quando nos cobram IPTUs, IPVAs... IPVA?! Acho que não paguei o IPVA do carro! A placa termina em zero, vai ver que o prazo já venceu! Se venceu, como vou fazer a vistoria? E, sem vistoria, não vou poder andar com o carro. Era só o que me faltava!
Telefono para o Detran e recebo uma boa notícia: o prazo foi ampliado, posso ir ao banco e pagar o IPVA. Aliviado, dirijo-me à agência bancária mais próxima e pago o IPVA no caixa eletrônico, que emite um recibo. Bem, agora é só marcar a vistoria.
Ligo para o Detran, dou o número da placa e do Renavam. "O IPVA de 2011 não está pago, meu senhor." Como não está pago, se acabo de pagá-lo e tenho comigo o recibo? O funcionário me aconselha a ligar para a Receita Estadual, mas, após 50 inúteis tentativas, decido ir ao banco e descubro que o valor do IPVA não foi abatido em minha conta, ou seja, o caixa eletrônico me enganou: fez que pagou e não pagou.
Como estão vendo, em começo de ano, comigo acontece de tudo. Fui ao guichê, paguei, peguei o recibo, mas continuei receoso; mas, no dia seguinte, pude marcar a vistoria. Aquela noite, dormi em paz. Mas foi só aquela noite, porque, no dia seguinte, chegou a carta do Geap, convocando-me a comprovar tudo o que já está lá comprovado há 30 anos. Fui e me deparei com uma fila sem fim. Deram a senha de número 898... E, como se não bastasse, leio nos jornais que a polícia apreendeu a carteira de motorista de Aécio Neves, por estar vencida. E a minha?Vou ver: venceria em três dias!
Não haveria um jeito de, daqui para a frente, nenhum outro ano começar?
Folha São Paulo, 01/05/11. Disponível em: http://www1.folha.uol.com.br/fsp/ilustrad/fq0105201127.htm

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