sexta-feira, 17 de janeiro de 2014

A Literatura diz a Vida

“Vivemos nossas próprias vidas através de textos”, ensina Carolyn Heilbrun¹. E o filósofo e linguista Todorov completa: “... não posso dispensar as palavras dos poetas, as narrativas dos romancistas. Elas me permitem dar forma aos pensamentos que experimento, ordenar o fluxo de pequenos eventos que constituem minha vida.”²
De fato: os textos literários – a palavra artisticamente construída – cativam a nós, leitores, não tanto por deflagrar o “Belo”, como muitos podem pensar, mas principalmente por revelar-nos a nós próprios, destrinchando uma teia de emoções que nem sempre conseguimos compreender em sua complexidade, quanto mais expressar.
Por exemplo: pense, leitor/a, nas experiências de fim e início de cada ano: verão, festas, férias. Quantas sensações e sentimentos nos tomam nesta época! Embora pareçam ser os mesmos, ano após ano, para muitos continuam tentadores os desejos de renovação: fugir ao banal e à mesmice, substituir pressões e convenções por uma vida mais amena e livre; trocar as necessidades materiais por enriquecimento espiritual. Mesmo aqueles que não querem, não procuram e não têm ilusões quanto ao poder estimulante de algumas datas deixam-se contaminar (minimamente, que seja) pelo ritual de passagem representado pela troca do ano e suas várias manifestações.
Não lhe parece que, nessas ocasiões, somos levados, queiramos ou não, a viver num quase turbilhão? Não lhe ocorre que o movimento todo em que nos envolvemos (ou o esforço para fugir dele) tira um pouco a capacidade de reflexão e o aprofundamento de seus significados? Atravessamos esse Tempo muitas vezes em turbilhão de emoções; outras (poucas), em labirintos de distanciamento – e nem sempre tomamos consciência do que ele representa para nossa vida como um todo.
A desejável autoconsciência, quem pode nos dar, é a palavra belamente construída de certos escritores, que alcança iluminar e pôr, diante dos olhos, nossos mais íntimos afetos. Ela aguça nossa sensibilidade, amplia nossa percepção dos acontecimentos e a profundidade de nossas vivências. Com a magia inspirada e inspiradora da criação de múltiplos sentidos, descreve nossas esperanças, organiza nossos desejos, põe a nu nossas preocupações.
Confira essa verdade em alguns textos de escritores brasileiros, que transcrevo a seguir.

¹ Em COLOMER, Teresa. Andar entre livros: a leitura literária na escola. São Paulo: Global, 2007.
² TODOROV, Tzvetan. A literatura em perigo. Rio de Janeiro: DIFEL, 2009.




Quintana
Este precioso poema é conhecido por muitos leitores, certamente porque, em sua beleza, traduz sentimentos delicados e “diz” o que muitos experimentam ao findar o ano.

Esperança
Lá bem no alto do décimo segundo andar do Ano
Vive uma louca chamada Esperança
E ela pensa que quando todas as sirenas
Todas as buzinas
Todos os reco-recos tocarem
Atira-se
E
— ó delicioso voo!
Ela será encontrada miraculosamente incólume na calçada,
Outra vez criança...
E em torno dela indagará o povo:
— Como é teu nome, meninazinha de olhos verdes?
E ela lhes dirá
(É preciso dizer-lhes tudo de novo!)
Ela lhes dirá bem devagarinho, para que não esqueçam:
— O meu nome é ES-PE-RAN-ÇA...

QUINTANA, Mario. Nova Antologia Poética. São Paulo: Editora Globo, 1998. Disponível em: http://www.releituras.com/mquintana_esperanca.asp


Drummond
É bem outra a reflexão que o intenso poema de Drummond propõe ao leitor, a saber: a relativização do tempo e do acontecimento em si – contraposta à continuidade dramática da vida, que se repete em meio à variedade e se apresenta como um presente ocasional e inexoravelmente finito.

Passagem do ano
O último dia do ano
não é o último dia do tempo.
Outros dias virão
e novas coxas e ventres te comunicarão o calor da vida.
Beijarás bocas, rasgarás papéis,
farás viagens e tantas celebrações
de aniversário, formatura, promoção, glória, doce morte com sinfonia e coral,
que o tempo ficará repleto e não ouvirás o clamor,
os irreparáveis uivos
do lobo, na solidão.

O último dia do tempo
não é o último dia de tudo.
Fica sempre uma franja de vida
onde se sentam dois homens.
Um homem e seu contrário,
uma mulher e seu pé,
um corpo e sua memória,
um olhar e seu brilho,
uma voz e seu eco,
e quem sabe até se Deus...

Recebe com simplicidade este presente do acaso.
Mereceste viver mais um ano.
Desejarias viver sempre e esgotar a borra dos séculos.
Teu pai morreu, teu avô também.
Em ti mesmo muita coisa já expirou, outras espreitam a morte,
mas estás vivo. Ainda uma vez estás vivo,
e de copo na mão
esperas amanhecer.

O recurso de se embriagar.
O recurso da dança e do grito,
o recurso da bola colorida,
o recurso de Kant e da poesia,
todos eles...e nenhum resolve.

Surge a manhã de um novo ano.

As coisas estão limpas, ordenadas.
O corpo gasto renova-se em espuma.
Todos os sentidos alerta funcionam.
A boca está comendo vida.
A boca está entupida de vida.
A vida escorre da boca,
lambuza as mãos, a calçada.
A vida é gorda, oleosa, mortal, sub-reptícia.

ANDRADE, Carlos Drummond de. In A Rosa do povo. Reunião – 10 livros de poesia. Rio de Janeiro: José Olympio, 1974.


Ferreira Gullar
A desesperança também parece tomar conta do poema de Gullar. No entanto, tal qual acontece com frequência em nossas vidas, o eu poético entende que a instauração do vazio e da ausência do Novo (bem como o seu contrário) é responsabilidade humana, única e exclusivamente, para o bem ou para o mal.

Ano Novo
Meia noite. Fim
de um ano, início
de outro. Olho o céu:
nenhum indício.

Olho o céu:
o abismo vence o
olhar. O mesmo
espantoso silêncio
da Via Láctea feito
um ectoplasma
sobre a minha cabeça:
nada ali indica
que um ano novo começa.

E não começa
nem no céu nem no chão
do planeta:
começa no coração.

Começa como a esperança
de vida melhor
que entre os astros
não se escuta
nem se vê
nem pode haver:
que isso é coisa de homem
esse bicho
estelar
que sonha
(e luta).


GULLAR, Ferreira. Toda poesia. Rio de Janeiro: José Olímpio, 1997.

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